Algo a mais…

Blog da Luna Vale

Arquivos: março/2009

Política desafina orquestra

Por Luninha | 31/03/2009, 23h12

Acabei de ler uma notícia que me deixou chocada. Uma orquestra de jovens palestinos em um campo de refugiados da Cisjordânia foi fechada pelas autoridades locais depois de se apresentarem para sobreviventes do Holocausto. Adnan Híndi, líder do “comitê popular” do campo de Jenin, acusou a regente Wafa Younis de “explorar as crianças” por considerar o Holocausto um tema político. Ela será foi impedida de voltar ao campo e teve seu apartamento, onde ensinava música para os 13 jovens (entre 11 e 18 anos) da orquestra isolado.

“Ela será proibida de participar de quaisquer atividades. Precisamos proteger nossas crianças e nossa comunidade”, afirmou Híndi, que comparou o massacre de seis milhões de judeus à realidade dos palestinos hoje em dia. “O Holocausto aconteceu, mas nós estamos enfrentando um massacre parecido nas mãos dos próprios judeus” – comparou.

O fato por si só já é absurdo, as comparações então nem se fala. O Holocausto foi algo premeditado pelos nazistas, a intenção era assassinar pessoas por terem uma religião diferente, por pensarem, por se vestirem, por serem diferentes. Podem falar o que for de Israel, mas em nenhum momento se fala em matar todos os palestinos do mundo. Tem gente que é a favor disso? Claro que sim, como tem gente que é a favor de matar todos os homossexuais, os negros, os brancos, tem maluco pra tudo. Mas não é uma posição oficial e muito menos de uma maioria.

Sobre a punição para a regente, me espanta até que ponto uma briga política pode chegar. Quer forma de integrar melhor os dois lados do que a música? Como pode se pensar em dois estados vivendo em harmonia lado a lado com uma atitude dessas? O público não sabia que os jovens eram palestinos e estes não sabiam que a platéia era formada por sobreviventes, ou mesmo o que foi o Holocausto. “Pessoas mais velhas se vestem diferentes de onde a gente vem”, disse uma menina que ficou chocada ao ouvir sobre o Holocausto, já que não se fala ou até se nega isso entre os palestinos.

Muitas das crianças nunca haviam visto civis israelenses. Esse contato é maravilhoso e fundamental para que se derrube mitos e tabus. Em um lugar onde já se nasce odiando o outro lado, nada mais importante do que ver com os próprios olhos que não é bem assim.

O que essas crianças vão aprender? Que não podem ter contato com um povo diferente? Qual a explicação que vão dar a elas? Que elas não podem mais fazer música porque cruzaram a fronteira. Dificilmente a culpa será colocada na autoridade local, provavelmente vão inventar algo contra Israel.

O mais incrível é que soube disso por conta de um trabalho de faculdade. Ao procurar mais informações na internet, só achei endereços de blogs. A única fonte jornalística que achei em português foi no site do Correio Brasiliense. Por que nenhum outro jornal/site/portal ou o que quer que seja não noticiou este fato? Pelo mesmo motivo que não noticiam os foguetes do Hamas ou do Hezbollah que caem diariamente em cidades israelenses? Penso quantas atitudes dessa acontecem no mundo todo diariamente e ninguém fala a respeito.

Mais informações sobre a apresentação

Mais informações sobre a repercussão

Pagar ou não pagar?

Por Luninha | 25/03/2009, 22h34

O filme “Frost/Nixon” traz à tona inúmeras discussões sobre o jornalismo. Uma delas é o dilema de pagar ou não por uma entrevista. Para quem não viu o filme, um breve resumo que não compromete em nada a história. David Frost é um apresentador de TV que resolve entrevistar Richard Nixon, após o escândalo do Watergate que levou à renúncia do presidente norte-americano em 1974. Até aí, tudo bem. O problema é que o ex-presidente resolve cobrar pela entrevista. Frost paga, mas as emissoras se recusam.

Em um primeiro momento, sem contexto, talvez seja óbvia a resposta de que jornalista não pode pagar por uma entrevista, que é uma questão de ética. Mas depende da conjuntura. No caso do filme, o pagamento não visa interferir na fala do Nixon. Não é uma propina para que o entrevistado fale apenas o que interessa ao canal, e sim uma condição do político para que a entrevista ocorra. É feito um contrato, oficializando o formato do programa.

Um dos argumentos contra o fato de pagar por uma entrevista é porque assim se abre um precedente. Sem dúvida, imaginem se todos resolverem cobrar para falar com jornalistas? Ficaremos todos sem empregos. Agora, e se o José Dirceu resolve dar uma entrevista contando tudo sobre o mensalão, o PT, corrupção, tudo que o brasileiro quer saber, sem restrições. Sendo que para isso é preciso pagar uma quantia x. Será que não vale a pena? Não é algo de interesse público? Não passa a ser um produto, como a transmissão de um evento ou as imagens de uma guerra feitas por uma agência?

Pode-se argumentar ainda que apenas os veículos mais ricos conseguiriam reportagens, afinal, só quem tem dinheiro faria uma entrevista. Mas será que hoje em dia já não é assim? As empresas de comunicação mais ricas são as mais influentes e, sendo assim, conseguem tudo mais facilmente e com prioridade. Claro que mesmo quem não tem grande verba consegue, mesmo que um tempo depois. Mas o que hoje é prioridade pode virar, daqui a alguns anos, exclusividade. E com o contrato, se tornaria público o que hoje é feito por detrás dos panos.

Sinceramente, não consigo ser tão caxias nessa questão. Acho que há casos e casos. Entendo os dois lados. Difícil generalizar, dizendo que não e pronto. E é difícil também avaliar quem pode cobrar para falar e quem não pode.

Mais no Dialetica.org:
Creative Commons 2008 - 2012 Alguns direitos reservados • Dialetica.org utiliza WordPress 3.3.1 WordPress