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Blog da Luna Vale

Um país cheio de contrastes

 

Uma cerejeira carregada de frutos ao lado de um muro antigo e sem vida. Mas este não é um muro qualquer, é o que restou do Gueto de Varsóvia, construído pelos nazistas em 1940 para separar os judeus do resto da população. Esta é a Polônia, um país cheio de contrates, história e cultura.

 

A capital Varsóvia é marcada pelos diferentes estilos, de diferentes épocas: a cidade velha com igrejas do século XVII convive com os prédios largos, simples e cinzas dos anos de comunismo e com apenas um prédio de vidro, espelhado, como símbolo da era capitalista. O que impressiona é que a paisagem característica dos anos de ditadura soviética ainda domina a capital mesmo vinte anos após o fim do regime.

 

 Para entender a Polônia hoje, é preciso voltar no tempo e compreender a história do país. Antes da Primeira Guerra Mundial, o território era dividido entre Áustria-Hungria, Alemanha e Rússia, se tornando independente apenas em 1918. “O que sustentou a identidade nacional da Polônia foi o engajamento, sobretudo dos grandes poetas e escritores românticos e da Igreja católica. Ou seja, ela sobreviveu e reviveu pela arte, pela cultura e pela religião”, explica o tradutor polonês Tomasz Lychowski.

 

Foram menos de vinte anos de liberdade e autonomia: em 1º de setembro de 1939, o país foi invadido pela Alemanha. Começava a Segunda Guerra Mundial, o capítulo mais sangrento da história do país, que além de ter sido dividido entre Alemanha e União Soviética, foi um dos que mais sofreu com a guerra, contabilizando mais de seis milhões de mortos, a maioria judeus, e tendo o território devastado pelas batalhas. “Meu pai participou da resistência, foi preso e enviado para Auschwitz. Eu e minha mãe estivemos presos na prisão Pawiak em Varsóvia”, relembra Tomasz.

 

“Os fatores determinantes para o estabelecimento do comunismo no país foram muito mais externos que internos. Após o fim da guerra ficou decidido que os países da Europa oriental que foram libertados pelos soviéticos ficariam sob sua esfera de influência política”, explica o historiador Igor Gak. Além disso, no início da ocupação, em 1940, os soviéticos promoveram o massacre de Katyn, quando intelectuais, políticos e militares poloneses foram mortos, com o objetivo de dificultar a formação de grupos de resistência que se opusessem ao domínio soviético sobre o país. Entre 1947 e 1989 a Polônia foi um Estado autoritário sem partido de oposição.

 

É preciso diferenciar as Repúblicas Soviéticas das Repúblicas Socialistas. O primeiro era formado por países que já eram membros da URSS antes da Segunda Guerra. O segundo corresponde a países que permaneceram sob a influência direta de Moscou, com uma autonomia política que era anulada por conta da ocupação soviética. “No entanto, países como a Polônia manifestaram insatisfação e esboçaram resistência à presença militar soviética que impedia sua independência efetiva”, esclarece Igor.

 

Segundo o historiador André Fontaine no livro La guerre froide: 1917-1991(sem tradução para o português), a resistência polonesa iniciou movimentos de insubordinação não armada já em 1955, o que mostra que parte da sociedade se mostrava insatisfeita com o comunismo.“Foram longos anos de um estado policial e de uma economia estatal que deixou todo mundo mal, menos os detentores do poder, a esses nada faltava”, relembra Tomasz.

 

Com as questões políticas sob controle, a União Soviética tratou de regulamentar a economia. Em 1949 foi criado o Comitê de Assistência Econômica Mútua (COMECON), no qual cada membro era responsável por uma parte da produção necessária para suprir todo o bloco. Países como Polônia e Alemanha Oriental eram responsáveis pela produção industrial, enquanto países como Romênia dedicavam-se à produção agrícola. “Esse modelo impedia a emergência da competição econômica entre os países, vital no comércio entre países capitalistas”, justifica Igor.

 

Depois de política e economia, era preciso assegurar a segurança. Em 1955 é assinado o Pacto de Varsóvia, que tinha como objetivo básico a padronização dos armamentos e das doutrinas militares usadas pelos exércitos dos países signatários, sendo uma resposta à Otan criada seis anos antes pelos países aliados aos americanos.

 

Com as crises do petróleo nos anos 70, o desemprego e a inflação aumentaram, gerando greves e descontentamento da população. A resistência polonesa se deu por meio de um movimento sindicalista conhecido como Solidariedade. “É um movimento sindical anticomunista dos trabalhadores do porto de Gdansk, norte da Polônia, muito ligado também à Igreja Católica. Para esta última, o regime comunista era terrível porque considerava a religião algo prejudicial e a Polônia é um país muito católico e conservador”, explica Igor. A eleição do papa João Paulo II em 1978 ajudou a difundir o movimento e dificultou a repressão por parte dos soviéticos.

 

Em 1983, o principal líder do Movimento, Lech Walessa, ganhou o prêmio Nobel da paz. Com a queda do Muro de Berlim em 1989 e o fim da ditadura comunista imposta pelos soviéticos, o Solidariedade consegue a sua maior vitória: a eleição de 99% do senado e de Lech Walessa para a presidência em 1990.

 

This entry was posted on quinta-feira, junho 4th, 2009 at 13:23 and is filed under Sem categoria. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

One Response to “Um país cheio de contrastes”

  1. Bruno
    5:38 on junho 11th, 2009

    1. Pra qual país não se usou essa expressão ridícula: “um país cheio de contrates, história e cultura.”

    2. “O que impressiona é que a paisagem característica dos anos de ditadura soviética ainda domina a capital mesmo vinte anos após o fim do regime.” Bom, como toda capital da Europa Centro-Oriental. O contrário seria mais surpreendente, não? A grande maioria dos países na Europa tiveram que reconstruir rapidamente milhares de cidades destruídas na segunda guerra. Cada um a sua maneira, Londres com aquelas casinhas iguais, Viena com os conjuntos habitacionais de padrão socialista e os tradicionais blocos comunistas (Panelak). Toda cidade da Europa Central guarda como marca esses edifícios. Mesmo Praga, com o centro razoavelmente preservado, tem no contorno uma das maiores concentrações de Panelaks.

    3. “Com as crises do petróleo nos anos 70, o desemprego e a inflação aumentaram, gerando greves e descontentamento da população. A resistência polonesa se deu por meio de um movimento sindicalista conhecido como Solidariedade.” Nesse ponto existem vários problemas. O primeiro está em relacionar a crise do petróleo com desemprego e inflação num país do bloco comunista. A decisão da OPEC em elevar os preços, ou mesmo em embargar os Estados Unidos pelo apoio a Israel na guerra de Yom Kippur, teve efeito inverso no bloco comunista. A situação favoreceu estratégicamente a União Soviética, e a competitividade do preço do seu próprio Petróleo. A ligação dos soviéticos com alguns países árabes, ou a própria invasão do Afeganistão resultam mais ou menos disso. Em segundo lugar, o desemprego. Na verdade, desemprego durante o comunismo não era necessariamente um problema, salvo os casos de exclusão sumária por motivos políticos. Efetivamente não foram esses fatores, fundamentais sim na América Latina mas não na Polonia, que deram a base ao Solidarność. Criticas as condições de trabalho, repressão e críticas ao regime comunista parecem encaixar melhor no caso. Essa mesma crítica ao comunismo, resultado do descolamento entre sociedade e regime e descomprometimento com qualquer fator ideológico na Polonia se manifestou no Solidarność, na Tchecoslováquia no Fórum Cívico…. Com relação a perfomance economica na Europa Central e esse descolamento ideologico sugiro o ultimo filme do Miloš Forman na sua terra natal Hoři Ma Panenko (da pra baixar com legenda em inglês) ou uma pesquisa sobre o que ficou conhecido como “Goulash Communism”.

    4. Sobre o Lech Wałęsa, bom, o texto termina com a grande vitória gloriosa dele. Mas vale lembrar que cinco anos depois perdia a eleição depois de um regime frustrado e nas eleições seguintes sequer chegou a 1%.

    Perdão pela intromissão, eu admito meu preconceito com jornalismo, mas achei apropriado expandir alguns pontos como pouco funcionais no texto.

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