Algo a mais…

Blog da Luna Vale

‘E Deus descansou no sétimo dia…’ Ou não

Por Luninha | 24/04/2010, 11h07

Feriado prolongado e a galera logo pensa em praia. Digamos que você more perto e não precise pegar um ônibus para chegar. Mas o sol está forte e você resolve tomar um mate quando de repente se da conta: não passa nenhum vendedor na praia. Procura então os barraqueiros… nada. Quando você olha em volta, percebe que não há pessoas trabalhando, nem na areia, nem nos postos de salvamento ou nos quiosques. Por quê? Porque é feriado oras! E, afinal, ninguém trabalha no feriado! Ou não.

A situação acima é hipotética, mas serve para demonstrar que nem todo mundo folga nesses dias santos. E a gente não da valor a isso. Digo “a gente” porque admito que só me dei conta da quantidade de gente que trabalha nos feriados e fim de semanas quando passei a fazer parte de grupo.

Jornalistas (e todos envolvidos no processo), médicos, comerciantes de shopping, porteiros, garçons e cozinheiros, pessoas ligadas ao turismo, vendedores de rua, motoristas e cobradores, taxistas, esportistas e por aí vai. A lista é maior do que se imagina.

Quando a pessoa faz o que gosta, tanto faz trabalhar segunda ou sábado. E, sinceramente, melhor trabalhar fins de semana e feriados com algo que a gente goste do que apenas nos dias úteis e ser infeliz na profissão.  Mas, cá entre nós, é chato demais ouvir “Mas você trabalha amanhã? Amanhã é feriado .”

É claro que quem não trabalha tem mais é que curtir o feriado mesmo. Mas não custa ter em mente que, se você está curtindo, seja vendo TV em casa, é porque tem alguém trabalhando para que você possa aproveitar o seu dia de folga.

Dia do consumidor, onde consumi dor à beça e não tinha nem morfina (sim, trocadilhos infames: trabalhamos)

Por Luninha | 18/03/2010, 21h38

O blog hoje foi aberto especialmente para que a grande amiga Patricia pudesse publicar o seu texto a seguir:
“Tanto que eu queria fazer parte do stablishment, especialmente do universo da publicidade e criação, desde muito nova. Eis que agora tenho acesso a ele e tudo ruiu. É tudo fake, pasteurizado, a cultura geral vigente nas agências, aqui generalizando, é rasa como um pires, poucos leem – muitos fazem chiste quando me veem lendo na hora do almoço, uma das poucas que me sobram para este meu raro prazer, já que os ônibus nos quais ando estão quase sempre cheios.

As campanhas são ditadas pelos clientes, um tanto alienados e ávidos por resultado$ rápidos. E os publicitários não têm a criatividade que eu sempre achei que tivessem. Aliás, não lhes falta apenas criatividade, mas, para muitos, até mesmo um português minimamente correto.
Estou como revisora e assistente de criação (sim, assumi as duas funções, embora com o salário de uma, e ai de mim se reclamar), ajudando a fazer publicidade da mais rasteira destinada à classe mais rica e acéfala do País, que vê comerciais que afirmam que se seu carro estiver com o perfuminho tal, qualquer pessoa irá querer andar nele (dentro do velho clichê mocinho dono do carro e mocinha como uma “simples” atendente de pedágio. Poderiam inverter a ordem aqui, para ao menos NISSO serem diferentes) ou de jipões cujos obstáculos à sua frente não são nada – nem mesmo os que dizem respeito à natureza – e se regozija.

E eu, claro, só quero sumir.

Cadê a propaganda do primeiro sutiã? Da Caloi? Os slogans inesquecíveis como “Barbie, tudo o que você quer ser” (por mais que eu nunca, em hipótese alguma, tenha querido ser uma Barbie, e ache uma campanha, analisando hoje, de um sadismo danado), “Eu sou você amanhã”, “Faber Castell: sua companhia para ler, desenhar e pintar” e outras tantas? Cadê as campanhas da Parmalat (muito apelativas, qualquer campanha com crianças sempre é, mas enfim, tinha sua graça e criatividade, perto de hoje), da Estrela com seu jingle inesquecível para pessoas com mais de 27 anos e, claro, seus pais?
Não adianta eu ler tanto, ter ideias, conversar com criação e diretores de arte, dar e pedir sugestões. Já cheguei à conclusão de que é tudo ilusório e vai continuar essa porcaria mesmo. Os clientes mandam, o povo anestesiado assiste e – pasme – gosta e agora é ladeira abaixo.

Eu nunca senti tanta frustração por não ter a capacidade de ter me dedicado às Letras, à escrita ou mesmo à Psicologia.
Não aguento nem mais escutar o publicitês. Budget, teaser, case de sucesso (misturar idiomas eu SEMPRE escutei ser errado na escola e na faculdade, como escrever Nova York, mas eles fazem parte de uma outra categoria, que tudo pode e cuja linguagem está acima do bem e do mal).
O inglês (e anglicismos em geral), aliás, é a língua predominante não só no ofício no qual me inseri por desespero de causa, mas dos produtos e anunciantes com os quais a agência trabalha: lançamentos imobiliários de alto padrão.

Passo o dia lendo “espaço gourmet”, “terraço grill”, “espaço fitness”. São lançamentos aos borbotões, muitos com mais de 400m de área construída e SEIS vagas na garagem. Para quem é paulistano, sabe o que condomínios com 80 apartamentos e seis vagas cada representam para o trânsito já mais do que caótico desta cidade. São cinco, seis, dez lançamentos no mesmo bairro. Muitos ressaltando as benesses de estarem próximos a alguma estação de metrô (por próximo entenda-se em alguns casos quase dois quilômetros) e, ao mesmo tempo, frisando as SEIS vagas na garagem. Sim, claaaro que numa família AAA algum deles se submeterá ao transporte público. Gasp.

A agência não trabalha só com isso, mas como a Lady Murphy é minha fiel escudeira, caí justamente nesta área absurdamente abominável. (Bom, como se a publicidade, seja qual for a área, não estivesse mesmo cada dia pior).
Lembro de um dia em que eu, aos 17 anos, entrevistei um publicitário cujo trabalho admirava muito. Ele era diretor de criação na W/Brasil. Bom, daquele dia até hoje já se vão 16 anos. Em certa parte da entrevista, ele disse, categórico: “Bom, eu sou publicitário e quero mais é que as pessoas gastem, bebam, fumem, usem a roupa tal ou comprem o carro que dê mais status”. Aquelas palavras foram um soco na cara, embora eu não pudesse esperar escutar outra coisa de uma pessoa na posição dele. A Pollyana ali era eu. E sou.

Dedico este texto ao dia do consumidor, com certo atraso, mas não consegui escrever antes. Sabe como é, estava revisando e dando sugestões (raramente acatadas) para persuadir pessoas a comprarem uma unidade do Unique, no bairro da moda, que será garantia de felicidade eterna para toda a sua família caucasiana de olhos claros de comercial de margarina (sem colesterol, de preferência, já que o estresse causado pelos enormes engarrafamentos provocados por centenas de famílias e seus seis carros já é suficiente para um ataque cardíaco).”

Patrícia

Futebol inocente

Por Luninha | 30/11/2009, 20h23

Hoje fui para o meu futebol como faço toda segunda e quarta. O treinador faltou e por isso algumas meninas foram embora portanto, não tínhamos o número suficiente de pessoas para completar dois times. Chamamos uma criançada de escola pública que estava pelo ginásio para jogarem conosco.  Eram cinco meninos e uma menina na faixa de uns 12 anos. Claro que na hora eles aceitaram e isso me fez pensar.

Será que se fossem mais velhos, eles aceitariam jogar contra mulheres? É bem possível que não, que preferissem não jogar a jogar com “meninas”. Só que crianças não têm tantos preconceitos quanto os adultos. Eles jogaram e se divertiram. Tomaram dezenas de gols, mas não estavam nem aí. Para a minha surpresa, não falaram nenhum palavrão, eu disse nenhum. Nem os considerados mais leves. Nada. E cada gol que eles faziam era comemorado como se fosse uma final de campeonato. Eles só queriam jogar bola e nós também. Cada bola errada era uma risada. Gritavam tanto que parecia haver dez crianças em quadra.

É um pequeno registro de algo que pode parecer sem importância, mas que faz a gente parar para pensar. Quantas vezes não deixamos de fazer coisas por puro preconceito? Não quero dar lição de moral, acho que isso é algo que todos nós fazemos. Mas de vez em quando, é bom parar, olhar para as crianças e lembrar que a vida pode ser muito mais divertida se deixarmos certos pré-conceitos de lado.

Um comportamento inexplicável*

Por Luninha | 19/11/2009, 11h43

Há algum tempo venho me perguntando, a cada jogo que assisto, porque as pessoas gostam tanto de futebol, porque eu gosto tanto desse esporte. Analisando friamente são apenas 22 jogadores correndo atrás de uma bola, com o objetivo de colocá-la dentro de retângulo com rede no fundo, além de um cara, normalmente com uma camisa escandalosa, que corre atrás dos jogadores para ter a certeza que eles estão fazendo tudo certo e dois caras que o ajudam.

Uma situação que me fez pensar um pouco mais sobre isso foi o jogo do Fluminense na quarta. Percebi que há muitas coisas com as quais eu não concordo no futebol como, por exemplo, o fato de as torcidas se xingarem. Eu sei, é inevitável, mas não seria muito mais legal ir ao jogo e ouvir a sua torcida incentivando o seu time, em vez de mandar a outra praquele lugar? Depois ninguém sabe como uma pessoa é capaz de matar outra apenas por não torcerem pelo mesmo time. Assim começa o fanatismo. Tudo bem, a pessoa fica chateada, triste, mas sair xingando e batendo em todo mundo? Por que aquelas pessoas se estressam muito e gritam com os jogadores? Por que xingam o juiz? Por que quem ganha tem que fazer barulho? Tudo bem comemorar, mas quem está em casa não tem nada a ver com isso.

Pois é, se tem tanta coisa que me irrita no futebol, porque eu gosto tanto? Porque futebol é isso. É uma paixão inexplicável por um time que a gente não sabe muito bem porque escolheu, é xingar os adversários, e ficar triste quando o seu time perde, é sair com a camisa, cheio de orgulho quando seu time ganha. É saber a posição do seu time no campeonato para poder jogar na cara dos amigos que o seu é o melhor. É sempre saber um título, mesmo que seja de 200 anos atrás, que os outros times não tenham e o seu tenha. É ir ao estádio assistir ao jogo às 21h45 da noite, mesmo sabendo que pode perder, é acordar as 03h30 da manhã para assistir a um jogo do Brasil, mesmo sabendo que não é importante. É comprar tudo verde e amarelo para torcer na Copa, é querer ver jogos que não são do Brasil, ou do seu time, simplesmente porque vão ser bons.

É gritar com os jogadores, xingar o técnico e chamar o juiz de ladrão, mesmo sabendo que eles não vão ouvir. É entender que os jogadores reclamam com o juiz para pressioná-lo, para que ele marque a favor daquele time. É saber a regra do impedimento. É ter horror às cores vermelha e preta juntas porque são as cores do time adversário. É preferir torcer para o River do que para o Flamengo ou Corinthians. É generalizar e dizer que todos os flamenguistas são favelados. É sempre classificar o time rival como sendo da terceira divisão, mesmo que isso tenha acontecido há anos.

Futebol é ter simpatia por pessoas que você nem conhece, mas que torcem pelo mesmo time que o seu. É tentar explicar para quem não entende que futebol tem graça sim e que essa graça é simplesmente inexplicável.

*Esse texto foi escrito há uns dois anos. Mas poderia, falcilmente, ter sido escrito nos dias de hoje.

Rio 2016. Por que não?

Por Luninha | 02/10/2009, 20h42

Pode-se dizer que hoje é o dia mais importante do ano para o esporte brasileiro. Na raça e no coração, o Rio conseguiu o direito de sediar as Olimpíadas de 2016. Podem me chamar de romântica, mas estava torcendo sim e para mim, foi uma conquista do Brasil.

Acho que merecemos sim, e muito! Temos a experiência de fazer o maior reveillon do mundo, o carnaval. Somos um povo alegre, que sabe receber os turistas. Vocês acham que na Europa não há malandros querendo enganar os gringos? Só no Rio isso acontece?! Na Europa não há problemas de pobreza? De violência?

Não entendo como nunca houve uma Olimpíadas na América do Sul. Logo um evento que preza tanto pelo tal “espírito olímpico”? Pela união de todos em prol do esporte, pelo fim do preconceito, pela igualdade entre os povos? Vão dizer que o continente não tinha nenhum país preparado, que não tinha condições, que os outros sempre têm melhores instalações. Por este raciocínio, Europa e EUA sempre vão ganhar. Afinal, contam com muito mais dinheiro e infra-estrutura que os chamados “países de terceiro mundo”.

Bem ou mal, o Pan 2007 funcionou. Teve corrupção? Sim. Superfaturamento? Sim. Instalações que não foram utilizadas depois? Sim. Mas nada é perfeito. Tudo isso sempre vai existir. Haja vista a Cidade da Música. Teve tudo isso e não vai deixar nada para a cidade. Olimpíadas não são como o Pan. As garantias são muito maiores, assim como as obrigações, as cobranças, os compromissos.

O Rio tem violência? Claro, mas que grande cidade não tem? Acham que em Chicago não há homicídios?? A diferença é que nós, brasileiros, adoramos falar mal do nosso próprio país. É fácil reclamar e minimizar as conquistas. Mas tenho certeza de que quem reclamou hoje, vai aproveitar, e muito, as Olimpíadas aqui. Seja indo assistir a algum esporte, sendo aproveitando as melhorias na cidade. Quem disse que não vai dar certo? Quem disse que as obras não ficarão prontas a tempo? Não sou romântica a ponto de achar que tudo vai ser perfeito. Mas não sou ranzinza a ponto de achar que o Rio não merece isso.

Pensem nos investimentos que a cidade vai ganhar. No aumento do número de turistas, no tão falado legado. Alguma coisa vai ficar e não serão só as instalações olímpicas. O Rio vai poder, finalmente, mostrar para o mundo que não é só samba, mulheres peladas, futebol e violência. Vamos poder provar que o Brasil não é pior do que os EUA porque é “menos desenvolvido”. Finalmente, o Rio vai poder se mostrar de verdade para o mundo.

É uma questão de trabalho e de cobrança. Quem hoje torceu contra e reclamou da escolha do Rio, deveria usar as energias para cobrar dos governos que tudo seja feito da forma correta. Tem coisas que não dependem da gente? Claro. Mas 2010 está aí. Até as Olimpíadas teremos mais duas eleições presidenciais e uma eleição municipal. Cabe a nós votar certo, com sabedoria para sabermos que nós fizemos a nossa parte para que tudo dê certo em 2016.

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