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Panorama de Dalcídio Jurandir na internet: a literatura marajoara no ciberespaço

Por Elis Marchioni | 03/03/2008, 21h00

Diante da tela de um computador, o anônimo mergulha no ciberespaço e encontra trechos e citações de uma literatura completamente desconhecida, situada na Amazônia, precisamente na Ilha de Marajó. Jamais sonharia o romancista Dalcídio Jurandir que um instrumento seria capaz de levar informações sobre sua vida e obra para qualquer lugar do planeta, em qualquer dia e horário. Justamente ele, que era um “homem simples e radicalmente avesso a qualquer tipo de marketing”, como descreveu o jornalista e amigo Moacyr Werneck, na ocasião da fundação do Instituto Dalcídio Jurandir, em 2003.

Para os exploradores, curiosos e bisbilhoteiros, a internet é uma facilitadora da comunicação. É por meio dela que hoje tomamos conhecimento de parte das notícias do mundo e podemos nos aprofundar em nossas pesquisas, divulgar relatos pessoais, contar ou reescrever a história de outras pessoas, ilustres ou desconhecidas.

Em 1999, uma procura pelo nome de Dalcídio Jurandir nos sites de busca da internet apresentava apenas um resultado: o comentário pejorativo do articulista Olavo de Carvalho sobre uma discussão entre comunistas na eleição da ABDE (Associação Brasileira de Escritores), em 1949.

Eu não sabia se Dalcídio era realmente importante para a Literatura Brasileira, mas, naquele momento, tinha acabado de ler Chove nos Campos de Cachoeira e acreditava que era um dos maiores romances em Língua Portuguesa, e que seu autor merecia mais crédito do que ter apenas seu nome ligado a intrigas no meio eletrônico.

Fiz um site simples, denominado Louca por Dalcídio, que ainda hoje mantenho no ar por curiosidade histórica. Seus romances estavam esgotados e não havia nenhuma informação sobre possíveis reedições. Por quase um ano, o site ficou incógnito, escondido entre tantos outros mais atraentes do ciberespaço até que foi catalogado nos sites de busca.

Não tinha consciência do trabalho que os professores da Unama e da UFPA realizavam para garantir a sobrevivência da obra dalcidiana no Estado do Pará. Só tomei conhecimento quando o Dr. Günter Pressler, professor do Departamento de Língua e Literatura Vernáculas da UFPA e coordenador do curso de Mestrado em Letras, teve a idéia do I Colóquio Dalcídio Jurandir, realizado na Ilha de Marajó, em 2002.

Na época, eu já recebia várias mensagens eletrônicas de estudantes e curiosos da literatura, todos carentes de informações sobre o escritor de Belém do Grão-Pará. Eu, leiga e apenas uma leitora comum, encaminhava os contatos aos professores, amigos e familiares de Dalcídio que conheci por meio do meu primeiro site.

Em 1999, mal se contava quem tinha acesso à internet da própria casa e, atualmente, segundo dados divulgados pelo Ibope e-rating em janeiro de 2004, o número de usuários potenciais no Brasil, isto é, pessoas que possuem pelo menos um computador com acesso à internet, é de 20,5 milhões de internautas.

A situação é outra. Se antes havia apenas uma citação negativa sobre o autor de Três casas e um rio, hoje existem mais de 400 (9.270) textos sobre ele em sites, blogs e portais de notícias, com informações sobre sua vida e obra. Uma rápida pesquisa de seu nome no maior site de buscas da web, o Google, confere 467 (9.270) citações em toda a rede mundial, sendo 455 (8.830) citações em páginas de Língua Portuguesa e 406 (4.020) em páginas do Brasil.

Dalcídio virou coqueluche entre os intelectuais de Letras de todo o País. Teses e dissertações sobre a obra dalcidiana pipocaram nas universidades. Ruy Pereira, sobrinho do escritor, fundou, em 2003, o Instituto Dalcídio Jurandir, na Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Conta com um acervo de mais de 750 livros da biblioteca pessoal do autor marajoara, documentos, manuscritos, fotografias, correspondências e originais de seus romances.

A promessa é de que o acervo logo venha para a web e que qualquer cidadão possa consultar, conhecer mais e até incrementar um trabalho acadêmico a partir de fontes seguras e corretas – como é reconhecida a Casa de Rui Barbosa por sua competência no apoio à pesquisa e à história. Não dava para imaginar que tudo isso seria possível há cinco anos.

Escrito originalmente em 2004 para a revista paraense Asas da Palavra, publicada pela Universidade da Amazônia (Unama). Para comparação, estão entre parênteses os números atuais. É inacreditável como Dalcídio Jurandir transborda hoje no ciberespaço .

Xerxes, um rei ariano

Por Elis Marchioni | 07/01/2008, 15h25

Rei Xerxes e Rainha Ester

Visto como um rei tirano que se achava Deus no filme 300 (adaptação fiel aos quadrinhos de Frank Miller 300 de Esparta), a verdadeira história de Xerxes é bem diferente da ficção. Começando pela aparência, um rei persa não seria moreno e sarado como Rodrigo Santoro ou andaria seminu com piercings.

A Pérsia é o atual Irã, que no sentido étnico significa terra dos arianos. Há um erro brutal quando os confundimos com árabes. Etnicamente, os persas são indo-europeus. Não é à toa que o governo iraniano ficou mordido com os exageros do fime.

Xerxes é tido historicamente como um rei justo e pacificador. É por isso que as Batalhas da Termópilas, mais conhecidas hoje pela narrativa do grego Heródoto, não são o bastante para condená-lo à tirania.

Para mim, o que fica é sua história de amor com a rainha judia Ester.
(Resumo: O rei Xerxes expulsa sua esposa, Vasti, após esta ter desobedecido ao marido. Xerxes monta um harém de virgens, dentre elas a judia Ester, que esconde sua origem. Vários acontecimentos depois somados à lealdade de Ester faz com que o rei se case com ela. Mas um homem importante do governo, Haman, nutre ódio pelos judeus e planeja elimina-los da Pérsia. São muitas reviravoltas até que com ajuda de Mordechai, seu primo, Ester descobre e revela o plano a Xerxes. O tiro sai pela culatra, Haman é executado e Ester vive feliz com seu rei e a liberdade de seu povo. Na imagem representativa que ilustra este post, a coroa de Xerxes e a de Ester têm a figura da Flor de Lótus vista de cima, que representa o amor eterno.)

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Irã – costumes gastronômicos

Hoje, o Irã é um país islâmico, muito diferente da época de Xerxes, mas ainda nutre orgulho por sua identidade persa e honra sua cultura e costumes.

O povo iraniano consome muito arroz. Não o arroz condimentado com alho e cebola que conhecemos no Brasil, mas cozido em água e pouco sal. Preparado de diversas maneiras acompanha quase todos os pratos. Após o cozimento, alguns adicionam sementes ou outras especiarias, como a “zeresht”, frutinha cítrica de cor vinho, ou açafrão, que dá a cor dourada. Para acompanhar, os iranianos abusam de verduras, legumes e grãos, com abundância de iogurte natural em quase tudo. Diz uma lenda que o iogurte foi a alimentação de Gengis Khan durante sua permanência nas redondezas.

As carnes, excetuando a suína, que não é consumida por muçulmanos, comem-se todas. São famosos os “kebabs”, espetinhos de carne bovina moída, que também podem ser de carne ovina ou de aves. A carne tradicional do povo iraniano é a de carneiro.

O pão achatado que conhecemos aqui como pão sírio é bem-vindo em todas as refeições. Há versões com sementes e ervas aromáticas, consumidos com coalhada, iogurte, juntamente com a comida, de diversas formas.

“Ash-paz-khaneh” significa casa do cozinheiro e é a palavra que designa cozinha. Ash é o que conhecemos como sopa e dá para entender porque este prato é tão comum em todo o país. Encontra-se “ashes” de romã, lentilhas, frutas secas e trigo, dentre outras.

No Irã não há consumo de álcool. Pelo menos ninguém vende esse tipo de bebida legalmente, por causa dos costumes muçulmanos. Por isso, fazem sucesso as casas de chá, em que se pode beber, ler, fumar narguilé e conversar. Os iranianos se orgulham de possuir um dos melhores chás do mundo. Há um costume interessante: eles levam à boca os nabats, pequenos torrões de açúcar aromatizado com açafrão e deixam derreter. Só então ingerem a bebida. Esse costume pode ser visto no filme Casa de Areia e Névoa, em que um casal iraniano é fundamental à trama.

Outras bebidas suaves e aromáticas à base de ervas, flores, iogurte ou água gasosa são vendidas em garrafas. Café é muito caro e pouco consumido no Irã.

As sobremesas preferidas são as frutas, mas há doces deliciosos e sofisticados, que encantam os turistas.

Há um costume iraniano de ofertar comida e regalos gastronômicos aos amigos e conhecidos. Exemplos: presentear açafrão, torrões de açúcar, chá e temperos.

Fonte de informações e imagem: Mi, do Palácio do Shah

O dia em que encontrei meu novo ídolo das Letras

Por Elis Marchioni | 26/11/2007, 06h10

Após quinze dias de férias, cheguei de Belém do Pará carregando uma enorme bagagem: amigos de lá queriam presentear os amigos de cá e eu fiz o meio-de-campo. Trouxe livros, brinquedos de miriti, águas de cheiro, bombons de cupuaçu e de bacuri. A lista de presenteados era imensa e incluía professores da USP e Unicamp, músicos e o escritor Milton Hatoum.

Era começo de 2001 e eu ainda não tinha lido o primeiro romance de Hatoum, mas sabia da conquista do prêmio Jabuti. Liguei para ele e marquei de entregar o presente.

Cheguei ao seu apartamento e fui recebida com um lindo sorriso. O bonitão me chamou a atenção. Milton é moreno, cabelos grisalhos e tem um nariz marcante (tenho uma tara por narizes árabes e italianos). Fitei sua estante de livros e um jacaré de mentirinha que adornava o chão de tacos reluzentes. Não reparei nos quadros da parede, mas vibrei com os artefatos amazonenses. Ele me perguntou se eu gostava de ler. Contei que fui ao Pará para ver as paisagens de Dalcídio Jurandir.

Os olhos do ficcionista brilharam.

Deu-me bombons de cupuaçu e me perguntou um monte de coisas. Passamos uns quinze minutos falando dos livros dalcidianos até que comentei que não tinha lido alguns deles, embora os tivesse na minha cabeceira. Expliquei: os livros de Dalcídio têm uma certa ordem cronológica, excetuando o segundo, Marajó. Não quero passar a frente, atropelar o andamento da leitura.

Recebi dele uma resposta zangada: “não faça isso. Dalcídio não tem ordem nenhuma. Cada livro é único, não necessita de continuações”. Após a bronca, convidou-me para o lançamento de seu novo livro, Dois irmãos (não cheguei a ir, que estupidez!)

Saí de lá, decidida a ler um dos livros que esperavam na cabeceira. Li Belém do Grão Pará. No meio da leitura, correu um frio na minha espinha. Soube do destino de um importante personagem e de algumas conseqüências disso. Mas eu não possuía o livro anterior, cuja história desdobrava… Fiquei brava. Irritada com o Milton Hatoum por descobrir o fato antes da hora.

Só dois anos depois consegui Três casas e um rio, o romance dalcidiano que preencheu as lacunas.

A lgum tempo se passou e Milton Hatoum conquistou seu segundo Jabuti, justamente com Dois Irmãos. Lembrei-me de nossa conversa, comprei o livro e…

simplesmente amei.

Desde Dalcídio Jurandir, não lia nada que me emocionasse tanto. Comprei o primeiro, Relato de um certo Oriente, e o texto também era excelente. Agora estou lendo seu terceiro romance, Cinzas do Norte, certa de que depois de Dalcídio, Hatoum é meu novo ídolo das Letras.

O engraçado é que toda vez que me lembro do escritor, também relembro o jacaré, o bombom e a bronca. Sentimentos que me acompanham a cada leitura de sua obra fantástica e que certamente influenciam no meu modo pessoal de entender suas histórias.

Milton Hatoum

Imagem: Carta Capital


Dias de vinho e rosas

Por Elis Marchioni | 21/11/2007, 19h52

The Days Of Wine And Roses

Days of wine and roses chegou aqui com o título de Vício Maldito. Neste instigante filme de Blake Edwards, de 1962, Jack Lemmon é um relações-públicas que bebe doses extras de vinho para conter sua insatisfação pessoal. Sua apaixonada esposa o acompanha no vício pelo álcool, rumo a uma decadência sem volta.

Assim como o alcoólatra de Lemmon, quantos de nós não percebemos a lama subindo pelas canelas? Difícil é reconhecer o vício, saber o limite para não extrapolar. Há pouco tempo notei que uma colega tomava uma lata de leite condensado toda manhã, na mesa de trabalho. Às tardes, ela ainda comia bolos, docinhos, chocolates e balas. Estava viciada em açúcar e não percebia. Hoje, tem diminuído o consumo, mas ainda há docinhos espalhados perto do monitor. Um outro amigo está sempre “amaconhado”. Olhos vermelhos, fala mole e sorriso fácil denunciam-no. Mas ele não acredita no que dizemos.

Conheço meninos que passam o dia na frente de vídeogames, vítimas dos vícios modernos que incluem TV, internet, celular e jogos eletrônicos. Vejo mulheres que se entopem de chocolate, gente que bebe muito, que fuma, que não percebe o grau de sua entrega. Eu já assumi que sou viciada em cafeína. Amante de cafés gourmet e chá Ceilão, já passei a noite sem dormir por ter ingerido mais café do que deveria.

Um vício é sempre ruim, não há lado sutil. O próprio Houaiss nos dá a definição : “1. Defeito físico ou moral. 2. Tendência para o mal; depravação”. Não há rosas doces, apenas o vinho amargo, como na tradução brasileira do filme.

 

 

Mais sobre vícios.

 

The days of wine and roses é também o nome da belíssima canção-tema do filme, composta por Henry Mancini. Minha versão preferida desta música é a tocada pelo baixista Jaco Pastorius. Como não encontrei (que pena!), deixo a performance em piano de Haydn Huckle.

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