Marmota, mais dos mesmos

Marmota, mais dos mesmos

Desde 2002, muito obrigado por nada.

Feliz clichê novo!

Por André Marmota | 31/12/2012, 17h39

Hoje é um novo dia, de um novo tempo que começou. Todo fim de ano é assim, e não seria diferente desta vez. Começa a temporada de apresentações do coral de Natal em Curitiba! O que fazer com as crianças hiperativas em férias? A magia do final de ano em Gramado: todos se encantam com o Natal Luz! Não dê vexame: saiba como agir nas festas de fim de ano na empresa! Comércio aquecido é sinônimo de postos temporários de trabalho: aproveite! Natal das lembrancinhas: brasileiro gasta em média cinquenta reais por presente. Procon denuncia: diferença de preços entre supermercados chega a 100%! Compras pela Internet se multiplicam, e lojas se desdobram para entregar as encomendas no prazo. Deixou para a última hora? Shoppings centeres e lojas ampliam seu horário de funcionamento! Voluntários se mobilizam e entregam centenas de presentes a crianças carentes! Veja o movimento nos maiores centros populares de compras do país! Economistas apontam: décimo terceiro será usado para quitar dívidas. Os espíritos do passado, presente e futuro aprontam altas confusões em Um Conto de Natal: na Sessão da Tarde! Dez mil ônibus extras no maior terminal rodoviário do país: vamos conferir o movimento ao vivo. Chef de cozinha indica receitas fáceis para sua ceia! Entenda como é a rotina de quem se dedica ao ofício de Papai Noel. E quem faz aniversário no Natal ganha dois presentes? Atriz da Globo abre as portas de sua casa e mostra os preparativos para a festa! Amigo secreto dos famosos no Fantástico! Papa Bento Dezesseis pede a paz em sua tradicional mensagem de fé e esperança em português! Acompanhe o rastreador do trenó do bom velhinho! Sobrou comida? É fácil reaproveitar os pratos da festança. Dirigente acredita em breve acerto com jogador em nível de seleção brasileira! Roberto Carlos Especial vai mexer com seus sentimentos no Fim de Ano da Globo! Atacante desmente negociação com time europeu em mais uma partida beneficente envolvendo ídolos de ontem e hoje! Veja o que abre e fecha nesse feriado prolongado. Viagem segura: veja que é importante checar em seu carro antes de pegar a estrada! Especialistas recomendam planejamento para as dívidas do começo de ano. Relembre os famosos que nos deixaram em nossa retrospectiva. Turistas contemplam decoração na Paulista e complica o trânsito mesmo à noite! Já é Ano Novo em Sydney! Lápis e papel na mão: anote as simpatias e as cores de roupas para entrar no ano novo com o pé direito! Queima de fogos em Copacabana reúne milhares de pessoas na celebração do reveillon! Nem a chuva tirou a animação de quem fez a festa na Paulista! Acompanhe um giro pelas em todo o Brasil! A animação aqui é grande e a festa não tem hora pra acabar! Veja como foi a tradicional contagem regressiva em Times Square! Videntes, astrólogos e outros esotéricos revelam quais são as previsões que o novo ano nos reserva! Estudantes trocam as férias pelos livros: vai começar a segunda fase da Fuvest e da Unicamp. Veja como alcançar as metas e proposições a serem cumpridas nos próximos 365 dias. Movimento é intenso nas estradas que levam ao litoral. Aumentam os acidentes fatais nas estradas federais nos últimos dias do ano. Nevascas causam transtornos em diversos estados norte-americanos. Rio recolhe toneladas de lixo da festa. Praias lotadas exigem cuidados com o sol e hidratação: acompanhe nossas dicas saudáveis. Confira os números sorteados na Mega Sena da Virada: o que você faria com tanto dinheiro? Queniano vence a São Silvestre! Rodízio em São Paulo só volta na semana que vem. Filme inédito em Tela Quente Especial! Começa o envio dos carnês do IPVA: saiba como pagar! Cerca de 5% dos presos liberados no indulto de Natal não voltaram. Escolas de samba já estão a todo o vapor: veja as imagens do ensaio técnico! Conheça o primeiro bebê nascido no Brasil neste primeiro de janeiro! Enchentes deixam milhares de desabrigados em São Paulo e na região serrana do Rio. Aeroportos lotados frustram quem desejava aproveitar as festas… Imagina na Copa.

Esse foi o nosso último programa ao vivo. Nas próximas semanas, você acompanha os nossos especiais. Boas festas, muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender.

Notificação para o fim do mundo

Por André Marmota | 20/12/2012, 20h12

Às vinte e doze de vinte do doze de vinte doze, encontrando-me no pleno gozo das minhas faculdades mentais, eu, titular deste loteamento de zeros e uns, declaro, para quem interessar possa e em especial para quem estiver aproveitando os minutos finais do planeta, que não consegui realizar todos os meus planos até a presente data. A bem da verdade, talvez não conseguisse mesmo se tivesse todo o tempo do mundo. Aos meus desejos ocultos, gostaria que vocês tivessem aparecido antes. Ao casal Eva e Adão, agradeço pelo cacófato e por terem comido a maçã: não fosse por isso, talvez jamais discutiríamos essa história de calendário maia, aquecimento global, exploração de recursos e consumismo depravado. Ao pessoal da agência de viagens, não precisa devolver o pacote que fiz pro Carnaval: de repente, vamos conseguir embarcar. Aos vendedores da concessionária, nem adianta ligarem mais: só vou conseguir trocar de carro se o IPI seguir o caminho das profecias apocalípticas. Aos meus credores, informo que, como não ia conseguir pagar, está tudo certo. Ao assaltante que me apontou uma arma e levou meu celular: espero que, ao invés de fumá-lo, ele tenha virado alguns pratos de comida. Aos meus familiares no Rio Grande do Sul, esses dias que antecedem as festas são especiais: é incrível fechar os olhos e voltar a um tempo que, infelizmente, não mais voltará. Aliás, devia ter ido mais vezes ao Rio, a Florianópolis, à Europa, a Belém do Pará; também devia ter ido ao Japão, já que é logo ali – como a África do Sul. À mocinha do meu primeiro beijo, saiba que sua família tão linda quanto seu sucesso profissional. Às mulheres que já me deram bola, incluindo uma linda companheira da faculdade, peço desculpas: eu nunca entendi nada dessas coisas, tanto que só namorei pra valer com quem escancarou suas intenções. À Pâmela Domingues, apresentadora da Gazeta, confesso que te acho uma gracinha. Aos meus alunos, foi um prazer ter descoberto, ao lado de vocês, aquilo que escolhi fazer na minha vida. Ao meu orientador no doutorado, ainda não consegui pensar no projeto mas gosto de trabalhar sob pressão… E como nosso prazo está no fim, confie. Aos meus amigos do Facebook, saibam que o Estatuto de Roma instituiu a corte internacional, aquela acionada para crimes de guerra, portanto dificilmente vão se meter a julgar se suas fotos ou textos podem ser úteis para fins comerciais sem a sua anuência. Além disso, nunca existiu uma Convenção Berner: há sim um acordo, assinado em Berna (Suíça) em 1886, um dos primeiros tratados assinados sobre direitos autorais – e que merece algum debate consistente, caso haja amanhã. Aos descrentes, sigam desconfiando: talvez seja este o caminho da salvação. Ao pessoal da rua, avisem que, caso ela ainda exista, vamos estar em casa na festinha de ano novo. Aos que compartilharam sua companhia presencial nos últimos anos, sinto que aproveitamos bem os instantes que tivemos, não? Ao Rodrigo, você não imagina a falta que você faz nesse mundo daqui. Aos três mosqueteiros nerds, sempre lembro do meu pai dizendo o quanto achava impressionante nossa relação durar tantos anos. Ao responsável pelos mais audaciosos e geniais empreendimentos que tive o prazer de trabalhar, penso que talvez nunca consiga correr como você, mas é sempre um prazer tentar alcançar suas ideias. Aos meus pais, é uma alegria saber que estão sempre comigo – se bem que, na hipótese de sobrevivermos, talvez já seja hora de aprender a cozinhar e a procurar um canto para chamar de meu. Ao meu irmão, tenho certeza de que sabe: invejo algumas de suas habilidades, por isso o admiro tanto. À mulher com quem sonho casar um dia, se eu perdi tempo demais preocupado em rotular o que éramos, ao mesmo tempo fico feliz em ter vivido tantas coisas lindas ao seu lado – e é isso que importa.

Em tempo, na Internet tem capital aberto, fechado, misto e até mesmo nenhum. Todos os que aqui estiverem são recomendados a publicar uma nota como esta, se quiserem. Ou se preferir, você pode copiar, colar e editar esta versão. Se você não publicar uma declaração pelo menos uma vez, você estará tacitamente permitindo o tempo passar sem que as suas melhores lembranças povoem sua mente.

Sobre como conheci, brevemente, a paquerinha do Caio

Por André Marmota | 07/12/2012, 02h51

Um dia de nossas vidas passa tão depressa que, quando a gente se dá conta, sobram metade das tarefas que deveriam ser feitas e já é madrugada. Repasso as notícias e me dou conta que há algo ainda mais estranho lá fora: morre quem você jamais imaginava, chamam um dispositivo plástico com pontos pretos numa tela de livro, e o Japão recém-recuperado de tremores, tsunami e Fukushima está diante de uma nova hecatombe, protagonizada por vinte mil insanos. As trombetas do apocalipse estão por toda parte, e não me refiro apenas aos temporais paulistanos inimagináveis, que surpreendem os incautos após longos períodos de sol.

Elas soam também em vagões do metrô.

- Caio…. Caio!!! Fale comigo!!!

Não era comigo. Na verdade, o Caio não estava ali. A mocinha, com uma bolsa a tiracolo e o celular no ouvido, encontrou seu cantinho, na minha frente, apertando-se junto à multidão que invadiu o trem da linha verde na estação Consolação.

- Você… O quê?! Está dizendo que não pode ir dormir na minha casa nesse fim de semana?

Dezenas de pessoas a bordo, cada qual em sua ilha. Eu também estava na minha. Conversava com gente que não estava ali, enviando e-mails via smartphone. Vez ou outra questiono se a impessoalidade nesses não-lugares é boa ou ruim… Aquela mocinha me fez lembrar que aquele momento de solitude coletiva faz tão bem quanto um desabafo em voz alta, como se ninguém estivesse ali.

- Então eu sacrifico as minhas coisas, passo dias ao seu lado… E você vem me dizer que não pode ficar comigo?

Tá, chega de escrever mensagens e filosofar sobre a vida, o universo e tudo mais. Fale mais, gracinha. Quer dizer que o Caio não quer ficar com você? Ah, vai ver ele está enrolado, fim de ano é assim mesmo. Ele deve pensar em fazer as coisas da melhor maneira possível, ao invés dos animais a nossa volta que, sem saber que calendário é uma mera convenção humana, corre com a mesma pressa dos idiotas que trafegam no acostamento quando está tudo parado. Dê um desconto pro Caio, ele não faz por mal. Além disso, é importante manter distância do outro de vez em quando. A saudade aumenta e o reencontro fica mais animado, não acha?

- Já chega. Não quero mais saber. Se você quiser ficar comigo, vai ter que me conquistar.

Opa. Agora a coisa ficou feia. Como assim, vai terminar com o Caio por causa de um fim de semana que ele decidiu cuidar da vida dele? Assim não dá, menina carente. Você deve ser muito interessante, inteligente… Certamente é uma namorada carinhosa e afetuosa. Mas quebrar a dinâmica de vocês assim? Você quer que ele te conquiste ou… Será que você não gosta do Caio tanto assim? Ah, quer saber, mocinha? Você nem é tão bonita assim. Tomara que o Caio encontre alguém menos emotiva e escandalosa.

- Sabe de uma coisa, Caio? A culpa é da sua mãe. Ela faz a sua cabeça, não quer que você saia do colo dela.

Caceta, mulher! Vai querer mesmo bater de frente com a mãe do Caio? Cheirou acetona? Talvez você nunca tenha se dado conta, mas todo homem, lá no fundo, quer ficar ao lado de sua mãe para sempre. Aqueles que declaram independência, vão morar sozinhos ou decidem dividir as coisas com alguém quer, no fundo, replicar aquilo que tinha em casa quando criança. Se você disser que não vai ter nada disso contigo, nem adianta brigar com o Caio. A não ser que ele seja um idiota completo, ele mesmo vai se dar conta e te despachar. E quer saber? Estou torcendo por ele. Só falta você me dizer agora que o seu perfil no Facebook é em connjunto com o Caio. “Meu Nominho Fofo e Caio Juntos Para Sempre”. Apamerda. Continua falando aí, vai.

- Não, Caio. Não estou reclamando da sua mãe. Eu gosto dela. Mas você é um fraco. Você não quer se indispor com a sua mãe, com ninguém… Com todos, menos comigo, Caio!!!

Mas que droga, Caio. Você é um herói, ouvindo essa histérica pacientemente. Nesse ponto ela pode até argumentar com um ou outro episódio… Mas não dê bola, cara. Com o tempo, você vai aprender, a duras penas, que essa coisa louca de querer conciliar os interesses dos seus amigos, dos seus pais, dessa mocinha, das outras mocinhas… Não só vai falhar miseravelmente, como também vai minar qualquer vontade genuína que você ainda carregue dentro de si. Enquanto esse dia glorioso, onde seus desejos voltarão a gritar que estão vivos, não caia na conversa dessa louca. Ela vai querer que você faça sempre aquilo que ela quer, mas ela nunca vai saber. Ou vai querer outra coisa. Se você entrar nessa de sempre agradar a maluca… Ferrou, Caio.

- E eu, Caio?!? E eu!!! Quantas vezes eu te ajudei, te defendi, te dei força quando precisava… E você faz isso comigo, Caio???

Puxa, estação Paraíso. Vou ter que descer, mocinha. Com licença, pode sentar no meu lugar.

Coisas estranhas acontecem. Clima louco. Notícias bizarras. Gente compartilhando sua existência em voz alta diante da multidão. Rapaz que nada tem a ver com o Caio acompanhando, elucubrando e vibrando como se estivesse num circo… Já fomos mais inteligentes, Nascimento. E se o mundo acabar daqui uns dias, não vai ser por causa de asteróide.

Dez anos, muitos abraços

Por André Marmota | 04/09/2012, 16h01

Eu tinha pensado em contratar fanfarra, esquadrilha aérea, strippers, buffet infantil, malabaristas especializados em pirofagia e um telão 3D. Infelizmente, não consegui patrocínio de nenhuma prefeitura ou empresa. Bom, também não corri arás dessas coisas como poderia…

De qualquer forma, não queria deixar passar essa data.

Numa tarde de quatro de setembro, dias depois da Globo.com ter lançado a versão nacional do Blogger, ouvi uma amiga falar desse tipo de site. Entrei, naveguei e pensei: “Mmmhhh… Acho que também posso fazer”. Ainda não tinha me dado conta, mas estava saltando da “era Geocities” para um tipo de brincadeira extremamente mais simples, algo acessível para qualquer um.

O primeiro post nasceu despretencioso. Assim como o próprio blog, cujo nome do blog representa exatamente o assunto que eu sempre pensei em discutir: mais dos mesmos. Nenhum tema focado. Apenas o mesmo que a maioria faz: comentar notícias, falar da vida, contar histórias, inventar outras. Em menos de um mês, a URL marmota.blogger.com.br começava a ser referenciada por aí – foi quando a coisa começou a ficar interessante: blog tornou-se sinônimo de gente.

Ao lembrar disso, cogitei enviar um e-mail convite a uma centena deles, agradecendo por fazer parte de uma história que completa uma década. Enfim, pela mesma razão pela qual não consegui a fanfarra e tudo mais, chamei uma pessoa só. Sem demérito a todos os outros, dei preferência a alguém que representa a aventura mais fascinante, imprevisível e desejada que vivi (e ainda vivo) graças a esse blog. Você já deve estar cansado de saber quem é.

*****

Passei os últimos dias pensando no que escrever sobre o MMM, nesses dez anos de vida.

Pensei em fazer estatísticas – coisa para a qual sou completamente inapta! –, em contar pela milésima vez a história de quando comecei a ler o blog, em montar um top five de posts impossíveis de selecionar, em dizer o quanto esse blog é das coisas mais família que já li.

Enfim.

***

Parei de escrever. Reli os posts de aniversário anteriores. Reli todos os posts “E eu, uma pedra”, que são meus favoritos.

Te liguei. Nossos assuntos foram: sítio (mato, mato, mato, mato, mato, facão, mato, mato, mato, mato, mato, urtigão, mato, mato, mato, mato, mato), Que Rei Sou Eu?, Iphone 5, Garotas que Dizem Ni, Gonza, a sobremesa que a Elis faz…

Ah, e você disse que eu escrevo como se estivesse abraçando quem lê. Eu achei tão bonito e agora estou com minha cara de abraço escrevendo.

***

Quando fomos assaltados eu fiquei mais abalada que você. Talvez por ter sido o primeiro assalto da minha vida, talvez por eu ser mulher – será machista pensar assim? – talvez porque aquele filme clichê de que todo mundo fala passou na minha cabeça naquele momento.

Lembrei de quando o marido da Fal morreu e eu li o post que ela escreveu sobre ele. Você estava tranquilo jogando pôquer com os amigos e eu te liguei meio louca dizendo pra você não morrer.

Apesar de escrevermos bem menos do que podemos, sabemos e/ou gostaríamos, fechar o blog seria morrer um pouco. Morrer essas histórias do Sul, de tempos de colégio, de comunicação, de viagens, de amores, das bobagens mais queridas de se conversar.

Morrer esses amigos feitos em caixas de comentários e/ou e-mails e extrapolados pra nossa emoção. Seria morrer um pouco porque blogs são pessoas, não é isso?

***

Agora já estou com minha cara de choro. :)

***

Sou leitora há sete anos do seu blog, mas já li os dez anos, você sabe. Já corrigi, já espinafrei, já comentei, já morri de ciúme, já escrevi e já fui escrita. Eu, inclusive, já coloquei todos os meus alunos de sexta série pra interpretar uns e outros textos daqui do seu blog – pra ver se eles me ajudavam a te interpretar! Hahahahahahahahaha!

Gosto do jeito que você escreve – você escreve infinitamente melhor do que eu. Didático quando precisa, irônico raramente, divertido sempre. Fazendo questionamentos a si mesmo e fazendo com que esses questionamentos povoem, ainda que por alguns instantes, a cabeça de quem lê.

E eu só quero poder ler o que você escreve sempre. Que muitas outras pessoas – acadêmicos, crianças, amigos, família – possam ter esse mesmo privilégio. Porque vir aqui no seu blog é como ir ao Pinheirinho em maio, é como reunir uma turma pra ir a um parque de diversões, é como juntar um pessoal pra jogar boliche ou wii: é ter a certeza, enfim, de se estar, amorosamente, rodeado de amigos.

E se estar, amorosamente, rodeado de amigos nada mais é do que um grande, doce, quente e apertado abraço.

Um abraço então e um beijo da RESB.

*****

Já que você chegou até aqui, que tal uma listinha de dez posts para ler aqui hoje?

  1. O primeiro post, mesmo sendo péssimo, a gente não esquece.
  2. Mega-entrevista com o MarcosVP, cujo blog também faria dez anos neste dia.
  3. Horóscopo do MMM, como se alguém acreditasse em astrologia.
  4. Futuro do pretérito: seu blog em 2012, há cinco anos.
  5. Outros dez anos, mas estes, os do Interney Blogs, ficarão na ficção.
  6. Minha última mudança, quando montei minha casa no Dialetica.
  7. Menor texto de parabéns já escrito aqui. Mas merece menção.
  8. Percepçào evidente: em 2008, os blogs já não eram mais aqueles…
  9. Um apelo singelo para sobrevivermos mais alguns anos….
  10. Minha última tentativa de reabrir a casa na praia durante o inverno.

Enfia o seu brinde no seu Bienal do Livro

Por André Marmota | 24/08/2012, 13h05

Você está no saguão de um aeroporto. Apressado, segurando a bagagem, procurando informações sobre como fugir do movimento enquanto realiza o check-in. Num piscar de olhos, resplandece uma figura uniformizada, portando uma prancheta e algumas revistas velhas. Como se fosse uma amiga de infância que vai embarcar com você, pergunta:

- Já pegou seu brinde, moço?

Vamos imaginar que esta situação seja inédita em sua vida. O pedido é tentador. Brinde?! Oba!! Quem não curte brinde?! Ora, é grátis!! Só um idiota recusaria um brinde, não?! Em minutos, dependendo da performance de quem aborda, é possível perceber a trama envolvendo o dito cujo, seus dados pessoais e um número válido de cartão de crédito. Seu lindo brinde se transforma em uma assinatura de uma revista qualquer. Que deselegante, não?

Mais intrigante do que a manobra engenhosa para aumentar a performance de um indicador é o fato deste discursinho do brinde ainda colar. Devo ter visto esse truque há uns cinco anos. Imaginava que seria tempo suficiente para um bom número de incautos entenderem a cilada – seja pessoalmente ou na voz de um amigo. A explicação “ora, se existe é porque deve funcionar”, a mesma usada por vendedores de infoprodutos ao estilo “ganhe dinheiro fácil na Internet”, revela nossa dificuldade em enxergar o mundo criticamente. E isso vale para os dois lados desse balcão de vendas.

É fato que o mercado editorial brasileiro nunca esteve para peixe. Não somos necessariamente um país de leitures. Os dados do Instituto Pró-Livro revelam que 55% da população é considerada leitora – isto é, que leu algum livro recentemente. Mais do que isso, o brasileiro em idade escolar (isto é, quando são obrigados) lê entre cinco e sete livros ao ano. Fica fácil entender o que leva as editoras de livros e revistas tratar seus produtos como algo empacotado para ser divertido e barato. Melhor ainda se tiver lindos brindes.

Isso explica a sensação de circular em uma Bienal do Livro no Anhembi. Evento que poderia ser chamado de Sacolão do Livro, sem nenhum demérito aos organizadores. Afinal, as intenções são evidentes: por mais que hajam palestras, lançamentos, tardes de autógrafo e alguns títulos que não se vê em todo lugar (como no estande das editoras universitárias), o que se espera é que se venda muito. Até por isso, mesmo bagunçada e histéria, a Bienal continuará assim. Faz parte do jogo.

Ao menos poderia haver mais espaço para atender a esta gama de perfis, desde o jovem leitor oba-oba atrás das promoções em baciada até o pseudo-cult que vê numa estante hermética um ritual particular. Ou ao menos, para citar um exemplo singelo, alguém que avistou o estande da Editora Abril e lembrou: “puxa, eles costumam lançar coleções bacanas, como a de culinária brasileira ou aqueles DVDs com os filmes oficiais das Copas. Será que trouxeram algum estoque para cá a preços módicos?”.

Não consegui me aproximar do estande. Uma morena alta e magra, camisa verde e calças brancas, surgiu em minha frente, sorrindo.

- Olá! Posso aproveitar o fato de você gostar de ler para conversar um minutinho?

“Uia! Como esta moça simpática e perspicaz foi capaz de adivinhar que eu gostava de ler?” Enfim, tinha pressa para continuar a peregrinação pelo pavilhão e tratei de adiantar o assunto.

- Já sei, minha querida. Você quer me oferecer um lindo brinde, não é?

- Isso! E você ainda…

- Desculpas, não precisa continuar. Você quer que eu assine uma das revistas de vocês, né? Obrigado, mas não tenho interesse.

- Espera aí, mocinho. Não é nada disso. Como é mesmo o seu nome?

“!?”

- Cuma?!

- Tá, não precisa me dizer se não quiser. Mas veja. Eu não estou aqui pra te vender assinatura nenhuma.

“Ah, vá!?” Fiquei realmente curioso para saber até onde iria essa conversa.

- Mmmhhh… Então conte mais.

- Preste atenção, não tem nada de assinatura. Estou aqui engajada numa missão de incentivo à leitura, tema permanente nesta Bienal do Livro e que também é alvo de reportagens na televisão, políticas públicas do Governo… Bom, essa campanha é estimulada por nós graças a uma promoção sensacional, que vai te presentear com algumas destas revistas sensacionais. Olha que legal: elas vão chegar na sua casa! E para participar você só precisa ter um cartão de crédito da bandeira Visa ou Mastercard…

“Será que ela acredita realmente no que diz?”. Fiquei alguns segundos em silêncio, pensando em como aquela criatura foi parar ali. Voltei ao meu tempo de faculdade, ávido por alguns trocados para gastar no cinema ou lanchonete e, ao mesmo tempo, tendo que pagar o curso. Sobreviver nesse mundo exige sacrifícios, como se submeter a uma lavagem cerebral para ficar diante de um estande ou trabalhar num call-center de vendas, em troca de cadastros que se convertem em comissão – injusta diante do preço que se paga por ela.

- Então… Deixa eu te explicar. Isso aí chama-se venda de assinatura. E como te disse, não quero. Tenha um bom trabalho.

É óbvio pensar que o interesse em receber uma revista em casa deve partir do cliente ao invés de estar atrelada a um um truque. Da mesma forma que essa vontade, sozinha, não paga as contas. Em algumas horas na Bienal, foram quatro ofertas de brinde – imagino que tenha sido a média para cada transeunte, e muitos devem ter mordido a isca.

A constatação de que todas as editoras de revista recrutaram uma horda de moças com prancheta diz muito sobre as nossas limitações. Não fossemos todos obrigados a passar por isso, pediria gentilmente para meu interlocutor pegar o brinde e responder aquela perguntinha clichê: o que é redondo, tem um furo no meio, começa com C e tem duas letras?

Isso, esqueça o brinde e vá ouvir um CD.

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