terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Feliz Dia da Marmota!

Esta data é um dia de festa em muitas cidades do país. Todas elas acordaram bem cedo para homenagear Nossa Senhora dos Navegantes. Especialmente em Porto Alegre, que festeja a padroeira da cidade. Longe do Brasil, no entanto, existe um lugar onde a tradição religiosa dá lugar a um ritual centenário – mais precisamente, desde 1887.

Este lugar chama-se Punxsutawney, fica no estado norte-americano da Pennsylvania, e a tradição chama-se Dia da Marmota – padroeira deste blog.

Claro que o “Groundhog Day” é comemorado em outras cidades dos EUA e Canadá neste dia 2 de fevereiro. Mas essa localidade, que fica a uns 120 quilômetros de PITTSBUUUURGH!!! (piada interna), entrou definitivamente para o mapa das cidades mais populares do planeta. Tudo graças ao seu mais conhecido habitante: a marmota Phil.

Aliás, esse bichinho passa o restante do ano tratado a pão-de-ló. Vive num ambiente climatizado na biblioteca da cidade. Lá ele passa o tempo se divertindo com a sua “esposa”, a marmota Phyllis. Só sai de seu mundinho de regalias às 7h25 da manhã do segundo dia do segundo mês. Sua missão: enxergar ou não sua própria sombra e anunciar ao mundo a chegada da primavera – ou a permanência do inverno por mais seis semanas.

Pois essa brincadeira protagonizada por um roedor de mais de 120 anos (ao menos é o que dizem os habitantes de Punxsutawney, atribuindo sua longevidade às regalias da biblioteca municipal) transformou o lugar na capital mundial do tempo. O Punxsutawney Groundhog Club, um grupo de cidadãos que organiza o festival anualmente, garante que a previsão funciona.

Mas será mesmo? Uma Convenção da Sociedade Americana de Meteorologia, realizada em Atlanta no ano passado, comparou as previsões de Phil desde 1887 com o que realmente aconteceu. Ele acertou em apenas 39% das vezes – ou seja, é mais confiavel jogar uma moeda para o alto (se der cara, vai chover) do que ouvir esse bicho picareta.

Uma pena. Porque em 2007, a marmota Phill já deixou seu prognóstico, garantindo que a primavera vai chegar mais cedo:

“El Nino has caused high winds, heavy snow, ice and freezing temperatures in the west.
Here in the East with much mild winter weather we have been blessed.

Global warming has caused a great debate.
This mild winter makes it seem just great.

On this Groundhog Day we think of one thing.
Will we have winter or will we have spring?

On Gobbler’s Knob I see no shadow today.
I predict that early spring is on the way.”

Ou não, né?

Os efeitos do “Groundhog Day” foram potencializados a partir de 1993, ano que a festança foi eternizada através do filme Feitiço do Tempo, dirigido pelo ótimo Harold Ramis (o Egon dos Caça-Fantasmas). Nele, o repórter mal-humorado Phil Connors (o sensacional Bill Murray) é escalado para anunciar ao vivo a previsão de Phil. Além da sua vontade louca de sair daquele buraco o quanto antes – e da presença da bela Rita (Andie MacDowell), o repórter é acometido por uma estranha maldição e passa a viver o mesmo dia, todos os dias.

O filme, que por razões óbvias já virou um clássico para mim, curiosamente não foi rodado em Punxsutawney, mas sim em Woodstock, Illinois. Isso porque a cidade original, apesar do seu potencial turístico elevadíssimo, fica na zona rural, e seu acesso é bem difícil. Assim, a Columbia Pictures decidiu filmar a história num lugar mais acessível – e eu pensava que só o nome do lugar fosse complicado.

Aliás, o argumento dessa comédia deliciosa fez com que o “Dia da Marmota” ganhasse um outro significado, válido inclusive para os outros 364 dias do ano: quem nunca teve a sensação desagradável de viver, viver e viver sempre o mesmo dia – ainda que, fora da ficção, a folhinha insista em virar impiedosamente?

(Postado em 02//02/2007)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

11.01.10 11:01:10

Vejam que combinação binária curiosa que pode ser feita neste exato momento.

Reparem ainda que essas combinações curiosas podiam ser feitas também ontem, dia dez. Ou dia primeiro. Também poderão ser feitas nos dias primeiro, dez e onze de outubro e novembro.

Sabe o que isso significa? Que ainda faltam algumas longas semanas pra que essas datas aconteçam, e até lá seria uma boa idéia parar de pensar em coisas assim, focando em resultados mais pragmáticos.

Especialmente em uma segunda-feira.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Três historinhas que ouvi no reveilão da minha rua

Cansou de ouvir falar sobre chuva, corpos, Boris Casoy, BBB e outras ladainhas desse princípio de ano? Pois puxe a cadeira e sente um pouquinho. Vou aproveitar meu pique de janeiro pra lhe contar alguns causos que ouvi nos últimos minutos de 2009, enquanto os fogos espocavam no extremo leste da capital paulista.

***

No início dos anos 90, um menino brincava com outras crianças aqui dos arredores. Devia ter uns seis, sete anos. Era um garoto querido por todos, mas não tanto quanto pelos seus tios, que cuidavam dele após os pais largá-lo pelo mundo e sumirem. Nem mesmo esse histórico parecia terminar com o sorriso dele.

Apesar de faceiro, o moleque também aprontava um bocado. Numa manhã qualquer daquela época, inventou de sair de casa sem avisar, pular um muro e subir em cima de telhados alheios. Foi uma luta para “resgatá-lo” da rua… Enfim, era uma época divertida, onde a garotada não tinha preocupações ou responsabilidades mais duras do que “não salte mais por aí”…

De um dia para outro, o baixinho sumiu. Dias depois, soubemos que sua avó apareceu em São Paulo, “reivindicando” sua guarda – convém lembrar que as duas famílias são humildes o suficiente para que esse tipo de “acordo” seja feito olho no olho, sem qualquer intervenção judicial. Assim, aquela criança sorridente foi saltar muros e subir em telhados no interior, longe do carinho dos tios e vizinhos.

Nunca mais tive notícias, até a meia-noite da virada. Soube que a história de vida daquele garoto passou por reviravoltas tremendas. A avó, ao contrário do que se supunha, deu de ombros e largou a criação dele à própria sorte. Circulou entre unidades de detenção para menores e, como infelizmente ocorre nas “febens” do mundo, aprendeu o bastante para se envolver em novas roubadas e ser preso, após completar dezoito anos.

Muitos que não tiveram indulto celebraram a chegada de 2010 numa cela. Certamente nem todos conseguem associar esta imagem a um rosto, qualquer que seja. Pensar que um desses era um menino feliz, que morava ao seu lado e poderia ser um sujeito trabalhador como as outras crianças da época, nos dá uma sensação de impotência muito forte.

***

Outro garoto, da mesma época, é uma espécie de referência: seu nome é usado frequentemente quando se vê um moleque fazendo malcriações. “Vê se toma jeito, olha o exemplo do menino lá, mire-se nele”. Era como a gente, brincando de pega-pega, esconde-esconde, pula-corda e queimdada. Também adorava brincar aqui em casa, ao ponto de chamar minha mãe de mãe também. Só tinha uma diferença: descobriu um câncer na bexiga, aos cinco anos.

Foi o pai dele que, enquanto tinha o filho no colo se queixando de dores, descobriu o tumor ao acaso, passando a mão em sua barriga e descobrindo um carocinho. Dali para a mesa de cirurgia, o processo foi rápido, porém tenso. O processo de recuperação, que incluia agressivas sessões de quimioterapia, só fizeram com que ele tornasse ainda mais querido pelos moradores.

O menino cresceu, sempre alegre e – o mais importante – saudável. Brincava, comemorava, estudava, passeava, trabalhava… Formou-se técnico em enfermagem e se meteu em altas aventuras nos mais loucos ambulatórios, hospitais, pronto-socorros e afins.

Então o abracei novamente ao lhe desejar feliz ano novo – mas rapidamente, afinal o rapaz precisava dormir rapidamente, seu plantão comecaria horas depois. Estava todo empolgado, pois tratava-se de um emprego recém conquistado, num desses hospitais famosos da capital. Ah, quando a vizinhança tomar conhecimento… Aí sim esse papo de “siga o exemplo do menino lá” vai ficar insuportável.

Mas o mais curioso ele deixou para contar antes de sair. “Vou trabalhar com pacientes da oncologia!”, disse, entusiasmado, emendando que a vaga surgiu completamente ao acaso. Mesmo sem querer, ninguém melhor do que ele para conversar e cuidar com quem passa por situações semelhantes a dele. É quando a medicina se encontra com aquilo que não podemos compreender sem uma crença: “foi Deus quem quis assim”.

***

Nem todo mundo estava plenamente alegre. Num dos abraços que recebi, percebi que faltava algo no sorriso daquela jovem senhora. “O que foi? Teve um dia cansativo cuidando da casa e dos pentelhos que a bagunçam?”, questionei. “Ih, nem te conto… Passei o dia todo assim, pensando na vida, na morte…”. Eu, hein?!?. Mais tarde, ela me contou o estranho sonho que teve na noite anterior.

Diz ela que, durante a madrugada quente do dia 31, sentiu como se sua alma desprendesse do corpo. Foi quando se viu diante de seus pais, já falecidos. Como se estivessem ali, ao lado da cama, vigiando o sono dela. “Você acredita?”, perguntou. Preferi dizer: “continue, o que mais?”.

Então ela e os pais foram transportados para um ambiente sombrio, assustador, repleto de portas. Outras pessoas (ou almas, sei lá) circulavam por ali, como se estivessem procurando alguém. “Então eu me perdi dos meus pais, me senti ainda mais aflita e perdida nesse lugar estranho”, contou, com um brilho estranho no olhar.

“Será que é para um lugar assim que vamos depois de morrer?”, questionou, enquanto concluía o pesadelo. Antes de acordar, tensa e sentindo um estranho mal-estar, ainda enxergou um acidente aéreo. “Sonho com isso diversas vezes, e foi assim essa noite. Fiquei sem entender o que uma coisa tinha a ver com outra, mas foi horrível do mesmo jeito”, concluiu, respirando fundo.

Não sou espírita, também não tenho referência alguma para interpretar nada disso. Poderia simplesmente perguntar o que ela bebeu ou comeu naquela noite. Naquele instante, só consegui perguntar: “mas você acendeu uma vela, um incenso, qualquer coisa?”. A resposta foi “claro que sim”. É aquele velho chavão útil para assuntos do gênero: yo no creo en brujas; pero que las hay, las hay.

***

Histórias boas, ruins ou sem qualquer adjetivo possível… Assim será permeado, inevitavelmente, o seu ano novo. Aproveite bem todas elas.

Próxima página »

2002 - 2010 • Sob licença Creative Commons • Usando adaptação do tema Swiss Cool no bom e velho Wordpress