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Dez mandamentos de um maratonista de primeira viagem

Por Cassio Politi | 23/12/2010, 15h12

Linha de chegada da Maratona de Chicago 2010

Receio que seja muita petulância afirmar que maratonistas entendem muito de maratona, mas que de primeira maratona entende bem quem fez apenas uma. No meu caso, foi a Maratona de Chicago, no dia 10/10/10.

Do alto de minha inexperiência como maratonista, me arrisco a escrever 10 mandamentos para quem ainda vai se aventurar nos 42,2 km.

1. Sonhe intensamente com a prova.
Visualize a chegada. Quando criança, você  desejou muito que o Natal chegasse logo para finalmente colocar as mãos no tão sonhado presente. Resgate toda a sabedoria que se perde na infância e sonhe muito com a linha de chegada. Visualize aquele momento, experimente a emoção imaginária. Não há combustível melhor.

2. Treine mais do que precisaria.
Você acha que cinco meses são suficientes? Então, prepare-se durante sete, oito, nove meses (que foi o meu caso). O corpo não precisa de tanto, eu sei. Mas a cabeça precisa para ganhar autoconfiança.

3. Exercite a garra a cada treino.
Não adianta criar um espírito guerreiro somente no dia da prova. Desafie-se nos treinos, estipulando pequenas metas.

4. Use provas intermediárias para testar sua estratégia.
Aproveite meias maratonas e outras distâncias para se conhecer melhor. Erre nessas ocasiões.

5. Encare a prova como um importante desafio.
Atribua àquele momento a importância de conquistar uma medalha de ouro. Maratona não é diversão. É desafio!

6. Defina a sua meta pouco mais de um mês antes da prova.
É ali, depois do último longão de mais de 30 km, que você terá exata noção do tempo que consegue fazer na maratona sem se colocar em risco de quebrar.

7. Aprenda a gostar do que você não gosta.
Você detesta musculação? Então, aprenda a gostar. Desafie-se a cada treino. E ignore as pessoas que dizem que aquilo é um porre. O mesmo vale para quem abomina treinos de tiro, longões etc.

8. No último quilômetro de cada treino, reflita.
É a melhor ocasião para pensar e até tomar decisões. Use esse momento para, por exemplo, conversar com Deus. Quem tiver outra crença (ou nenhuma) use então esse último quilometro para pensar nas coisas que estão em andamento na vida pessoal ou profissional. E veja o resultado que isso gera.

9. Use a corrida na sua vida pessoal e profissional.
Associe sua meta de completar a primeira maratona a metas pessoais e profissionais. Deixe as conquistas na corrida contagiarem as conquistas fora dela.

10. Vibre muito ao completar 42,2 km.
Vibre na linha de chegada. Mas vibre muito mesmo! Não desperdice a chance de comemorar. Um minuto depois de terminar a prova, talvez o timing da emoção da conquista tenha passado. Grite, chore, abrace… Enfim, faça o que der vontade. Afinal, você dedicou meses da sua vida por aquele momento. Torne-o especial.

    Depois do 10º mandamento, siga um conselho: coma hambúrguer, chocolate, sorvete, cerveja, churrasco. Na semana pós-prova, está liberado. Porque depois começa tudo de novo. Ainda bem.

    A armadilha

    Por Cassio Politi | 15/06/2010, 07h18

    Eu ia construindo uma maquete em minha mente à medida que o Estevão descrevia. Na parte mais alta, ficavam os chalés. Logo atrás, estavam as piscinas. O restaurante,  em frente ao lago, tinha uma parte aberta para os dias quentes. A comida, farta, vinha diretamente de um fogão a lenha.

    Não tínhamos assunto suficiente para preencher tantas horas de viagem. Eram cinco na ida e cinco na volta. Isso sem contar a ociosidade entre uma reunião e outra no interior.

    O Estevão falava com tanto entusiasmo que eu já me sentia privilegiado por ser o primeiro hóspede daquele hotel-fazenda ainda em estágio imaginário.

    — Quantos quilômetros terá a pista de cooper? — eu quis saber.
    — Sei lá… Isso é detalhe. Não faz a menor diferença.
    — Não faz para você. Quanto maior for a pista, maior será a chance de eu ser um cliente recorrente.

    Ele riu porque sabia que aquilo era um mero faz-de-conta, um doce passatempo. Como sonhar era permitido, confidenciei ao Estevão que meu sonho era mais barato que o dele, mas não menos trabalhoso. Eu queria um dia correr uma maratona.

    — Quarenta e dois quilômetros?! — o Estevão se espantou. — Ora, se já inventaram o carro, por que diabos você tem de percorrer essa distância a pé?

    Ponderei que, se fosse assim, estávamos empatados: fogão a lenha também era coisa do passado. A discussão sobre o que era mais útil — a corrida ou a cozinha — perdurou até entramos na Marginal Tietê. Me despedi do Estevão e, cansado, fui dormir.

    Depois que o nosso projeto foi concluído, nos falamos algumas vezes. Até perdermos completamente o contato.

    Fiquei surpreso ao receber, semanas atrás, um e-mail do Estevão. Era um quase SPAM que ele soltou para toda a sua lista de contatos. A mensagem trazia uma bem trabalhada propaganda do seu hotel-fazenda. Fiquei eufórico: ele havia realizado aquele sonho! Telefonei na mesma hora.

    Uma semana mais tarde, quando desci do carro, notei que pedaços de lenha queimavam sob o fogão, fazendo o hotel-fazenda real ser muito parecido com o que ele um dia imaginara.

    No almoço, quis saber do Estevão como, afinal, ele conseguiu fazer tudo aquilo em apenas seis anos. Surpreendente foi o tom de melancolia da resposta. Os impostos altíssimos, a dificuldade de encontrar bons funcionários, a exigência dos hóspedes, o trator quebrado, o cavalo com carrapato insinuavam que o negócio podia ser lucrativo, mas era cansativo.

    Aquele comportamento era uma espécie de rebeldia, mas na contramão, como se o pai se rebelasse contra o filho.

    Quando no fim da tarde fui correr, me senti feliz por estar ali, fazendo mais um treino para a minha primeira maratona. Naquele momento, sentenciei que me sentiria feliz a cada passada, em todos os treinos, em todas as provas. Porque definitivamente não queria para mim o que vi acontecer com o Estevão: ele se tornou vítima de seu próprio sonho.

    Nas paródias da vida

    Por Cassio Politi | 01/06/2010, 19h08

    Na formatura, Floriano me cumprimenta. Ele morreria anos depois, ainda jovem.

    — Disciplina é trabalho!

    Quando ouvimos o Floriano dizer aquilo, caímos na gargalhada. Antes mesmo de soar o sinal do intervalo, paródias já circulavam aos cochichos no fundo da sala de aula. A que fez mais sucesso foi “disciplina é o c…”.

    Se papo cabeça não era o nosso forte, éramos pelo menos adolescentes coerentes. Afinal, para nós, disciplina remetia ao comportamento sem tempero dos nerds. E trabalho fazia jus à etimologia. O próprio Floriano havia um dia ensinado que a palavra “trabalho” tem origem em “tripaliu”, um antigo instrumento de tortura. Daí a concluirmos que sofrimento e trabalho eram praticamente sinônimos foi um pulo.

    Episódios assim não afastavam o Floriano dos alunos. Pelo contrário: ele era um sujeito divertido e sabia cativar a turma. Era bem humorado, fazia uma gozação fina e em contrapartida aceitava brincadeiras. Também é verdade que, de vez em quando, soltava umas piadas velhas, sem graça. A gente ria para não perder o amigo. Isso foi há 20 anos.

    Curiosa foi a reação do Paulo Oliveira, meu treinador e amigo, quando no ano passado eu o chamei para uma conversa. Disse a ele que queria correr minha primeira maratona em 2010. Ele só concordou quando me comprometi a ser fiel à planilha e jamais pular treinos. Assim, comecei a correr 70, 80, 90 quilômetros por semana. Isso sem falar em musculação, nutricionista, horas de sono etc.

    Bastaram três meses nessa rotina pautada pelo rigor para que eu baixasse em 13 minutos meu melhor tempo em meia maratona. Na linha de chegada dessa prova, me dei conta de que a máxima do Floriano nunca convenceria um adolescente  empenhado em fazer graça para os colegas. Mas é capaz de fazer um atleta bater sua meta.

    Com o amadurecimento, enfim, consegui compreender o que queria dizer o saudoso Floriano. Só não perdi o hábito de parodiar sua célebre frase. Disciplina é resultado, professor.

    O filtro dos corredores

    Por Cassio Politi | 23/02/2010, 15h48

    Quando dei por mim, estava cara-a-cara com o goleiro. O Miguel estava livre na grande área, mas não passei a bola. Tentei driblar o goleiro e acabei saindo com bola e tudo pela linha de fundo.

    — Seu fominha! Não tá me vendo livre aqui, pô?! Passa a bola, cacete! Moleque burro! — esbravejou o Miguel.

    Preferi não responder. Apenas dei meia-volta e comecei a trotar rumo ao campo de defesa. Alguns passos depois, parei. Olhei para trás tentando entender que balbúrdia era aquela. E saí correndo para apartar a briga. Apesar de ser do time adversário, o Pirulito tinha tomado minhas dores e esbofeteava o Miguel.

    Ele, Pirulito, era uns dois anos mais velho que a gente. Tinha acabado de completar 11 anos e, em troca de gorjetas, trabalhava como catador de bolinhas nas quadras de tênis do clube. A briga só parou quando consegui fazer o Pirulito me ouvir.

    — Para com isso, Pirulito! Foi uma discussão de jogo. O Miguel é meu amigo.

    Resignado, o Pirulito saiu lentamente do campinho de areia. Pendurou a camisa abarrotada no ombro, calçou o tênis velho e, antes de ir embora, avisou:

    — Mexer com o meu amigo é mexer comigo.

    A verdade é que nossa amizade havia começado havia pouquíssimo tempo, na semana anterior à briga, no dia do aniversário dele. Por sugestão do coração enorme de minha mãe, dei de presente ao Pirulito um brinquedo. Coisa simples, que dávamos de aniversário aos amigos.

    Só depois soube que aquele era o primeiro brinquedo novo que o Pirulito ganhava em toda a sua vida. Ficava atordoado quando pensava que um garoto tão gente boa não merecia uma vida tão dura. Ladeiras de barro, casas de tapume, hospitais caindo aos pedaços e escolas violentas rodeavam sua casa.

    Eu só não tinha ideia de que, no decorrer da vida, conheceria muito mais gente como o Pirulito. Pessoas com as quais convivemos e das quais gostamos, mas que levam vidas tão diferentes das nossas.

    Uma dessas pessoas é o João, que outro dia conheci na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. O calor era insuportável e precisei fazer um pit stop para hidratação. Perto do carrinho de água de coco, ele fazia o alongamento pós-treino.

    — Quantas voltas você já deu? — o João puxou a conversa.

    Respondi que já tinham sido duas, mas ainda me faltava uma, e devolvi com alguma outra pergunta. Resultado: o que seria uma pausa de poucos segundos se estendeu por mais de 15 minutos. Culpa do papo cativante do João, que já completou seis maratonas, todas em menos de três horas. Falamos também de locais onde correr em São Paulo, de treinar sozinho, de treinar em grupo e do grupo de corredores da Rocinha.

    — Você conhece a Equipe Rocinha? — surpreendeu-se o João.
    — Não conheço pessoalmente ninguém do grupo, mas vejo os uniformes deles nas provas. Pelo que vejo, os caras correm bem.
    — Ô, rapaz, que bom saber que um paulista conhece a turma. Treino com eles três vezes por semana. São chegados meus. Eu moro lá, na comunidade da Rocinha.

    A conversa só terminou porque o João me alertou para o fato de que eu esfriaria se não voltasse logo ao meu treino. Retomei meu trote e, então, me dei conta do quanto a sociedade tem a aprender com o esporte. Em que outra circunstância um desconhecido puxa papo sem justificativa, se apresenta como morador de uma favela, recebe atenção e, mais do que isso, é digno de admiração?

    O que diferencia os corredores é a capacidade de não diferenciar os outros corredores. No asfalto, não há pobre ou rico nem branco, negro ou amarelo. Há corredores. Apenas corredores.

    Hoje consigo compreender por que o Pirulito nutriu aquela gratidão toda. No dia em que completou 11 anos, ele não foi tratado como um sujeito pobre. Naquele dia, ele foi tratado como um garoto. Apenas um garoto.

    A chapa de oposição

    Por Cassio Politi | 09/02/2010, 19h09

    — Aceita um biscoito?

    Recusei a oferta, mas adorei a ideia de bater um papo. A dona dos biscoitos e eu esperávamos o mesmo voo no saguão do aeroporto. O avião estava meia hora atrasado.

    Ela contou que ia se encontrar com a filha mais nova, eu contei que ia dar aula. Ela falou de cinema, eu falei de Fórmula 1. Ela falou dos netos, eu falei do meu cachorro. O atraso já passava de duas horas.

    — Tem certeza de que não quer um biscoito?

    Minha segunda recusa foi a deixa para entrarmos num assunto que perseguia ambos: emagrecer. Aquela simpática senhora pesava uns 100 quilos. Ou mais. Seu regime consistia em comer de duas em duas horas, todos os dias, até a hora de dormir.

    Me ajeitei dentro dos meus 95 quilos e pensei: comendo tanto, é impossível emagrecer. Ela interrompeu meu raciocínio explicando que, agindo assim, o corpo não armazena gordura. Fingi concordar. No fundo, eu queria rir daquela artimanha fajuta para se empanturrar o dia inteiro, e com o aval de um endocrinologista.

    Enfim, entramos no avião, desembarcamos e nunca mais tive notícia dela. Nem ela de mim. Mas se nos encontrássemos num saguão qualquer hoje, quase dez anos depois, ela tomaria um susto. Estou 17 quilos mais magro porque comecei a correr.

    Quer saber o que realmente me ajudou muito a correr? Foi o iPod. Até outro dia, eu era incapaz de correr mais do que dez quilômetros sem ouvir música. Ficava estressado, contando os segundos para o treino acabar.

    Até que, um dia, ganhei um iPod. A música mudou minha percepção do tempo. Com rock, MPB, reggae e outros ritmos, consegui treinar mais tempo e, assim, concluir mais de uma meia maratona. Foi nessas provas que conheci alguns corredores. E logo descobri que nem todos concordam comigo.

    Identifiquei que, tal qual esquerda e direita na política, havia ali duas correntes: os corredores tecnológicos e os corredores naturalistas.

    Sempre fui um tecnológico convicto, com dificuldade para entender por que razão os naturalistas abominam a companhia da música. Alguns deles abrem mão até de frequencímetro e GPS. O George Volpão, por exemplo, já foi um tecnológico convicto. Mas mudou de lado e, se houvesse eleição, ele seria o candidato dos naturalistas pelo estado do Paraná. Não usa nenhum equipamento além de tênis, calção e camisa. Seu corpo basta. E o sujeito é bom: encara de maratona para cima.

    Numa posição naturalista mais comedida está o ironman Kléber Corrêa, de São Paulo. Ele usa GPS e frequencímetro. Mas música, nem pensar. Ouve os sons do próprio corpo: passadas e respiração. Esse perfil é o mesmo do também paulista Anderson Zacarias, corredor de elite, com resultados expressivos e experiência vasta.

    Que minha bancada tecnológica não leia isto, mas preciso fazer uma confissão. Experimentei outro dia correr 15 quilômetros sem música. Gostei, o que me deixou perplexo. Comecei, então, a fazer treinos de tiros sem iPod e notei que meu desempenho melhorou. Fiquei preocupado. É ainda mais grave o fato de atualmente eu completar longões com o fone preso ao ouvido, mas com o iPod desligado, porque começo a ficar viciado na batida que nem a Timbalada gravou até hoje: a dos pés e da respiração.

    Felizmente, tornar-me um tecnológico com hábitos naturalistas não me excluiu das rodas de amigos. Afinal, corredores são assim mesmo: ouvem, aprendem, aprimoram conhecimento e mudam de opinião.

    Quase me esqueço de contar que só comecei a correr depois que emagreci. E só emagreci porque uma nutricionista me mandou comer, acredite, de duas em duas horas. E só precisei ir à nutricionista porque zombei do que disse a senhora comilona no aeroporto. A oposição, naquela ocasião, também tinha algo a me ensinar.

    Os políticos que me perdoem, mas é esmagadora a vantagem dos corredores na prática da democracia. Mais do que eleger candidatos, os atletas elegem ideias. Aprendem com a riqueza da divergência de pontos de vista. Colecionam amigos no plenário do asfalto. E não fazem promessas.

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