A notícia da extinção do Instituto Dalcídio Jurandir na última segunda-feira caiu como bomba entre acadêmicos de Literatura Brasileira no Pará. As comunidades literárias do resto do Brasil nem ficaram sabendo. Ou não se importaram com o fato. Pudera, somente em 2003, com a fundação do Instituto e com a doação de todo o acervo do escritor para a Casa de Rui Barbosa que o Estado do Rio de Janeiro tomou consciência da importância deste escritor, que está enterrado no Cemitério São João Batista, o mais famoso do Rio. Em São Paulo, os cursos de graduação e pós-graduação nem mencionam a existência dele.
Dalcídio Jurandir, morto em 1979, é considerado o maior romancista de toda a literatura amazônica. É autor de Chove nos Campos de Cachoeira, Marajó, Três Casas e um Rio, Belém do Grão-Pará, Passagem dos Inocentes, Ponte do Galo, Primeira Manhã, Os Habitantes, Chão dos Lobos e Ribanceira, obras que compõem o ciclo Extremo-Norte, e do romance operário Linha do Parque.
Suas obras sempre contaram com uma péssima distribuição nacional, publicações sem autorização e não pagamento de direitos autorais. As editoras nunca tiveram preocupação com o planejamento de novas edições, por isso, sem nenhum título nas prateleiras, um dos expoentes da segunda fase modernista foi condenado ao ostracismo. Na década de 90, comentavam-se, à boca pequena, que problemas familiares acerca de direitos autorais também eram motivos para a pausa nas reedições.
Isso mudou quando Ruy Pereira, sobrinho do escritor, fundou o Instituto Dalcídio Jurandir com a missão de resguardar e tirar do limbo a grande obra amazônica. Havia a promessa para a reedição dos títulos e o projeto da comemoração nacional do centenário de seu nascimento, em 2009. Agora, os dois filhos do escritor e a presidência do órgão, composta de Ruy e sua esposa, a professora Soraia Reolon Pereira, tiveram divergências e encerraram as atividades do IDJ.
Ruy Pereira me disse por e-mail que entre os motivos da extinção estão a “insatisfação pessoal dos herdeiros com a lenta distribuição e venda dos livros através dos respectivos editores públicos que atualmente patrocinam todo o trabalho de proteção e promoção do acervo e da obra em questão”; e “obter resultados financeiros objetivos, mesmo com o risco de publicar os romances sem o devido tratamento editorial que sempre esteve por merecer o autor e que vem sendo realizado pela FCRB e pela EDUFPA”.
Os herdeiros alegam que o projeto só beneficiava o círculo acadêmico. De acordo com José Roberto Freire Pereira, filho de Jurandir, não houve atritos entre a família e administração do instituto, mas afirmou que” o IDJ não estava atendendo o seu principal objetivo, que era levar a obra de Dalcídio ao grande público. O trabalho dele continua restrito ao meio acadêmico e intelectual, no qual já é consagrado”, explicou.
Em entrevista ao jornal paraense O Liberal, José Roberto ainda disse que “o motivo da extinção do IDJ não passa de uma questão puramente lógica e estratégica”. E em relação à manutenção acervo doado à Casa de Rui Barbosa alegou que “foi assinado um Termo de Doação em julho de 2003, pelo então presidente da Fundação, José Almino de Alencar e Silva Neto, e nós, digo eu e minha irmã, Margarida Maria Benincasa. É para nós motivo de orgulho e segurança manter esse material nesta instituição do mais alto nível de credibilidade”, afirmou.
Adendo:
Carmem, esposa de José Roberto, ligou-me no sábado (05/04) e me esclareceu que não serão interrompidas as reedições das obras com parceria da Universidade Federal do Pará. Eu havia comentado que o único livro reeditado pelo instituto, Belém do Grão Pará, teve o aval dos acadêmicos e incluiu glossário de expressões e topônimos, além dos cuidados primorosos na edição (quem comprava os livros de Dalcídio editados pela Cejup pôde notar as diferenças). Enfim, vamos aguardar as novidades.
Carmem e José Roberto me pediram para corrigir o texto anterior, com base nas novas informações de O Liberal. Como jornalista, não posso deixar de ouvir os dois lados sempre, portanto, também mantive as alegações de Ruy Pereira.
Texto corrigido em 08/04/2008.
Leia aqui a matéria completa sobre este assunto publicada em O Liberal de 07/04/2008.