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Blog da Luna Vale

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Dia do consumidor, onde consumi dor à beça e não tinha nem morfina (sim, trocadilhos infames: trabalhamos)

Por Luninha | 18/03/2010, 21h38

O blog hoje foi aberto especialmente para que a grande amiga Patricia pudesse publicar o seu texto a seguir:
“Tanto que eu queria fazer parte do stablishment, especialmente do universo da publicidade e criação, desde muito nova. Eis que agora tenho acesso a ele e tudo ruiu. É tudo fake, pasteurizado, a cultura geral vigente nas agências, aqui generalizando, é rasa como um pires, poucos leem – muitos fazem chiste quando me veem lendo na hora do almoço, uma das poucas que me sobram para este meu raro prazer, já que os ônibus nos quais ando estão quase sempre cheios.

As campanhas são ditadas pelos clientes, um tanto alienados e ávidos por resultado$ rápidos. E os publicitários não têm a criatividade que eu sempre achei que tivessem. Aliás, não lhes falta apenas criatividade, mas, para muitos, até mesmo um português minimamente correto.
Estou como revisora e assistente de criação (sim, assumi as duas funções, embora com o salário de uma, e ai de mim se reclamar), ajudando a fazer publicidade da mais rasteira destinada à classe mais rica e acéfala do País, que vê comerciais que afirmam que se seu carro estiver com o perfuminho tal, qualquer pessoa irá querer andar nele (dentro do velho clichê mocinho dono do carro e mocinha como uma “simples” atendente de pedágio. Poderiam inverter a ordem aqui, para ao menos NISSO serem diferentes) ou de jipões cujos obstáculos à sua frente não são nada – nem mesmo os que dizem respeito à natureza – e se regozija.

E eu, claro, só quero sumir.

Cadê a propaganda do primeiro sutiã? Da Caloi? Os slogans inesquecíveis como “Barbie, tudo o que você quer ser” (por mais que eu nunca, em hipótese alguma, tenha querido ser uma Barbie, e ache uma campanha, analisando hoje, de um sadismo danado), “Eu sou você amanhã”, “Faber Castell: sua companhia para ler, desenhar e pintar” e outras tantas? Cadê as campanhas da Parmalat (muito apelativas, qualquer campanha com crianças sempre é, mas enfim, tinha sua graça e criatividade, perto de hoje), da Estrela com seu jingle inesquecível para pessoas com mais de 27 anos e, claro, seus pais?
Não adianta eu ler tanto, ter ideias, conversar com criação e diretores de arte, dar e pedir sugestões. Já cheguei à conclusão de que é tudo ilusório e vai continuar essa porcaria mesmo. Os clientes mandam, o povo anestesiado assiste e – pasme – gosta e agora é ladeira abaixo.

Eu nunca senti tanta frustração por não ter a capacidade de ter me dedicado às Letras, à escrita ou mesmo à Psicologia.
Não aguento nem mais escutar o publicitês. Budget, teaser, case de sucesso (misturar idiomas eu SEMPRE escutei ser errado na escola e na faculdade, como escrever Nova York, mas eles fazem parte de uma outra categoria, que tudo pode e cuja linguagem está acima do bem e do mal).
O inglês (e anglicismos em geral), aliás, é a língua predominante não só no ofício no qual me inseri por desespero de causa, mas dos produtos e anunciantes com os quais a agência trabalha: lançamentos imobiliários de alto padrão.

Passo o dia lendo “espaço gourmet”, “terraço grill”, “espaço fitness”. São lançamentos aos borbotões, muitos com mais de 400m de área construída e SEIS vagas na garagem. Para quem é paulistano, sabe o que condomínios com 80 apartamentos e seis vagas cada representam para o trânsito já mais do que caótico desta cidade. São cinco, seis, dez lançamentos no mesmo bairro. Muitos ressaltando as benesses de estarem próximos a alguma estação de metrô (por próximo entenda-se em alguns casos quase dois quilômetros) e, ao mesmo tempo, frisando as SEIS vagas na garagem. Sim, claaaro que numa família AAA algum deles se submeterá ao transporte público. Gasp.

A agência não trabalha só com isso, mas como a Lady Murphy é minha fiel escudeira, caí justamente nesta área absurdamente abominável. (Bom, como se a publicidade, seja qual for a área, não estivesse mesmo cada dia pior).
Lembro de um dia em que eu, aos 17 anos, entrevistei um publicitário cujo trabalho admirava muito. Ele era diretor de criação na W/Brasil. Bom, daquele dia até hoje já se vão 16 anos. Em certa parte da entrevista, ele disse, categórico: “Bom, eu sou publicitário e quero mais é que as pessoas gastem, bebam, fumem, usem a roupa tal ou comprem o carro que dê mais status”. Aquelas palavras foram um soco na cara, embora eu não pudesse esperar escutar outra coisa de uma pessoa na posição dele. A Pollyana ali era eu. E sou.

Dedico este texto ao dia do consumidor, com certo atraso, mas não consegui escrever antes. Sabe como é, estava revisando e dando sugestões (raramente acatadas) para persuadir pessoas a comprarem uma unidade do Unique, no bairro da moda, que será garantia de felicidade eterna para toda a sua família caucasiana de olhos claros de comercial de margarina (sem colesterol, de preferência, já que o estresse causado pelos enormes engarrafamentos provocados por centenas de famílias e seus seis carros já é suficiente para um ataque cardíaco).”

Patrícia
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