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O blog da Corrida de Rua

Arquivos: dezembro/2009

Bendita ignorância

Por Cassio Politi | 28/12/2009, 22h21

Esquina da quase renomeada Av. Paulista com a rua que leva o nome de seu idealizador

Eu estava lendo um texto sobre um de meus autores preferidos. Me levantei, guardei o livro na estante e me dei conta de que, dentro de alguns dias, eu estaria correndo a São Silvestre. Decidi, então, colocar em prática o que acabara de ler.

Comecei perguntando a mim mesmo: quem, afinal, foi São Silvestre? Que se trata de um santo, eu já desconfiava. Só não sabia que Silvestre I foi papa no Século IV. Era italiano de Roma. Marcado pelo período de paz na igreja, seu pontificado terminou no dia 31 de dezembro de 335. Daí, a data festiva.

E aquela rua  que descemos logo depois da placa de 1 km. Por que se chama Consolação? Inevitável imaginar um sujeito aos prantos sendo consolado por outro. Bobagem. A rua tem esse nome porque no final dela fica a Igreja Nossa Senhora da Consolação, construída em 1799. Cabe explicar que Nossa Senhora da Consolação é a forma como orações se referem a Virgem Maria, mãe de Jesus.

O Brigadeiro Luís Antônio, por sua vez, foi um militar luso-brasileiro. Luís Antonio de Sousa Queiroz reformou-se em 1818, com a patente de brigadeiro, e morreu um ano depois

Não achei que fosse útil pesquisar o porquê do nome da Av. Paulista, mas aprendi que, na década de 20, rebatizaram a avenida para Carlos de Campos. Mas os paulistanos não gostaram. Protestaram e exigiram que o nome original voltasse. E voltou para sempre.

É justamente na Paulista que fica o pórtico de chegada da São Silvestre. Fica quase em frente ao cruzamento com a Joaquim Eugênio de Lima. Quem terá sido ele? Simples: esse engenheiro uruguaio foi o idealizador da Av. Paulista, inaugurada em 1891.

A propósito, o livro que despertou esta avalanche de curiosidades diz respeito ao mestre da administração Peter Drucker, que pregava: “aborde as questões com ignorância, e não com o seu conhecimento”.

Aparentemente, funciona.

O campinho dos sonhos

Por Cassio Politi | 23/12/2009, 15h53

Jardim em São Vicente ocupa espaço do antigo campinho

Chucruts é o apelido de um amigo de muitos anos. Não tente entender o porquê da alcunha. Só lembro que ela foi criada mais ou menos na Copa de 1982.

Por falar em Copa, o Chucruts sempre foi muito bom de bola. Onde quer que houvesse uma pelada, lá estava ele. Bola de couro, bola Dente-de-Leite, bola de borracha: ele tinha intimidade com todas elas.

O tempo voou, o Chucruts cresceu. E cresceu até demais, para cima de 1,90m. Aquele sujeito negro, magro e alto virou o melhor centroavante da história do time do Itararé. Da janela de casa, eu ficava assistindo aos jogos no campinho do Itararé ali, entre o calçadão e a praia. Vi muitos gols seus, alguns dos quais antológicos.

O Chucruts contava suas histórias com um bom humor incessante. Eram narrativas fiéis aos fatos, mas deliciosamente sarristas. Muitas vezes previ que ele seria um prato cheio para a imprensa esportiva.

Nos labirintos da vida, porém, o Chucruts não virou jogador profissional de futebol. Estudou e teve sucesso vestindo calça comprida e sapato.

Não faz muito tempo, numa festa da família, o Chucruts apareceu lá em casa depois de muitos anos sem nos vermos. Abraços para lá, risadas para cá. Num certo momento, estávamos nós dois apoiados no parapeito da mesma janela que um dia fora meu camarote. Dali entramos no túnel do tempo e recitamos gols, causos e suas tardes gloriosas no Itararé.

De repente, o Chucruts ficou pensativo. Calculou e apontou para um poste que hoje ilumina o bem cuidado jardim. Era mais ou menos ali que ficava a trave, não era? Eu acho que sim. E a outra trave ficava um pouco para cá do que hoje é um teleférico.

Pela primeira vez, e única, vi uma profunda tristeza no olhar do Chucruts. Nem a perda dos avós nem as derrotas do Corinthians tinham sido capazes de roubar-lhe a alegria.

Logo voltamos a falar racionalmente e concluímos que a orla da praia ficou muito melhor com o jardim, que cruelmente desapropriou o campinho do Itararé.

Acontece que aquela conversa nunca acabou. Sempre que entro no Parque do Ibirapuera, me lembro da nostalgia que acometeu o Chucruts.

Porque o Ibira não é apenas o lugar onde treino. É o lugar onde alimento minha paixão pela corrida. É o lugar que, a cada passada, acolhe minhas emoções, desejos, sonhos e até orações.

Todo corredor se apega a um lugar. Não importa se esse lugar é arborizado ou árido, lotado ou vazio, praiano ou urbano. É o campinho do Itararé de cada um. Afinal, quem faz o lugar é a gente.

Ah, se eu fosse um guepardo

Por Cassio Politi | 03/12/2009, 12h44

Que animal você gostaria de ser?

Se fosse obrigado a deixar o topo da cadeia alimentar urbana, eu gostaria de ser um guepardo.

Não que seja minha intenção sair caçando gazelas por aí, tampouco pretendo ser trancafiado numa jaula de zoológico. É que eu queria muito correr como o guepardo.

As passadas do guepardo são perfeitas: impulso para a frente, e não para cima. Vive em grupo, mas corre sozinho.

Talvez por isso as gazelas sejam sempre a caça. Correm como principiantes, de olhos esbugalhados, esgotando o fôlego logo no início.

O guepardo cadencia a corrida. Guarda para o momento exato os tiros de 300, 400, 500 metros. Chega a 120 quilômetros por hora.

E por que não escolher o cavalo, tão forte e capaz de percorrer longas distâncias? Ora, o cavalo bate muito os pés no chão. Joelho nenhum aguentaria tanto impacto no asfalto. Sua mobilidade, então, é digna de compaixão. O cavalo é mais troncudo do que um corredor precisa ser.

O guepardo, por sua vez, dispara no calor da savana com seus 60 quilos. E enxerga como poucos. De dia, dispensa proteção para o sol. À noite, abre mão de qualquer iluminação artificial.

A girafa tem atributos técnicos para ser uma corredora de ponta. É alta e magra. Mas não tem vocação. Seu silêncio enigmático revela uma personalidade tranquila demais. Não precisa se livrar do estresse.

O guepardo está sempre agitado. Olha de um lado para o outro, como quem teve um dia puxado no trabalho. Nem se importa com o horário: corre de dia, corre de noite.

Os cães também seriam ótimos corredores se pensassem mais em si próprios. Mas não resistiram à tentação dos mimos de seus melhores amigos. Deve ser por isso que os cães não conseguem se concentrar. Enquanto correm, prestam atenção em tudo, menos em seu próprio desempenho. Um desperdício para o atletismo.

O guepardo é focado. Em sua corrida ágil, a cabeça não balança. Ele se mantém concentrado no alvo. É objetivo, corre em função de suas metas.

No quesito beleza, o guepardo não deve nada aos cães. É fotogênico. Em câmera lenta, faz expressões de esforço e determinação.

Agora, vou desligar o Discovey Channel, calçar meu tênis com amortecimento especial para corrida, colocar óculos escuros, boné, iPod, frequencímetro com GPS e roupa feita com tecido dry fit.

E vou para a minha corrida artificial, típica de um ser humano limitado que se orgulha de ocupar o topo da cadeia alimentar.

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