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| A orientação do Paulo (à esq.) em uma das muitas conversas |
Não lembro quando foi. O Paulo Oliveira, meu treinador, sentenciou: você consegue completar a Meia das Pontes em menos de 2 horas.
Ok, estamos combinados.
Manhã de 6 de setembro. Cruzo a linha de chegada da Meia do Rio em 2h11. Chego inteiro, mas ainda distante da meta.
Madrugada de 27 de setembro. O despertador toca às 4h55. Lembro-me de ter sonhado que bati minha meta na Meia das Pontes. Sinal de que estou focado.
Manhã de 27 de setembro. Faltam 15 minutos para a largada. Sem perceber, começo a pensar na linha de chegada. Recobro a concentração e penso no 1º quilômetro. Quando tiver vencido o 1º, pensarei no 2º. E assim sucessivamente até o 21º.
Contra o relógio
É dada a largada. São 7h15. Começo num bom ritmo. Cada segundo ganho será importante. Deixar para acelerar no fim é muito arriscado.
O primeiro túnel presenteia os atletas com uma descida. É hora de deixar a força da gravidade trabalhar. Mas o túnel logo cobra a dívida — a inclinação agora é para cima. Vem a segunda passagem pelo túnel. De novo, o presente e a dívida. Treinei para subidas. Não deveria me preocupar.
Dúvidas e certezas
Um terço da prova fica para trás. Estou 2 minutos mais rápido do que o planejado. Será que estou forçando muito? Faltará fôlego no fim? De novo: não é hora de pensar no futuro, mas no quilômetro atual. Consigo focar na velocidade.
Completo metade da prova em 57 minutos. Se conseguir manter o ritmo, bato a meta. Passamos pela raia olímpica da USP. Nas curvas da Av. Escola Politécnica, observo pelo GPS que, fazendo a tangente, evito um desperdício de 20, 30, 40 metros por quilômetro.
Corpo x mente
Voltamos à USP. Já são 16 km. A subida após a Praça do Cavalo castiga. O corpo suplica. Pede redução no ritmo. Nem pensar, não posso diminuir. O corpo reage. A frequência cardíaca sobe para 188 bpm. Que suba: sei que recupero na descida.
Cruzo a 18ª placa. Faltam só 3 km. É uma mísera volta no Ibirapuera. Isso não é nada! Mas o corpo discorda. As pernas estão cansadas. Repito mentalmente: garra, garra, garra! Consigo manter a passada.
Um termômetro marca 26ºC. O seguinte marca 29ºC. Decido ignorar os demais. Psicologicamente, não me ajuda saber que está quente. Prefiro pensar que está seco, o que é bom.
O relógio marca 1h41. Mesmo que eu diminua o ritmo para 10 km/h, conseguirei chegar e ainda me sobrará 1 minuto. Vai dar!
A meta
Falta apenas 1 km. Acelero: 5’20″ por km. Quero menos de 2h no tempo oficial da prova, não apenas no meu relógio. Vou mais rápido, agora a 5’10″ por km.
Cruzo a linha de chegada em 1h58’31″. Agora, que consegui, o que devo sentir? Não sinto nada. Apenas vontade de andar. Paro de pensar na prova. Já posso lembrar que a vida é mais do que postos de hidratação, quilômetros percorridos, frequência cardíaca.
Deleite
Qual a emoção pela meta alcançada? Por enquanto, nenhuma. Apenas tiro o chip do pé.
Pego a medalha e, então, um filme dos treinos roda. No Parque do Ibirapuera, nas brechas das viagens a trabalho, em Santos, na chuva, no calor, no frio. Mas homem não chora.
Penso no trio que testemunhou a minha dedicação: Paulo (o treinador), Alê (a “primeira-dama”) e Deus. Penso no e-mail encorajador que o Paulo mandara na sexta-feira. Lembro o que dissera a Alê na véspera: você vai conseguir, eu tenho certeza.
Não demora e, atrás da lente dos meus óculos, um sujeito fracassa na tentativa de reprimir a emoção. Só choram os homens que têm alguma razão especial para isso.
Antes de encontrar os amigos, enxugo o rosto e faço um pacto comigo mesmo. Quando corrida, trabalho ou qualquer atividade não puder mais me trazer prazer e emoção, estará na hora de parar.
Ok, estamos combinados.