O doce sabor do fracasso
| Foto: Hélio Nagai/ZDL | |
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| Largada da São Silvestre 2009 |
Abro os olhos e penso na prova. A ansiedade me dominaria até a largada da São Silvestre. Lembro que um ano atrás eu estava igualmente ansioso pelo que seria de meu ano profissional.
Demoradamente, vou até a janela e sentencio que vai chover dentro de poucas horas. Da mesma forma, 365 dias atrás eu previra como seria cada mês de 2009. Errei em todos eles. Tampouco choveu na São Silvestre.
Chego à largada e alguém pergunta qual a minha meta. Uma hora e vinte minutos, respondo. Começo a caminhar e passo por um pórtico, mas não vejo o tapete de cronometragem. Pergunto a um staff onde, afinal, é a largada. É mais adiante, no tapete. Estou em minha 17ª prova só neste ano e ainda tenho dúvidas estúpidas. No dia-a-dia profissional, isso às vezes acontece.
Sem espaço
Enfim, começo a correr, mas não consigo impor meu ritmo. Penso no alerta de alguns amigos: fazer tempo na São Silvestre é difícil. É muita gente correndo. De fato, há congestionamentos a cada quilômetro. O desempenho na corrida e nas empreitadas profissionais é assim mesmo: está sempre sujeito a interferências externas. Decido, então, que só me cabe enfrentar a adversidade. Um esbarrão aqui, outro ali. Peço desculpas e sigo em frente, na prova e na vida.
Chego ao 9º quilômetro e constato que os engarrafamentos de corredores me atrasaram. Revisar a meta, nem pensar! Se puder ser manipulada, ela perde a razão de existir. Por isso, é inflexível. Aprendi isso como gestor e agora uso como atleta.
Passo pela placa de 13 km. Meu cronômetro marca 1h12. Será necessário percorrer os 2 km finais, que incluem a dura subida da Brigadeiro, em menos de 8 minutos. Impossível, eu sei. Sem olhar mais o relógio, corro o máximo que posso até o fim, exatamente como agiria num projeto passível de uma pressão angustiante.
Fracasso
Cruzo a linha de chegada três minutos além do tempo previsto. Tento me diagnosticar diante do fracasso. Estou feliz com o resultado? Claro que não. Estou frustrado? Também não.
Pego o metrô e começo uma breve reflexão. Algumas estações depois, desembarco com o peito estufado, como se fosse um leão faminto, querendo ir à forra com tudo o que não funcionou em 2009.
Um segundo a menos numa prova é o irmão gêmeo de um sucesso a mais no trabalho. Porque a corrida imita a vida. E vice-versa. Então, que venha 2010.
Bendita ignorância
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| Esquina da quase renomeada Av. Paulista com a rua que leva o nome de seu idealizador |
Eu estava lendo um texto sobre um de meus autores preferidos. Me levantei, guardei o livro na estante e me dei conta de que, dentro de alguns dias, eu estaria correndo a São Silvestre. Decidi, então, colocar em prática o que acabara de ler.
Comecei perguntando a mim mesmo: quem, afinal, foi São Silvestre? Que se trata de um santo, eu já desconfiava. Só não sabia que Silvestre I foi papa no Século IV. Era italiano de Roma. Marcado pelo período de paz na igreja, seu pontificado terminou no dia 31 de dezembro de 335. Daí, a data festiva.
E aquela rua que descemos logo depois da placa de 1 km. Por que se chama Consolação? Inevitável imaginar um sujeito aos prantos sendo consolado por outro. Bobagem. A rua tem esse nome porque no final dela fica a Igreja Nossa Senhora da Consolação, construída em 1799. Cabe explicar que Nossa Senhora da Consolação é a forma como orações se referem a Virgem Maria, mãe de Jesus.
O Brigadeiro Luís Antônio, por sua vez, foi um militar luso-brasileiro. Luís Antonio de Sousa Queiroz reformou-se em 1818, com a patente de brigadeiro, e morreu um ano depois
Não achei que fosse útil pesquisar o porquê do nome da Av. Paulista, mas aprendi que, na década de 20, rebatizaram a avenida para Carlos de Campos. Mas os paulistanos não gostaram. Protestaram e exigiram que o nome original voltasse. E voltou para sempre.
É justamente na Paulista que fica o pórtico de chegada da São Silvestre. Fica quase em frente ao cruzamento com a Joaquim Eugênio de Lima. Quem terá sido ele? Simples: esse engenheiro uruguaio foi o idealizador da Av. Paulista, inaugurada em 1891.
A propósito, o livro que despertou esta avalanche de curiosidades diz respeito ao mestre da administração Peter Drucker, que pregava: “aborde as questões com ignorância, e não com o seu conhecimento”.
Aparentemente, funciona.
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