Marmota, mais dos mesmos

Desde 2002, muito obrigado por nada.

Arquivos: janeiro/2003

Floripa: primeiras impressões

Por Marmota | 31/01/2003, 21h24

Não mude o canal: nos próximos dias, este blog será monotemático. Você vai ler aqui tudo que você não quer saber sobre o passeio dos Estúpidos (Marmota, Fuzo, Lello e Narazaki) em Florianópolis. E mais um pouco. Para começar essa série especial, aqui vai uma relação inicial de tópicos. Além de resumir a aventura, também vai servir como guia para os próximos capítulos.

- É impossível conhecer toda a ilha em apenas sete dias. Ótimo pretexto para ficar apenas uma semana e já voltar para casa pensando em quando voltar.

- Também é improvável ficar mais de cinco dias na cidade sem pensar em procurar um lugar para morar de vez e ler os classificados dominicais em busca de um novo emprego.

- O clima é bastante ameno, mesmo no verão – não encontramos em nenhum momento aquele sol escaldante capaz de torrar os miolos, muito comum no litoral de São Paulo e no Nordeste. Mesmo nublado, não tem como não curtir uma praia.

- Falando nelas, existem dezenas, para todos os gostos possíveis. Se você gosta de muito agito e badalação, vá para a Joaquina, Mole ou Ingleses. As praias ao sul, como Armação e Matadeiro, são mais tranquilas.

- Você se considera um sujeito esnobe, do tipo “dinheiro não é problema”? Então o seu lugar é uma das casinhas humildes de Jurerê Internacional (terrenos custando apenas algumas dezenas de dólares). Agora, reles mortais como nós podem perfeitamente aproveitar apenas a deliciosa praia, com pouquíssimas ondas.

- Vai com a família ou com a namorada? Sua escolha é Canasvieiras. O motivo é simples: a praia reúne a maior concentração de barangas e argentinos da ilha. Não tem nem onde desviar a cabeça a procura das lindas catarinenses!

- Ainda em Canasvieiras, guarde três horas do seu passeio para uma volta de escuna. Com quinze reais você conhece a Ilha de Anhatomirim e a Baía dos Golfinhos, preço tabelado entre todas as empresas. Apenas uma oferece passeios mais elaborados, mas também mais caros. Com garoa, então, impensáveis.

- Deixando as brincadeiras de lado. Quer passar agradáveis momentos em Floripa? Então hospede-se na Lagoa da Conceição. No caminho, você já fica boquiaberto com o mirante. A noite é muito agitada e repleta de gente bonita, mesmo sendo uma terça-feira, por exemplo. E para quem gosta de esportes radicais, é possível encontrar caiaque, snowboard e até quadriciclo.

- A propósito, se você acha que a lei de Murphy pode te pegar, reze muito antes de sair. Afinal de contas, mesmo em apenas três dias, é possível perder os óculos na Lagoa, atropelar mulheres no sandboard, ralar o corpo nas pedras da Armação, encarar a sequência de camarão, entre outras agruras.

- Nem é preciso um pretexto como o Planeta Atlântida, evento que contou com grandes bandas do cenário nacional, para reunir os amigos e curtir a cidade. Até porque, o espetáculo foi muito bom, mas poderia ter sido bem melhor.

- Por fim, reserve uma das manhãs para um passeio pelo centro, inluindo o mercadão municipal e a figueira centenária da Praça XV. Dizem os antigos que, quem dá uma volta completa em torno da árvore, acaba voltando para a cidade em breve. Pessoalmente, acho que nem é preciso.

Sejam bem vindos ao nosso passeio pela Ilha da Magia!

Capitulo Especial para o MMM – Vil Metal

Por Marmota | 31/01/2003, 14h42

Esse domingo fui atacado por um americano, não daqueles que tem tesão pelo petróleo do Iraque e sim por um lanche de procedência duvidosa em um boteco. O resultado foi uma visita de hora em hora ao banheiro que estivesse mais próximo.

Gosto muito de ler e adquiri um vício com isso, não dá para sentar ao trono sem qualquer leitura para matar o tempo. É impossível. Mas naquele domingo eu estava sem meus livros e jornais, estava na casa de minha namorada e só tinha um exemplar da Você S.A. para ler.

Homens em ternos Armani e seu relógios de mil reais, mulheres com vestidos caros e bolsas que valem mais que um carro. Todos com sorrisos estampados nos rostos e poses de “EU POSSO TUDO!”.

Como é sedutor o vil metal! Por um momento me lembrei das minhas antigas ambições a “Diretor de Empresa Multinacional Com Carro Do Ano E Jogador De Golfe De Fim De Semana”, uma vida de doze ou mais horas diárias de trabalho e um batalhão de empregados me chamando de senhor, ou seja, o pacote completo de sonho capital que esse tipo de revista vende e que o mercado de trabalho te obriga a ter.

Não dá para dizer que esse mundo cinza está torto, pois ele nunca foi direito. Como é possível ignorarmos problemas como meio ambiente, convivência pacífica e qualidade de vida para direcionarmos toda a nossa mente a papéis-moeda e ações na bolsa.

Como é possível que uma pessoa morra de fome porque não tinha um pedaço de celulose com bonitos desenhos e um número marcado. Não existe lógica humana neste mercado podre.

Aprenda inglês, conheça computadores, use todos os minutos do seu dia para se manter atualizado e não ficar para trás. Esqueça se você gosta de filosofia, só temos empregos para Engenheiros e Economistas. O resto é delírio. Mas é claro, você pode ser rico e comprar um BMW blindado e todos os seus problemas estarão acabados, as mulheres pularão no seu colo, os homens cairão para você passar sobre eles, o mendigo não conseguirá chegar perto para pedir um troco.

E o resto? Você não vai nem lembrar que o “resto” existe.

Bem vindo ao fim do mundo.

Se você não me conhece, eu sou o Escritor Verde, vivo dentro da mente de um cara de 20 anos, sem dinheiro no bolso e nem amigos importantes, mas nascido em São Paulo. Se quer me conhecer leia os Contos Verdes, minha única forma de expressão.

colocou isso no ar às 14:45

Aqui está um capítulo especial entre as inúmeras aventuras do Escritor Verde num mundo cinza. Quem não conhecia é porque não viu o link perdido ali no lado esquerdo. Agora que você já leu, pode conferir toda a saga clicando aqui! Entre os premiados da promoção “Descubra o Walter Mercado no Blog do Marmota”, ainda faltam os posts do Abóbora e do Mr. Pinguim. Aguardemmm!

FSM: impressões de quem esteve lá

Por Marmota | 30/01/2003, 16h26

Enquanto o folgado aqui curtia férias em Florianópolis, milhares de jovens viajaram mais uns 400 quilômetros ao sul em função de um ideal: o terceiro Fórum Social Mundial reuniu pessoas do mundo inteiro em Porto Alegre, dispostas a pensar em alternativas aos efeitos nocivos da globalização – isso tudo enquanto outros pensavam exatamente o contrário durante o Fórum Econômico Mundial.

Coincidentemente, os caminhos de alguns destes jovens cruzaram com o meu no posto Petropen, em Registro, durante o almoço na última terça-feira. Na primeira matéria do Jornal Hoje, sobre um protesto na noite anterior, alguns dos presentes se sentiram aborrecidos. “É isso que a Globo mostra sobre o Fórum”. Em seguida, uma reportagem mais amena, sobre a dor da despedida, acalmou os ânimos dos viajantes, amarrotados após doze horas de estrada.

Seria injusto de minha parte fazer comentários sobre o Fórum Social Mundial, pouco vi a respeito enquanto descansava na Ilha da Magia. Por isso pedi ajuda a minha querida amiga e conterrânea Lediane Tassi. Ela participou do Fórum e fez um rápido apanhado de tudo que viu por lá. Confira:

- Porto Alegre nunca esteve tão diferente. Isso não significa dizer que estivesse melhor ou pior, isso veremos apenas com o passar do tempo, em conseqüência direta do pós-fórum. Mas naquele instante, era um diferente realmente diferente de todas as diferenças. Uma miscelânea de roupas, cores, aromas (alguns, pasmem, alucinógenos), culturas e idiomas.

- Uma cena linda: uma montoeira de gente no campus da PUC, no meio de outra mais dispersa – sim porque eram milhares de pessoas circulando, me chamou a atenção. Vi um grupo montando a pose para uma foto, cena que seria comum não fosse a peculiaridade da etnia: era um rabino, uma muçulmana, um libanês, uma indiana e um africano, todos vestidos conforme o local de origem. De arrepiar! Todos abraçados para sairem na foto. A toupeira aqui, sem nenhuma câmera para registrar o momento…

- Dá para imaginar uma roda de capoeira onde o capoeirista é um negro pilchado, isto é, vestido à caráter como gaúcho (com direito a bombacha, lenço e um chapelão na cabeça), em que o jogo se dava em “slow motion”? Eram movimentos de capoeira leeeeentos (propositalmente), inclusive com algumas seqüências engraçadas, meio de sacanagem. De repente, as palmas e o som do berimbau foram interrompidos por um rufar de tambores, atenção desviada. Tudo parou para ver de onde vinha o som. Era um grupo (acredito de brasileiros) que começaram a tocar um ritmo forte e contagiante com seus tambores, atabaques e tamborins. As batidas soavam misturadas ao som dos chocalhos! Ninguém conseguia ficar parado. E assim estava o campus da PUC…

- Dei uma passadinha no acampamento no último dia: era um mar de barraquinhas iglu coloridas. Oficialmente, cerca de 100 mil estavam acampados lá. Eu, com meus botões, duvido: acho que tinha muito mais, até porque 100 mil eram os cadastrados, não contavam os “inquilinos”, né?

- Segundo os acampados no Parque da Harmonia, nem tudo fora em prol do social: houveram vários furtos, além de cenas cômicas. Como a de um fulano que passeava perto do pessoal de Rio Grande com uma roupa de mulher embaixo do braço. Um colega meu, especialista em uma dessas artes marciais japonesas, estava louquinho para mostrar seus dotes – ainda mais depois de alguns litros de álcool na corrente sanguínea. Ele abordou o transeunte, deu uma gravata e o imobilizou. O coitado esperneava e gritava: “só não tira o meu cheirinho!”. Quando o meu colega olhou, reparou que o “cheirinho” era um copinho com cola de sapateiro. Já não sabia mais quem estava mais fora de si…

- As fábricas de calçados entrariam em falência se a moda do Fórum pegasse. No shoes. Dentro dos acampamentos, o pessoal andava descalço em meio a poeira. Nas oficinas e palestras, na primeira oportunidade os chinelinhos (preferência de nove entre dez bicho-grilo) eram deixados de lado. Ainda bem que foram disponibilizados uns quantos chuveiros públicos para o pessoal tirar o cascão (pelo menos no acampamento).

- “… E seja o que Deus quiser”. foi o que disse uma Advogada, doutora em Direito Internacional, numa oficina do sábado, dia 26, no Campus PUCRS, ao referir-se a um ataque norte americano ao Iraque, caso a ONU não consiga contornar a situação. Estremeci.

- “… A guerra na África não é uma guerra religiosa ou de etnia como dizem alguns, é uma guerra política e de interesses internacionais”, frase do fotógrafo Sabastião Salgado, também no sábado.

- Aplausos para as cubanas que aprenderam a comer comida chinesa de pauzinhos. Estávamos jantando no restaurante Muralha da China (pit stop obrigatório quando estou em POA) e algumas cubanas sentaram ao nosso lado. Gostaram de nos ver comendo de “hashi”, pediram uns ao garçom e, depois de muitas tentativas frustradas, já estavam comendo até milho verde e arroz com as estaquinhas. Uma beleza.

- O Quiquito de Ouro (sim, pois foi aqui no sul) para a pior cena aconteceu no último dia de Fórum, com a passeata na avenida Beira Rio, em que alguns acalorados resolveram protestar mostrando o “corpicho”, como vieram ao mundo. Nuzinhos da silva, os manifestantes foram barrados pela polícia à cavalo – alias, naquela hora não deu para distinguir quem era o homem e quem era o cavalo, devido a selvageria do ato. Pena que eu acompanhei a cena apenas pela TV e obviamente nem deu para ver muita coisa. Sinceramente deveriam ter feito vista grossa e fazer de conta que estamos em Amsterdã.

Já ficou com vontade de embarcar para a Índia, local do FSM em 2003 2004? (ainda estou em 2002, vide o meu talão de cheques…).

Detalhe que faz a diferença

Por Marmota | 20/01/2003, 18h12

Já que o próximo post do MMM só virá em uma semana (entenda ou reveja o porquê logo abaixo), é preciso que alguém ou algo tome conta deste espaço. Por isso, pedi ajuda a um velho conhecido. Daqueles bem humildes, silenciosos mas sempre dispostos – apesar do status que conquistou nos últimos anos.

Lembro da primeira vez que ouvi falar no cara – foi numa revista especializada, nos idos de 95. Lá estava ele, ao lado de figuras estranhas como pequenas imagens e palavras soltas num fundo cinza, reunido em uma tela engraçada que trazia um N de Netscape no canto superior direito. No meio de tantos elementos, facilmente se destacava com sua marca registrada: a cor azul e o sublinhado.

Esse curioso detalhe era, na verdade, a grande novidade trazida por este meu velho amigo, que logo se popularizou por aqui – quem de vocês nunca ouviu falar no link? No cartão de visitas, um sobrenome diferente: hipertexto. Há sete anos, esse nome poderia ser confundido com o de uma enciclopédia. Mas não era preciso entender o significado da palavra: bastava um clique e lá estava a explicação.

Graças a ele, aquela sequência de palavras que você só conhecia em materiais impressos ganhou outro sentido. Bastava um termo qualquer trazendo a cor azul e o sublinhado para outra possibilidade surgir diante da tela. Aos poucos, os garimpeiros deste novo mundo foram descobrindo seus serviços. Com o tempo, ganhou novas cores, novos alvos, novas possibilidades. Mas também dá as suas mancadas, disfarçadas no maroto número 404.

Tudo bem, vamos relevar. Afinal, não fosse o link, talvez você nunca chegaria aqui. Vou mais longe: sem ele, você não vai a lugar algum nesse mundo. Por culpa dessa grande figura, cada pequeno cantinho como este aqui, perdido nesse infinito mar de possibilidades, está interligado por aí, assim como outros ganham conexões diretas através desta página. É a ligação destes pequenos pedaços soltos, mas unidos – small pieces loosely joined, título do livro de David Weinberger, cujo prefácio tratou de dar inspiração necessária para esse textinho (não se encantem: até agora, só consegui entender o prefácio).

Este blog vai ficar sem atualizações por uma semana, mas vocês estarão na boa companhia do meu amigo link, esse pequeno detalhe que faz toda a diferença. Escolha qualquer um dos sublinhados azuis existentes aqui, ou mesmo aqueles disfarçados como a imagem acima. E viaje também, sem rumo e sem medo. É só clicar no link, depois em outro, e mais outro… Boa viagem, e até a volta!

Levem o Dadinho na entrega do Oscar

Por Marmota | 20/01/2003, 13h41

Teve gente que torceu, aguardando com ansiedade a entrega do Globo de Ouro, uma espécie de prévia (?) do Oscar, para o melhor filme estrangeiro. Deu Almodóvar e o seu Fale com Ela. Cidade de Deus recebeu os aplausos da platéia, mas foi só.

Aqui cabem duas observações. A primeira: não sou especialista como o Inagaki, mas em 99 o brasileiro Central do Brasil ganhou o mesmo prêmio. Tudo bem que, naquela ocasião, o futuro premiado com o Oscar A Vida é Bela não estava entre os indicados ao Globo de Ouro. Mas vai entender o que se passa naquela Academia de Hollywood. De repente, a taça é nossa…

A segunda: levem o Dadinho, armado, na entrega do Oscar. E peçam para alguém chamá-lo de Dadinho…

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