De Bubuia

Blog da Elis Marchioni

Arquivos: Conversa fiada

De bubuia

Por Elis Marchioni | 21/06/2009, 21h23

Este blog inicia aqui. Antes deste post há alguns escritos, mas vieram do Mulheres de Antenas, que abandonei no ano passado. Foi apenas uma experiência que deixei de lado porque meus textos estavam dispersos e eu não gostava do nome. Na época, queria escrever textos mais delicados do que os escritos no Relicário, meu outro blog. Lá, mantenho pequenos petardos sobre futebol, comida e música, vídeos do Youtube, além de álbuns de homens bonitos.

O convite de me juntar ao miniportal Dialética veio da Luciana. Aceitei, sem saber bem se escreveria algo temático ou um apanhado de coisas. Optei pelos prazeres cotidianos, futebol, comida, música e o que passar pela minha janela. Mas ainda era preciso escolher o nome.

Como não quero me obrigar a nada, nem ficar inquieta ao pensar no quê escrever, lembrei de bubuiar, um verbo muito falado na região amazônica. Bubuiar é flutuar no rio, deixar as águas levarem. Também pode sugerir que você está sem nada para fazer, uma coisa bem vagabunda, que eu acho o máximo! Mas o sentido que eu quis dar é mesmo o de fluir, seguir a própria sorte e confiar no destino. Ficar de bubuia.

Que seja bom este rio!

Presentes!

Por Elis Marchioni | 01/07/2008, 18h19

Livros são minhas paixões. Trabalho para o mercado editorial, durmo ao lado deles, distraio-me fazendo leituras. Nos últimos meses, a pesquisa e a redação para um guia turístico me deixaram muito cansada e sem vontade nenhuma de escrever outras coisas. O blog ficou à deriva. Enquanto isso, eu lia, totalmente off-line.

Neste período (para ser exata, no dia 19 de junho), recebi dois presentes dos filhos de Dalcídio Jurandir, meu escritor favorito: o livro biográfico Dalcídio Jurandir, Romancista da Amazônia, que é na verdade um estudo crítico que “destaca as várias facetas do escritor no trabalho com a palavra: como jornalista, crítico literário, ativista político, poeta e romancista, com pesquisa baseada nos 2660 documentos do acervo Dalcídio Jurandir, do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa”; e o romance dalcidiano Belém do Grão Pará.

Belém do Grão Pará foi o segundo trabalho que li do autor. Em 2002, por acaso, encontrei-o à venda na internet, em um site português. Encomendei-o e tive uma feliz surpresa com ao me deparar com um prefácio escrito pelo grandioso escritor Ferreira de Castro. Apesar de ótimo romance, era uma edição com muitos erros, em papel de baixa qualidade.

Esta nova versão é caprichada, bem diferente da lusitana. Minha leitura ainda está em curso e tenho adorado as notinhas de rodapé. Penso como seria interessante se tivéssemos edições comentadas do Ciclo do Extremo Norte. Mas, para isso, precisamos de leitores.

*Agradeço imensamente a José Roberto Pereira e à Margarida Benincasa, filhos do mago do Marajó, pelos lindíssimos regalos. Tenham certeza, para mim, não há presentes melhores.

+ DJ

Leia aqui uma crítica do Professor Paulo Nunes sobre a nova edição de Belém do Grão-Pará.

O dia em que encontrei meu novo ídolo das Letras

Por Elis Marchioni | 26/11/2007, 06h10

Após quinze dias de férias, cheguei de Belém do Pará carregando uma enorme bagagem: amigos de lá queriam presentear os amigos de cá e eu fiz o meio-de-campo. Trouxe livros, brinquedos de miriti, águas de cheiro, bombons de cupuaçu e de bacuri. A lista de presenteados era imensa e incluía professores da USP e Unicamp, músicos e o escritor Milton Hatoum.

Era começo de 2001 e eu ainda não tinha lido o primeiro romance de Hatoum, mas sabia da conquista do prêmio Jabuti. Liguei para ele e marquei de entregar o presente.

Cheguei ao seu apartamento e fui recebida com um lindo sorriso. O bonitão me chamou a atenção. Milton é moreno, cabelos grisalhos e tem um nariz marcante (tenho uma tara por narizes árabes e italianos). Fitei sua estante de livros e um jacaré de mentirinha que adornava o chão de tacos reluzentes. Não reparei nos quadros da parede, mas vibrei com os artefatos amazonenses. Ele me perguntou se eu gostava de ler. Contei que fui ao Pará para ver as paisagens de Dalcídio Jurandir.

Os olhos do ficcionista brilharam.

Deu-me bombons de cupuaçu e me perguntou um monte de coisas. Passamos uns quinze minutos falando dos livros dalcidianos até que comentei que não tinha lido alguns deles, embora os tivesse na minha cabeceira. Expliquei: os livros de Dalcídio têm uma certa ordem cronológica, excetuando o segundo, Marajó. Não quero passar a frente, atropelar o andamento da leitura.

Recebi dele uma resposta zangada: “não faça isso. Dalcídio não tem ordem nenhuma. Cada livro é único, não necessita de continuações”. Após a bronca, convidou-me para o lançamento de seu novo livro, Dois irmãos (não cheguei a ir, que estupidez!)

Saí de lá, decidida a ler um dos livros que esperavam na cabeceira. Li Belém do Grão Pará. No meio da leitura, correu um frio na minha espinha. Soube do destino de um importante personagem e de algumas conseqüências disso. Mas eu não possuía o livro anterior, cuja história desdobrava… Fiquei brava. Irritada com o Milton Hatoum por descobrir o fato antes da hora.

Só dois anos depois consegui Três casas e um rio, o romance dalcidiano que preencheu as lacunas.

A lgum tempo se passou e Milton Hatoum conquistou seu segundo Jabuti, justamente com Dois Irmãos. Lembrei-me de nossa conversa, comprei o livro e…

simplesmente amei.

Desde Dalcídio Jurandir, não lia nada que me emocionasse tanto. Comprei o primeiro, Relato de um certo Oriente, e o texto também era excelente. Agora estou lendo seu terceiro romance, Cinzas do Norte, certa de que depois de Dalcídio, Hatoum é meu novo ídolo das Letras.

O engraçado é que toda vez que me lembro do escritor, também relembro o jacaré, o bombom e a bronca. Sentimentos que me acompanham a cada leitura de sua obra fantástica e que certamente influenciam no meu modo pessoal de entender suas histórias.

Milton Hatoum

Imagem: Carta Capital


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