Marmota, mais dos mesmos

Desde 2002, muito obrigado por nada.

Arquivos: novembro/2003

Quanto vale a sua alma?

Por Marmota | 26/11/2003, 11h06

Tá meio sem grana? Seu 13º está comprometido – ou pior, você não faz idéia do que seja 13º? Seus problemas terminaram. Se você foi uma pessoa bem comportada, poderá levar uma graninha vendendo a sua alma!

Interessado? Conheça a respeitada empresa WWYS (sigla de “we want your soul”), formada por “um consórcio de companhias internacionais”, e faça a cotação da sua alma: de repente, vale a pena cedê-la aos malucos por toda a eternidade.

Tremenda bobagem, que certamente muitos já conheciam de longa data. De qualquer forma, caso exista algum fundo de verdade nessa piada, podem me canonizar: descobri que minha alma vale a fortuna de £49208 (mais ou menos R$ 245.400,00). Segundo as estatísticas da WWYS, apenas 14% dos interessados possuem uma alma tão (ou mais) pura. Santo Deus!

A brincadeira chegou nesta semana ao conhecimento dos estúpidos. Entre os puritanos de espírito, figuram Max McEmpada (£22759), Narazaki (£19851) e Lello Lopes (£13947). Já o Adilson adorou saber que não vale nad… ops, que sua alma vale £8947. “Sou o mais infernal! Uhuuuuu!”.

Blogs, democracia e política

Por Marmota | 25/11/2003, 19h22

Muito já se falou a respeito da grande sacada dos blogs: trata-se de uma forma simples para qualquer internauta tornar-se um verdadeiro editor online, democratizando o processo de comunicação. Alguns céticos (que dificilmente entram em blogs como este) diriam: “ah, mas isso ainda é incipiente”.

Pode até ser. Mas como diz a nossa professora Raquel neste artigo, o potencial democrático dos blogs está sendo muito bem explorado nos EUA. Lá os principais nomes da corrida presidencial – inclusive o cowboy do Iraque – utilizam a ferramenta para expor suas idéias e debater com a sociedade. Aqueles céticos do parágrafo anterior (que só entrariam em blogs como este pelo google procurando por bush, mulépelada ou outro tipo de sacanagem) diriam: “ah, mas os americanos são muito melhores, e no quesito Internet, eles estão dezenas de passos a frente”.

Talvez seja. Tanto aqui como em Portugal, por exemplo, a onda blog pegou de jeito pessoas como eu e você, interessadas em escrever o que pensam. Um ou outro “famoso” aderiu a moda. Até que, num belo dia do mês de março, o eurodeputado José Pacheco Pereira resolveu criar o Abrupto. Quando a sociedade portuguesa percebeu que um político virou blogueiro, a febre aumentou. O Abrupto virou notícia e impulsionou o fenômeno em Portugal, motivando publicações como esta ou mesmo encontros nacionais sobre blogs.

Enfim. Atualmente, o blog do deputado recebe cerca de quatro mil visitantes diários, dispostos a debater idéias. De início, resta uma boa pergunta: como teremos eleições municipais em 2004, será que algum político, mesmo não sendo um candidato de peso (ou o seu marqueteiro), experimentaria algum tipo de interação com o seu potencial eleitor usando um blog? Aposto que, se isso ocorresse, até os céticos acima prestariam mais atenção.

A propósito, se o Maluf tivesse um blog, quantos visitantes ele teria por dia?

Lições de Palmeiras e Botafogo

Por Marmota | 25/11/2003, 10h29

O vexame durou pouco mais de um ano. As vitórias de Palmeiras e Botafogo, diante de Sport e Marília, respectivamente, decretaram o fim de um inferno para estas duas tradicionais equipes: a segunda divisão. Mais do que isso, a conquista representou um verdadeiro aprendizado, que podem perfeitamente servir de lição para o futebol brasileiro.

A primeira aula, há pouco mais de um ano, foi a mais dolorida. Tanto Palmeiras quanto Botafogo passavam por uma grave crise, que culminou com o rebaixamento. No caso do Verdão, foram sucessivas trocas de comando – Luxemburgo, Murtosa, Paulo César Gusmão, Karmino Colombini e finalmente Levir Culpi, que nada pôde fazer para resolver os desentendimentos dentro e fora de campo.

Antes do início da temporada 2003, foi preciso fazer a tarefa de casa: planejamento. Nada de contratações malfeitas ou resolução de pendências na última hora. Desde o início do ano, a diretoria palmeirense apostou em uma única filosofia – o criticado ‘bom e barato’, sob a batuta de Jair Picerni. No Botafogo, as alteralçoes foram bem maiores: com a chegada de Bebeto de Freitas, mudou a postura na administração como um todo.

Não foi um começo fácil. Além de suportar gozações das torcidas rivais, humilhações em campo puseram em xeque o trabalho recém-formado. Como a derrota palmeirense por 7 a 2 diante do Vitória, em pleno Parque Antárctica, pela Copa do Brasil, em março. O impacto do episódio culminou com as saídas de jogadores como Anselmo e Zinho. Quem suportou a pressão decidiu focar seus objetivos e unir forças em busca do objetivo. Como naquela música que virou conselho: ‘levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima’.

A torcida, que no primeiro semestre berrava pela saída de Mustafá Contursi, entendeu o recado. Cada jogo no Parque Antárctica era uma festa, e o apoio acabou refletindo nos resultados. O mesmo pode-se dizer das partidas no Caio Martins: clube e torcedores andaram de mãos dadas pelo longo caminho da Segundona – que até parecia menos árduo na reta final, quando Palmeiras e Botafogo sustentaram as melhores campanhas. O que se viu nas arquibancadas provocou a inveja de muitos clubes da Primeira Divisão. Em troca, cada time lhe devolveu o orgulho de ser seu torcedor.

Mas diferente de qualquer curso, a avaliação final começou logo após o descenso, quando cartolas cogitaram a famigerada ‘virada de mesa’. Decisões políticas favorecendo uma ou outra equipe se tornaram uma verdadeira ‘instituição nacional’ nos últimos anos. Felizmente, Palmeiras e Botafogo não usaram qualquer artifício. Pode ser que a Série B não consiga resgatar a dignidade e a credibilidade do nosso futebol, mas depois dessa, dificilmente Bahia, Grêmio, Fluminense ou qualquer outro ‘grande’ que cair usará a caneta para voltar.

Até porque, como demonstraram Verdão e Fogão, nem precisam. Basta seguir a receita. De repente, se a cartilha for seguida e aperfeiçoada, dá até para sonhar com o dia em que o Brasil terá pelo menos três divisões, disputadas e atraentes, com pouca interferência dos tribunais.

Cruzeiro campeão – Com a Série B decidida, hora de voltar as atenções para a Primeira Divisão. E nessa altura, apenas os santistas mais fanáticos ou alguns anticruzeirenses não admitem que o título é do Cruzeiro. Só um desastre impediria uma única vitória nos próximos três jogos. Mas ainda é possível brincar com outras previsões: quem vai para a Libertadores e Copa Sul-americana, além dos times rebaixados. Provavelmente até a última rodada – para a felicidade dos defensores dos pontos corridos.

Obs. 1: Texto publicado originalmente aqui.
Obs. 2: Meus oito primeiros são: Cruzeiro, Santos, São Paulo, Coritiba, Inter, São Caetano, Atlético-MG e Goiás. E os rebaixados: Bahia e Grêmio. Agora é a sua vez de palpitar!

Fim de ano: festas, falta de tempo e… verão!

Por Marmota | 24/11/2003, 21h02

Percebeu que ninguém tem tempo para atualizar, visitar ou mesmo reformar seus blogs? Natural. Estamos na época do ano em que costumamos fazer tudo que deixamos para trás nos últimos meses: o final de ano! Por aqui os sintomas são os mesmos. Tanto que, pela primeira vez na curta história do MMM, ressucitamos uma série especial, trazendo notícias, textos e outras bobagens alusivas ao período mais esperado do ano!

Tão esperado quanto o texto abaixo, presença obrigatória em todas as caixas postais do país assim que o sol e o calor dão as caras. Leia aqui antes de encontrá-lo novamente no e-mail.

Chegou o verão. E com ele também chegam os pedágios, os congestionamentos na estrada, os bichos geográficos no pé e a empregada cobrando hora-extra. Verão tambem é sinônimo de pouca roupa e muito chifre, pouca cintura e muita gordura, pouco trabalho e muita micose. Verão é picolé de ki-suco no palito reciclado, é milho cozido na água da torneira, é coco verde aberto pra comer a gosminha branca. Verão é prisão de ventre de uma semana e pé inchado que não entra no tênis. Mas o principal, o ponto alto do verão é… A praia!

Ah, como é bela a praia! Os cachorros fazem cocô e as crianças pegam pra fazer coleção. Os casais jogam frescobol e acertam a bolinha na cabeça das véias. Os jovens de jet ski atropelam os surfistas, que por sua vez, miram a prancha pra abrir a cabeça dos banhistas. O verão é Brasil, é selva, é carnaval, é tribo de índio canibal. Todo mundo nú de pele vermelha. As mulheres de tanga, os homens de calção tão justo que dá até pra ver o veneno da flecha, e todo mundo se comendo cru.

O melhor programa pra quem vai à praia é chegar bem cedo, antes do sorveteiro, quando o sol ainda está fraco e as famílias estão chegando. É muito bonito ver aquelas pessoas carregando vinte cadeiras, três geladeiras de isopor, cinco guarda-sóis, raquete, frango, farofa, toalha, bola, balde, chapéu e prancha, acreditando que estão de férias. Em menos de cinqüenta minutos, todos já estão instalados, besuntados e prontos pra enterrar a avó na areia.

E as crianças? Ah, que gracinha! Os bebês chorando de desidratação, as crianças pequenas se socando por uma conchinha do mar, os adolescentes ouvindo walkman enquanto dormem. As mulheres também têm muita diversão na praia, como buscar o filho perdido e caminhar vinte quilômetros pra encontrar o outro pé do chinelo. Já os homens ficam com as tarefas mais chatas, como perfurar um poço pra fincar o cabo do guarda-sol. É mais fácil achar petróleo do que conseguir fazer o guarda-sol ficar em pé.

Mas tudo isso não conta, diante da alegria, da felicidade, da maravilha que é entrar no mar! Aquela água tão cristalina, que dá pra ver os cardumes de latinha de cerveja no fundo. Aquela sensação de boiar na salmoura como um pepino em conserva. Depois de um belo banho de mar, com o rego cheio de sal e a periquita cheia de areia, vem aquela vontade de fritar na chapa. A gente abre a esteira velha, com cheiro de velório de bode, bota o chapéu, os óculos escuros e puxa um ronco bacaninha. Isso é paz, isso é amor, isso é o absurdo do calor. Mas, claro, tudo tem seu lado bom.

E à noite o sol vai embora. Todo mundo volta pra casa, toma banho e deixa o sabonete cheio de areia próximo. O xampu acaba e a gente acaba lavando a cabeça com qualquer coisa, desde o creme de barbear até desinfetante de privada. As toalhas, com aquele cheirinho de mofo que só a casa de praia oferece. Aí, uma bela macarronada básica pra entupir o bucho e uma dormidinha na rede pra adquirir um bom torcicolo. O dia termina com uma boa rodada de tranca e uma briga em família. Todo mundo vai dormir bêbado e emburrado, babando na fronha e torcendo pra que na manhã seguinte, faça aquele sol e todo mundo possa se encontrar no mesmo inferno tropical.

Se eu receber novamente o texto acima, de autoria da Rosana Hermann, poderei afirmar com toda certeza: esse fim de ano promete…

Pequenas Epifanias

Por Marmota | 21/11/2003, 19h54

No começo da semana, citei a Feira do Livro de Porto Alegre e um artigo de Zuenir Ventura, sobre a vocação cultural de Porto Alegre. Celeiro de grandes escritores, um dos filhos do Rio Grande mais conhecidos chama-se Caio Fernando Abreu.

Este jornalista-contista, que aproveitou a vida imerso na cultura hippie nos anos 70, tinha certeza de que amar emburrece, como diria Inagaki. Encarava o tema como poucos, usando boa dose de realismo para descrever tais manifestações divinas. Ou melhor: pequenas epifanias, título de sua coletânea de crônicas, lançado em 1996, ano de seu falecimento.

Também é o nome do texto abaixo, que recebi por e-mail da minha amiga (e outra assídua visitante do MMM) Juliana Narumia. Publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo, em 22 de abril de 1986 – Caio Fernando Abreu passou 20 anos de sua vida na capital paulista, antes de voltar à Porto Alegre. Para você pensar em seu final de semana!

Há alguns dias, Deus – ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus – enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer – eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal – não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de “minha vida”. Outros fragmentos, daquela “outra vida”. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mau me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me recoheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obssessivo do conto de Clarice Lispector – Tentação – na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível.”. Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa, ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou – descuidado, também – em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia a dia.

Era isso – aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando pra trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo.

Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

Acho que vou pedir Pequenas Epifanias para o meu amigo secreto.

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