Todo corredor tem um amigo imaginário
Eu tinha uns 4 anos de idade. Na hora do almoço, exigia que um lugar na mesa ficasse reservado para o Aceó, com prato, talheres e copo para ele. Aceó era o meu amigo imaginário.
O tempo passou, eu cresci e o Aceó sumiu da minha imaginação.
O amadurecimento me incentivou a começar a correr. Primeiro, um trote leve para perder peso. Depois, provas de 5, 10, 15 e 21 quilômetros. No futuro, maratonas.
Foi na busca para ganhar ritmo que surgiu a necessidade de se fazer aquele tipo de conta simples. Por exemplo, no quilômetro 5, meu cronômetro não pode marcar mais do que 28 minutos. É uma espécie de adversário imaginário presente nas planilhas de treinos e provas.
A linha do tempo continuou progredindo implacavelmente e surgiram os relógios equipados com GPS. Neles, o amigo imaginário se materializou — em formato digital — e ganhou o nome de adversário virtual.
Pensei que só eu tivesse crescido e me modernizado, mas agora vejo que o mesmo aconteceu com o Aceó.
Outro dia, lancei para o Aceó o seguinte desafio: “quero ver se você termina a meia maratona em 2 horas”. Ele cumpriu religiosamente esse tempo. Eu fiz em 1h58. Rá! Faturei essa! Passei o domingo curtindo a vitória. Mas devo confessar que em certas ocasiões perdi feio.
Desconfio que cada corredor amador tenha o seu próprio Aceó. Numa prova com 10.000 participantes, há na verdade 20.000: metade humanos, metade imaginários.
Estou prestes a descobrir que desafiar o adversário imaginário é o que faz um corredor se manter focado e forte. É o que faz um corredor se manter feliz.
Não contei para quase ninguém que, na conversa de hoje, eu disse baixinho: “Aceó, duvido que você consiga correr uma maratona no ano que vem”.
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