Chegar lá

O blog da Corrida de Rua

Arquivos: junho/2010

A armadilha

Por Cassio Politi | 15/06/2010, 07h18

Eu ia construindo uma maquete em minha mente à medida que o Estevão descrevia. Na parte mais alta, ficavam os chalés. Logo atrás, estavam as piscinas. O restaurante,  em frente ao lago, tinha uma parte aberta para os dias quentes. A comida, farta, vinha diretamente de um fogão a lenha.

Não tínhamos assunto suficiente para preencher tantas horas de viagem. Eram cinco na ida e cinco na volta. Isso sem contar a ociosidade entre uma reunião e outra no interior.

O Estevão falava com tanto entusiasmo que eu já me sentia privilegiado por ser o primeiro hóspede daquele hotel-fazenda ainda em estágio imaginário.

— Quantos quilômetros terá a pista de cooper? — eu quis saber.
— Sei lá… Isso é detalhe. Não faz a menor diferença.
— Não faz para você. Quanto maior for a pista, maior será a chance de eu ser um cliente recorrente.

Ele riu porque sabia que aquilo era um mero faz-de-conta, um doce passatempo. Como sonhar era permitido, confidenciei ao Estevão que meu sonho era mais barato que o dele, mas não menos trabalhoso. Eu queria um dia correr uma maratona.

— Quarenta e dois quilômetros?! — o Estevão se espantou. — Ora, se já inventaram o carro, por que diabos você tem de percorrer essa distância a pé?

Ponderei que, se fosse assim, estávamos empatados: fogão a lenha também era coisa do passado. A discussão sobre o que era mais útil — a corrida ou a cozinha — perdurou até entramos na Marginal Tietê. Me despedi do Estevão e, cansado, fui dormir.

Depois que o nosso projeto foi concluído, nos falamos algumas vezes. Até perdermos completamente o contato.

Fiquei surpreso ao receber, semanas atrás, um e-mail do Estevão. Era um quase SPAM que ele soltou para toda a sua lista de contatos. A mensagem trazia uma bem trabalhada propaganda do seu hotel-fazenda. Fiquei eufórico: ele havia realizado aquele sonho! Telefonei na mesma hora.

Uma semana mais tarde, quando desci do carro, notei que pedaços de lenha queimavam sob o fogão, fazendo o hotel-fazenda real ser muito parecido com o que ele um dia imaginara.

No almoço, quis saber do Estevão como, afinal, ele conseguiu fazer tudo aquilo em apenas seis anos. Surpreendente foi o tom de melancolia da resposta. Os impostos altíssimos, a dificuldade de encontrar bons funcionários, a exigência dos hóspedes, o trator quebrado, o cavalo com carrapato insinuavam que o negócio podia ser lucrativo, mas era cansativo.

Aquele comportamento era uma espécie de rebeldia, mas na contramão, como se o pai se rebelasse contra o filho.

Quando no fim da tarde fui correr, me senti feliz por estar ali, fazendo mais um treino para a minha primeira maratona. Naquele momento, sentenciei que me sentiria feliz a cada passada, em todos os treinos, em todas as provas. Porque definitivamente não queria para mim o que vi acontecer com o Estevão: ele se tornou vítima de seu próprio sonho.

Oficialmente pipoca

Por Cassio Politi | 08/06/2010, 07h56

Veja o percurso da Serra do Mar no Garmin Connect

Não corro prova sem estar inscrito. Mas também não me incomodo com quem o faça.

Afinal, já corri como pipoca. Isso aconteceu nos 600K da Nike. Fui cobrir a prova como jornalista e aproveitei para fazer alguns treinos no trajeto.

Escolhi a dedo os percursos. Um deles foi a descida da Serra do Mar. Outro foi dentro do luxuoso Hotel do Frade, em Angra. Tudo com o consentimento dos organizadores.

Foi assim que me tornei o único pipoca da histórica prova. E talvez o único pipoca não-clandestino da história da corrida de rua.

Nas paródias da vida

Por Cassio Politi | 01/06/2010, 19h08

Na formatura, Floriano me cumprimenta. Ele morreria anos depois, ainda jovem.

— Disciplina é trabalho!

Quando ouvimos o Floriano dizer aquilo, caímos na gargalhada. Antes mesmo de soar o sinal do intervalo, paródias já circulavam aos cochichos no fundo da sala de aula. A que fez mais sucesso foi “disciplina é o c…”.

Se papo cabeça não era o nosso forte, éramos pelo menos adolescentes coerentes. Afinal, para nós, disciplina remetia ao comportamento sem tempero dos nerds. E trabalho fazia jus à etimologia. O próprio Floriano havia um dia ensinado que a palavra “trabalho” tem origem em “tripaliu”, um antigo instrumento de tortura. Daí a concluirmos que sofrimento e trabalho eram praticamente sinônimos foi um pulo.

Episódios assim não afastavam o Floriano dos alunos. Pelo contrário: ele era um sujeito divertido e sabia cativar a turma. Era bem humorado, fazia uma gozação fina e em contrapartida aceitava brincadeiras. Também é verdade que, de vez em quando, soltava umas piadas velhas, sem graça. A gente ria para não perder o amigo. Isso foi há 20 anos.

Curiosa foi a reação do Paulo Oliveira, meu treinador e amigo, quando no ano passado eu o chamei para uma conversa. Disse a ele que queria correr minha primeira maratona em 2010. Ele só concordou quando me comprometi a ser fiel à planilha e jamais pular treinos. Assim, comecei a correr 70, 80, 90 quilômetros por semana. Isso sem falar em musculação, nutricionista, horas de sono etc.

Bastaram três meses nessa rotina pautada pelo rigor para que eu baixasse em 13 minutos meu melhor tempo em meia maratona. Na linha de chegada dessa prova, me dei conta de que a máxima do Floriano nunca convenceria um adolescente  empenhado em fazer graça para os colegas. Mas é capaz de fazer um atleta bater sua meta.

Com o amadurecimento, enfim, consegui compreender o que queria dizer o saudoso Floriano. Só não perdi o hábito de parodiar sua célebre frase. Disciplina é resultado, professor.

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