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O blog da Corrida de Rua

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E se não houver resposta?

Por Cassio Politi | 11/01/2010, 21h10

Na adolescência, patins sob os pés. Hoje, asfalto.

— Difícil é patinar. Bater com o stick na bola é fácil.

Eu tinha uns 14 anos quando ouvi essa explicação do Vítor, um colega de escola. Argumentei que patinar se aprende em poucos meses. Portanto, a habilidade com o stick (ou “taco”) é o que faz você melhor ou pior do que os outros jogadores. Mas o Vítor não se convenceu.

— E se o sujeito nunca aprender a patinar?

Eu não tinha resposta para aquela pergunta, o que me deixou incomodado. Afinal, eu jogava hóquei desde os 10 anos e o Vítor era absolutamente sedentário.

Também faz tempo que passei alguns meses na África do Sul, cuja costa é cheia de tubarões. Eu nadava numa praia de Port Alfred, no Oceano Índico, quando Sean, o amigo que me recebia em sua casa à beira-mar, deu uma ideia.

— Quer ir até ali, na entrada do canal, ver os tubarões passando? Eles vêm até as pedras do canal para comer marisco.

Calculei que a distância até a entrada do tal canal era de uns 200 metros.

— Se tem tubarão ali, no canal, tem aqui também, certo? — indaguei, com a água na altura do peito.

— É claro que sim. Tubarões, peixes, pedras, conchas, areia, água salgada… onde mais você espera encontrar essas coisas?

— E se um tubarão decidir me morder?

O Sean não tinha resposta para a minha pergunta.

Há poucos meses, um professor do MBA ilustrava sua explanação com a seguinte pergunta: “O que é uma pessoa saudável?”.

A turma, eu inclusive, foi rápida na resposta. “Ora, saudável é quem não está doente“.

O professor ponderou que, se estivéssemos certos, um morto seria saudável. Alguém tentou partir para uma explicação técnica sobre o significado de saúde, mas o professor logo pôs fim ao debate.

— Saudável é o sujeito que nem sequer pensa na doença.

Gostei tanto do raciocínio que desejei nunca ter feito a pergunta ao Sean. Por conviver com tubarões na porta de casa, ele sabia que são pouquíssimas as espécies que atacam os homens. E que nenhuma delas passeia pelas praias de Port Alfred.

Tive vontade, ainda, de voltar no tempo e explicar ao Vítor que não existe possibilidade de alguém não aprender a patinar. Simplesmente porque a vontade de jogar hóquei elimina a chance de nunca se equilibrar em cima do patins.

Outro dia, batendo papo com um conhecido, contei que estou treinando para correr uma maratona. Sedentário como o Vítor, o sujeito ficou impressionado ao saber que são 42 quilômetros.

— E se você ficar exausto e tiver de desistir no meio da maratona?

Felizmente, não tenho resposta para a pergunta dele.

O doce sabor do fracasso

Por Cassio Politi | 03/01/2010, 20h26

Foto: Hélio Nagai/ZDL
Largada da São Silvestre 2009

Abro os olhos e penso na prova. A ansiedade me dominaria até a largada da São Silvestre. Lembro que um ano atrás eu estava igualmente ansioso pelo que seria de meu ano profissional.

Demoradamente, vou até a janela e sentencio que vai chover dentro de poucas horas. Da mesma forma, 365 dias atrás eu previra como seria cada mês de 2009. Errei em todos eles. Tampouco choveu na São Silvestre.

Chego à largada e alguém pergunta qual a minha meta. Uma hora e vinte minutos, respondo. Começo a caminhar e passo por um pórtico, mas não vejo o tapete de cronometragem. Pergunto a um staff onde, afinal, é a largada. É mais adiante, no tapete.  Estou em minha 17ª prova só neste ano e ainda tenho dúvidas estúpidas. No dia-a-dia profissional, isso às vezes acontece.

Sem espaço
Enfim, começo a correr, mas não consigo impor meu ritmo. Penso no alerta de alguns amigos: fazer tempo na São Silvestre é difícil. É muita gente correndo. De fato, há congestionamentos a cada quilômetro. O desempenho na corrida e nas empreitadas profissionais é assim mesmo: está sempre sujeito a interferências externas. Decido, então, que só me cabe enfrentar a adversidade. Um esbarrão aqui, outro ali. Peço desculpas e sigo em frente, na prova e na vida.

Chego ao 9º quilômetro e constato que os engarrafamentos de corredores me atrasaram. Revisar a meta, nem pensar! Se puder ser manipulada, ela perde a razão de existir. Por isso, é inflexível. Aprendi isso como gestor e agora uso como atleta.

Passo pela placa de 13 km. Meu cronômetro marca 1h12. Será necessário percorrer os 2 km finais, que incluem a dura subida da Brigadeiro, em menos de 8 minutos. Impossível, eu sei. Sem olhar mais o relógio, corro o máximo que posso até o fim, exatamente como agiria num projeto passível de uma pressão angustiante.

Fracasso
Cruzo a linha de chegada três minutos além do tempo previsto. Tento me diagnosticar diante do fracasso. Estou feliz com o resultado? Claro que não. Estou frustrado? Também não.

Pego o metrô e começo uma breve reflexão. Algumas estações depois, desembarco com o peito estufado, como se fosse um leão faminto, querendo ir à forra com tudo o que não funcionou em 2009.

Um segundo a menos numa prova é o irmão gêmeo de um sucesso a mais no trabalho. Porque a corrida imita a vida. E vice-versa. Então, que venha 2010.

Bendita ignorância

Por Cassio Politi | 28/12/2009, 22h21

Esquina da quase renomeada Av. Paulista com a rua que leva o nome de seu idealizador

Eu estava lendo um texto sobre um de meus autores preferidos. Me levantei, guardei o livro na estante e me dei conta de que, dentro de alguns dias, eu estaria correndo a São Silvestre. Decidi, então, colocar em prática o que acabara de ler.

Comecei perguntando a mim mesmo: quem, afinal, foi São Silvestre? Que se trata de um santo, eu já desconfiava. Só não sabia que Silvestre I foi papa no Século IV. Era italiano de Roma. Marcado pelo período de paz na igreja, seu pontificado terminou no dia 31 de dezembro de 335. Daí, a data festiva.

E aquela rua  que descemos logo depois da placa de 1 km. Por que se chama Consolação? Inevitável imaginar um sujeito aos prantos sendo consolado por outro. Bobagem. A rua tem esse nome porque no final dela fica a Igreja Nossa Senhora da Consolação, construída em 1799. Cabe explicar que Nossa Senhora da Consolação é a forma como orações se referem a Virgem Maria, mãe de Jesus.

O Brigadeiro Luís Antônio, por sua vez, foi um militar luso-brasileiro. Luís Antonio de Sousa Queiroz reformou-se em 1818, com a patente de brigadeiro, e morreu um ano depois

Não achei que fosse útil pesquisar o porquê do nome da Av. Paulista, mas aprendi que, na década de 20, rebatizaram a avenida para Carlos de Campos. Mas os paulistanos não gostaram. Protestaram e exigiram que o nome original voltasse. E voltou para sempre.

É justamente na Paulista que fica o pórtico de chegada da São Silvestre. Fica quase em frente ao cruzamento com a Joaquim Eugênio de Lima. Quem terá sido ele? Simples: esse engenheiro uruguaio foi o idealizador da Av. Paulista, inaugurada em 1891.

A propósito, o livro que despertou esta avalanche de curiosidades diz respeito ao mestre da administração Peter Drucker, que pregava: “aborde as questões com ignorância, e não com o seu conhecimento”.

Aparentemente, funciona.

Ah, se eu fosse um guepardo

Por Cassio Politi | 03/12/2009, 12h44

Que animal você gostaria de ser?

Se fosse obrigado a deixar o topo da cadeia alimentar urbana, eu gostaria de ser um guepardo.

Não que seja minha intenção sair caçando gazelas por aí, tampouco pretendo ser trancafiado numa jaula de zoológico. É que eu queria muito correr como o guepardo.

As passadas do guepardo são perfeitas: impulso para a frente, e não para cima. Vive em grupo, mas corre sozinho.

Talvez por isso as gazelas sejam sempre a caça. Correm como principiantes, de olhos esbugalhados, esgotando o fôlego logo no início.

O guepardo cadencia a corrida. Guarda para o momento exato os tiros de 300, 400, 500 metros. Chega a 120 quilômetros por hora.

E por que não escolher o cavalo, tão forte e capaz de percorrer longas distâncias? Ora, o cavalo bate muito os pés no chão. Joelho nenhum aguentaria tanto impacto no asfalto. Sua mobilidade, então, é digna de compaixão. O cavalo é mais troncudo do que um corredor precisa ser.

O guepardo, por sua vez, dispara no calor da savana com seus 60 quilos. E enxerga como poucos. De dia, dispensa proteção para o sol. À noite, abre mão de qualquer iluminação artificial.

A girafa tem atributos técnicos para ser uma corredora de ponta. É alta e magra. Mas não tem vocação. Seu silêncio enigmático revela uma personalidade tranquila demais. Não precisa se livrar do estresse.

O guepardo está sempre agitado. Olha de um lado para o outro, como quem teve um dia puxado no trabalho. Nem se importa com o horário: corre de dia, corre de noite.

Os cães também seriam ótimos corredores se pensassem mais em si próprios. Mas não resistiram à tentação dos mimos de seus melhores amigos. Deve ser por isso que os cães não conseguem se concentrar. Enquanto correm, prestam atenção em tudo, menos em seu próprio desempenho. Um desperdício para o atletismo.

O guepardo é focado. Em sua corrida ágil, a cabeça não balança. Ele se mantém concentrado no alvo. É objetivo, corre em função de suas metas.

No quesito beleza, o guepardo não deve nada aos cães. É fotogênico. Em câmera lenta, faz expressões de esforço e determinação.

Agora, vou desligar o Discovey Channel, calçar meu tênis com amortecimento especial para corrida, colocar óculos escuros, boné, iPod, frequencímetro com GPS e roupa feita com tecido dry fit.

E vou para a minha corrida artificial, típica de um ser humano limitado que se orgulha de ocupar o topo da cadeia alimentar.

E assim nasceu o Twitters Run Day

Por Cassio Politi | 18/11/2009, 13h05

Maratona de Revezamento Pão-de-Açúcar no Rio: Rafael Santos, Joaquim Cavalcante e este blogueiro

“Corra aí na sua cidade que eu corro por aqui. Depois, a gente soma as quilometragens e registra isso em algum lugar”.

O diálogo em questão se deu não entre dois, mas entre 131 corredores espalhados por 26 cidades de quatro países. Para não soar exagerado: foram 129 no Brasil, um em Portugal, um na Argentina e um nos Estados Unidos. O que também não é pouco. Somadas, as distâncias chegam a quase 1.900 km (veja os detalhes aqui).

A ideia nasceu no Twitter, onde os internautas começaram a trocar figurinhas sobre corrida de rua. De Belo Horizonte, o Augusto, cujo avatar no Twitter é @correguto, lançou a ideia de criar o TwittersRun (por razões técnicas, #twitersrun, com 1 “T” só). Ideia boa, adesão geral.

Era quinta-feira. Eu estava inspirado pelo primeiro dia de prova do Desafio dos 600K, competição da Nike que saiu de São Paulo e foi ao Rio. Bateu subitamente a ideia do Twitters Run Day. Fui para a van com urgência. Queria lançar e ver a reação dos amigos. peguei o celular e “twittei” a seguinte mensagem às 16h52 do dia 22 de outubro:

@cassiopoliti: Ideia: vamos criar o #TwittersRunDay? É assim: marcamos um sábado. Cada um faz seu treino. Depois, somamos os km de cada um. Que acham?

Nos dias seguintes, Augusto, Anderson Zacarias (@andzacarias) e eu conversamos muito sobre como fazer. Acertamos que valeria a quilometragem do fim de semana, e não apenas do sábado. E que valeria prova, e não apenas treino. O Anderson fez acontecer não apenas a sua ideia de criar a camisa do evento, mas foi o fomentador do evento em si.

Guardei para mim a expectativa de que umas 20 pessoas aderissem e não perguntei ao Anderson quantas camisas haviam sido solicitadas. Foram mais de 70!

De ideia em ideia, agora parte do grupo vai se encontrar na Volta da Pampulha, dia 6 de dezembro, em Belo Horizonte. Não pergunte quantas pessoas do TwittersRun eu acho que vão estar lá. Meu histórico de chutes é péssimo.

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