Nas paródias da vida
Por Cassio Politi | 01/06/2010, 19h08

Na formatura, Floriano me cumprimenta. Ele morreria anos depois, ainda jovem.
— Disciplina é trabalho!
Quando ouvimos o Floriano dizer aquilo, caímos na gargalhada. Antes mesmo de soar o sinal do intervalo, paródias já circulavam aos cochichos no fundo da sala de aula. A que fez mais sucesso foi “disciplina é o c…”.
Se papo cabeça não era o nosso forte, éramos pelo menos adolescentes coerentes. Afinal, para nós, disciplina remetia ao comportamento sem tempero dos nerds. E trabalho fazia jus à etimologia. O próprio Floriano havia um dia ensinado que a palavra “trabalho” tem origem em “tripaliu”, um antigo instrumento de tortura. Daí a concluirmos que sofrimento e trabalho eram praticamente sinônimos foi um pulo.
Episódios assim não afastavam o Floriano dos alunos. Pelo contrário: ele era um sujeito divertido e sabia cativar a turma. Era bem humorado, fazia uma gozação fina e em contrapartida aceitava brincadeiras. Também é verdade que, de vez em quando, soltava umas piadas velhas, sem graça. A gente ria para não perder o amigo. Isso foi há 20 anos.
Curiosa foi a reação do Paulo Oliveira, meu treinador e amigo, quando no ano passado eu o chamei para uma conversa. Disse a ele que queria correr minha primeira maratona em 2010. Ele só concordou quando me comprometi a ser fiel à planilha e jamais pular treinos. Assim, comecei a correr 70, 80, 90 quilômetros por semana. Isso sem falar em musculação, nutricionista, horas de sono etc.
Bastaram três meses nessa rotina pautada pelo rigor para que eu baixasse em 13 minutos meu melhor tempo em meia maratona. Na linha de chegada dessa prova, me dei conta de que a máxima do Floriano nunca convenceria um adolescente empenhado em fazer graça para os colegas. Mas é capaz de fazer um atleta bater sua meta.
Com o amadurecimento, enfim, consegui compreender o que queria dizer o saudoso Floriano. Só não perdi o hábito de parodiar sua célebre frase. Disciplina é resultado, professor.



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