O campinho dos sonhos

dezembro 23, 2009 by Cassio Politi · 11 Comments
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Jardim em São Vicente ocupa espaço do antigo campinho

Chucruts é o apelido de um amigo de muitos anos. Não tente entender o porquê da alcunha. Só lembro que ela foi criada mais ou menos na Copa de 1982.

Por falar em Copa, o Chucruts sempre foi muito bom de bola. Onde quer que houvesse uma pelada, lá estava ele. Bola de couro, bola Dente-de-Leite, bola de borracha: ele tinha intimidade com todas elas.

O tempo voou, o Chucruts cresceu. E cresceu até demais, para cima de 1,90m. Aquele sujeito negro, magro e alto virou o melhor centroavante da história do time do Itararé. Da janela de casa, eu ficava assistindo aos jogos no campinho do Itararé ali, entre o calçadão e a praia. Vi muitos gols seus, alguns dos quais antológicos.

O Chucruts contava suas histórias com um bom humor incessante. Eram narrativas fiéis aos fatos, mas deliciosamente sarristas. Muitas vezes previ que ele seria um prato cheio para a imprensa esportiva.

Nos labirintos da vida, porém, o Chucruts não virou jogador profissional de futebol. Estudou e teve sucesso vestindo calça comprida e sapato.

Não faz muito tempo, numa festa da família, o Chucruts apareceu lá em casa depois de muitos anos sem nos vermos. Abraços para lá, risadas para cá. Num certo momento, estávamos nós dois apoiados no parapeito da mesma janela que um dia fora meu camarote. Dali entramos no túnel do tempo e recitamos gols, causos e suas tardes gloriosas no Itararé.

De repente, o Chucruts ficou pensativo. Calculou e apontou para um poste que hoje ilumina o bem cuidado jardim. Era mais ou menos ali que ficava a trave, não era? Eu acho que sim. E a outra trave ficava um pouco para cá do que hoje é um teleférico.

Pela primeira vez, e única, vi uma profunda tristeza no olhar do Chucruts. Nem a perda dos avós nem as derrotas do Corinthians tinham sido capazes de roubar-lhe a alegria.

Logo voltamos a falar racionalmente e concluímos que a orla da praia ficou muito melhor com o jardim, que cruelmente desapropriou o campinho do Itararé.

Acontece que aquela conversa nunca acabou. Sempre que entro no Parque do Ibirapuera, me lembro da nostalgia que acometeu o Chucruts.

Porque o Ibira não é apenas o lugar onde treino. É o lugar onde alimento minha paixão pela corrida. É o lugar que, a cada passada, acolhe minhas emoções, desejos, sonhos e até orações.

Todo corredor se apega a um lugar. Não importa se esse lugar é arborizado ou árido, lotado ou vazio, praiano ou urbano. É o campinho do Itararé de cada um. Afinal, quem faz o lugar é a gente.

Comments

11 Responses to “O campinho dos sonhos”
  1. Caro amigo Cássio, como é bom relembrar o passado e ainda mais que o passado aonde trouxe várias alegrias e que agora é seu lugar de treino, parabéns pela crônica, sempre dando um eximio showww…Parabéns amigo. Olha ainda não nos conhecemos pessoalmente e quero lhe dizer o seguinte que em 2009 aconteceram muitas boas coisas a mim e vc mesmo conhecendo virtualmente foi bom te conhecer e espero em breve nós virarmos amigos reais. Desejo a vc e sua familia um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo, abençoado por Deus e que em 2010 vc volte com força tota.

    Um Ultra abraço amigo.

  2. Harry says:

    Oi Cassio
    Eu tinha me apegado em fazer tiros na Praça do Sino no Ibirapuera e que foi parcialmente modificada.
    O Ibira também é o meu quintal.
    Abraço
    Harry

  3. @correzecorre says:

    Muito bom o texto, nossa infancia é uma coisa muito preciosa…
    Parabens pela inspiracao, um otimo Natal e Feliz Ano Novo cheio de conquistas na vida e na corrida!

    Abras!

  4. Kleber Corrêa says:

    Parabéns Cássio pelo ótimo post. Traduziu muito bem o amor que sentimos pelo nosso local de treino
    Um forte abraço!!!

  5. Muito boa a história Cassio, me fez lembrar que o campinho da minha infância de tantas histórias virou um condominio fechado .
    E o Ibira que eu ia de bike na adolescencia, agora, depois de velho que comecei a correr, voltou a ser meu campinho. Com algumas mudanças, mas muitas histórias.
    Ah, se meu tênis falasse! hehehe

    Abraço

    Feliz Natal para a familia linda e tbm pro cabeçudo AmigoAceo, ou será que errei quem é o cabeçudo. hehehe
    Em 2010 teremos muitas corridas e oportunidades para novas histórias e quem sabe novos campinhos. Vai que o Chucruts resolve começar a correr.

  6. De fato… temos um apego aos kms pelos quais treinamos… e não é diferente daqueles percursos de provas tradicionais como a ABERTURA CORPORE, MEIA DA CORPORE, CIRCUITO DAS ESTAÇÕES e outras que nos dão tantos desafios e conquistas.

    ÓTIMO POST … FELIZ NATAL E ÓTIMO 2010 …

    http://porqueeucorro.blogspot.com/

  7. Olá Cassio,
    Excelente cronica!!!
    O meu “campinho dos sonhos” e a Lagoa R. Freitas. Que belo cartao postal, não??? Onde dei minhas primeiras corridas e que jamais esquecerei…

    Abs,
    Joca

  8. Re Tucunduva says:

    Ótimo txt!
    Minha “casa das corridas” também é o Ibira. Geralmente a volta dos 3k, mas sou apaixonada pela volta dos 6k…. Fresca, arborizada… Saio do mundo quando corro por ali.
    Dia desses, no fim de uma corrida para lá de cansativa, ao avistar a placa do sétimo km pensei: só falta uma volta no lago!!!!
    Beijos no casal.
    Feliz natal!!!
    @runtucunduvarun

  9. Shigueo says:

    Pois é, Cassio.

    Todos temos nosso campinho de Itararé mesmo.

    Há alguns anos atrás, em uma viagem pro Brasil, peguei o carro alugado e fui até a casa onde cresci e morei até me mudar. Fiquei estacionado do outro lado da rua, olhando pra ela e mergulhando no túnel do tempo.

    Depois fui até a pracinha (sempre tem uma perto de casa, né?), onde jogava partidas de taco qdo cabulava aula ou apostava corrida com os amigos. Ótimas lembranças. Se pudesse, um dia voltaria a morar naquela vizinhança. E correria por lá, obviamente!

    Abraços,
    Shigueo

  10. Ciro says:

    Parabéns Cassio, pelo ótimo texto (já estou acostumado).
    A última vez que encontrei o Chucruts ele trajava (além da calça comprida e sapato) gravata e um bem talhado terno de verão.
    Fico contente em saber do seu carinho pelo “campinho”, pela Praia de Itararé e por São Vicente da sua infância.
    Boas recordações da nossa infância são um rico tesouro para toda a vida.

    Um forte abraço,
    Ciro

  11. Fernanda Di Sciascio says:

    Cássio,

    Muito bem traduzido. Concordo plenamente com você sobre o Ibira… é um campo dos sonhos. Por falar nessa paixão corredora, assista Run for Your Life (http://www.fredlebowmovie.com/). Tenho certeza que a história inspirará seu treino para a grande maratona. É emocionante.
    beijos e bons 15 km amanhã!

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