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Um país cheio de contrastes
junho 4th, 2009 Posted 13:23
Uma cerejeira carregada de frutos ao lado de um muro antigo e sem vida. Mas este não é um muro qualquer, é o que restou do Gueto de Varsóvia, construído pelos nazistas em 1940 para separar os judeus do resto da população. Esta é a Polônia, um país cheio de contrates, história e cultura.
A capital Varsóvia é marcada pelos diferentes estilos, de diferentes épocas: a cidade velha com igrejas do século XVII convive com os prédios largos, simples e cinzas dos anos de comunismo e com apenas um prédio de vidro, espelhado, como símbolo da era capitalista. O que impressiona é que a paisagem característica dos anos de ditadura soviética ainda domina a capital mesmo vinte anos após o fim do regime.
Para entender a Polônia hoje, é preciso voltar no tempo e compreender a história do país. Antes da Primeira Guerra Mundial, o território era dividido entre Áustria-Hungria, Alemanha e Rússia, se tornando independente apenas em 1918. “O que sustentou a identidade nacional da Polônia foi o engajamento, sobretudo dos grandes poetas e escritores românticos e da Igreja católica. Ou seja, ela sobreviveu e reviveu pela arte, pela cultura e pela religião”, explica o tradutor polonês Tomasz Lychowski.
Foram menos de vinte anos de liberdade e autonomia: em 1º de setembro de 1939, o país foi invadido pela Alemanha. Começava a Segunda Guerra Mundial, o capítulo mais sangrento da história do país, que além de ter sido dividido entre Alemanha e União Soviética, foi um dos que mais sofreu com a guerra, contabilizando mais de seis milhões de mortos, a maioria judeus, e tendo o território devastado pelas batalhas. “Meu pai participou da resistência, foi preso e enviado para Auschwitz. Eu e minha mãe estivemos presos na prisão Pawiak em Varsóvia”, relembra Tomasz.
“Os fatores determinantes para o estabelecimento do comunismo no país foram muito mais externos que internos. Após o fim da guerra ficou decidido que os países da Europa oriental que foram libertados pelos soviéticos ficariam sob sua esfera de influência política”, explica o historiador Igor Gak. Além disso, no início da ocupação, em 1940, os soviéticos promoveram o massacre de Katyn, quando intelectuais, políticos e militares poloneses foram mortos, com o objetivo de dificultar a formação de grupos de resistência que se opusessem ao domínio soviético sobre o país. Entre 1947 e 1989 a Polônia foi um Estado autoritário sem partido de oposição.
É preciso diferenciar as Repúblicas Soviéticas das Repúblicas Socialistas. O primeiro era formado por países que já eram membros da URSS antes da Segunda Guerra. O segundo corresponde a países que permaneceram sob a influência direta de Moscou, com uma autonomia política que era anulada por conta da ocupação soviética. “No entanto, países como a Polônia manifestaram insatisfação e esboçaram resistência à presença militar soviética que impedia sua independência efetiva”, esclarece Igor.
Segundo o historiador André Fontaine no livro La guerre froide: 1917-1991(sem tradução para o português), a resistência polonesa iniciou movimentos de insubordinação não armada já em 1955, o que mostra que parte da sociedade se mostrava insatisfeita com o comunismo.“Foram longos anos de um estado policial e de uma economia estatal que deixou todo mundo mal, menos os detentores do poder, a esses nada faltava”, relembra Tomasz.
Com as questões políticas sob controle, a União Soviética tratou de regulamentar a economia. Em 1949 foi criado o Comitê de Assistência Econômica Mútua (COMECON), no qual cada membro era responsável por uma parte da produção necessária para suprir todo o bloco. Países como Polônia e Alemanha Oriental eram responsáveis pela produção industrial, enquanto países como Romênia dedicavam-se à produção agrícola. “Esse modelo impedia a emergência da competição econômica entre os países, vital no comércio entre países capitalistas”, justifica Igor.
Depois de política e economia, era preciso assegurar a segurança. Em 1955 é assinado o Pacto de Varsóvia, que tinha como objetivo básico a padronização dos armamentos e das doutrinas militares usadas pelos exércitos dos países signatários, sendo uma resposta à Otan criada seis anos antes pelos países aliados aos americanos.
Com as crises do petróleo nos anos 70, o desemprego e a inflação aumentaram, gerando greves e descontentamento da população. A resistência polonesa se deu por meio de um movimento sindicalista conhecido como Solidariedade. “É um movimento sindical anticomunista dos trabalhadores do porto de Gdansk, norte da Polônia, muito ligado também à Igreja Católica. Para esta última, o regime comunista era terrível porque considerava a religião algo prejudicial e a Polônia é um país muito católico e conservador”, explica Igor. A eleição do papa João Paulo II em 1978 ajudou a difundir o movimento e dificultou a repressão por parte dos soviéticos.
Em 1983, o principal líder do Movimento, Lech Walessa, ganhou o prêmio Nobel da paz. Com a queda do Muro de Berlim em 1989 e o fim da ditadura comunista imposta pelos soviéticos, o Solidariedade consegue a sua maior vitória: a eleição de 99% do senado e de Lech Walessa para a presidência em 1990.
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