Chegar lá

O blog da Corrida de Rua

Cisma, trauma ou algo assim

Por Cassio Politi | 05/05/2010, 20h01

Você gosta de correr pela Av. Escola Politécnica, aquela ao lado da USP? Descobri que alguns corredores odeiam.

O que vou dizer não tem nenhum embasamento científico. Não importa.

Essa avenida é quente e inóspita. É um sertão em pleno asfalto. Ali faz sol até quando está chovendo.

E nos dias que amanhecem frios? Bem, nesses dias o percurso da prova não passa por ali. Lei de Murphy.

Na ida é só aclive, mas na volta não há declive.

Não tente me enteder, mas faça um favor… se você gosta de correr pela Politécnica, me ensine como aprendeu a gostar.

Contra desperdício, tangentes

Por Cassio Politi | 04/05/2010, 14h03

Não é psicografia. É desenho de tangentes.

É simples: se numa prova de 10 km o atleta conseguir fazer todas as tangentes, ele percorrerá 10 km. Caso contrário, correrá a mais. Acontece que a multidão não permite que você corra de um lado para o outro. E aí perdemos as tangentes.

Na Meia da Corpore, fiz a tangente sempre que possível. Mesmo assim, medindo com GPS, corri 170m extras. O GPS de um amigo que não se preocupou em tangenciar marcou 700m percorridos a mais sem necessidade.

Num post anterior, expliquei tangência (veja aqui).

O filtro dos corredores

Por Cassio Politi | 23/02/2010, 15h48

Quando dei por mim, estava cara-a-cara com o goleiro. O Miguel estava livre na grande área, mas não passei a bola. Tentei driblar o goleiro e acabei saindo com bola e tudo pela linha de fundo.

— Seu fominha! Não tá me vendo livre aqui, pô?! Passa a bola, cacete! Moleque burro! — esbravejou o Miguel.

Preferi não responder. Apenas dei meia-volta e comecei a trotar rumo ao campo de defesa. Alguns passos depois, parei. Olhei para trás tentando entender que balbúrdia era aquela. E saí correndo para apartar a briga. Apesar de ser do time adversário, o Pirulito tinha tomado minhas dores e esbofeteava o Miguel.

Ele, Pirulito, era uns dois anos mais velho que a gente. Tinha acabado de completar 11 anos e, em troca de gorjetas, trabalhava como catador de bolinhas nas quadras de tênis do clube. A briga só parou quando consegui fazer o Pirulito me ouvir.

— Para com isso, Pirulito! Foi uma discussão de jogo. O Miguel é meu amigo.

Resignado, o Pirulito saiu lentamente do campinho de areia. Pendurou a camisa abarrotada no ombro, calçou o tênis velho e, antes de ir embora, avisou:

— Mexer com o meu amigo é mexer comigo.

A verdade é que nossa amizade havia começado havia pouquíssimo tempo, na semana anterior à briga, no dia do aniversário dele. Por sugestão do coração enorme de minha mãe, dei de presente ao Pirulito um brinquedo. Coisa simples, que dávamos de aniversário aos amigos.

Só depois soube que aquele era o primeiro brinquedo novo que o Pirulito ganhava em toda a sua vida. Ficava atordoado quando pensava que um garoto tão gente boa não merecia uma vida tão dura. Ladeiras de barro, casas de tapume, hospitais caindo aos pedaços e escolas violentas rodeavam sua casa.

Eu só não tinha ideia de que, no decorrer da vida, conheceria muito mais gente como o Pirulito. Pessoas com as quais convivemos e das quais gostamos, mas que levam vidas tão diferentes das nossas.

Uma dessas pessoas é o João, que outro dia conheci na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. O calor era insuportável e precisei fazer um pit stop para hidratação. Perto do carrinho de água de coco, ele fazia o alongamento pós-treino.

— Quantas voltas você já deu? — o João puxou a conversa.

Respondi que já tinham sido duas, mas ainda me faltava uma, e devolvi com alguma outra pergunta. Resultado: o que seria uma pausa de poucos segundos se estendeu por mais de 15 minutos. Culpa do papo cativante do João, que já completou seis maratonas, todas em menos de três horas. Falamos também de locais onde correr em São Paulo, de treinar sozinho, de treinar em grupo e do grupo de corredores da Rocinha.

— Você conhece a Equipe Rocinha? — surpreendeu-se o João.
— Não conheço pessoalmente ninguém do grupo, mas vejo os uniformes deles nas provas. Pelo que vejo, os caras correm bem.
— Ô, rapaz, que bom saber que um paulista conhece a turma. Treino com eles três vezes por semana. São chegados meus. Eu moro lá, na comunidade da Rocinha.

A conversa só terminou porque o João me alertou para o fato de que eu esfriaria se não voltasse logo ao meu treino. Retomei meu trote e, então, me dei conta do quanto a sociedade tem a aprender com o esporte. Em que outra circunstância um desconhecido puxa papo sem justificativa, se apresenta como morador de uma favela, recebe atenção e, mais do que isso, é digno de admiração?

O que diferencia os corredores é a capacidade de não diferenciar os outros corredores. No asfalto, não há pobre ou rico nem branco, negro ou amarelo. Há corredores. Apenas corredores.

Hoje consigo compreender por que o Pirulito nutriu aquela gratidão toda. No dia em que completou 11 anos, ele não foi tratado como um sujeito pobre. Naquele dia, ele foi tratado como um garoto. Apenas um garoto.

A chapa de oposição

Por Cassio Politi | 09/02/2010, 19h09

— Aceita um biscoito?

Recusei a oferta, mas adorei a ideia de bater um papo. A dona dos biscoitos e eu esperávamos o mesmo voo no saguão do aeroporto. O avião estava meia hora atrasado.

Ela contou que ia se encontrar com a filha mais nova, eu contei que ia dar aula. Ela falou de cinema, eu falei de Fórmula 1. Ela falou dos netos, eu falei do meu cachorro. O atraso já passava de duas horas.

— Tem certeza de que não quer um biscoito?

Minha segunda recusa foi a deixa para entrarmos num assunto que perseguia ambos: emagrecer. Aquela simpática senhora pesava uns 100 quilos. Ou mais. Seu regime consistia em comer de duas em duas horas, todos os dias, até a hora de dormir.

Me ajeitei dentro dos meus 95 quilos e pensei: comendo tanto, é impossível emagrecer. Ela interrompeu meu raciocínio explicando que, agindo assim, o corpo não armazena gordura. Fingi concordar. No fundo, eu queria rir daquela artimanha fajuta para se empanturrar o dia inteiro, e com o aval de um endocrinologista.

Enfim, entramos no avião, desembarcamos e nunca mais tive notícia dela. Nem ela de mim. Mas se nos encontrássemos num saguão qualquer hoje, quase dez anos depois, ela tomaria um susto. Estou 17 quilos mais magro porque comecei a correr.

Quer saber o que realmente me ajudou muito a correr? Foi o iPod. Até outro dia, eu era incapaz de correr mais do que dez quilômetros sem ouvir música. Ficava estressado, contando os segundos para o treino acabar.

Até que, um dia, ganhei um iPod. A música mudou minha percepção do tempo. Com rock, MPB, reggae e outros ritmos, consegui treinar mais tempo e, assim, concluir mais de uma meia maratona. Foi nessas provas que conheci alguns corredores. E logo descobri que nem todos concordam comigo.

Identifiquei que, tal qual esquerda e direita na política, havia ali duas correntes: os corredores tecnológicos e os corredores naturalistas.

Sempre fui um tecnológico convicto, com dificuldade para entender por que razão os naturalistas abominam a companhia da música. Alguns deles abrem mão até de frequencímetro e GPS. O George Volpão, por exemplo, já foi um tecnológico convicto. Mas mudou de lado e, se houvesse eleição, ele seria o candidato dos naturalistas pelo estado do Paraná. Não usa nenhum equipamento além de tênis, calção e camisa. Seu corpo basta. E o sujeito é bom: encara de maratona para cima.

Numa posição naturalista mais comedida está o ironman Kléber Corrêa, de São Paulo. Ele usa GPS e frequencímetro. Mas música, nem pensar. Ouve os sons do próprio corpo: passadas e respiração. Esse perfil é o mesmo do também paulista Anderson Zacarias, corredor de elite, com resultados expressivos e experiência vasta.

Que minha bancada tecnológica não leia isto, mas preciso fazer uma confissão. Experimentei outro dia correr 15 quilômetros sem música. Gostei, o que me deixou perplexo. Comecei, então, a fazer treinos de tiros sem iPod e notei que meu desempenho melhorou. Fiquei preocupado. É ainda mais grave o fato de atualmente eu completar longões com o fone preso ao ouvido, mas com o iPod desligado, porque começo a ficar viciado na batida que nem a Timbalada gravou até hoje: a dos pés e da respiração.

Felizmente, tornar-me um tecnológico com hábitos naturalistas não me excluiu das rodas de amigos. Afinal, corredores são assim mesmo: ouvem, aprendem, aprimoram conhecimento e mudam de opinião.

Quase me esqueço de contar que só comecei a correr depois que emagreci. E só emagreci porque uma nutricionista me mandou comer, acredite, de duas em duas horas. E só precisei ir à nutricionista porque zombei do que disse a senhora comilona no aeroporto. A oposição, naquela ocasião, também tinha algo a me ensinar.

Os políticos que me perdoem, mas é esmagadora a vantagem dos corredores na prática da democracia. Mais do que eleger candidatos, os atletas elegem ideias. Aprendem com a riqueza da divergência de pontos de vista. Colecionam amigos no plenário do asfalto. E não fazem promessas.

E se não houver resposta?

Por Cassio Politi | 11/01/2010, 21h10

Na adolescência, patins sob os pés. Hoje, asfalto.

— Difícil é patinar. Bater com o stick na bola é fácil.

Eu tinha uns 14 anos quando ouvi essa explicação do Vítor, um colega de escola. Argumentei que patinar se aprende em poucos meses. Portanto, a habilidade com o stick (ou “taco”) é o que faz você melhor ou pior do que os outros jogadores. Mas o Vítor não se convenceu.

— E se o sujeito nunca aprender a patinar?

Eu não tinha resposta para aquela pergunta, o que me deixou incomodado. Afinal, eu jogava hóquei desde os 10 anos e o Vítor era absolutamente sedentário.

Também faz tempo que passei alguns meses na África do Sul, cuja costa é cheia de tubarões. Eu nadava numa praia de Port Alfred, no Oceano Índico, quando Sean, o amigo que me recebia em sua casa à beira-mar, deu uma ideia.

— Quer ir até ali, na entrada do canal, ver os tubarões passando? Eles vêm até as pedras do canal para comer marisco.

Calculei que a distância até a entrada do tal canal era de uns 200 metros.

— Se tem tubarão ali, no canal, tem aqui também, certo? — indaguei, com a água na altura do peito.

— É claro que sim. Tubarões, peixes, pedras, conchas, areia, água salgada… onde mais você espera encontrar essas coisas?

— E se um tubarão decidir me morder?

O Sean não tinha resposta para a minha pergunta.

Há poucos meses, um professor do MBA ilustrava sua explanação com a seguinte pergunta: “O que é uma pessoa saudável?”.

A turma, eu inclusive, foi rápida na resposta. “Ora, saudável é quem não está doente“.

O professor ponderou que, se estivéssemos certos, um morto seria saudável. Alguém tentou partir para uma explicação técnica sobre o significado de saúde, mas o professor logo pôs fim ao debate.

— Saudável é o sujeito que nem sequer pensa na doença.

Gostei tanto do raciocínio que desejei nunca ter feito a pergunta ao Sean. Por conviver com tubarões na porta de casa, ele sabia que são pouquíssimas as espécies que atacam os homens. E que nenhuma delas passeia pelas praias de Port Alfred.

Tive vontade, ainda, de voltar no tempo e explicar ao Vítor que não existe possibilidade de alguém não aprender a patinar. Simplesmente porque a vontade de jogar hóquei elimina a chance de nunca se equilibrar em cima do patins.

Outro dia, batendo papo com um conhecido, contei que estou treinando para correr uma maratona. Sedentário como o Vítor, o sujeito ficou impressionado ao saber que são 42 quilômetros.

— E se você ficar exausto e tiver de desistir no meio da maratona?

Felizmente, não tenho resposta para a pergunta dele.

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