Tudo para não chegar no “quase”
Por Marmota | 29/10/2002, 16h09
Depois da festança na Paulista, hora de botar a mão na massa e armar o já batizado Governo Lula. Assim como na década de 70, FHC e o novo presidente se reuniram em 2002, e desta vez o assunto não foi ditadura militar… Pelo contrário: ambos estão trabalhando em uma transição que promete ser a mais democrática que já se viu.
Ao menos no Brasil nunca se viu algo assim. A última referência que tenho em mente sobre transição foi em uma obra de ficção, em um dos divertidíssimos textos do livro Humor nos tempos do Collor, lançado no início da década de 90 após os escândalos envolvendo PC Farias que culminaram na queda do nada saudoso chefe de estado. Um dos contos, assinados pelo brilhate (e colorado) Luis Fernando Veríssimo, lembrava o dia em que José Sarney mostrava ao primeiro presidente pós-diretas como funcionavam as coisas no Planalto, em especial no seu gabinete.
Segundo a versão contada por Veríssimo, a mesa do presidente continha uma série de botões, cada qual com a sua função. Tinha até um botão que servia para “desintegrar o Maílson”, mas que nunca tinha sido usado. O fato é que Sarney explicava cada um deles, até o momento em que Collor reparou na existência de um maior, vermelho. “Não, não toque nele!”, advertiu Sarney, no mesmo momento.
Aquele era um botão especial. Uma tecla de emergência. Se a minha memória não falhar, o diálogo era mais ou menos o seguinte: “Se chegar o dia em que tudo que você tenha feito falhar, se a situação estiver tão ruim a ponto de quase nada funcionar, aperte este botão. Ele vai transformar o gabinete em uma unidade móvel, que irá transportá-lo para um lugar seguro”. Era, portanto, uma forma de escapar ileso ao primeiro sinal de desastre.
Pois bem. Um belo dia, Collor se viu diante do botão vermelho. Lembrou do confisco da caderneta, das manchetes que traziam sua imagem associada ao PC Farias, a revolta da sociedade… Nada mais parecia dar certo. Refletiu por mais alguns instantes e, finalmente, apertou. Para sua surpresa, não aconteceu nada. Apertou de novo, e de novo. Veríssimo termina o conto lembrando que Sarney havia advertido: aperte apenas quando quase nada estiver funcionando. “E nem o botão vermelho funcionava mais”…
Para o bem do nosso país, esperamos que a equipe de Lula possa se entender com a de FHC nesse período, mostrando os caminhos para evitar o “quase”: explicar todos os botões e a hora certa de usar cada um deles. Inclusive o vermelho…


O advogado Daniel Rêgo Barros Júnior, de 47 anos, é especialista em direito em telecomunicações e coordenador jurídico da Telemar em Aracaju, Sergipe. Mas antes de consolidar a sua carreira nesta área, foi professor (nível médio e universitário) e delegado de polícia em sua cidade natal Paulo Afonso, na Bahia – local onde nasceu “por acidente, minha família é pernambucana”.
O dono deste 
A esperança venceu o medo neste final de semana. Nunca uma nação democrática elegeu o seu chefe de Estado com tantos votos, da mesma forma nunca se viu tanta euforia em todos os cantos do país. Mas como o próprio presidente eleito disse, o mais difícil vem agora. A partir de 1º de janeiro, Luis Inácio Lula da Silva vai precisar mostrar que a esperança é mesmo capaz de vencer o medo, os mercados, os conchavos, os interesses… Tudo em nome de um pacto social que, esperamos, possa mesmo vingar.
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