Cerca de uma hora antes do anúncio oficial dos países escolhidos para sediar as Copas de 2018 e 2022, as TVs inglesas já estavam com as suas transmissões abertas, com especialistas e entrevistados discutindo as chances de cada candidato.
Apesar da confiança dos britânicos, não foi dessa vez que eles irão sediar a sua segunda Copa do Mundo (a primeira foi em 1966, vencida pelos donos da casa). Após o anúncio de que a Rússia receberá o Mundial de 2018, os ingleses começaram a buscar explicações para o fracasso. O que pode ter dado errado em um projeto considerado o melhor tecnicamente pela Fifa?
É consenso que eles fizeram o melhor possível e enviaram para a Suíça os melhores cabos eleitorais disponíveis, entre eles o primeiro ministro David Cameron, o ex-jogador David Beckham e o Príncipe William, presidente da FA (Football Association). A campanha custou um total de £16 milhões, o equivalente a R$43,2 milhões.
Em entrevistas aos canais de televisão, os três afirmaram estar decepcionados, parabenizaram a Rússia e não culparam nada nem ninguém. O sentimento comum era de que não havia nada mais que eles pudessem ter feito para convencer a Fifa. Mais tarde, membros do comitê disseram que se sentiram traídos por pessoas “que nos olharam nos olhos e mentiram”. Cameron desabafou: “No fim, parece que ter a melhor proposta técnica, a melhor proposta comercial e uma paixão pelo futebol não é suficiente. Isso é muito triste.”
O chefe executivo da delegação, Andy Anson, afirmou: “Claramente é uma decisão política. Pessoas que nos prometeram o voto, obviamente mudaram de ideia.” Perguntado se membros da Fifa simplesmente não gostavam da Inglaterra, ele respondeu que acha que não. Já o secretário de Cultura, Jeremy Hunt foi mais político: “É desolador, mas o nosso país inventou o fair play, não é a hora de reclamar da decisão.”
O que mais atormenta os ingleses é o fato de eles terem recebido apenas dois votos na primeira rodada, sendo eliminados com uma candidatura considerada perfeita. Tentam achar um culpado a qualquer custo. Na televisão, muito se falou sobre o controverso programa Panorama da BBC, exibido na última segunda-feira com sérias acusações de corrupção envolvendo dirigentes da FIFA. O mais interessante é que, sempre ao questionar o timming do programa (por ter sido exibido na semana da votação), os comentaristas deixavam claro que não queriam interferir na liberdade de imprensa da BBC de exibir o que quiser, quando quiser. No domingo anterior o jornal The Sunday Times já havia publicado uma reportagem sobre corrupção, levando à expulsão de dois membros do comitê executivo da FIFA
“Ouvi rumores de que perdemos devido à imprensa britânica. Eu espero que isso não seja verdade. Eu acredito em uma imprensa livre e ela apóia tremendamente esse esporte que eu amo” , disse Beckham.
É possível que a difícil relação entre a mídia britânica e o futebol internacional tenha desestimulado os delegados a escolherem a Inglaterra, apesar de vários terem afirmado que as denúncias exibidas pela BBC não iriam interferir no resultado. No dia seguinte à veiculação do programa, o jornal The Sun estampou na primeira página uma mensagem de apoio à candidatura e de repúdio ao conteúdo do Panorama.
Um dos membros do comitê inglês, Sebastian Cole, admitiu que a apresentação dos russos foi inteligente ao mostrar que nunca houve uma Copa no leste europeu, contra dez Mundiais no oeste do continente. “Foi um conceito parecido com o que o Rio de Janeiro usou em Copenhagen (quando foi eleita cidade sede das Olimpíadas de 2016). Acho que isso funcionou muito bem hoje.”
O jornal gratuito Metro, sempre com capas criativas, estampou a manchete: “Russia 2018, Inglaterra 0”. Na matéria principal, reproduziram alguns twitts que refletem o humor britânico. “E daí que a Russia roubou a Copa do Mundo debaixo do nosso nariz? Esperem até eles voltarem para casa e descobrirem que nós roubamos o clima deles”, em referência às baixas temperaturas que dominam a Inglaterra nos últimos dias. Também no Twitter, o capitão da seleção inglesa, Rio Ferdinand, mostrou a sua indignação: “Inglaterra só recebeu 2 voltos. Que P… Alguma coisa realmente está errada nisso…”
Com a decisão da FIFA de levar a Copa para novos países, não se sabe quando a Inglaterra terá a oportunidade de se candidatar novamente. Fica no ar um sentimento de que tinha de ser dessa vez. Agora só resta aos ingleses focar nas Olimpíadas de 2012 e torcer por uma classificação sem sustos da sua seleção principal para as Copas que estão por vir.