O filtro dos corredores
Por Cassio Politi | 23/02/2010, 15h48
Quando dei por mim, estava cara-a-cara com o goleiro. O Miguel estava livre na grande área, mas não passei a bola. Tentei driblar o goleiro e acabei saindo com bola e tudo pela linha de fundo.
— Seu fominha! Não tá me vendo livre aqui, pô?! Passa a bola, cacete! Moleque burro! — esbravejou o Miguel.
Preferi não responder. Apenas dei meia-volta e comecei a trotar rumo ao campo de defesa. Alguns passos depois, parei. Olhei para trás tentando entender que balbúrdia era aquela. E saí correndo para apartar a briga. Apesar de ser do time adversário, o Pirulito tinha tomado minhas dores e esbofeteava o Miguel.
Ele, Pirulito, era uns dois anos mais velho que a gente. Tinha acabado de completar 11 anos e, em troca de gorjetas, trabalhava como catador de bolinhas nas quadras de tênis do clube. A briga só parou quando consegui fazer o Pirulito me ouvir.
— Para com isso, Pirulito! Foi uma discussão de jogo. O Miguel é meu amigo.
Resignado, o Pirulito saiu lentamente do campinho de areia. Pendurou a camisa abarrotada no ombro, calçou o tênis velho e, antes de ir embora, avisou:
— Mexer com o meu amigo é mexer comigo.
A verdade é que nossa amizade havia começado havia pouquíssimo tempo, na semana anterior à briga, no dia do aniversário dele. Por sugestão do coração enorme de minha mãe, dei de presente ao Pirulito um brinquedo. Coisa simples, que dávamos de aniversário aos amigos.
Só depois soube que aquele era o primeiro brinquedo novo que o Pirulito ganhava em toda a sua vida. Ficava atordoado quando pensava que um garoto tão gente boa não merecia uma vida tão dura. Ladeiras de barro, casas de tapume, hospitais caindo aos pedaços e escolas violentas rodeavam sua casa.
Eu só não tinha ideia de que, no decorrer da vida, conheceria muito mais gente como o Pirulito. Pessoas com as quais convivemos e das quais gostamos, mas que levam vidas tão diferentes das nossas.
Uma dessas pessoas é o João, que outro dia conheci na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. O calor era insuportável e precisei fazer um pit stop para hidratação. Perto do carrinho de água de coco, ele fazia o alongamento pós-treino.
— Quantas voltas você já deu? — o João puxou a conversa.
Respondi que já tinham sido duas, mas ainda me faltava uma, e devolvi com alguma outra pergunta. Resultado: o que seria uma pausa de poucos segundos se estendeu por mais de 15 minutos. Culpa do papo cativante do João, que já completou seis maratonas, todas em menos de três horas. Falamos também de locais onde correr em São Paulo, de treinar sozinho, de treinar em grupo e do grupo de corredores da Rocinha.
— Você conhece a Equipe Rocinha? — surpreendeu-se o João.
— Não conheço pessoalmente ninguém do grupo, mas vejo os uniformes deles nas provas. Pelo que vejo, os caras correm bem.
— Ô, rapaz, que bom saber que um paulista conhece a turma. Treino com eles três vezes por semana. São chegados meus. Eu moro lá, na comunidade da Rocinha.
A conversa só terminou porque o João me alertou para o fato de que eu esfriaria se não voltasse logo ao meu treino. Retomei meu trote e, então, me dei conta do quanto a sociedade tem a aprender com o esporte. Em que outra circunstância um desconhecido puxa papo sem justificativa, se apresenta como morador de uma favela, recebe atenção e, mais do que isso, é digno de admiração?
O que diferencia os corredores é a capacidade de não diferenciar os outros corredores. No asfalto, não há pobre ou rico nem branco, negro ou amarelo. Há corredores. Apenas corredores.
Hoje consigo compreender por que o Pirulito nutriu aquela gratidão toda. No dia em que completou 11 anos, ele não foi tratado como um sujeito pobre. Naquele dia, ele foi tratado como um garoto. Apenas um garoto.


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