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O blog da Corrida de Rua

Arquivos: novembro/2009

E assim nasceu o Twitters Run Day

Por Cassio Politi | 18/11/2009, 13h05

Maratona de Revezamento Pão-de-Açúcar no Rio: Rafael Santos, Joaquim Cavalcante e este blogueiro

“Corra aí na sua cidade que eu corro por aqui. Depois, a gente soma as quilometragens e registra isso em algum lugar”.

O diálogo em questão se deu não entre dois, mas entre 131 corredores espalhados por 26 cidades de quatro países. Para não soar exagerado: foram 129 no Brasil, um em Portugal, um na Argentina e um nos Estados Unidos. O que também não é pouco. Somadas, as distâncias chegam a quase 1.900 km (veja os detalhes aqui).

A ideia nasceu no Twitter, onde os internautas começaram a trocar figurinhas sobre corrida de rua. De Belo Horizonte, o Augusto, cujo avatar no Twitter é @correguto, lançou a ideia de criar o TwittersRun (por razões técnicas, #twitersrun, com 1 “T” só). Ideia boa, adesão geral.

Era quinta-feira. Eu estava inspirado pelo primeiro dia de prova do Desafio dos 600K, competição da Nike que saiu de São Paulo e foi ao Rio. Bateu subitamente a ideia do Twitters Run Day. Fui para a van com urgência. Queria lançar e ver a reação dos amigos. peguei o celular e “twittei” a seguinte mensagem às 16h52 do dia 22 de outubro:

@cassiopoliti: Ideia: vamos criar o #TwittersRunDay? É assim: marcamos um sábado. Cada um faz seu treino. Depois, somamos os km de cada um. Que acham?

Nos dias seguintes, Augusto, Anderson Zacarias (@andzacarias) e eu conversamos muito sobre como fazer. Acertamos que valeria a quilometragem do fim de semana, e não apenas do sábado. E que valeria prova, e não apenas treino. O Anderson fez acontecer não apenas a sua ideia de criar a camisa do evento, mas foi o fomentador do evento em si.

Guardei para mim a expectativa de que umas 20 pessoas aderissem e não perguntei ao Anderson quantas camisas haviam sido solicitadas. Foram mais de 70!

De ideia em ideia, agora parte do grupo vai se encontrar na Volta da Pampulha, dia 6 de dezembro, em Belo Horizonte. Não pergunte quantas pessoas do TwittersRun eu acho que vão estar lá. Meu histórico de chutes é péssimo.

Tão absurdos quanto úteis

Por Cassio Politi | 09/11/2009, 21h25

Amadores da equipe Branca Esportes disputaram o Desafio dos 600K

O Seu Júlio fez a mesma pergunta a todos que, diferentemente dele, já tinham andado de avião.

A largura de uma aeronave, medida da ponta de uma asa à ponta da outra, superava a largura do terreno do prédio? Era isso que inquietava aquele modesto zelador nos anos 80.

Seu Júlio morava e trabalhava no mesmo edifício havia muitos anos. Dificilmente ia a qualquer lugar além dos limites da portaria, da garagem e do jardim. Mas reagia com ceticismo quando lhe explicavam que um Boeing tinha largura de três terrenos daquele. O Doutor Rafael foi um dos que ouviram Seu Júlio dizer que era simplesmente impossível uma geringonça daquele tamanho voar.

Experiente, o Doutor Rafael não perdeu tempo tentado convencê-lo, mas se lembrou de um empresário baiano que conheceu na poltrona vizinha de um voo de São Paulo para Nova York nos anos 60.

No desembarque, já em solo norte-americano, o rico empresário se orgulhava de ser o único a não vestir agasalho entre os passageiros, que o olhavam incrédulos. Lá fora, a temperatura era de 4 graus abaixo de zero. Lá dentro, prestes a desembarcar pela porta traseira, o empresário trajava uma fina camisa de seda e explicava que baianos como ele não sentem frio.

Sua convicção se baseava no fato de já ter enfrentado todo tipo de frio em suas cruzadas pelo interior do Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia. Conclusão: após o desembarque, foi internado com pneumonia aguda.

Em comum, o bem-sucedido empresário e o Seu Júlio tinham a visão limitada. Mas isso não me faz melhor do que eles.

Foi na caravana do Desafio dos 600K da Nike que me senti cego pela minha própria visão. Quando entrei pela primeira vez na van que acompanharia os atletas por todo o percurso de São Paulo ao Rio,  tinha comigo que, numa hipótese muito otimista, um dia eu chegaria a correr a 5’30″ por quilômetro. Mais rápido do que isso, só profissionais.

Foram 3 dias intensos de prova, que reuniu exclusivamente atletas amadores. Todos eles são gente como a gente: advogados, administradores, funcionários públicos, jornalistas, fisioterapeutas, garis, estudantes, professores. Todos treinam nas horas vagas. Incrivelmente, seus paces não raramente ficavam abaixo dos 4′ por km. Os mais lentos estavam na casa dos 4’30″ por km. Não me cansei de perguntar: o que você faz para ser tão rápido? A resposta quase unânime: “treino, treino e treino”.

A inovadora competição terminou com uma prova de 10 km no Rio, a Nike Human Race. Inspirado pela convivência dos velozes amadores, cumpri esses 10 km com pace de 4’59″, inédito para mim.

Mais do que uma meta alcançada, o resultado trouxe alívio porque mostrou existir pelo menos uma diferença entre eu e a dupla formada por Seu Júlio e o empresário baiano. Normalmente, eu tento acreditar nos absurdos que ouço; eles não.

Todo corredor tem um amigo imaginário

Por Cassio Politi | 01/11/2009, 13h41

Eu tinha uns 4 anos de idade. Na hora do almoço, exigia que um lugar na mesa ficasse reservado para o Aceó, com prato, talheres e copo para ele. Aceó era o meu amigo imaginário.

O tempo passou, eu cresci e o Aceó sumiu da minha imaginação.

O amadurecimento me incentivou a começar a correr. Primeiro, um trote leve para perder peso. Depois, provas de 5, 10, 15 e 21 quilômetros. No futuro, maratonas.

Foi na busca para ganhar ritmo que surgiu a necessidade de se fazer aquele tipo de conta simples. Por exemplo, no quilômetro 5, meu cronômetro não pode marcar mais do que 28 minutos. É uma espécie de adversário imaginário presente nas planilhas de treinos e provas.

A linha do tempo continuou progredindo implacavelmente e surgiram os relógios equipados com GPS. Neles, o amigo imaginário se materializou — em formato digital — e ganhou o nome de adversário virtual.

Pensei que só eu tivesse crescido e me modernizado, mas agora vejo que  o mesmo aconteceu com o Aceó.

Outro dia, lancei para o Aceó o seguinte desafio: “quero ver se você termina a meia maratona em 2 horas”. Ele cumpriu religiosamente esse tempo. Eu fiz em 1h58. Rá! Faturei essa! Passei o domingo curtindo a vitória. Mas devo confessar que em certas ocasiões perdi feio.

Desconfio que cada corredor amador tenha o seu próprio Aceó. Numa prova com 10.000 participantes, há na verdade 20.000: metade humanos, metade imaginários.

Estou prestes a descobrir que desafiar o adversário imaginário é o que faz um corredor se manter focado e forte. É o que faz um corredor se manter feliz.

Não contei para quase ninguém que, na conversa de hoje, eu disse baixinho: “Aceó, duvido que você consiga correr uma maratona no ano que vem”.

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