Sabe quando a pessoa tem o dom de enrolar? Pois é… acho que tenho esse talento, se é que se pode chamar isso assim. Desde criança.
No colégio, por exemplo, acontecia das professoras me designarem tarefas, que eu procrastinava até não poder mais. Aí, quando não tinha mais jeito, eu fazia qualquer coisa lá, de qualquer jeito, mas com aquele ar de quem tinha feito enorme pesquisa e gasto muito tempo de preparação.
Sempre colava. Acho que só a Tia Heloísa, minha professora no C.A. e na 3ª série, não caiu nessa, porque ela me falava o tempo todo de quanto eu desperdiçava meu potencial.
Quando eu estava na 6ª série, recebi o encargo de bolar uma coreografia simulando o jorro do petróleo…
Pára tudo aqui e vamos abrir um parênteses nesse ponto: que raio de idéia que se passa na mente de uma professora pra se mandar fazer uma coreografia que simula o jorro do petróleo? Ai, Deus… fecha parênteses.
… e eu tinha que fazer a tal coreografia, além de treinar algumas colegas, pra apresentar a dancinha na feira de ciências da escola. Só que eu não fazia! E as meninas da sala me cobrando, a professora me cobrando. Eu lá, com aquela cara de “tudo está sob controle” até o fim.
No dia da fatídica apresentação, não tinha nada pronto, por óbvio; apenas a música foi escolhida. Mas eu estava firme à frente de umas oitos gurias, todas nós vestidas de preto e com a cara pintada de preto também – nós éramos o petróleo jorrando, lembra? – e eu dizia pras meninas “o que eu fizer, vocês fazem também”.
E danei a me arrastar no chão, a fazer movimentos alongados, escorrendo como um líquido viscoso pra lá e pra cá. As meninas quase doidas tentando me imitar, cada uma fazendo de um jeito, tendo em comum só a arrastação, os alongamentos. Quando vi que a música estava pra acabar, fui me levantando, a princípio devagar e depois mais rápido, até explodir em um forte jorro, um pulo, as mãos pro alto, a cabeça jogada para trás, dramática, teatral.
As gurias todas jorrando e fazendo pose junto comigo.
Gente, vou dizer, ficou lindo! Parecia que tínhamos treinado exaustivamente toda aquela descoordenação, tão diferentes entre si e, ao mesmo tempo, tão sintonizadas. Uma beleza! Fomos aplaudidas, fotografadas ao lado da diretora da escola, parabenizadas. A professora falando sem parar que sabia que podia confiar em mim… aff…
A coordenadora da feira de ciências pediu pra que nós repetíssemos a apresentação num outro horário. Mas aí não dava, né? Eu enrolei, disse que tínhamos outras tarefas na feira (pelo menos isso era verdade) e coisa e tal. O que eu não queria era que percebessem que não havia nenhuma coreografia ensaiada. Ainda bem que as meninas foram solidárias nessa, igualmente apavoradas com a possibilidade de descobrirem que foi tudo de improviso.
Até hoje sou um pouco assim. Tento me controlar, mas é uma tendência forte em mim. Talvez se eu tivesse me ferrado desde a primeira vez, aprendesse a lição e mudasse de proceder. Talvez…