E se não houver resposta?
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| Na adolescência, patins sob os pés. Hoje, asfalto. |
— Difícil é patinar. Bater com o stick na bola é fácil.
Eu tinha uns 14 anos quando ouvi essa explicação do Vítor, um colega de escola. Argumentei que patinar se aprende em poucos meses. Portanto, a habilidade com o stick (ou “taco”) é o que faz você melhor ou pior do que os outros jogadores. Mas o Vítor não se convenceu.
— E se o sujeito nunca aprender a patinar?
Eu não tinha resposta para aquela pergunta, o que me deixou incomodado. Afinal, eu jogava hóquei desde os 10 anos e o Vítor era absolutamente sedentário.
Também faz tempo que passei alguns meses na África do Sul, cuja costa é cheia de tubarões. Eu nadava numa praia de Port Alfred, no Oceano Índico, quando Sean, o amigo que me recebia em sua casa à beira-mar, deu uma ideia.
— Quer ir até ali, na entrada do canal, ver os tubarões passando? Eles vêm até as pedras do canal para comer marisco.
Calculei que a distância até a entrada do tal canal era de uns 200 metros.
— Se tem tubarão ali, no canal, tem aqui também, certo? — indaguei, com a água na altura do peito.
— É claro que sim. Tubarões, peixes, pedras, conchas, areia, água salgada… onde mais você espera encontrar essas coisas?
— E se um tubarão decidir me morder?
O Sean não tinha resposta para a minha pergunta.
Há poucos meses, um professor do MBA ilustrava sua explanação com a seguinte pergunta: “O que é uma pessoa saudável?”.
A turma, eu inclusive, foi rápida na resposta. “Ora, saudável é quem não está doente“.
O professor ponderou que, se estivéssemos certos, um morto seria saudável. Alguém tentou partir para uma explicação técnica sobre o significado de saúde, mas o professor logo pôs fim ao debate.
— Saudável é o sujeito que nem sequer pensa na doença.
Gostei tanto do raciocínio que desejei nunca ter feito a pergunta ao Sean. Por conviver com tubarões na porta de casa, ele sabia que são pouquíssimas as espécies que atacam os homens. E que nenhuma delas passeia pelas praias de Port Alfred.
Tive vontade, ainda, de voltar no tempo e explicar ao Vítor que não existe possibilidade de alguém não aprender a patinar. Simplesmente porque a vontade de jogar hóquei elimina a chance de nunca se equilibrar em cima do patins.
Outro dia, batendo papo com um conhecido, contei que estou treinando para correr uma maratona. Sedentário como o Vítor, o sujeito ficou impressionado ao saber que são 42 quilômetros.
— E se você ficar exausto e tiver de desistir no meio da maratona?
Felizmente, não tenho resposta para a pergunta dele.
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