Chegar lá

O blog da Corrida de Rua

Tão absurdos quanto úteis

Por Cassio Politi | 09/11/2009, 21h25

Amadores da equipe Branca Esportes disputaram o Desafio dos 600K

O Seu Júlio fez a mesma pergunta a todos que, diferentemente dele, já tinham andado de avião.

A largura de uma aeronave, medida da ponta de uma asa à ponta da outra, superava a largura do terreno do prédio? Era isso que inquietava aquele modesto zelador nos anos 80.

Seu Júlio morava e trabalhava no mesmo edifício havia muitos anos. Dificilmente ia a qualquer lugar além dos limites da portaria, da garagem e do jardim. Mas reagia com ceticismo quando lhe explicavam que um Boeing tinha largura de três terrenos daquele. O Doutor Rafael foi um dos que ouviram Seu Júlio dizer que era simplesmente impossível uma geringonça daquele tamanho voar.

Experiente, o Doutor Rafael não perdeu tempo tentado convencê-lo, mas se lembrou de um empresário baiano que conheceu na poltrona vizinha de um voo de São Paulo para Nova York nos anos 60.

No desembarque, já em solo norte-americano, o rico empresário se orgulhava de ser o único a não vestir agasalho entre os passageiros, que o olhavam incrédulos. Lá fora, a temperatura era de 4 graus abaixo de zero. Lá dentro, prestes a desembarcar pela porta traseira, o empresário trajava uma fina camisa de seda e explicava que baianos como ele não sentem frio.

Sua convicção se baseava no fato de já ter enfrentado todo tipo de frio em suas cruzadas pelo interior do Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia. Conclusão: após o desembarque, foi internado com pneumonia aguda.

Em comum, o bem-sucedido empresário e o Seu Júlio tinham a visão limitada. Mas isso não me faz melhor do que eles.

Foi na caravana do Desafio dos 600K da Nike que me senti cego pela minha própria visão. Quando entrei pela primeira vez na van que acompanharia os atletas por todo o percurso de São Paulo ao Rio,  tinha comigo que, numa hipótese muito otimista, um dia eu chegaria a correr a 5’30″ por quilômetro. Mais rápido do que isso, só profissionais.

Foram 3 dias intensos de prova, que reuniu exclusivamente atletas amadores. Todos eles são gente como a gente: advogados, administradores, funcionários públicos, jornalistas, fisioterapeutas, garis, estudantes, professores. Todos treinam nas horas vagas. Incrivelmente, seus paces não raramente ficavam abaixo dos 4′ por km. Os mais lentos estavam na casa dos 4’30″ por km. Não me cansei de perguntar: o que você faz para ser tão rápido? A resposta quase unânime: “treino, treino e treino”.

A inovadora competição terminou com uma prova de 10 km no Rio, a Nike Human Race. Inspirado pela convivência dos velozes amadores, cumpri esses 10 km com pace de 4’59″, inédito para mim.

Mais do que uma meta alcançada, o resultado trouxe alívio porque mostrou existir pelo menos uma diferença entre eu e a dupla formada por Seu Júlio e o empresário baiano. Normalmente, eu tento acreditar nos absurdos que ouço; eles não.

Todo corredor tem um amigo imaginário

Por Cassio Politi | 01/11/2009, 13h41

Eu tinha uns 4 anos de idade. Na hora do almoço, exigia que um lugar na mesa ficasse reservado para o Aceó, com prato, talheres e copo para ele. Aceó era o meu amigo imaginário.

O tempo passou, eu cresci e o Aceó sumiu da minha imaginação.

O amadurecimento me incentivou a começar a correr. Primeiro, um trote leve para perder peso. Depois, provas de 5, 10, 15 e 21 quilômetros. No futuro, maratonas.

Foi na busca para ganhar ritmo que surgiu a necessidade de se fazer aquele tipo de conta simples. Por exemplo, no quilômetro 5, meu cronômetro não pode marcar mais do que 28 minutos. É uma espécie de adversário imaginário presente nas planilhas de treinos e provas.

A linha do tempo continuou progredindo implacavelmente e surgiram os relógios equipados com GPS. Neles, o amigo imaginário se materializou — em formato digital — e ganhou o nome de adversário virtual.

Pensei que só eu tivesse crescido e me modernizado, mas agora vejo que  o mesmo aconteceu com o Aceó.

Outro dia, lancei para o Aceó o seguinte desafio: “quero ver se você termina a meia maratona em 2 horas”. Ele cumpriu religiosamente esse tempo. Eu fiz em 1h58. Rá! Faturei essa! Passei o domingo curtindo a vitória. Mas devo confessar que em certas ocasiões perdi feio.

Desconfio que cada corredor amador tenha o seu próprio Aceó. Numa prova com 10.000 participantes, há na verdade 20.000: metade humanos, metade imaginários.

Estou prestes a descobrir que desafiar o adversário imaginário é o que faz um corredor se manter focado e forte. É o que faz um corredor se manter feliz.

Não contei para quase ninguém que, na conversa de hoje, eu disse baixinho: “Aceó, duvido que você consiga correr uma maratona no ano que vem”.

Desvendando a marca Nike

Por Cassio Politi | 21/10/2009, 20h57

O Swoosh representa a asa de Niké

Nesta véspera do tão esperado Desafio dos 600K da Nike, eu lançaria a seguinte pergunta: você sabe o que é o Swoosh?

Certamente, sim, você sabe. Swoosh é o conhecido logotipo da Nike.

O que este blogueiro não sabia é que o Swoosh simboliza uma asa. Mas por que uma asa? Simples: porque Niké é a deusa grega da vitória.

Para fazer todo o sentido, basta esclarecer que Niké é uma deusa alada, que serviu de inspiração para a marca. Uma das asas de Niké virou o Swoosh.

O desenhista que criou o logotipo cobrou dos fundadores da Nike apenas US$ 35 pela arte. Isso aconteceu há 38 anos. Hoje, a marca Nike está avaliada em US$ 12,7 bilhões. E é a 29ª marca mais valiosa do mundo, segundo o ranking da Interbrand (2008).

Dizem que uma boa ideia vale muito. Ah, se vale!

Um pouco da história da Mizuno

Por Cassio Politi | 20/10/2009, 05h55

Tudo começou em Osaka, no Japão, em 1906, quando os irmãos Rihachi e Rizo Mizuno fundaram uma loja que levava o sobrenome da família vendia artigos para baseball. No ano seguinte, a loja começou a vender roupas esportivas. O sucesso nas vendas impulsionou o crescimento da loja em Osaka e a abertura de uma filial em Tóquio.

Ainda na década de 1910, a empresa começou a patrocinar campeonatos de baseball e a estampar sua marca em roupas esportivas. Nos anos 20, a empresa entrou em outras modalidades, como golfe e esqui na neve. A primeira fábrica foi instalada em Yoro, em 1943.

Nos anos 60, foi feito o primeiro grande investimento em mídia. Para incentivar as pessoas a esquiarem, a empresa patrocinou um programa na TV japonesa.

Em parcerias com empresas suecas, australianas e norte-americanas, começou a migrar para outras modalidades e a se tornar uma marca presente em diversos países. Nos Estados Unidos, por exemplo, a Mizuno se instalou em 1969.

O patrocínio a programas de TV se intensificou nos anos 70, período em que começaram também os patrocínios a atletas profissionais de diversas modalidades, seleções e competições — Olimpíadas, inclusive.

Atualmente, a empresa fabrica material para golfe, baseball, esqui, ciclismo, vôlei, futebol, rúgbi, judô e atletismo.

O dia em que o atleta foi mais veloz que o motorista

Por Cassio Politi | 12/10/2009, 20h56

Velocidade média de carro: 10,1 km/h

Almoçando uma vez com o amigo André Rosa, expliquei a ele como me distraio nas longas viagens para a casa de parentes no interior de Minas Gerais. Enquanto dirijo, fico calculando a velocidade média de meu carro de hora em hora. Faço contas também nas parciais: aos 15, 20, 30, 40 e 45 minutos. E aí comparo e até classifico os trechos conforme a velocidade.

O André ouviu pacientemente minha explicação. Matutou por um instante e, então, perguntou:

— Você contou isso para mais alguém?

Educadamente, ele me chamou de maluco. Que dirá o André se souber que meu passatempo não apenas continua, mas se desenvolveu? Agora, conto com o auxílio do GPS que uso para correr.

O campeonato
Decidi fazer uma competição na sexta-feira, véspera do fim de semana prolongado pelo feriado de Nossa Srª Aparecida. Caótico, o trânsito de São Paulo me fez criar uma prova virtual entre o atleta e o motorista.

Na Marginal Tietê, o GPS mostrou que, de carro, percorri 21,1 km em longas 2h05’10″. Numa recente meia maratona, meu tempo foi de 1h58’31″. Amador e limitado, o atleta foi mais rápido que o motorista nas ruas da cidade.

Neste momento o que intriga não é o caos do trânsito. Preocupante mesmo é dar ao André Rosa a oportunidade de ter razão.

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