Marmota, mais dos mesmos

Desde 2002, muito obrigado por nada.

Escolha uma forma de enxergar a realidade

Por Marmota | 12/04/2012, 03h28

“São inúmeras as narrativas do mundo”. Esta frase, atribuida ao filósofo francês Roland Barthes, nos faz lembrar da fragilidade do termo “realidade”. Aliás, podemos combiná-la com outra, também comum nas salas de aula dos cursos de comunicação, de aparição consagrada nos arquivos ppt do autor desconhecido e incerto: “beauty is in the eyes of the beholder”. A beleza de algo, a falta dela ou sei lá como desejarmos classificar, está nos olhos de quem vê. Uma combinação fluida de olhares, engedrada por meio de variáveis relacionadas a valores subjetivos e apresentadas pelas linguagens que compreendemos (gestos, escrita, imagem, som…), compõe uma meia dúzia de três ou quatro ideias que podemos batizar, grosso modo, formas complexas da representação do que consideramos, eu, você e a sociedade, realidade.

Entendeu? Não? Quer que eu desenhe?

Basicamente, é possível enxergar a realidade por meio de muitas lentes. Uma das mais interessantes (e antigas) é a que nos revelam mitos. Histórias como as contadas numa Grécia em que deuses e semideuses não se preocupavam exatamente com a relação entre calote e a existência do Euro. Cuidado para não confundir mitologias com outra forma de percebermos o mundo pautada pela sabedoria do povo: o senso comum. Aquele negócio que, como lembra Duncan Watts, torna possível a coexistência de “o que os olhos não veem o coração não sente” e “longe dos olhos perto do coração”, entre outras justificativas que costumamos acionar para preencher lacunas quando a situação parece incompreensível.

Há outro tipo de explicação baseada em histórias fabulosas para explicar questões sem respostas: religião. O que muda em relação a mitologias ou senso comum é o tamanho da crença, proporcional ao conforto emocional (e algumas limitações) que ela pode trazer. Uma frase do pesquisador norte-americano Joseph Campbell explica tudo (e um pouco mais) de um jeito simples: “mitologia é o nome que damos às religiões dos outros”.

Algumas destas se apresentam como “o caminho da verdade”, um negócio que dá para desconfiar. A que nos vende “nada mais que a verdade”, no entanto, o jornalismo – ainda que esta categoria possa abusar nas crendices na tentativa de mergulhar na realidade. Quando associamos o termo “verdade” a teorias construídas por métodos rigorosos, temos a ciência. Não deixa de ser humana como as outras representações, e até por isso “se parece primitiva e infantil – e, no entanto, é a coisa mais preciosa que temos”, como dizia Albert Einstein. Todas estas manifestações mexem com os nossos sentidos – e aqui cabe a forma de representar o mundo cuja intenção primeira é exatamente o estímulo dos nossos neurônios: a arte.

Enfim. Se você nào se desplugou do mundo nesta quinta-feira, deve ter visto o julgamento do Supremo Tribunal Federal diante de um assunto delicado: a possibilidade das mulheres escolherem, sem medo de serem punidas pela lei, abortar a gravidez nos casos de fetos sem cérebro. É o tipo de debate que permite reunir toda sorte de gente sustentando suas lentes e apontando aquilo que enxergam como sendo a melhor forma de representar a realidade. Nenhuma delas definitiva.

Mesmo entre os magistrados há divergências: desde “dogmas religiosos não podem guiar decisões jurídicas” até “não há garantia de que os conceitos científicos sejam estáveis” – num discurso que conseguiu reunir o rebaixamento de Plutão, vírus de computador e bebês anencéfalos… Nos arredores da mesa redonda, protestos a favor da vida – e, a essa altura, você já percebeu que o conceito de “vida” depende do óculos que estiver usando, da posição e do tamanho da janela. Pode parecer simplista (ou algo ligado ao meu senso comum), mas independente do resultado, seria melhor viver num mundo onde as discussões se limitassem ao ato de compreender, respeitar, aperfeiçoar ou, vez ou outra, simplesmente usar um Ray-Ban de armação fina e vidro amarelo.

Ah sim, há alguns anos, escrevi sobre aborto aqui. Não mudaria uma vírgula do que escrevi.

Ah sim, de novo, aceito sugestões para uma segunda versão da ilustração acima, incluindo sugestões para o par de lentes do Direito.

Sobre iogurte, cariocas, desejos e outras sapucadas

Por Marmota | 27/02/2012, 21h24

Recebi uma mensaginha bacana há instantes: “E aí! Como foi seu Carnaval?” Decidi responder brevemente, por meio de alguns apontamentos aleatórios.

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Só um idiota faz a mesma bobagem duas vezes, esperando resultados diferentes. Já experimentei o trecho entre São Paulo e Taubaté, mesmo caminho para o litoral norte, São Luis do Paraitinga, entre outros destinos concorridos. Mesmo assim, decidi sair de casa rumo à capital fluminense na manhã de sábado. As mesmas cinco horas que levei para percorrer, em uma tacada só, toda a viagem na volta, foi suficiente para chegar à terra de Monteiro Lobato. Somando a parada obrigatória para o almoço em Penedo, na companhia da vovó Claudia, foram doze horas de uma ponta a outra da Dutra. Se fosse um desfile na Sapucaí, perderíamos pontos na evolução.

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Enfim, deu tempo suficiente para a bruxinha e eu exercitarmos nosso amplo conhecimento carnavalesco e arriscarmos prognósticos durante uma criteriosa audição dos sambas-enredo. “Esse papo de seiva não está com nada”, dizíamos, sem fazer qualquer referência a iogurte. “Esse é sobre África. Esse, sobre Nordeste. Outro África. Outro Nordeste”, excluíamos, lembrando de Portela e Imperatriz mostrando Bahia na sequência. “Já viu o clipe da Mangueira? É lindo e emocionante… E falam do Rio! Vão ganhar!”. Que tolice viver a vida sem surpresas.

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A propósito, no site da Liesa é possível encontrar tanto as justificativas dos jurados (descontei três décimos da bateria cujo timbre dos surdos estava pouco definido) quanto as referências bibliográficas apresentadas pelos carnavalescos. É delicioso.

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Eu tenho uma teoria. Todas as coisas legais da vida passam por quatro estágios: a identificação, a popularização, a desencanação e, finalmente, a incorporação permanente, independente das reações de fora. Este ciclo se aplica aos blogs, aos relacionamentos e aos blocos de Carnaval no Rio. “Eram poucos que ficavam na cidade nessa época, mas de uns cinco anos pra cá, os blocos foram redescobertos pelo carioca e ficou gostoso passar o feriado aqui”, explicou a Luninha, que foi uma entre milhões de foliões nas ruas da Cidade Maravilhosa. Pessoalmente, fiquei assustado com o volume de gente nas minhas duas tentativas de entender a dinâmica: em um que não sei o nome, mas adoro chamar de “bengalafubanga”, mal dava para enxergar os músicos. Situação parecida na apresentação do bloco Sargento Pimenta, também no aterro do Flamengo: a banda é realmente boa, mas as pausas entre uma música e outra, bem como parte da multidão, complicam a experiência. Sintomas da fase “popularização”, creio: quando cordões da bola preta questionarem “pra quê dois milhões”, vai melhorar. Ah, sim, amigo nativo: pode me dizer que escolhi dois exemplos ruins. Fica a lição para o próximo.

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Se bem que, se contarmos os cinco dias de feriado prolongado, e descontando o tempo na estrada, podemos proclamar a fundação do Grêmio Recreativo e Escola de Samba Acadêmicos do Ar-condicionado. Uma agremiação que levou um saco de confetes na mala, e que voltou a São Paulo do mesmo jeito.

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“O Sambódromo é considerado o lugar mais seguro na América do Sul, pois há uma concentração muito elevada de celebridades nacionais e internacionais, políticos e pessoas importantes entre a multidão. Ele é rodeado por cercas de perímetro enorme onde ninguém pode passar sem ser revistado, tanto por razões de segurança quanto por razões comerciais” – pincei este parágrafo de um site que comercializa ingressos para a Sapucaí. De fato, a movimentação dos arredores não intimida: meu maior apuro foi ter atravessado uma passarela improvisada, sobre a Avenida Presidente Vargas, enquanto um engraçadinho a balançava. A caminhada ao setor 11, mais ou menos sinalizada, terminou com uma infra-estrutura agradavelmente organizada – destoando do absurdo processo de compra, que exige um aparelho de fax para o envio das instruções. Fax, vejam vocês. A arquibancada, como num GP Brasil de Fórmula 1, estabelece prioridades para quem chega cedo: os retardatários levam tempo – e já são cutucados por gente que se posiciona como proprietário do espaço – mas logo se enturma.

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Antes de viajar, esperava assistir a uma espécie de “peça teatral a céu aberto”, numa experiência diferente da que temos no sofá, pregando os olhos madrugada adentro. Do alto da arquibancada, perdem-se detalhes relevantes (leia “peitões”), no entanto a tela não proporciona o divertido ritual: dos 80 minutos que cada escola dispõe, ela passava diante dos nossos olhos por mais ou menos 30, momento em que os personagens ao redor se levantavam e também se apresentavam. Ninguém precisava de Jennifer Lopez diante do rapaz meio afeminado, purpurinado, requebrando na velocidade cinco ao som da bateria; do portelense, em silêncio respeitoso por todo o tempo, mas sem perder a harmonia durante o desfile de sua escola; das moças argentinas que iam de um lado a outro especulando os aparentemente disponíveis; do senhor britânico, verdadeiro “Doutor Livingstone”, impassível a cada desfile, como se estivesse numa partida de Wimbledon; e da gringa mal educada, que passou parte da noite em minha frente, ostentando um penacho na cabeça – praticamente minha visão por parte da noite.

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Imagine o seguinte diálogo.

- Você é o responsável pela Porto da Pedra?
- Sou, sim. Pois não.
- Olhe, meu amigo, tenho aqui a grande oportunidade da história de sua escola. Pense em todo o dinheiro que você puder imaginar. Grana suficiente para montar os mais belos carros, as fantasias mais brilhantes, a combinação mais linda de texturas, cores e elementos tecnológicos. O que acha?
- Acho ótimo! Mas… Assim, de mão beijada?
- Mmmhhh… Bem, na verdade, tem um requisito. O enredo precisa ser IOGURTE.
- Cuma?
- Iogurte, oras. E podia ter lactobacilos vivos na comissão de frente. E uma ala da coalhada. Ah, e um carro cheirando morango…

Só pode ter sido assim, e por mais que eu tenha me esforçado, só a tigrinha do abre-alas salvou. Iogurte? Enfim, depois da queda, li uma declaração do presidente. “Não me arrependo, Carnaval é negócio”. Bem feito.

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A propósito, Paulo Barros, espécie de Joãosinho Trinta de uns 20 anos atrás: “adoraria ter feito um desfile sobre iogurte”.

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A propósito, Max Lopes, espécie de Max Lopes de uns 20 anos atrás: “não fui demitido, saí da Imperatriz numa boa”. Não importa: pagou o preço por ter ignorado a bruxinha. Em abril de 2011, ao saber das intenções da tradicional escola de Ramos, a bruxinha redigiu uma mensagem endereçada a Max Lopes, apresentando-se como especialista em Jorge Amado e disposta a contribuir para um desfile extraordinariamente sensacional. Foi ignorada. Resultado: escola empacada com carros problemáticos; teto caído na Casa de Cultura estilizada do último carro; Donaflor grafado assim; sambinha mais ou menos, Max Lopes demitido. Mexe com a bruxinha, mexe.

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Definitivamente, a bruxinha e eu somos especialistas em Carnaval. Acreditávamos que a Renascer tinha chances de ficar no Grupo Especial. Adoramos a Comissão de Frente da Mocidade, bem como a solução de um carro: Dom Quixote saindo de um livro, em alusão a uma ilustração de Portinari. “Os caras da Imperatriz deviam ter feito isso”. A propósito, tanto Mocidade quanto Beija-Flor – a maior torcida presente no sambódromo naquele domingo – foram ovacionadas com aquele desconfiante grito de “é campeão”. O sono e o cansaço nos privou do desfile da Vila Isabel, considerado o melhor do primeiro dia. Mas na caminhada pela Presidente Vargas, ao lado da concentração, encontramos atrás da grade um feliz Martinho da Vila posicionado em seu carro. Os gritos dos populares resultaram num aceno. Enfim, deu tempo de chegar ao hotel, ligar a TV e vê-lo passando perto da torre de TV. Além de alguns peitões.

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Aparentemente, nem todo mundo estava ligado nos desfiles. Mal nos acomodamos na arquibancada, o guri que nos acompanhava pediu meu celular para brincar de “fruit ninja” ao som da bateria. Foi assim até a bateria acabar – a da escola, a do aparelho e a dele, que cochilou durante a passagem da Mocidade. Antes, deu tempo de interagir com Johanes, simpático alemão de Munique, que acompanhava o carnaval carioca pela primeira vez, ao lado de sua companheira Sophia, de Viena. Ofereceu seu Cheetos, mostrou seu recorde após destroçar melancias e ganhou balinha. Aprendeu a falar “danke schoen”, aumentando o sorriso do casal.

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A propósito, no dia seguinte, o rapazinho nos surpreendeu, cantarolando “as cores da felicidaaadeee… Na minha aquareeelaaa…”. Ora vejam, era o samba da Mocidade, que passou quando ele estava em estado de sonolência! Sinal de que há um fundo de verdade naqueles velhos esquemas do tipo “aprenda inglês dormindo”, com fitas-cassete e fones adaptáveis ao travesseiro!

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A maioria das imagens desse texto são da Sapucaí, pinçadas da máquina da bruxinha. Tinha outras fotos bacanas para compartilhar, mas não deu. Assim que pegamos o carro em direção a Dutra, na manhã da quarta-feira de cinzas, vacilei ao parar no semáforo e fui surpreendido por um sujeito de boné, que se apresentou na janela levantando a camisa e mostrando uma arma na cintura. Passou pouco mais de um minuto pedindo celulares, dinheiro, colares, ameaçando “cometer alguma besteira ao contar até três”. Dos males, o menor: com o sinal verde, pediu simplesmente para “arrancarmos dali” – o que fiz prontamente, momentaneamente na contramão da via paralela a praia do Flamengo. “Fico muito chateada por vocês e envergonhada da minha cidade”, disse uma amiga, ao saber o que houve. Seria injusto punir o Rio, ainda mais depois de um feriado sem qualquer contratempo. Até porque, a mesma cena poderia ter sido em São Paulo.

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A propósito, conhece a função “Find My iPhone”, aquela que te dá a localização do seu aparelho num mapa, mediante seu login e senha no iCloud? Desde minutos após o assalto até agora, aguardo ansiosamente algum aviso diferente de “desconectado”. Ao menos o backup de dados do aparelhinho funciona lindamente.

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Ouvi do mesmo garotinho sapeca um pedido aos mestres acadêmicos do ar-condicionado:

- Eu queria um sabre de luz de presente…

E eu voltei dessa viagem querendo ter aproveitado mais a atmosfera carnavalesca das ruas; experimentar o tal rodízio de petiscos em algum boteco na orla; passar mais tempo com a Luninha, a Viva, a Cláudia; arquitetar um encontro entre o guri, recém-aceito em um conservatório musical, com o Léo, músico profissional que estava bem perto da gente; ter a chance de dar um abraço nas duas Lúcias: uma que convenceu a amiga, há um ano, das delícias cariocas de momo; outra que não faz ideia, mas fez com que o menino sonhador dormisse feliz da vida abraçado em uma marmota de pelúcia que ganhei há algum tempo; e finalmente sonhar com o dia em que será possível passar por momentos especiais com mais frequência. Saudade do tempo em que meus pedidos eram simples como o de uma criança, ainda que a lição seja a mesma: a vida se move na velocidade dos nossos desejos.

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Enfim, bem que tentei matar saudades da Sapucaí ao sintonizar o SBT durante o Desfile das Campeãs, no sábado que recebemos de volta a hora que pegamos emprestado em outubro. Então Carlos Nascimento, diante da serpente que muitos viram no dia (e que uma equipe de transmissão deveria estar preparada para saber), leu seu script: “E este é o carro abre-alas, que relaciona as lendas indígenas com o Maranhão…”. Seguido pelo comentarista: “Bem, na verdade, essa é a comissão de frente…”. Minutos depois, quando os componentes “saíram da cobra”, o âncora se surpreende: “Ei, vocês viram isso? Viram isso???”. Desliguei a TV e fui deitar, afinal, já fomos mais inteligentes.

Agora sim, feliz ano novo.

Feliz 1984

Por Marmota | 02/02/2012, 12h44

Sabe quando um comentarista de futebol cai na armadilha de avaliar como está o jogo e cravar algum prognóstico nos primeiros cinco minutos? Sabemos que é burrice soltar um “o desempenho do time da casa promete” e ser surpreendido por um gol sem querer dos visitantes aos quarenta do segundo tempo. Mas a frase acaba saindo, com facilidade de tamanho equivalente ao nosso medo do desconhecido. O futebol, assim como a vida, é uma caixinha de surpresas. E como é difícil aceitar isso.

Eu também banquei o tolo ao me esconder no meio do mato a partir dos últimos dias de dezembro. Quando janeiro deu as caras, soltei um atrevido “feliz ano da marmota”, numa alusão pouco criativa (e mentirosa) ao dois de fevereiro. Nosso dia de Iemanjá tem outro significado em um impronunciável município canadense norte-americano (bem observado, Adriano!) onde um ritual envolvendo o roedor prevê o rigor do inverno local. Creia (ou não) na rainha das águas ou no rei do buraco, Bill Murray e Andie MacDowell, sob a batuta de Harold Ramis (o Egon dos Caça-Fantasmas), ainda nos fizeram acreditar que o intervalo de tempo “da marmota” é aquele no qual a rotina é a única possibilidade.

Ao dizer “feliz ano da marmota”, quis confortar minha mente ao disfarçar meu incômodo, como se quisesse ignorar as surpresas da vida. Não sei quanto a você, mas olho para os últimos trinta dias e vejo reflexos de um turbilhão. Mesmo que elas sejam inevitáveis, insisti em uma negociação com o futuro. Lembrei que, desde as gambiarras no calendário feitas pela Igreja em 1582 e sua adoção universal ao longo dos séculos seguintes, temos uma coincidência: os dias do ano se repetem a cada 28 anos. Dessa forma, 2012 segue o mesmo caminho de 1984.


A URSS ainda existia…

Eu tinha seis anos naquela virada de ano. A imagem que surge em minha mente é a da televisão ligada no Viva a Noite (era aos sábados), com a Marriete, o Liminha, o Bugalu e a Galinha Azul revezando-se no papel de ponteiros num cronômetro, até o Gugu desejar felicidades enquanto um “Feliz 84″ surgia no GC. Foi o ano de inauguração da Sapucaí, e a recém inaugurada TV Manchete mostrou com exclusividade aquele Carnaval – eu mesmo imaginei, por muito tempo, que aquele M ao final do desfile tinha a ver com a emissora… Curiosamente, vejam, a passarela do samba carioca passou por uma boa reforma: vai estar diferente, com novas arquibancadas para a festa de Momo dentro de alguns dias.

Claro que as coincidências existem apenas diante de quem as veem. As mais evidentes: 84 e 12 são anos bissextos; e também teremos Olimpíadas. Em Los Angeles, vimos os soviéticos e outros países socialistas boicotarem os Jogos, numa resposta a ausência dos EUA em Moscou. Agora, o boicote vai ser só nosso, por conta de uma briga envolvendo direitos de transmissão – consolidada justamente nos anos 1980 para garantir a realização de um evento esportivo deficitário e ameaçado. Resolveram um problema, vieram outros.

Não lembro nada daquelas Olimpíadas, apenas do Joaquim Cruz, medalhista nos 400m. Também tinha um albinho de capa vermelha da Coca-Cola, denominado “passaporte para os Jogos”, com explicações sobre as modalidades e figurinhas do Pateta. Estava na primeira série, era aluno da tia Amélia. Uma escola nova, como uma folha sulfite prestes a ser rabiscada – historinha que escrevi no mesmo colégio pelos oito anos seguintes. Ainda que eu tenha mudado meu papel na sala de aula, o mês terminou com uma notícia incrível: uma escola nova, como um tablet de 64Gb esperando por novos conteúdos e aplicativos.

Mas voltando. A tensão entre URSS e EUA, que estava prestes ao seu auge naquele tempo, remete às palavras de George Orwell, escritor que cunhou a expressão “Guerra Fria”. Dizia que o homem destruiria seu planeta por meio de suas armas. Ainda no pós-guerra, ao final dos anos 1940, Orwell lançou outra obra, vislumbrando uma sociedade vigiada por câmeras, controlada e punida pela razão, representada pela imagem aterradora por trás de telas (o “Big Brother”). O livro, alusivo a um jeito cruel de acabarmos com o nosso mundo, chama-se 1984.

Foi também em 1984 que o diretor James Cameron exibiu sua versão de extermínio futurista nas telonas, com o Arnold Schwarzenegger no papel de andróide. Recentemente, o cinema nos trouxe outro blockbuster, misturando complicações climáticas e calendário maia: 2012. Nova coincidência: se naquele janeiro de 84 o povo se engajava pedindo eleições diretas e aguardava, após o sucesso da novela Champagne, a estréia da dupla Glória Perez e Aguinaldo Silva em uma novela (ninguém lembra de Partido Alto), nosso janeiro começou com a possibilidade do PT disputar a prefeitura de São Paulo com um vice indicado por um partido amorfo, dissidência do PFL – que, por sua vez, foi dissidência do PDS. Adicione o Michel Teló, a Mega-grávida de Taubaté e o Globo Esporte de São Paulo e Big Brother como entretenimento nas evidências do apocalipse e pronto.

Mas enfim. O ano de 1984 não teve só Exterminador do Futuro, mas também História Sem Fim (aquele do Atreio), Amor com Amor se Paga (aquele do Nonô Corrêa), Loucademia de Polícia, Jerônimo (aquele justiceiro do sertão!) e Caça-Fantasmas (aquele do Harold Ramis). Teve também o primeiro bebê de proveta do Brasil (hoje uma moça bonita de nome Anna Paula Bittencourt Caldeira), o lançamento do Macintosh (em um comercial que remete ao Big Brother de Orwell), Serginho Chulapa no Santos e Ayrton Senna na Toleman. Teve ainda uma pedra na vesícula da minha mãe, que naquele ano, foi diagnosticada como hepatite… E impressiona, ao vê-la passar mal 28 anos depois, uma legião de médicos ainda sofrerem para acharem um diagnóstico – descobri o que é fibromialgia depois de ouvir falar em reumatismo, dengue, toxoplasmose.

Relembrar as vitórias e os desafios também é viver, enquanto tentamos prever como será o amanhã. Passamos, sobrevivemos e aproveitamos por 1984. Que 2012 também seja divertido, promissor e surpreendente.

Recomeçando, de onde paramos

Por Marmota | 22/01/2012, 01h11

Antes de mais nada, um breve comentário. Dias atrás recebi um e-mail. Era de um desses novos profetas do maravilhoso universo moldado com a esfarelenta massinha de modelar da mídia social. Começava com um safado “olá” impessoal, seguido de “como você sabe, eu sou aquele cara que todo mundo conhece e estou cuidando de um negócio…”. Juro que, antes de escrever as linhas que seguem, veio uma vontade enorme de não provocar em você a mesma sensação rarefeita que senti diante da minha caixa postal.

Por isso, vou partir da premissa de que você, amigo navegante, ao clicar de repente em algum lugar abriu um texto de blog escrito em 2012 (já dá pra chamar isso de “vintage”?), não sabe nada sobre mim, menos ainda sobre uma pagininha de nome “marmota maia dos mesmos”, assim mesmo, no plural.

Marmota sou eu. Encantado em vê-lo aqui. Não é nome, evidentemente. Este é André, como devo ser lembrado por boa parte dos meus interlocutores. Meus pais, meu irmão e minha cunhada vez ou outra falam Dé. Algo similar ao que algumas das minhas ex-namoradas faziam – uma delas grafava “Deh” em nossas trocas de cartões. Outra grande mulher que conheço gosta de dizer meu nome e sobrenome, numa linda e marcante formalidade íntima: André Rosa. Nem sempre o achei belo. Muito antes da garotada banalizar o termo bullying, meus coleguinhas do primário cantavam a musiquinha de um comeercial alusivo ao lançamento dos bonecos da Turma da Mônica. Dizia “Chiiico Beeento e Rosiiinha…”. E Rosinha era eu.

De uns tempos pra cá, também me chamam bastante de “professor”. Foi o que decidi fazer da minha vida, depois de me divertir uns dez anos com jornalismo esportivo. Tenho amigos que perguntam se, além de dar aulas, também trabalho. Alguns destes, sem brincadeira. Eu mesmo sinto uma saudade danada da redação, dos incêndios, da correria, das pizzas às quartas-feiras durante a rodada. Então me dou conta que posso me dar ao luxo de programar uma vida a partir de finais de semana e feriados. Também olho por uma fresta na porta do mundo caótico que habitava: muitas das coisas que gostava não estão mais lá, enquanto raízes daninhas se fixaram no tronco. Aí a saudade passa.

Foi durante uma tarde rotineira de labuta, em 4 de setembro de 2002, que lembrei do papo com uma colega sobre algum site bacana mantido por um sujeito qualquer. Figura que talvez a gente nunca teria chance de saber o que gosta, o que pensa, o que faz. Não entendia exatamente por que um amontoado de cotidianidades interessaria outra pessoa. Mas achei aquele sisteminha de publicação simples, robusto e fascinante. Em poucos cliques, tinha um blog. Este aqui, pra ser exato.

Naquele ano, muita gente plugada na rede teve a mesma idéia. Compartilhavam sua presença por meio de uma interface baseada em teias compostas por zeros e uns. Até por isso, imaginava que o meu cantinho surgiu para ser mais um entre os muitos. Quer dizer, os mesmos. Aquela grande mulher que me referia há pouco me disse certa vez: a primeira impressão a meu respeito não foi das melhores. “Vou escrever pra esse idiota pra dizer que o correto é mais do mesmo”. Mal saberia que nossa convivência, bem como o nome deste espaço, também teria um bocado de licença poética.

Enfim. Contrariando o nome, este blog já mudou de sistema, de URL, de companhia. Começou no promissor “marmota.blogger.com.br”, e em poucas semanas, foi catapultado aos píncaros da fugaz popularidade virtual pelas constantes menções dos editores do serviço mantido pela Globo.com. Ganhou domínio próprio e experimentou o Movable Type, uma demonstração perfeita de tecnologia incapaz de se mostrar pertinente no decorrer do tempo. Namorou um tempinho com o WordPress antes de se casar com um projeto que sintetizou um período de efervescência: blogs organizados em condomínios, planos de negócio, monetização, manchetes que saltavam dos cadernos de informática para as revistas semanais. Era divertido, ainda que blogueiro famoso seja igual a Miss Cangaíba.

Por fim, influenciado por uma grande mulher (se não são elas em nossas vidas, hein…), meus textos organizados em ordem descrescente de data atracaram num portalzinho familiar, como se fosse aquela pracinha onde pessoas bacanas viessem bater papo ao redor do coreto. Um lugar tão legal que, se procurar por algum beco escuro, o incauto dá de cara com um poeminha.

E lá se vão, puxa vida, dez anos. Podemos dizer que este intervalo de tempo começa com algum heavy-user da web programando três ou nove postagens por meio de uma arcaica combinação de PHP com MySQL, antecipando a descrição de seu casamento com algumas cores e tons; e termina com este mesmo usuário exibindo em sua timeline do Facebook uma sutil mudança de status para “solteiro”, coisinha que cabe em pouco menos de 140 espaços. No meio destes dois pontos, cabem uns 60 milhões de brasileiros olhando através de janelas amigáveis baseadas em textos, fotos e vídeos, descobrindo as alegrias e decepções humanas de um jeito nada fácil de se entender. Ainda que eu duvide, talvez tenhamos sido mais inteligentes algum dia, como disse aquele outro jornalista.

Mas enfim. Eu mesmo me sentia uma fraude quando comecei a dar aulas de verdade. Foi assim que investi algum tempo (e alguma grana) em um mestrado acadêmico. Qualquer dia desses pretendo escrever mais sobre esse período. Mas já posso adiantar que foi um processo repleto de obstáculos… Dos dois anos que tive para entregar a dissertação, levei um ano e meio só para entender o que estava fazendo! De qualquer forma, gostei bastante do resultado final. Tanto que já penso seriamente em como vai ser meu doutorado – definitivamente, já fui mais inteligente algum dia.

Ah, sim. Nesse meio tempo, como todo castigo pra pobre é pouco, fui levado a outra investigação de cunho acadêmico: levantar hipóteses e aplicações empíricas relacionadas ao desejo das grandes mulheres. É uma arapuca sem fundo, mas já redigi a conclusão. Cabe em cinco palavras: “elas sempre querem outra coisa”.

Olho para frente e vejo ao longe perspectivas interessantes. Mas também gosto muito de olhar para trás, e este blog é uma coleção de fragmentos que, em um clique, emergem do passado e reaparecem. Enquanto passava as últimas semanas brincando de aparar a grama, varrer o quintal, ajustar templates e atualizar wordpress, encontrei comentários perdidos e sem aprovação nos cantos da sala. Como as jovens admiradas com a relação de um taurino com uma aquariana, compartilhando suas experiências similares – e pensar que a moça que inspirou essa trama já é mãe. Ou na legião de pilotos, aeromoças e passageiros divergindo sobre a experiência de voar num ATR-42 da Pantanal. E os mais injuriados, que frequentam o link mais acessado em todo o Dialetica.org: gente frustrada ao esbarrar na minha receita para fazer um carrinho de controle remoto.

Foi assim que percebi duas coisas. A primeira: entre as muitas formas de se aproveitar um blog, agrada-me a possibilidade de escrever despretensiosamente sobre o que der na telha (como agora), criar laços com quem aparece para dar uma lida ou mesmo conversar, reunir cada uma destas palavras num repositório capaz de compor minha identidade e, acima de tudo, não ter pressa para fazer nada disso.

A segunda: estava com saudades disso aqui… É como voltar ao nosso lar depois de um tempo viajando, minhas malas colocar no chão e meu cachorro me sorrir latindo.

Feliz fim de Páscoa

Por Marmota | 25/04/2011, 10h33

Fim de Páscoa

Eu já acreditei em coelho que põe ovos de chocolate. Já fui uma dessas felizes crianças que faziam ninhos de palha e papel picado na beira da janela, imaginando que o tal bicho de olhos vermelhos e pelo branquinho deixasse aquele monte de doces ali. Inclusive, teve uma vez que eu fui surpreendido por gotas d’água ao lado dos ovos. “Deve ter sido o coelho”, pensava.

Só depois de um tempo descobri que esse papo de coelho, na verdade, simboliza um tempo de fartura, fertilidade e prosperidade. Afinal, é no domingo de Páscoa que a ressurreição transforma o sofrimento e o sacrifício em amor. Infelizmente, cresci com a impressão distorcida: nossas crianças não estão nem aí pro sentido da Páscoa. Querem mesmo é comer chocolate.

Até na escola, onde a professora deveria ao menos explicar o sentido amplo desse “feriado prolongado onde vou viajar com os amiguinhos e ganhar lindos ovos recheados com bombons e brinquedos”, isso não acontece mais. É orelha de cartolina, bigode e nariz pintado no rosto e, é claro, mais chocolate.

O reflexo dessa imagem distorcida fica mais evidente no supermercado. Um ovo de 300g custando R$ 20, enquanto duas caixas de Bis, também com 300g, sai por R$ 4. Qual o sentido disso? Onde está o valor daquele cidadão que deu sua própria vida e, dois dias depois, surpreendeu aos cristãos e deixando sua mensagem de paz?

Ora, paz é o cacete: os fabricantes sabem que eu e você adoramos chocolate, e quando chega a Páscoa, a gente esquece o quanto nos sentimos enganados. Então vamos pagar dez vezes mais no mesmo produto, só por causa da forma de ovo. Há quem compre dúzias, e na hora de pagar, divida em doze vezes – só vai quitar sua dívida na Páscoa que vem.

Minha Páscoa era bem mais doce quando eu ainda acreditava no coelho. Mas tudo bem, apesar de tudo, ainda vou me divertir com chocolate até o fim da semana. Divirta-se você também.

(Postado em 08/04/2007)

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