— Aceita um biscoito?
Recusei a oferta, mas adorei a ideia de bater um papo. A dona dos biscoitos e eu esperávamos o mesmo voo no saguão do aeroporto. O avião estava meia hora atrasado.
Ela contou que ia se encontrar com a filha mais nova, eu contei que ia dar aula. Ela falou de cinema, eu falei de Fórmula 1. Ela falou dos netos, eu falei do meu cachorro. O atraso já passava de duas horas.
— Tem certeza de que não quer um biscoito?
Minha segunda recusa foi a deixa para entrarmos num assunto que perseguia ambos: emagrecer. Aquela simpática senhora pesava uns 100 quilos. Ou mais. Seu regime consistia em comer de duas em duas horas, todos os dias, até a hora de dormir.
Me ajeitei dentro dos meus 95 quilos e pensei: comendo tanto, é impossível emagrecer. Ela interrompeu meu raciocínio explicando que, agindo assim, o corpo não armazena gordura. Fingi concordar. No fundo, eu queria rir daquela artimanha fajuta para se empanturrar o dia inteiro, e com o aval de um endocrinologista.
Enfim, entramos no avião, desembarcamos e nunca mais tive notícia dela. Nem ela de mim. Mas se nos encontrássemos num saguão qualquer hoje, quase dez anos depois, ela tomaria um susto. Estou 17 quilos mais magro porque comecei a correr.
Quer saber o que realmente me ajudou muito a correr? Foi o iPod. Até outro dia, eu era incapaz de correr mais do que dez quilômetros sem ouvir música. Ficava estressado, contando os segundos para o treino acabar.
Até que, um dia, ganhei um iPod. A música mudou minha percepção do tempo. Com rock, MPB, reggae e outros ritmos, consegui treinar mais tempo e, assim, concluir mais de uma meia maratona. Foi nessas provas que conheci alguns corredores. E logo descobri que nem todos concordam comigo.
Identifiquei que, tal qual esquerda e direita na política, havia ali duas correntes: os corredores tecnológicos e os corredores naturalistas.
Sempre fui um tecnológico convicto, com dificuldade para entender por que razão os naturalistas abominam a companhia da música. Alguns deles abrem mão até de frequencímetro e GPS. O George Volpão, por exemplo, já foi um tecnológico convicto. Mas mudou de lado e, se houvesse eleição, ele seria o candidato dos naturalistas pelo estado do Paraná. Não usa nenhum equipamento além de tênis, calção e camisa. Seu corpo basta. E o sujeito é bom: encara de maratona para cima.
Numa posição naturalista mais comedida está o ironman Kléber Corrêa, de São Paulo. Ele usa GPS e frequencímetro. Mas música, nem pensar. Ouve os sons do próprio corpo: passadas e respiração. Esse perfil é o mesmo do também paulista Anderson Zacarias, corredor de elite, com resultados expressivos e experiência vasta.
Que minha bancada tecnológica não leia isto, mas preciso fazer uma confissão. Experimentei outro dia correr 15 quilômetros sem música. Gostei, o que me deixou perplexo. Comecei, então, a fazer treinos de tiros sem iPod e notei que meu desempenho melhorou. Fiquei preocupado. É ainda mais grave o fato de atualmente eu completar longões com o fone preso ao ouvido, mas com o iPod desligado, porque começo a ficar viciado na batida que nem a Timbalada gravou até hoje: a dos pés e da respiração.
Felizmente, tornar-me um tecnológico com hábitos naturalistas não me excluiu das rodas de amigos. Afinal, corredores são assim mesmo: ouvem, aprendem, aprimoram conhecimento e mudam de opinião.
Quase me esqueço de contar que só comecei a correr depois que emagreci. E só emagreci porque uma nutricionista me mandou comer, acredite, de duas em duas horas. E só precisei ir à nutricionista porque zombei do que disse a senhora comilona no aeroporto. A oposição, naquela ocasião, também tinha algo a me ensinar.
Os políticos que me perdoem, mas é esmagadora a vantagem dos corredores na prática da democracia. Mais do que eleger candidatos, os atletas elegem ideias. Aprendem com a riqueza da divergência de pontos de vista. Colecionam amigos no plenário do asfalto. E não fazem promessas.