A chapa de oposição

fevereiro 9, 2010 by Cassio Politi · 17 Comments
Filed under: Crônica 

— Aceita um biscoito?

Recusei a oferta, mas adorei a ideia de bater um papo. A dona dos biscoitos e eu esperávamos o mesmo voo no saguão do aeroporto. O avião estava meia hora atrasado.

Ela contou que ia se encontrar com a filha mais nova, eu contei que ia dar aula. Ela falou de cinema, eu falei de Fórmula 1. Ela falou dos netos, eu falei do meu cachorro. O atraso já passava de duas horas.

— Tem certeza de que não quer um biscoito?

Minha segunda recusa foi a deixa para entrarmos num assunto que perseguia ambos: emagrecer. Aquela simpática senhora pesava uns 100 quilos. Ou mais. Seu regime consistia em comer de duas em duas horas, todos os dias, até a hora de dormir.

Me ajeitei dentro dos meus 95 quilos e pensei: comendo tanto, é impossível emagrecer. Ela interrompeu meu raciocínio explicando que, agindo assim, o corpo não armazena gordura. Fingi concordar. No fundo, eu queria rir daquela artimanha fajuta para se empanturrar o dia inteiro, e com o aval de um endocrinologista.

Enfim, entramos no avião, desembarcamos e nunca mais tive notícia dela. Nem ela de mim. Mas se nos encontrássemos num saguão qualquer hoje, quase dez anos depois, ela tomaria um susto. Estou 17 quilos mais magro porque comecei a correr.

Quer saber o que realmente me ajudou muito a correr? Foi o iPod. Até outro dia, eu era incapaz de correr mais do que dez quilômetros sem ouvir música. Ficava estressado, contando os segundos para o treino acabar.

Até que, um dia, ganhei um iPod. A música mudou minha percepção do tempo. Com rock, MPB, reggae e outros ritmos, consegui treinar mais tempo e, assim, concluir mais de uma meia maratona. Foi nessas provas que conheci alguns corredores. E logo descobri que nem todos concordam comigo.

Identifiquei que, tal qual esquerda e direita na política, havia ali duas correntes: os corredores tecnológicos e os corredores naturalistas.

Sempre fui um tecnológico convicto, com dificuldade para entender por que razão os naturalistas abominam a companhia da música. Alguns deles abrem mão até de frequencímetro e GPS. O George Volpão, por exemplo, já foi um tecnológico convicto. Mas mudou de lado e, se houvesse eleição, ele seria o candidato dos naturalistas pelo estado do Paraná. Não usa nenhum equipamento além de tênis, calção e camisa. Seu corpo basta. E o sujeito é bom: encara de maratona para cima.

Numa posição naturalista mais comedida está o ironman Kléber Corrêa, de São Paulo. Ele usa GPS e frequencímetro. Mas música, nem pensar. Ouve os sons do próprio corpo: passadas e respiração. Esse perfil é o mesmo do também paulista Anderson Zacarias, corredor de elite, com resultados expressivos e experiência vasta.

Que minha bancada tecnológica não leia isto, mas preciso fazer uma confissão. Experimentei outro dia correr 15 quilômetros sem música. Gostei, o que me deixou perplexo. Comecei, então, a fazer treinos de tiros sem iPod e notei que meu desempenho melhorou. Fiquei preocupado. É ainda mais grave o fato de atualmente eu completar longões com o fone preso ao ouvido, mas com o iPod desligado, porque começo a ficar viciado na batida que nem a Timbalada gravou até hoje: a dos pés e da respiração.

Felizmente, tornar-me um tecnológico com hábitos naturalistas não me excluiu das rodas de amigos. Afinal, corredores são assim mesmo: ouvem, aprendem, aprimoram conhecimento e mudam de opinião.

Quase me esqueço de contar que só comecei a correr depois que emagreci. E só emagreci porque uma nutricionista me mandou comer, acredite, de duas em duas horas. E só precisei ir à nutricionista porque zombei do que disse a senhora comilona no aeroporto. A oposição, naquela ocasião, também tinha algo a me ensinar.

Os políticos que me perdoem, mas é esmagadora a vantagem dos corredores na prática da democracia. Mais do que eleger candidatos, os atletas elegem ideias. Aprendem com a riqueza da divergência de pontos de vista. Colecionam amigos no plenário do asfalto. E não fazem promessas.

Comments

17 Responses to “A chapa de oposição”
  1. Yara Achôa says:

    Texto maravilhoso, Cássio!!! Acrescentaria apenas os que, ainda mais naturalistas, estão correndo sem os tênis, hehehe. É… parece que está virando onda essa mania de correr como nos primórdios, pés tocando a terra, a areia ou o asfalto, sem amortecimento ou qualquer outra proteção. Eu mesma penso que um dia farei isso. “Se Deus quiser, um dia quero ser índio, viver pelado, pintado de verde, num eterno domingo”. Super beijo
    Yara Achôa

  2. Muito bom o texto!

    Não consigo correr ouvindo música, mas não abro mão do GPS, sem ele é como dirigir com o painel do carro quebrado, inclusive o marcador de combustível…

    Abraço

  3. Joel Leitão says:

    Cássio,
    O importante de tudo isso é o sujeito ter flexibilidade, mudando sempre que achar necessário, para que seu amor pela corrida continue.
    Acabo de encontrar a senhora gorda que você desdenhou, e ela me pediu para lhe dizer o seguinte: “tá vendo, seu cabeçudo, eu tinha razão”. Enfim, me perdôe, mas apenas reproduzo ‘ipsis literis’ o que ela disse. Jamais diria algo assim a você. Até porque, você já tem um @AmigoAceo para lhe dizer algo do tipo.
    Forte abraço!

  4. Parabéns pelo texto Cássio, além de mostrar as correntes existentes dentro da corrida, mostrou que no esporte é muito fácil mudar de idéias do que na política.
    Confesso que já tentei correr com música, mas me perdi em minhas próprias passadas, quase que tropeçando nas pernas por não ouvir a batida dos meus pés… E cá entre nós: Existe som mais bonito quando corremos que o bater dos pés no chão e a respiração ofegante??? Acho que não.
    Ah… Frequencímetro??? Sem chance, prefiro não saber onde os meus batimentos cardíacos chegam quando estou me divertindo praticando o meu esporte, prefiro sentir o que o meu corpo diz…
    Obrigado pela citação.
    Um grande abraço

  5. Mr. Cassio!

    Palavras e idéias muito bem empregadas. Inclusive sua analogia com a política me arrancou sorrisos de satisfação pois fui um jovem engajado em movimentos de esquerda (meu Brasil ideal aos 12 anos de idade era com o Lula presidente e não o Collor,rs). Hoje, prefiro tentar agir mais diretamente, seja vendendo qualidade de vida através do meu ganha pão, seja escrevendo em meu blog sobre a futilidade do consumismo desmedido por itens que a para mim são inúteis. Saber que um simples ipod tem responsabilidade em uma mudança para melhor em sua qualidade de vida, apenas comprova aquilo que sempre pensei: moderação e comedimento nas opiniões sempre são importantes. Respeitar as individualidades e saber que “todos tem suas próprias razões” nos torna seres humanos mais completos.

    Vale lembrar também que não assim tão anti-tecnológico: acho bobagem isso de correr descalço (volto a frisar – pra mim não rola), meus tênis são de alta tecnologia, não dispenso meias de compressão em treinos longos entre outras frescurinhas.

    Enfim: vou mesmo é pelo custo-benefício e não pelo conceito. Acabou que caí nesse lado mais natureba mesmo (acho muito melhor comer amendoim do que gel em corridas longas).

    Um grande abraço, obrigado pela lembrança e parabéns por levantar o tema!

  6. Pati Gomes says:

    Cassio, você expressou de forma bem interessante sobre as ajudas ou até mesmo as muletas que usamos para iniciar, continuar, se interessar pela corrida…
    Compartilho de alguns fatos do seu texto: comecei a correr pra deixar de ser gordinha (tô quase lá!), usava música para tudo, mas percebi que deixava passar algo essencial – ouvir o meu corpo, as minhas pernas, o meu coração…
    Então, há pouco tempo, aboli o iPod nos treinos de velocidade e a diferença foi absurda! Não tanto pelo desempenho, mas pela percepção do que cada K percorrido, cada esforço, fazia no meu corpo.
    Ainda sou da turma tecnológica, mas sinto que começo a deixar a minha natureza me levar…
    Grande beijo!

  7. Adriana Gazola says:

    Parabéns, Cassio.
    Comecei a ler e me encantei! Não só pelo seu texto, mas tbm por todos os comentários dessas pessoas fantásticas! Sou da chapa do nosso amigo George, até mesmo no idealismo de Lula para presidente na minha adolescência… rs
    Tentei, uma vez, correr ouvindo músicas e entrei em desespero, queria jogar fora, me livrar daquilo! Além de ouvir meus próprios sons, adoro ouvir e participar das conversas alheias, ouvir os incentivos, a empolgação e etc. Gel? Nem sei que gosto tem e sempre procuro “esquecer” a cinta do Polar, só gosto mesmo é de ver o tempo e prestar atenção em todos os sinais que o meu corpo emite. Gosto de sentir o prazer da corrida, gosto até do sofrimento de algumas e gosto e deixar a minha mente viajar, viajar e viajar!!! Sempre termino os treinos e corridas com idéias e inspirações fantásticas!
    Tecnologia só no tênis e nas roupas, aliás, coisas que aprendi com o tempo, pois já usei cada nada a ver… rs
    Amei! Vou passar sempre por aqui.
    Grande abraço!

  8. Cassio,
    Falar que o texto está ótimo é chover no molhado, e como esse ano por enquanto só choveu, melhor deixar pra lá. hehehe
    Eu sou favorável a aceitar o biscoito de acordo com a fome do dia.
    Se você tivesse aceitado o biscoito da simpatica senhora, talvez ela começasse a emagrecer naquele momento ou morresse de fome(por causa de uma bolacha).
    Para mim, correr ou não correr equipado com acessórios técnológicos depende do dia, do objetivo, DA FOME.
    Explico: se é uma corridinha com os amigos, um treino forte ou uma prova que pretendo melhorar a performance, a música só irá atrapalhar o papo, o tiro ou o ritmo da prova, sem contar a preocupação com o fio, com a agua e tudo mais.
    Agora, se vou sair para um treino mais longo, solitário, de rodagem, nada melhor que embalar com música ou mesmo com notícias para fazer companhia.
    O frequencimetro(sutiã) não gosto muito, uso quando lembro, agora o GPS é um vício legal que quando saio para correr sem, sinto muito a falta, mas também depende da FOME.
    Acredito que nada em excesso é legal! Os extremos costumam ser prejudiciais.
    O mais importante é correr! Independente da forma, do lugar e da velocidade.
    Conclusão sobre seu texto: A mulher era carioca (come BISCOITO).
    Pergunta básica: Onde você escondia 17kg? Mandou para o @AmigoAceo?
    Abraço
    Colucci
    @antoniocolucci

  9. Regina says:

    Cássio,
    Vou ficar no meio termo: na rua não gosto de musica não; na esteira o ipod é fundamental para abafar aquela barulheira típica da academia (e também para espantar aquelas pessoas que insistem em ficar batendo papo e te atrapalhando a concentração)
    Por outro lado, não abro mão do Nike+ nem na rua e nem na academia; sem ele, acho que nem saía para treinar. Acredito que mais para frente ele pode se tornar dispensável, mas hoje é um dos meus principais instrumentos de motivação.
    @rscbsb

  10. Paula Coghi says:

    Muito bom Cássio!!!
    Eu sou do partido tecnógico!!! Nos dias que esqueço o ipod em casa, corro menos, mais devagar… não abro mão dele em qualquer treino, em provas…
    Sou adepta tbm do Polar, GPS… adoro ferramentas pra monitorar o treino e adoro dps analisá-los no computador…
    Já me disseram muito pra tentar correr sem música, sentir o corpo, escutar os batimentos… mas ta bom do jeito que está… como dizem: não se deve mexer em time que esta ganhando! rssss
    Com música ou sem, boas corridas !!!
    @PaulinhaCoghi

  11. Olá Cássio,

    Também estou nessa fase de transição de correr com música e sem música.
    Tenho escutado mais o meu corpo e com isso os treinos estão saindo melhor…
    Até outro dia, me julgava incapaz de correr 100mts sem música.
    Por isso cada vez mais tenho me identificado com a corrida, pois os paradigmas vão sendo quebrados e novos desafios vão aparecendo.
    Continuo convicto no grupo dos corredores tecnológicos (nike+) e ao mesmo tempo respeito e admiro os corredores naturalistas.
    Inspiração e exemplo é que não falta, então bora correr!!!

    Abs,

    Joca
    http://fla.blogdojoca.com/

  12. Escrevi no meu blog um texto chamado “meu melhor treino” e, pasme, foi sem relógio e sem frequencímetro. Consegui sentir o conforto no meu corpo e segui o que ele me dizia.
    Não deixei o iPod de lado, mas confesso que, depois das corridas sempre me pergunto que música tocou e não sou capaz de responder.
    Muitas vezes a música me dá o “gás” necessário, mas ela tem que tocar naquela hora exata, e tem que ser A música perfeita para dar o empurrão necessário. Isso é quase impossível de se conseguir conciliar.
    Treinos de tiro sempre sem música! Longos sempre com música.
    Aí vai o texto: http://runtucunduvarun.blogspot.com/2010/02/o-melhor-treino.html
    Beijos e bons treinos.

  13. Corre Guto says:

    Muito bom!!
    Alguém falou: “Se Deus quiser, um dia quero ser índio, viver pelado, pintado de verde num eterno domingo” – Eu vi na TV um índio de tênis, short e MP3, será que estamos invertendo as coisas? Nossa cultura se perde nos meio tecnológicos da vida pós-moderna? Realmente eu não saberia responder, mas quando comecei a correr, corria com um MP3 porque gostava mais de ouvir música do que correr. Hoje não corro com aparelho sonoro, gosto mais de correr do que ouvir música. E vc, gostava mais de ouvir música e agora?

    Abraços
    Guto

  14. Cássio Ricardo de Medeiros says:

    Caraca,

    Muito doido esse texto e os comentários.
    Confesso que não tenho muito tempo para ler o que os amigos corredores escrevem nos Blogs por aí, guardo muitos textos para ler um dia e esse dia nunca chega…
    Mas foram tantos comentários no TWITTER, tantos RT’s que fiquei muito curioso com o texto e com os comentários da galera.
    Excelente leitura. Parabéns meu Xará!!!

    Eu sou da Tecnologia! IPOD+GARMIN e outras coisas que aparecerem por aí…. mas confesso que estou selecionando um pouco os treinos que corro com música…. uso a música mais para treinos longos e solitários com bem disse o colega Antonio Colucci.

    Parabéns novamente.

    @cassiordm

  15. Shigueo says:

    Grande Cassio,
    mais um texto de qualidade!

    Gostei da analogia com a política, apesar de achar que realmente não tem nem comparação (como vc mesmo falou), o plenário do asfalto é muito mais democrático e imparcial.

    Eu tb fui e voltei. Comecei sem nada. Logo comprei um Nike + e um iPod. O Nike+ não era preciso como eu gostaria e foi aposentado. O GPS veio e fiquei viciado nele. Como bom engenheiro, adoro as estatísticas e com ele fico populando minhas planilhas.

    Mas…
    Tenho feito alguns treinos e corridas sem o iPod. Principalmente qdo estou correndo com alguém. Acho que é um sinal de respeito, apesar de não ser muito favorável a ficar conversar muito pq acho que me perco na respiração.
    Nesta última viagem, esqueci o Garmin e amarelei. Fui correr na esteira. Nunca tomei tanta bronca no meu blog! rs Essa é outra discussão eterna. Esteira ou rua? Tenho impressão que nesse quesito, a galera naturalista não tolera muito a facção pró-esteira. Ou estarei enganado?

    Abs,
    Shigueo

  16. Grande Cassio, muito boa a sua história amigão, vc é exemplo para muitas pessoas, agora não lembro aonde eu li, mas vc é a 2ª pessoa que diz que não consegue correr sem ouvir música e fez um teste dizendo que correu e melhorou o tempo sem ouvir música. Outra coisa nova é que tanto vc como a senhora do aeroporto disse que a nutricionista disse que tem que comer de 2 em 2 horas, eu quando fui na nutricinista ela me disse que tem que ser de 3 em 3 horas…Mas valeu campeão.
    Bons treinos.
    Um abraço

  17. Bruna says:

    Adorei o texto!
    estou numa luta contra uns 3 quilos a mais e foi muito importante ler seu texto!
    Também adorei a questão da música, é um dilema meu nas provas mais longas. Acho que vou experimentar no da 02/05, numa corrida de 15km, sem música, vamos ver como me saio! rs
    Adorei todo o blog! O modo como você escreve é muito leve e prazeroso para o leitor! já te adicionei no meu blogroll. Abraços

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