Querido Diário…
Por Luninha | 16/04/2009, 15h13
“Eu não questiono Deus, Deus não existe”. Este é o Bruno. Direto, sincero, transparente. Bruno Berthold Freitas é formado em administração, com pós-graduação em economia e MBA em marketing. Atualmente ele é produtor musical, empresário, mestrando em comportamento do consumidor, tradutor e talvez vire gerente de uma marca de moda. Mas não pense que ele vai parar por aí. “Ainda vou fazer doutorado. Eu quero fazer muita coisa. Quero saltar de um avião, quero ser ortopedista, quero fazer faculdade de física, mergulhar em caverna, saltar de bungee jumping, ser ator da Broadway, quero experimentar tudo”, conta rindo.
Quem o vê assim, feliz, bem-humorado, tranquilo, não imagina que Bruno superou um câncer. Muito menos que foi exatamente desse modo que ele encarou a doença: na boa. “Eu não tive nenhum momento de reflexão da vida. Falei: vamos tratar e pronto, é isso. Não tem muita opção”. Em novembro de 2005, Bruno estava na casa de um amigo nos Estados Unidos procurando faculdades para fazer mestrado. Justo no dia de Ação de Graças, um dos feriados mais importantes para os americanos, durante o banho ele sentiu o testículo inchado. “Pensei logo: não está doendo então não é hérnia, é câncer”. Depois da ceia, Bruno conversou com a família que o hospedava e na mesma noite foi ao médico. “Se tem uma idéia de que médico americano é frio, que nada, os caras foram super gentis comigo, a enfermeira me deu abraço, foi muito legal.”
Antes de entrar no consultório, Bruno resolveu postar no blog. “Eu tinha acabado de comprar um laptop. Pensei: por que não? Resolvi deixar todo mundo avisado logo”. Os médicos deram 99% de chance de ser câncer, mas os resultados dos exames ainda não estavam prontos. O título do post já indica como Bruno lidaria com a situação: ‘Não é que virei estatística?’. Direto, sem rodeios. E foi assim que ele contou para os pais, que na época estavam passeando em Portugal. “Falei: pai, tudo bom? Você está sentado? Pai, estou com câncer. Estou aqui no hospital, vou ver o urologista chefe e depois te ligo. Depois eu soube que ele passou mal, ficou branco. Já estava no blog mesmo, não tinha porque ficar dando voltas”.
Bruno resolveu voltar para o Brasil para operar. Uma amiga que o conheceu na Internet, Viva, foi uma das poucas a visitá-lo no hospital. “Ele ficou fazendo piada. Disse que tinha colocado uma prótese tamanho jumbo no lugar do testículo porque um não podia ser maior do que o outro. Estava super bem-humorado, como sempre.”
Passada a cirurgia, chegou a hora da quimioterapia. Bruno fala sobre isso na boa, diz que estudou muito sobre o assunto e explica tudo como se fosse um médico. “A quimio funcionava assim: todos os dias úteis durante uma semana, e depois todas as terças, por três semanas. O cara enfia uma agulha de plástico, ligada a uns quarenta fiozinhos que vão injetando vários remédios. Um é soro, outro é anti-enjoo, e por aí vai. Um deles requer um cuidado especial, a médica vem até com uma roupa diferente, usando luvas e é super gelado. Acho que esse é o grande remédio da quimio. Não dói, só incomoda por causa dos tubos.”
Todos os passos sempre documentados e explicados no blog. “Querido Diário, Hoje foi meu segundo dia de tratamento. Tinha mais remédio hoje que ontem. Mas fiquei as mesmas três horas lá. Foi tedioso, mas bem legal. Ainda não senti nada alem do cansaço normal. To gostando de ficar deitadão, recebendo cuidado de todos. É bem legal”. Querido diário? Bruno ri e explica que como todos o tratavam como criança, ele resolveu agir como uma. Vários posts no blog começavam com esse título. “Sou muito moleque. Não quero nunca perder isso”.
Tudo aconteceu muito rápido, o câncer foi descoberto no final de 2005 e em abril de 2006 Bruno já estava curado. Ele teve sorte, o tumor ficou restrito ao testículo e a quimio não o afetou tanto como de costume. A única vez que ficou mal por causa da doença foi ao ver sua afilhada, com seis anos na época, se apresentando pela primeira vez no balé. “Na hora que a Ana Luiza entrou, eu não me segurei. Chorei igual criança. Tinha acabado de operar e pensei pra mim mesmo que queria muito vê-la crescer. Ela é linda demais”.
Até a produção de esperma voltou mais rápido do que o esperado. “Normalmente demora dois anos para voltar aos níveis esperados de sobrevivência, o meu em sete meses voltou tudo”. No período do tratamento, ele teve que dar um tempo em todas as atividades, mas até nesse ponto ele vê o lado bom, conta que teve mais tempo de ler livros e ver filmes em casa.
E o futuro, como fica? “Agora faço exame de sangue e tomografia de seis em seis meses. Porque são cinco anos a partir do final da quimio para saber se desse câncer virá um outro. A partir de 2011 farei de ano em ano, porque não custa nada. Tenho 20% de chances de ter de novo. Então faço questão de deixar todo mundo preparadinho. Tomara que não volte”.
Para quem ficou curioso e quer ler o blog: http://lembrancaeterna.wordpress.com


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