De Bubuia

Blog da Elis Marchioni

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O dia em que encontrei meu novo ídolo das Letras

Por Elis Marchioni | 26/11/2007, 06h10

Após quinze dias de férias, cheguei de Belém do Pará carregando uma enorme bagagem: amigos de lá queriam presentear os amigos de cá e eu fiz o meio-de-campo. Trouxe livros, brinquedos de miriti, águas de cheiro, bombons de cupuaçu e de bacuri. A lista de presenteados era imensa e incluía professores da USP e Unicamp, músicos e o escritor Milton Hatoum.

Era começo de 2001 e eu ainda não tinha lido o primeiro romance de Hatoum, mas sabia da conquista do prêmio Jabuti. Liguei para ele e marquei de entregar o presente.

Cheguei ao seu apartamento e fui recebida com um lindo sorriso. O bonitão me chamou a atenção. Milton é moreno, cabelos grisalhos e tem um nariz marcante (tenho uma tara por narizes árabes e italianos). Fitei sua estante de livros e um jacaré de mentirinha que adornava o chão de tacos reluzentes. Não reparei nos quadros da parede, mas vibrei com os artefatos amazonenses. Ele me perguntou se eu gostava de ler. Contei que fui ao Pará para ver as paisagens de Dalcídio Jurandir.

Os olhos do ficcionista brilharam.

Deu-me bombons de cupuaçu e me perguntou um monte de coisas. Passamos uns quinze minutos falando dos livros dalcidianos até que comentei que não tinha lido alguns deles, embora os tivesse na minha cabeceira. Expliquei: os livros de Dalcídio têm uma certa ordem cronológica, excetuando o segundo, Marajó. Não quero passar a frente, atropelar o andamento da leitura.

Recebi dele uma resposta zangada: “não faça isso. Dalcídio não tem ordem nenhuma. Cada livro é único, não necessita de continuações”. Após a bronca, convidou-me para o lançamento de seu novo livro, Dois irmãos (não cheguei a ir, que estupidez!)

Saí de lá, decidida a ler um dos livros que esperavam na cabeceira. Li Belém do Grão Pará. No meio da leitura, correu um frio na minha espinha. Soube do destino de um importante personagem e de algumas conseqüências disso. Mas eu não possuía o livro anterior, cuja história desdobrava… Fiquei brava. Irritada com o Milton Hatoum por descobrir o fato antes da hora.

Só dois anos depois consegui Três casas e um rio, o romance dalcidiano que preencheu as lacunas.

A lgum tempo se passou e Milton Hatoum conquistou seu segundo Jabuti, justamente com Dois Irmãos. Lembrei-me de nossa conversa, comprei o livro e…

simplesmente amei.

Desde Dalcídio Jurandir, não lia nada que me emocionasse tanto. Comprei o primeiro, Relato de um certo Oriente, e o texto também era excelente. Agora estou lendo seu terceiro romance, Cinzas do Norte, certa de que depois de Dalcídio, Hatoum é meu novo ídolo das Letras.

O engraçado é que toda vez que me lembro do escritor, também relembro o jacaré, o bombom e a bronca. Sentimentos que me acompanham a cada leitura de sua obra fantástica e que certamente influenciam no meu modo pessoal de entender suas histórias.

Milton Hatoum

Imagem: Carta Capital


Dias de vinho e rosas

Por Elis Marchioni | 21/11/2007, 19h52

The Days Of Wine And Roses

Days of wine and roses chegou aqui com o título de Vício Maldito. Neste instigante filme de Blake Edwards, de 1962, Jack Lemmon é um relações-públicas que bebe doses extras de vinho para conter sua insatisfação pessoal. Sua apaixonada esposa o acompanha no vício pelo álcool, rumo a uma decadência sem volta.

Assim como o alcoólatra de Lemmon, quantos de nós não percebemos a lama subindo pelas canelas? Difícil é reconhecer o vício, saber o limite para não extrapolar. Há pouco tempo notei que uma colega tomava uma lata de leite condensado toda manhã, na mesa de trabalho. Às tardes, ela ainda comia bolos, docinhos, chocolates e balas. Estava viciada em açúcar e não percebia. Hoje, tem diminuído o consumo, mas ainda há docinhos espalhados perto do monitor. Um outro amigo está sempre “amaconhado”. Olhos vermelhos, fala mole e sorriso fácil denunciam-no. Mas ele não acredita no que dizemos.

Conheço meninos que passam o dia na frente de vídeogames, vítimas dos vícios modernos que incluem TV, internet, celular e jogos eletrônicos. Vejo mulheres que se entopem de chocolate, gente que bebe muito, que fuma, que não percebe o grau de sua entrega. Eu já assumi que sou viciada em cafeína. Amante de cafés gourmet e chá Ceilão, já passei a noite sem dormir por ter ingerido mais café do que deveria.

Um vício é sempre ruim, não há lado sutil. O próprio Houaiss nos dá a definição : “1. Defeito físico ou moral. 2. Tendência para o mal; depravação”. Não há rosas doces, apenas o vinho amargo, como na tradução brasileira do filme.

 

 

Mais sobre vícios.

 

The days of wine and roses é também o nome da belíssima canção-tema do filme, composta por Henry Mancini. Minha versão preferida desta música é a tocada pelo baixista Jaco Pastorius. Como não encontrei (que pena!), deixo a performance em piano de Haydn Huckle.

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Quem dita a moda hoje?

Por Elis Marchioni | 18/11/2007, 20h19

Por mais que você não se ligue em moda, difícil imaginar o século XX sem o advento de Gabrielle Bonheur Chanel. Midas de sua época, todas suas invenções viraram ouro e vendem (muito) até hoje. Fico olhando as pecinhas de um guarda-roupa pobrinho, como o meu, e percebo o quanto Coco virou padrão. Afinal, que moça não tem o seu pretinho básico? Ou um tailleur para encarar uma reunião? São tantas as influências dela no comportamento de sua geração (e nas posteriores também) que não consigo imaginar outro ícone que a substitua. Ela deveria ser a rainha das cariocas bronzeadíssimas, afinal, só após Gabrielle Chanel aparecer mais moreninha é que esse tom de pele ganhou algum valor.

Quem dita a moda hoje?

Ao ler a lista* de artigos popularizados por Chanel, veja se algum mortal conseguiu chegar perto ou furar a fila.

Pretinho básico.
Tailleur.
Corte Chanel (ou Maria rapaz – bem curtinho)
Comprimento Chanel.
Sapato de biqueira contrastante.
Bolsa em matelassê com correntes douradas.
Bijuterias e correntes de metal dourado.
Jóias barrocas e pérolas falsas.
Cardigãs e twin-sets.
Camélias.
Roupas ostentando botões com a marca aparente (dois Cs cruzados)
Botões dourados nos blazers.
Os canotiers, chapéus de palha com abas retas.
Roupas de malha (kasha), que antes só vestiam os marinheiros.
Tweed nas roupas femininas.
Vestidos de jérsei e tule para a noite.
Bolsos úteis nas roupas, como nas dos homens.
Pele bronzeada pelo sol.
Perfume assinado por estilista.
Calças boca-de-sino.
Sapatos baixos.
Chemisiers.
Pijamas sofisticados.
Capas de chuva com cintos.
Camisas simples.
A japona
Decote canoa.
Sapatos abertos no calcanhar (chamados atualmente de Chanel).
Laços de cabeça e boinas macias.

* Listinha básica elaborada pela revista Época.

Aqui também tem Chanel.

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