De Bubuia

Blog da Elis Marchioni

Tag: dalcidio jurandir

Presentes!

Por Elis Marchioni | 01/07/2008, 18h19

Livros são minhas paixões. Trabalho para o mercado editorial, durmo ao lado deles, distraio-me fazendo leituras. Nos últimos meses, a pesquisa e a redação para um guia turístico me deixaram muito cansada e sem vontade nenhuma de escrever outras coisas. O blog ficou à deriva. Enquanto isso, eu lia, totalmente off-line.

Neste período (para ser exata, no dia 19 de junho), recebi dois presentes dos filhos de Dalcídio Jurandir, meu escritor favorito: o livro biográfico Dalcídio Jurandir, Romancista da Amazônia, que é na verdade um estudo crítico que “destaca as várias facetas do escritor no trabalho com a palavra: como jornalista, crítico literário, ativista político, poeta e romancista, com pesquisa baseada nos 2660 documentos do acervo Dalcídio Jurandir, do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa”; e o romance dalcidiano Belém do Grão Pará.

Belém do Grão Pará foi o segundo trabalho que li do autor. Em 2002, por acaso, encontrei-o à venda na internet, em um site português. Encomendei-o e tive uma feliz surpresa com ao me deparar com um prefácio escrito pelo grandioso escritor Ferreira de Castro. Apesar de ótimo romance, era uma edição com muitos erros, em papel de baixa qualidade.

Esta nova versão é caprichada, bem diferente da lusitana. Minha leitura ainda está em curso e tenho adorado as notinhas de rodapé. Penso como seria interessante se tivéssemos edições comentadas do Ciclo do Extremo Norte. Mas, para isso, precisamos de leitores.

*Agradeço imensamente a José Roberto Pereira e à Margarida Benincasa, filhos do mago do Marajó, pelos lindíssimos regalos. Tenham certeza, para mim, não há presentes melhores.

+ DJ

Leia aqui uma crítica do Professor Paulo Nunes sobre a nova edição de Belém do Grão-Pará.

Dalcídio Jurandir no acervo público de São Paulo

Por Elis Marchioni | 10/05/2008, 21h45

Em uma pesquisa rápida no acervo das bibliotecas de São Paulo podemos constatar que, até para empréstimo, é muito difícil encontrar obras de Dalcídio por aqui.

Segundo o site da Prefeitura de SP, temos, em toda capital:

5 exemplares de Os Habitantes

1 exemplar de Ponte do Galo

4 exemplares de Ribanceira

Puxa, eu doei um Chove nos campos de Cachoeira para um amigo. Quando encontrar outro, doarei à prefeitura.

Para consultar o acervo das bibliotecas paulistanas, clique aqui.

O fim do Instituto Dalcídio Jurandir e preocupações futuras

Por Elis Marchioni | 02/04/2008, 19h05

Dalc�dio Jurandir

A notícia da extinção do Instituto Dalcídio Jurandir na última segunda-feira caiu como bomba entre acadêmicos de Literatura Brasileira no Pará. As comunidades literárias do resto do Brasil nem ficaram sabendo. Ou não se importaram com o fato. Pudera, somente em 2003, com a fundação do Instituto e com a doação de todo o acervo do escritor para a Casa de Rui Barbosa que o Estado do Rio de Janeiro tomou consciência da importância deste escritor, que está enterrado no Cemitério São João Batista, o mais famoso do Rio. Em São Paulo, os cursos de graduação e pós-graduação nem mencionam a existência dele.

Dalcídio Jurandir, morto em 1979, é considerado o maior romancista de toda a literatura amazônica. É autor de Chove nos Campos de Cachoeira, Marajó, Três Casas e um Rio, Belém do Grão-Pará, Passagem dos Inocentes, Ponte do Galo, Primeira Manhã, Os Habitantes, Chão dos Lobos e Ribanceira, obras que compõem o ciclo Extremo-Norte, e do romance operário Linha do Parque.

Suas obras sempre contaram com uma péssima distribuição nacional, publicações sem autorização e não pagamento de direitos autorais. As editoras nunca tiveram preocupação com o planejamento de novas edições, por isso, sem nenhum título nas prateleiras, um dos expoentes da segunda fase modernista foi condenado ao ostracismo. Na década de 90, comentavam-se, à boca pequena, que problemas familiares acerca de direitos autorais também eram motivos para a pausa nas reedições.

Isso mudou quando Ruy Pereira, sobrinho do escritor, fundou o Instituto Dalcídio Jurandir com a missão de resguardar e tirar do limbo a grande obra amazônica. Havia a promessa para a reedição dos títulos e o projeto da comemoração nacional do centenário de seu nascimento, em 2009. Agora, os dois filhos do escritor e a presidência do órgão, composta de Ruy e sua esposa, a professora Soraia Reolon Pereira, tiveram divergências e encerraram as atividades do IDJ.

Ruy Pereira me disse por e-mail que entre os motivos da extinção estão a “insatisfação pessoal dos herdeiros com a lenta distribuição e venda dos livros através dos respectivos editores públicos que atualmente patrocinam todo o trabalho de proteção e promoção do acervo e da obra em questão”; e “obter resultados financeiros objetivos, mesmo com o risco de publicar os romances sem o devido tratamento editorial que sempre esteve por merecer o autor e que vem sendo realizado pela FCRB e pela EDUFPA”.

Os herdeiros alegam que o projeto só beneficiava o círculo acadêmico. De acordo com José Roberto Freire Pereira, filho de Jurandir, não houve atritos entre a família e administração do instituto, mas afirmou que” o IDJ não estava atendendo o seu principal objetivo, que era levar a obra de Dalcídio ao grande público. O trabalho dele continua restrito ao meio acadêmico e intelectual, no qual já é consagrado”, explicou.

Em entrevista ao jornal paraense O Liberal, José Roberto ainda disse que “o motivo da extinção do IDJ não passa de uma questão puramente lógica e estratégica”. E em relação à manutenção acervo doado à Casa de Rui Barbosa alegou que “foi assinado um Termo de Doação em julho de 2003, pelo então presidente da Fundação, José Almino de Alencar e Silva Neto, e nós, digo eu e minha irmã, Margarida Maria Benincasa. É para nós motivo de orgulho e segurança manter esse material nesta instituição do mais alto nível de credibilidade”, afirmou.

Adendo:

Carmem, esposa de José Roberto, ligou-me no sábado (05/04) e me esclareceu que não serão interrompidas as reedições das obras com parceria da Universidade Federal do Pará. Eu havia comentado que o único livro reeditado pelo instituto, Belém do Grão Pará, teve o aval dos acadêmicos e incluiu glossário de expressões e topônimos, além dos cuidados primorosos na edição (quem comprava os livros de Dalcídio editados pela Cejup pôde notar as diferenças). Enfim, vamos aguardar as novidades.

Carmem e José Roberto me pediram para corrigir o texto anterior, com base nas novas informações de O Liberal. Como jornalista, não posso deixar de ouvir os dois lados sempre, portanto, também mantive as alegações de Ruy Pereira.

Texto corrigido em 08/04/2008.

Leia aqui a matéria completa sobre este assunto publicada em O Liberal de 07/04/2008.

Panorama de Dalcídio Jurandir na internet: a literatura marajoara no ciberespaço

Por Elis Marchioni | 03/03/2008, 21h00

Diante da tela de um computador, o anônimo mergulha no ciberespaço e encontra trechos e citações de uma literatura completamente desconhecida, situada na Amazônia, precisamente na Ilha de Marajó. Jamais sonharia o romancista Dalcídio Jurandir que um instrumento seria capaz de levar informações sobre sua vida e obra para qualquer lugar do planeta, em qualquer dia e horário. Justamente ele, que era um “homem simples e radicalmente avesso a qualquer tipo de marketing”, como descreveu o jornalista e amigo Moacyr Werneck, na ocasião da fundação do Instituto Dalcídio Jurandir, em 2003.

Para os exploradores, curiosos e bisbilhoteiros, a internet é uma facilitadora da comunicação. É por meio dela que hoje tomamos conhecimento de parte das notícias do mundo e podemos nos aprofundar em nossas pesquisas, divulgar relatos pessoais, contar ou reescrever a história de outras pessoas, ilustres ou desconhecidas.

Em 1999, uma procura pelo nome de Dalcídio Jurandir nos sites de busca da internet apresentava apenas um resultado: o comentário pejorativo do articulista Olavo de Carvalho sobre uma discussão entre comunistas na eleição da ABDE (Associação Brasileira de Escritores), em 1949.

Eu não sabia se Dalcídio era realmente importante para a Literatura Brasileira, mas, naquele momento, tinha acabado de ler Chove nos Campos de Cachoeira e acreditava que era um dos maiores romances em Língua Portuguesa, e que seu autor merecia mais crédito do que ter apenas seu nome ligado a intrigas no meio eletrônico.

Fiz um site simples, denominado Louca por Dalcídio, que ainda hoje mantenho no ar por curiosidade histórica. Seus romances estavam esgotados e não havia nenhuma informação sobre possíveis reedições. Por quase um ano, o site ficou incógnito, escondido entre tantos outros mais atraentes do ciberespaço até que foi catalogado nos sites de busca.

Não tinha consciência do trabalho que os professores da Unama e da UFPA realizavam para garantir a sobrevivência da obra dalcidiana no Estado do Pará. Só tomei conhecimento quando o Dr. Günter Pressler, professor do Departamento de Língua e Literatura Vernáculas da UFPA e coordenador do curso de Mestrado em Letras, teve a idéia do I Colóquio Dalcídio Jurandir, realizado na Ilha de Marajó, em 2002.

Na época, eu já recebia várias mensagens eletrônicas de estudantes e curiosos da literatura, todos carentes de informações sobre o escritor de Belém do Grão-Pará. Eu, leiga e apenas uma leitora comum, encaminhava os contatos aos professores, amigos e familiares de Dalcídio que conheci por meio do meu primeiro site.

Em 1999, mal se contava quem tinha acesso à internet da própria casa e, atualmente, segundo dados divulgados pelo Ibope e-rating em janeiro de 2004, o número de usuários potenciais no Brasil, isto é, pessoas que possuem pelo menos um computador com acesso à internet, é de 20,5 milhões de internautas.

A situação é outra. Se antes havia apenas uma citação negativa sobre o autor de Três casas e um rio, hoje existem mais de 400 (9.270) textos sobre ele em sites, blogs e portais de notícias, com informações sobre sua vida e obra. Uma rápida pesquisa de seu nome no maior site de buscas da web, o Google, confere 467 (9.270) citações em toda a rede mundial, sendo 455 (8.830) citações em páginas de Língua Portuguesa e 406 (4.020) em páginas do Brasil.

Dalcídio virou coqueluche entre os intelectuais de Letras de todo o País. Teses e dissertações sobre a obra dalcidiana pipocaram nas universidades. Ruy Pereira, sobrinho do escritor, fundou, em 2003, o Instituto Dalcídio Jurandir, na Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Conta com um acervo de mais de 750 livros da biblioteca pessoal do autor marajoara, documentos, manuscritos, fotografias, correspondências e originais de seus romances.

A promessa é de que o acervo logo venha para a web e que qualquer cidadão possa consultar, conhecer mais e até incrementar um trabalho acadêmico a partir de fontes seguras e corretas – como é reconhecida a Casa de Rui Barbosa por sua competência no apoio à pesquisa e à história. Não dava para imaginar que tudo isso seria possível há cinco anos.

Escrito originalmente em 2004 para a revista paraense Asas da Palavra, publicada pela Universidade da Amazônia (Unama). Para comparação, estão entre parênteses os números atuais. É inacreditável como Dalcídio Jurandir transborda hoje no ciberespaço .

O dia em que encontrei meu novo ídolo das Letras

Por Elis Marchioni | 26/11/2007, 06h10

Após quinze dias de férias, cheguei de Belém do Pará carregando uma enorme bagagem: amigos de lá queriam presentear os amigos de cá e eu fiz o meio-de-campo. Trouxe livros, brinquedos de miriti, águas de cheiro, bombons de cupuaçu e de bacuri. A lista de presenteados era imensa e incluía professores da USP e Unicamp, músicos e o escritor Milton Hatoum.

Era começo de 2001 e eu ainda não tinha lido o primeiro romance de Hatoum, mas sabia da conquista do prêmio Jabuti. Liguei para ele e marquei de entregar o presente.

Cheguei ao seu apartamento e fui recebida com um lindo sorriso. O bonitão me chamou a atenção. Milton é moreno, cabelos grisalhos e tem um nariz marcante (tenho uma tara por narizes árabes e italianos). Fitei sua estante de livros e um jacaré de mentirinha que adornava o chão de tacos reluzentes. Não reparei nos quadros da parede, mas vibrei com os artefatos amazonenses. Ele me perguntou se eu gostava de ler. Contei que fui ao Pará para ver as paisagens de Dalcídio Jurandir.

Os olhos do ficcionista brilharam.

Deu-me bombons de cupuaçu e me perguntou um monte de coisas. Passamos uns quinze minutos falando dos livros dalcidianos até que comentei que não tinha lido alguns deles, embora os tivesse na minha cabeceira. Expliquei: os livros de Dalcídio têm uma certa ordem cronológica, excetuando o segundo, Marajó. Não quero passar a frente, atropelar o andamento da leitura.

Recebi dele uma resposta zangada: “não faça isso. Dalcídio não tem ordem nenhuma. Cada livro é único, não necessita de continuações”. Após a bronca, convidou-me para o lançamento de seu novo livro, Dois irmãos (não cheguei a ir, que estupidez!)

Saí de lá, decidida a ler um dos livros que esperavam na cabeceira. Li Belém do Grão Pará. No meio da leitura, correu um frio na minha espinha. Soube do destino de um importante personagem e de algumas conseqüências disso. Mas eu não possuía o livro anterior, cuja história desdobrava… Fiquei brava. Irritada com o Milton Hatoum por descobrir o fato antes da hora.

Só dois anos depois consegui Três casas e um rio, o romance dalcidiano que preencheu as lacunas.

A lgum tempo se passou e Milton Hatoum conquistou seu segundo Jabuti, justamente com Dois Irmãos. Lembrei-me de nossa conversa, comprei o livro e…

simplesmente amei.

Desde Dalcídio Jurandir, não lia nada que me emocionasse tanto. Comprei o primeiro, Relato de um certo Oriente, e o texto também era excelente. Agora estou lendo seu terceiro romance, Cinzas do Norte, certa de que depois de Dalcídio, Hatoum é meu novo ídolo das Letras.

O engraçado é que toda vez que me lembro do escritor, também relembro o jacaré, o bombom e a bronca. Sentimentos que me acompanham a cada leitura de sua obra fantástica e que certamente influenciam no meu modo pessoal de entender suas histórias.

Milton Hatoum

Imagem: Carta Capital


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