sexta-feira, 31 de outubro de 2003

E eu ainda acreditava neles…

Você sabe qual foi o primeiro jornal brasileiro que “fincou” sua bandeira na Internet, ainda em 1995? Se você respondeu O Estado de S. Paulo, acertou. Nos primórdios da Internet, era inevitável encontrar o bom e velho “agestado” nos bookmarks do Netscape. Anos mais tarde, o grupo agregou conteúdo ao seu portal Net Estado, publicando todas as edições do Estadão e Jornal da Tarde. Sem exceção: tudo ia para a web na virada do dia.

Imagino que a decisão daquela época deve ter irritado muitos conservadores: acreditavam que essa tal Internet, que ganhou força na empresa principalmente na cobertura da Copa da França, em 1998, acabaria rapidamente com o impresso. O fato do jornal estar disponível completinho – e de graça! – representava as últimas marteladas no caixão.

Tenho certeza de que a briga interna foi intensa, mas vencida pela inteligência: mesmo depois do naufrágio da parceria milionária com o Terra em 2000, o Diretório Estadão virou Estadão ponto com – aquele que não tem só “cara de conteúdo”. Mais do que isso, mantendo a filosofia de disponibilizar os dois jornais para os seus visitantes.

Há uns dois anos, soube que as visitas ns páginas do Grupo Estado na Internet aumentaram. Mais do que isso, o número de assinantes do Estadão também subiu – informação que derruba qualquer previsão sobre o fim do papel, além de mostrar que a web pode servir como complemento, e não como “canibal”.

Mesmo com a crise econômica, que atinge não apenas mídia como qualquer outro bolso, sempre achei que o Grupo Estado percorria o melhor caminho pela recém-pavimentada estrada virtual – afinal, quem não se sentia feliz ao saber que, para ler aquela matéria do Estadão ou do JT, bastavam alguns cliques? O máximo que poderia vir, imaginava, era uma provável cobrança pelo serviço de busca ao acervo dos últimos sete anos. Nada mais justo.

No entanto, hoje fui obrigado a mudar radicalmente de idéia. Nesta sexta-feira, o Grupo Estado anunciou seu total retrocesso, ao trocar o HTML de seus jornais por PDF. Não há argumento que resista a tamanha insensatez: na noticia acima, eles alegam que, com a página inteira na web, não se perde nada.

É verdade. Tanto que o tamanho de um arquivo PDF – sigla de Portable Document Format, criado pela Adobe – é pelo menos dez vezes maior que uma página em HTML (entre aqui e experimente a brincadeira). Além de ser mais pesado, não tem links: para navegar (navegar?), é preciso baixar todas as páginas. Quer saber mais? Além dos gráficos (muitas vezes mal-definidos), dá pra ver também os anúncios… Um belo negócio. Em breve, os PDFs poderão ser baixados apenas por assinantes – o “agestado” vai continuar aberto a todos os visitantes, ou seja, é como se, a partir de hoje, estivéssemos novamente em 1995…

A decisão bombástica (ou seria BOBÁSTICA) já havia sido pensada no começo do ano. Esqueçam as vantagens citadas na notícia acima: a idéia foi cortar custos. Qualquer software que elabora as páginas de um jornal já é capaz de exportar os mesmos arquivos no formato PDF. Assim, os jornalistas que cuidavam da atualização dos sites foram demitidos – se o Comunique-se estiver certo, foram oito degolados.

Assim, não se engane ao ler o termo “vantagens”. Essa triste notícia indica que o Grupo Estado cansou de esperar por algum retorno financeiro na web – ou melhor, sequer pensou que poderia existir algum – e resolveu simplesmente cortar esse tentáculo. Decidiram que o negócio deles é notícia no papel, e danem-se as novas tecnologias e as suas possibilidades.

Parabéns aos retrógrados, vocês venceram uma batalha. Felizmente, para o bem da nossa profissão, a guerra está só no começo.

quarta-feira, 29 de outubro de 2003

Melhor que a hora do recreio

O ano de 1993 foi especial para alguns alunos de eletrotécnica da Escola Técnica Federal. Especialmente para vinte deles, a maioria da turma 213, que aceitaram o desafio e competiram na gincana promovida pelo Grêmio estudantil.

Com seus dezesseis anos, Marmota ainda rimava com “idiota”… No entanto, em meio a sugestões como Detonadores, Avante, Eletrobobos ou Arapiraca, o grupo recém-formado escolheu justamente o nome idealizado por aquele jovem de sorriso fácil e idéias discutíveis: Kiabodoce.

Foram praticamente dois meses em função das provas: líder do grupo, a determinada Emy era o envolvimento em pessoa, exigindo a mesma participação de todos. Tarefas não faltavam: tirar foto com um punk nas Grandes Galerias, trazer (ou fazer) o maior boné possível, preparar 1km de bandeirinhas juninas…

Cada etapa concluída era revertida em pontos. Mas era uma parcela ridícula diante do que realmente valia: as prendas. E nisso a galera do Kiabodoce se mostrou imbatível. Foram dias na Galeria Pagé em busca de pechinchas diversas. Cada um fez sua limpeza no porão – teve um que levou uma champanhe caríssima, perdida na adega.

Saberíamos, mais para frente, que essa mobilização faria toda a diferença. Mas ainda restava o último dia, em plena festa junina da Federal. Desde as primeiras horas da manhã num sábado qualquer do final do mês, dezenas de equipes mostravam sua união e vontade de vencer as últimas provas.

Era preciso montar uma barraca para a festa, elaborar charadas, encontrar o “tesouro escondido”, fazer um professor contar uma piada no microfone, fazer uma apresentação musical e cantar, em uníssono, o hino da equipe – o nosso foi composto por mim e pelo Osiro, era uma paródia ao carnavalesco “turma do funil”, exagerando na rima entre “quiabo escorregado” e “doce açucarado”.

Já era quase domingo quando os organizadores anunciaram os vencedores da gincana. Exaustos, muitos escorados nos ombros dos amigos ou mesmo dos pais, que prestigiaram a festa, centenas de alunos ouviam atentamente a classificação final, em ordem decrescente. Até que restaram apenas três nomes: Kiabodoce, Ediarréia e WC. Literalmente, a dor de barriga aumentou ali.

O anúncio do terceiro lugar era decisivo: independente da posição, os dois primeiros levariam o grande prêmio, uma viagem para Vitória, capital do Espírito Santo. A expectativa aumentava a medida em que o organizador “enrolava”, dizendo que a diferença de pontos foi pequena, houve muita luta, entre outras babaquices.

- E em terceiro lugar, ficou a equipe… WC!

A reação foi instantânea: éramos vencedores! Enquanto gritava e erguia os braços, observava meus colegas emocionados, dando longos abraços. O êxtase coletivo durou a noite inteira, e serviu de combustível para os preparativos daquela que seria a primeira grande viagem daquela turma em quatro anos de curso técnico.

Atenção para a chamada, da esquerda para direita. Em pé: Marmota, Feto, Rossetti, Carla, Dinho, Biscui, Fortaleza, Stalone, Kato, Capelari, Flávio e Brian. Sentados: Emy, Osiro, Luciana, Piuí, Sunny, Alemão, Sandra e João. No dia 29 de outubro de 1993, essa turma embarcou para Vitória, cinco dias tão inesquecíveis quanto a história acima, três meses antes.

A partir de hoje, dentro da programação apertada do MMM, você também está convidado para esta viagem no tempo. Não esqueça de aquele amigo que você não vê há pelo menos dez anos para embarcar com a gente no especial Kiabodoce!

segunda-feira, 27 de outubro de 2003

Imagem é tudo

Lembra quando o seu netscape dois ponto zero era capaz de enxergar apenas fundo cinza, letras pretas e links azuis? Vez ou outra, aparecia um quadrinho com três figuras geométricas – tratava-se da imagem, que ninguém ousava abrir por conta do modem 14.4.

Pois bem. O tempo fez com que os internautas ignorassem o excesso de texto: a maioria lê apenas o necessário. A tecnologia tratou de melhorar as coisas para esse povo, transformando as antigas máquinas fotográficas em apetrechos digitalizadores. Dos mais variados tipos e tamanhos, embutidos em filmadoras, computadores de mão ou celulares.

Sem querer, os norte-americanos Adam Seifer, Scott Heiferman e Spike (Spike?) reuniram todos estes elementos num único endereço, criando um verdadeiro fenômeno. No final de 2002, eles bolaram uma ferramenta para compartilhar imagens entre amigos e familiares: batizaram o negócio de fotolog. A brincadeira fez muito sucesso – não apenas entre profissionais, mas entre adolescentes que não cansam de se fotografar e se amarram no conceito “mais imagens, menos texto”.

Aliás, é impressionante como a onda caiu no gosto dos brasileiros: são quase 50 mil, para apenas cinco mil norte-americanos. Brincar de fotolog é mesmo bastante simples: basta entrar no site, registrar seu nome e uma senha. Fiz essa experiência em agosto – e mesmo sem qualquer divulgação, minha primeira foto rendeu alguns comentários!

Continuei a experiência com o fotolog.net/marmota nas últimas semanas, mandando fotos (a maioria já usadas aqui), marcando presença em outros fotologs e adicionando favoritos – entre eles, o black & white, fotolog coletivo com imagens em PB, e os criativos antmarimoon, que perde seu tempo imitando poses do fotolog “Marimoon”, e o comida de buteco, recheado de acepipes. Não demorou para que o meu fotolog ficasse com aquela “cara padrão”: a esquerda, minhas fotos de arquivo; e a direita, as novas imagens dos meus amigos/favoritos.


Minha foto preferida: a do “meu gabinete”

Minhas 80 visitas na semana passada, no entanto, não se comparam a invasão tupiniquim ao fotolog, que levou os criadores do serviço a restringir o upload de fotos para não “explodir” seus servidores e a largura de banda. Assim, quem se incomodar com as limitações do sistema (entre as quais publicar apenas uma foto por dia e ter direito a dez comentários por foto) pode pagar uma contribuição de cinco doletas mensais. Nada mais justo.

Aliás, sobre isso, cabe uma curiosa observação: em junho, quando a cobrança começou, alguns cururus ficaram indignados, entupindo o sistema com coisas desse nível. “Tinha que ser brasileiro” era o mínimo que se lia a respeito da “queimação de filme”. A Cora Rónai, que mantém um dos fotologs mais acessads da rede, relatou aqui como foi a baixaria. A revista Wired também fez uma bela matéria sobre o tema.

A onda continua crescendo, felizmente, de maneira bem mais calma. Talvez esse bando tenha percebido que, no caso deles, o melhor a fazer é se comunicar apenas com imagens.

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