Dia do consumidor, onde consumi dor à beça e não tinha nem morfina (sim, trocadilhos infames: trabalhamos)
Por Luninha | 18/03/2010, 21h38
As campanhas são ditadas pelos clientes, um tanto alienados e ávidos por resultado$ rápidos. E os publicitários não têm a criatividade que eu sempre achei que tivessem. Aliás, não lhes falta apenas criatividade, mas, para muitos, até mesmo um português minimamente correto.
Estou como revisora e assistente de criação (sim, assumi as duas funções, embora com o salário de uma, e ai de mim se reclamar), ajudando a fazer publicidade da mais rasteira destinada à classe mais rica e acéfala do País, que vê comerciais que afirmam que se seu carro estiver com o perfuminho tal, qualquer pessoa irá querer andar nele (dentro do velho clichê mocinho dono do carro e mocinha como uma “simples” atendente de pedágio. Poderiam inverter a ordem aqui, para ao menos NISSO serem diferentes) ou de jipões cujos obstáculos à sua frente não são nada – nem mesmo os que dizem respeito à natureza – e se regozija.
E eu, claro, só quero sumir.
Não adianta eu ler tanto, ter ideias, conversar com criação e diretores de arte, dar e pedir sugestões. Já cheguei à conclusão de que é tudo ilusório e vai continuar essa porcaria mesmo. Os clientes mandam, o povo anestesiado assiste e – pasme – gosta e agora é ladeira abaixo.
Eu nunca senti tanta frustração por não ter a capacidade de ter me dedicado às Letras, à escrita ou mesmo à Psicologia.
Não aguento nem mais escutar o publicitês. Budget, teaser, case de sucesso (misturar idiomas eu SEMPRE escutei ser errado na escola e na faculdade, como escrever Nova York, mas eles fazem parte de uma outra categoria, que tudo pode e cuja linguagem está acima do bem e do mal).
O inglês (e anglicismos em geral), aliás, é a língua predominante não só no ofício no qual me inseri por desespero de causa, mas dos produtos e anunciantes com os quais a agência trabalha: lançamentos imobiliários de alto padrão.
Passo o dia lendo “espaço gourmet”, “terraço grill”, “espaço fitness”. São lançamentos aos borbotões, muitos com mais de 400m de área construída e SEIS vagas na garagem. Para quem é paulistano, sabe o que condomínios com 80 apartamentos e seis vagas cada representam para o trânsito já mais do que caótico desta cidade. São cinco, seis, dez lançamentos no mesmo bairro. Muitos ressaltando as benesses de estarem próximos a alguma estação de metrô (por próximo entenda-se em alguns casos quase dois quilômetros) e, ao mesmo tempo, frisando as SEIS vagas na garagem. Sim, claaaro que numa família AAA algum deles se submeterá ao transporte público. Gasp.
A agência não trabalha só com isso, mas como a Lady Murphy é minha fiel escudeira, caí justamente nesta área absurdamente abominável. (Bom, como se a publicidade, seja qual for a área, não estivesse mesmo cada dia pior).
Lembro de um dia em que eu, aos 17 anos, entrevistei um publicitário cujo trabalho admirava muito. Ele era diretor de criação na W/Brasil. Bom, daquele dia até hoje já se vão 16 anos. Em certa parte da entrevista, ele disse, categórico: “Bom, eu sou publicitário e quero mais é que as pessoas gastem, bebam, fumem, usem a roupa tal ou comprem o carro que dê mais status”. Aquelas palavras foram um soco na cara, embora eu não pudesse esperar escutar outra coisa de uma pessoa na posição dele. A Pollyana ali era eu. E sou.
Dedico este texto ao dia do consumidor, com certo atraso, mas não consegui escrever antes. Sabe como é, estava revisando e dando sugestões (raramente acatadas) para persuadir pessoas a comprarem uma unidade do Unique, no bairro da moda, que será garantia de felicidade eterna para toda a sua família caucasiana de olhos claros de comercial de margarina (sem colesterol, de preferência, já que o estresse causado pelos enormes engarrafamentos provocados por centenas de famílias e seus seis carros já é suficiente para um ataque cardíaco).”


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