O filtro dos corredores

fevereiro 23, 2010 by Cassio Politi · 6 Comments
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Quando dei por mim, estava cara-a-cara com o goleiro. O Miguel estava livre na grande área, mas não passei a bola. Tentei driblar o goleiro e acabei saindo com bola e tudo pela linha de fundo.

— Seu fominha! Não tá me vendo livre aqui, pô?! Passa a bola, cacete! Moleque burro! — esbravejou o Miguel.

Preferi não responder. Apenas dei meia-volta e comecei a trotar rumo ao campo de defesa. Alguns passos depois, parei. Olhei para trás tentando entender que balbúrdia era aquela. E saí correndo para apartar a briga. Apesar de ser do time adversário, o Pirulito tinha tomado minhas dores e esbofeteava o Miguel.

Ele, Pirulito, era uns dois anos mais velho que a gente. Tinha acabado de completar 11 anos e, em troca de gorjetas, trabalhava como catador de bolinhas nas quadras de tênis do clube. A briga só parou quando consegui fazer o Pirulito me ouvir.

— Para com isso, Pirulito! Foi uma discussão de jogo. O Miguel é meu amigo.

Resignado, o Pirulito saiu lentamente do campinho de areia. Pendurou a camisa abarrotada no ombro, calçou o tênis velho e, antes de ir embora, avisou:

— Mexer com o meu amigo é mexer comigo.

A verdade é que nossa amizade havia começado havia pouquíssimo tempo, na semana anterior à briga, no dia do aniversário dele. Por sugestão do coração enorme de minha mãe, dei de presente ao Pirulito um brinquedo. Coisa simples, que dávamos de aniversário aos amigos.

Só depois soube que aquele era o primeiro brinquedo novo que o Pirulito ganhava em toda a sua vida. Ficava atordoado quando pensava que um garoto tão gente boa não merecia uma vida tão dura. Ladeiras de barro, casas de tapume, hospitais caindo aos pedaços e escolas violentas rodeavam sua casa.

Eu só não tinha ideia de que, no decorrer da vida, conheceria muito mais gente como o Pirulito. Pessoas com as quais convivemos e das quais gostamos, mas que levam vidas tão diferentes das nossas.

Uma dessas pessoas é o João, que outro dia conheci na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. O calor era insuportável e precisei fazer um pit stop para hidratação. Perto do carrinho de água de coco, ele fazia o alongamento pós-treino.

— Quantas voltas você já deu? — o João puxou a conversa.

Respondi que já tinham sido duas, mas ainda me faltava uma, e devolvi com alguma outra pergunta. Resultado: o que seria uma pausa de poucos segundos se estendeu por mais de 15 minutos. Culpa do papo cativante do João, que já completou seis maratonas, todas em menos de três horas. Falamos também de locais onde correr em São Paulo, de treinar sozinho, de treinar em grupo e do grupo de corredores da Rocinha.

— Você conhece a Equipe Rocinha? — surpreendeu-se o João.
— Não conheço pessoalmente ninguém do grupo, mas vejo os uniformes deles nas provas. Pelo que vejo, os caras correm bem.
— Ô, rapaz, que bom saber que um paulista conhece a turma. Treino com eles três vezes por semana. São chegados meus. Eu moro lá, na comunidade da Rocinha.

A conversa só terminou porque o João me alertou para o fato de que eu esfriaria se não voltasse logo ao meu treino. Retomei meu trote e, então, me dei conta do quanto a sociedade tem a aprender com o esporte. Em que outra circunstância um desconhecido puxa papo sem justificativa, se apresenta como morador de uma favela, recebe atenção e, mais do que isso, é digno de admiração?

O que diferencia os corredores é a capacidade de não diferenciar os outros corredores. No asfalto, não há pobre ou rico nem branco, negro ou amarelo. Há corredores. Apenas corredores.

Hoje consigo compreender por que o Pirulito nutriu aquela gratidão toda. No dia em que completou 11 anos, ele não foi tratado como um sujeito pobre. Naquele dia, ele foi tratado como um garoto. Apenas um garoto.

A chapa de oposição

fevereiro 9, 2010 by Cassio Politi · 16 Comments
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— Aceita um biscoito?

Recusei a oferta, mas adorei a ideia de bater um papo. A dona dos biscoitos e eu esperávamos o mesmo voo no saguão do aeroporto. O avião estava meia hora atrasado.

Ela contou que ia se encontrar com a filha mais nova, eu contei que ia dar aula. Ela falou de cinema, eu falei de Fórmula 1. Ela falou dos netos, eu falei do meu cachorro. O atraso já passava de duas horas.

— Tem certeza de que não quer um biscoito?

Minha segunda recusa foi a deixa para entrarmos num assunto que perseguia ambos: emagrecer. Aquela simpática senhora pesava uns 100 quilos. Ou mais. Seu regime consistia em comer de duas em duas horas, todos os dias, até a hora de dormir.

Me ajeitei dentro dos meus 95 quilos e pensei: comendo tanto, é impossível emagrecer. Ela interrompeu meu raciocínio explicando que, agindo assim, o corpo não armazena gordura. Fingi concordar. No fundo, eu queria rir daquela artimanha fajuta para se empanturrar o dia inteiro, e com o aval de um endocrinologista.

Enfim, entramos no avião, desembarcamos e nunca mais tive notícia dela. Nem ela de mim. Mas se nos encontrássemos num saguão qualquer hoje, quase dez anos depois, ela tomaria um susto. Estou 17 quilos mais magro porque comecei a correr.

Quer saber o que realmente me ajudou muito a correr? Foi o iPod. Até outro dia, eu era incapaz de correr mais do que dez quilômetros sem ouvir música. Ficava estressado, contando os segundos para o treino acabar.

Até que, um dia, ganhei um iPod. A música mudou minha percepção do tempo. Com rock, MPB, reggae e outros ritmos, consegui treinar mais tempo e, assim, concluir mais de uma meia maratona. Foi nessas provas que conheci alguns corredores. E logo descobri que nem todos concordam comigo.

Identifiquei que, tal qual esquerda e direita na política, havia ali duas correntes: os corredores tecnológicos e os corredores naturalistas.

Sempre fui um tecnológico convicto, com dificuldade para entender por que razão os naturalistas abominam a companhia da música. Alguns deles abrem mão até de frequencímetro e GPS. O George Volpão, por exemplo, já foi um tecnológico convicto. Mas mudou de lado e, se houvesse eleição, ele seria o candidato dos naturalistas pelo estado do Paraná. Não usa nenhum equipamento além de tênis, calção e camisa. Seu corpo basta. E o sujeito é bom: encara de maratona para cima.

Numa posição naturalista mais comedida está o ironman Kléber Corrêa, de São Paulo. Ele usa GPS e frequencímetro. Mas música, nem pensar. Ouve os sons do próprio corpo: passadas e respiração. Esse perfil é o mesmo do também paulista Anderson Zacarias, corredor de elite, com resultados expressivos e experiência vasta.

Que minha bancada tecnológica não leia isto, mas preciso fazer uma confissão. Experimentei outro dia correr 15 quilômetros sem música. Gostei, o que me deixou perplexo. Comecei, então, a fazer treinos de tiros sem iPod e notei que meu desempenho melhorou. Fiquei preocupado. É ainda mais grave o fato de atualmente eu completar longões com o fone preso ao ouvido, mas com o iPod desligado, porque começo a ficar viciado na batida que nem a Timbalada gravou até hoje: a dos pés e da respiração.

Felizmente, tornar-me um tecnológico com hábitos naturalistas não me excluiu das rodas de amigos. Afinal, corredores são assim mesmo: ouvem, aprendem, aprimoram conhecimento e mudam de opinião.

Quase me esqueço de contar que só comecei a correr depois que emagreci. E só emagreci porque uma nutricionista me mandou comer, acredite, de duas em duas horas. E só precisei ir à nutricionista porque zombei do que disse a senhora comilona no aeroporto. A oposição, naquela ocasião, também tinha algo a me ensinar.

Os políticos que me perdoem, mas é esmagadora a vantagem dos corredores na prática da democracia. Mais do que eleger candidatos, os atletas elegem ideias. Aprendem com a riqueza da divergência de pontos de vista. Colecionam amigos no plenário do asfalto. E não fazem promessas.

E se não houver resposta?

janeiro 11, 2010 by Cassio Politi · 18 Comments
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Na adolescência, patins sob os pés. Hoje, asfalto.

— Difícil é patinar. Bater com o stick na bola é fácil.

Eu tinha uns 14 anos quando ouvi essa explicação do Vítor, um colega de escola. Argumentei que patinar se aprende em poucos meses. Portanto, a habilidade com o stick (ou “taco”) é o que faz você melhor ou pior do que os outros jogadores. Mas o Vítor não se convenceu.

— E se o sujeito nunca aprender a patinar?

Eu não tinha resposta para aquela pergunta, o que me deixou incomodado. Afinal, eu jogava hóquei desde os 10 anos e o Vítor era absolutamente sedentário.

Também faz tempo que passei alguns meses na África do Sul, cuja costa é cheia de tubarões. Eu nadava numa praia de Port Alfred, no Oceano Índico, quando Sean, o amigo que me recebia em sua casa à beira-mar, deu uma ideia.

— Quer ir até ali, na entrada do canal, ver os tubarões passando? Eles vêm até as pedras do canal para comer marisco.

Calculei que a distância até a entrada do tal canal era de uns 200 metros.

— Se tem tubarão ali, no canal, tem aqui também, certo? — indaguei, com a água na altura do peito.

— É claro que sim. Tubarões, peixes, pedras, conchas, areia, água salgada… onde mais você espera encontrar essas coisas?

— E se um tubarão decidir me morder?

O Sean não tinha resposta para a minha pergunta.

Há poucos meses, um professor do MBA ilustrava sua explanação com a seguinte pergunta: “O que é uma pessoa saudável?”.

A turma, eu inclusive, foi rápida na resposta. “Ora, saudável é quem não está doente“.

O professor ponderou que, se estivéssemos certos, um morto seria saudável. Alguém tentou partir para uma explicação técnica sobre o significado de saúde, mas o professor logo pôs fim ao debate.

— Saudável é o sujeito que nem sequer pensa na doença.

Gostei tanto do raciocínio que desejei nunca ter feito a pergunta ao Sean. Por conviver com tubarões na porta de casa, ele sabia que são pouquíssimas as espécies que atacam os homens. E que nenhuma delas passeia pelas praias de Port Alfred.

Tive vontade, ainda, de voltar no tempo e explicar ao Vítor que não existe possibilidade de alguém não aprender a patinar. Simplesmente porque a vontade de jogar hóquei elimina a chance de nunca se equilibrar em cima do patins.

Outro dia, batendo papo com um conhecido, contei que estou treinando para correr uma maratona. Sedentário como o Vítor, o sujeito ficou impressionado ao saber que são 42 quilômetros.

— E se você ficar exausto e tiver de desistir no meio da maratona?

Felizmente, não tenho resposta para a pergunta dele.

O doce sabor do fracasso

janeiro 3, 2010 by Cassio Politi · 4 Comments
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Foto: Hélio Nagai/ZDL
Largada da São Silvestre 2009

Abro os olhos e penso na prova. A ansiedade me dominaria até a largada da São Silvestre. Lembro que um ano atrás eu estava igualmente ansioso pelo que seria de meu ano profissional.

Demoradamente, vou até a janela e sentencio que vai chover dentro de poucas horas. Da mesma forma, 365 dias atrás eu previra como seria cada mês de 2009. Errei em todos eles. Tampouco choveu na São Silvestre.

Chego à largada e alguém pergunta qual a minha meta. Uma hora e vinte minutos, respondo. Começo a caminhar e passo por um pórtico, mas não vejo o tapete de cronometragem. Pergunto a um staff onde, afinal, é a largada. É mais adiante, no tapete.  Estou em minha 17ª prova só neste ano e ainda tenho dúvidas estúpidas. No dia-a-dia profissional, isso às vezes acontece.

Sem espaço
Enfim, começo a correr, mas não consigo impor meu ritmo. Penso no alerta de alguns amigos: fazer tempo na São Silvestre é difícil. É muita gente correndo. De fato, há congestionamentos a cada quilômetro. O desempenho na corrida e nas empreitadas profissionais é assim mesmo: está sempre sujeito a interferências externas. Decido, então, que só me cabe enfrentar a adversidade. Um esbarrão aqui, outro ali. Peço desculpas e sigo em frente, na prova e na vida.

Chego ao 9º quilômetro e constato que os engarrafamentos de corredores me atrasaram. Revisar a meta, nem pensar! Se puder ser manipulada, ela perde a razão de existir. Por isso, é inflexível. Aprendi isso como gestor e agora uso como atleta.

Passo pela placa de 13 km. Meu cronômetro marca 1h12. Será necessário percorrer os 2 km finais, que incluem a dura subida da Brigadeiro, em menos de 8 minutos. Impossível, eu sei. Sem olhar mais o relógio, corro o máximo que posso até o fim, exatamente como agiria num projeto passível de uma pressão angustiante.

Fracasso
Cruzo a linha de chegada três minutos além do tempo previsto. Tento me diagnosticar diante do fracasso. Estou feliz com o resultado? Claro que não. Estou frustrado? Também não.

Pego o metrô e começo uma breve reflexão. Algumas estações depois, desembarco com o peito estufado, como se fosse um leão faminto, querendo ir à forra com tudo o que não funcionou em 2009.

Um segundo a menos numa prova é o irmão gêmeo de um sucesso a mais no trabalho. Porque a corrida imita a vida. E vice-versa. Então, que venha 2010.

Bendita ignorância

dezembro 28, 2009 by Cassio Politi · 1 Comment
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Esquina da quase renomeada Av. Paulista com a rua que leva o nome de seu idealizador

Eu estava lendo um texto sobre um de meus autores preferidos. Me levantei, guardei o livro na estante e me dei conta de que, dentro de alguns dias, eu estaria correndo a São Silvestre. Decidi, então, colocar em prática o que acabara de ler.

Comecei perguntando a mim mesmo: quem, afinal, foi São Silvestre? Que se trata de um santo, eu já desconfiava. Só não sabia que Silvestre I foi papa no Século IV. Era italiano de Roma. Marcado pelo período de paz na igreja, seu pontificado terminou no dia 31 de dezembro de 335. Daí, a data festiva.

E aquela rua  que descemos logo depois da placa de 1 km. Por que se chama Consolação? Inevitável imaginar um sujeito aos prantos sendo consolado por outro. Bobagem. A rua tem esse nome porque no final dela fica a Igreja Nossa Senhora da Consolação, construída em 1799. Cabe explicar que Nossa Senhora da Consolação é a forma como orações se referem a Virgem Maria, mãe de Jesus.

O Brigadeiro Luís Antônio, por sua vez, foi um militar luso-brasileiro. Luís Antonio de Sousa Queiroz reformou-se em 1818, com a patente de brigadeiro, e morreu um ano depois

Não achei que fosse útil pesquisar o porquê do nome da Av. Paulista, mas aprendi que, na década de 20, rebatizaram a avenida para Carlos de Campos. Mas os paulistanos não gostaram. Protestaram e exigiram que o nome original voltasse. E voltou para sempre.

É justamente na Paulista que fica o pórtico de chegada da São Silvestre. Fica quase em frente ao cruzamento com a Joaquim Eugênio de Lima. Quem terá sido ele? Simples: esse engenheiro uruguaio foi o idealizador da Av. Paulista, inaugurada em 1891.

A propósito, o livro que despertou esta avalanche de curiosidades diz respeito ao mestre da administração Peter Drucker, que pregava: “aborde as questões com ignorância, e não com o seu conhecimento”.

Aparentemente, funciona.

O campinho dos sonhos

dezembro 23, 2009 by Cassio Politi · 11 Comments
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Jardim em São Vicente ocupa espaço do antigo campinho

Chucruts é o apelido de um amigo de muitos anos. Não tente entender o porquê da alcunha. Só lembro que ela foi criada mais ou menos na Copa de 1982.

Por falar em Copa, o Chucruts sempre foi muito bom de bola. Onde quer que houvesse uma pelada, lá estava ele. Bola de couro, bola Dente-de-Leite, bola de borracha: ele tinha intimidade com todas elas.

O tempo voou, o Chucruts cresceu. E cresceu até demais, para cima de 1,90m. Aquele sujeito negro, magro e alto virou o melhor centroavante da história do time do Itararé. Da janela de casa, eu ficava assistindo aos jogos no campinho do Itararé ali, entre o calçadão e a praia. Vi muitos gols seus, alguns dos quais antológicos.

O Chucruts contava suas histórias com um bom humor incessante. Eram narrativas fiéis aos fatos, mas deliciosamente sarristas. Muitas vezes previ que ele seria um prato cheio para a imprensa esportiva.

Nos labirintos da vida, porém, o Chucruts não virou jogador profissional de futebol. Estudou e teve sucesso vestindo calça comprida e sapato.

Não faz muito tempo, numa festa da família, o Chucruts apareceu lá em casa depois de muitos anos sem nos vermos. Abraços para lá, risadas para cá. Num certo momento, estávamos nós dois apoiados no parapeito da mesma janela que um dia fora meu camarote. Dali entramos no túnel do tempo e recitamos gols, causos e suas tardes gloriosas no Itararé.

De repente, o Chucruts ficou pensativo. Calculou e apontou para um poste que hoje ilumina o bem cuidado jardim. Era mais ou menos ali que ficava a trave, não era? Eu acho que sim. E a outra trave ficava um pouco para cá do que hoje é um teleférico.

Pela primeira vez, e única, vi uma profunda tristeza no olhar do Chucruts. Nem a perda dos avós nem as derrotas do Corinthians tinham sido capazes de roubar-lhe a alegria.

Logo voltamos a falar racionalmente e concluímos que a orla da praia ficou muito melhor com o jardim, que cruelmente desapropriou o campinho do Itararé.

Acontece que aquela conversa nunca acabou. Sempre que entro no Parque do Ibirapuera, me lembro da nostalgia que acometeu o Chucruts.

Porque o Ibira não é apenas o lugar onde treino. É o lugar onde alimento minha paixão pela corrida. É o lugar que, a cada passada, acolhe minhas emoções, desejos, sonhos e até orações.

Todo corredor se apega a um lugar. Não importa se esse lugar é arborizado ou árido, lotado ou vazio, praiano ou urbano. É o campinho do Itararé de cada um. Afinal, quem faz o lugar é a gente.

Ah, se eu fosse um guepardo

dezembro 3, 2009 by Cassio Politi · 10 Comments
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Que animal você gostaria de ser?

Se fosse obrigado a deixar o topo da cadeia alimentar urbana, eu gostaria de ser um guepardo.

Não que seja minha intenção sair caçando gazelas por aí, tampouco pretendo ser trancafiado numa jaula de zoológico. É que eu queria muito correr como o guepardo.

As passadas do guepardo são perfeitas: impulso para a frente, e não para cima. Vive em grupo, mas corre sozinho.

Talvez por isso as gazelas sejam sempre a caça. Correm como principiantes, de olhos esbugalhados, esgotando o fôlego logo no início.

O guepardo cadencia a corrida. Guarda para o momento exato os tiros de 300, 400, 500 metros. Chega a 120 quilômetros por hora.

E por que não escolher o cavalo, tão forte e capaz de percorrer longas distâncias? Ora, o cavalo bate muito os pés no chão. Joelho nenhum aguentaria tanto impacto no asfalto. Sua mobilidade, então, é digna de compaixão. O cavalo é mais troncudo do que um corredor precisa ser.

O guepardo, por sua vez, dispara no calor da savana com seus 60 quilos. E enxerga como poucos. De dia, dispensa proteção para o sol. À noite, abre mão de qualquer iluminação artificial.

A girafa tem atributos técnicos para ser uma corredora de ponta. É alta e magra. Mas não tem vocação. Seu silêncio enigmático revela uma personalidade tranquila demais. Não precisa se livrar do estresse.

O guepardo está sempre agitado. Olha de um lado para o outro, como quem teve um dia puxado no trabalho. Nem se importa com o horário: corre de dia, corre de noite.

Os cães também seriam ótimos corredores se pensassem mais em si próprios. Mas não resistiram à tentação dos mimos de seus melhores amigos. Deve ser por isso que os cães não conseguem se concentrar. Enquanto correm, prestam atenção em tudo, menos em seu próprio desempenho. Um desperdício para o atletismo.

O guepardo é focado. Em sua corrida ágil, a cabeça não balança. Ele se mantém concentrado no alvo. É objetivo, corre em função de suas metas.

No quesito beleza, o guepardo não deve nada aos cães. É fotogênico. Em câmera lenta, faz expressões de esforço e determinação.

Agora, vou desligar o Discovey Channel, calçar meu tênis com amortecimento especial para corrida, colocar óculos escuros, boné, iPod, frequencímetro com GPS e roupa feita com tecido dry fit.

E vou para a minha corrida artificial, típica de um ser humano limitado que se orgulha de ocupar o topo da cadeia alimentar.

E assim nasceu o Twitters Run Day

novembro 18, 2009 by Cassio Politi · 3 Comments
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Maratona de Revezamento Pão-de-Açúcar no Rio: Rafael Santos, Joaquim Cavalcante e este blogueiro

“Corra aí na sua cidade que eu corro por aqui. Depois, a gente soma as quilometragens e registra isso em algum lugar”.

O diálogo em questão se deu não entre dois, mas entre 131 corredores espalhados por 26 cidades de quatro países. Para não soar exagerado: foram 129 no Brasil, um em Portugal, um na Argentina e um nos Estados Unidos. O que também não é pouco. Somadas, as distâncias chegam a quase 1.900 km (veja os detalhes aqui).

A ideia nasceu no Twitter, onde os internautas começaram a trocar figurinhas sobre corrida de rua. De Belo Horizonte, o Augusto, cujo avatar no Twitter é @correguto, lançou a ideia de criar o TwittersRun (por razões técnicas, #twitersrun, com 1 “T” só). Ideia boa, adesão geral.

Era quinta-feira. Eu estava inspirado pelo primeiro dia de prova do Desafio dos 600K, competição da Nike que saiu de São Paulo e foi ao Rio. Bateu subitamente a ideia do Twitters Run Day. Fui para a van com urgência. Queria lançar e ver a reação dos amigos. peguei o celular e “twittei” a seguinte mensagem às 16h52 do dia 22 de outubro:

@cassiopoliti: Ideia: vamos criar o #TwittersRunDay? É assim: marcamos um sábado. Cada um faz seu treino. Depois, somamos os km de cada um. Que acham?

Nos dias seguintes, Augusto, Anderson Zacarias (@andzacarias) e eu conversamos muito sobre como fazer. Acertamos que valeria a quilometragem do fim de semana, e não apenas do sábado. E que valeria prova, e não apenas treino. O Anderson fez acontecer não apenas a sua ideia de criar a camisa do evento, mas foi o fomentador do evento em si.

Guardei para mim a expectativa de que umas 20 pessoas aderissem e não perguntei ao Anderson quantas camisas haviam sido solicitadas. Foram mais de 70!

De ideia em ideia, agora parte do grupo vai se encontrar na Volta da Pampulha, dia 6 de dezembro, em Belo Horizonte. Não pergunte quantas pessoas do TwittersRun eu acho que vão estar lá. Meu histórico de chutes é péssimo.

Tão absurdos quanto úteis

novembro 9, 2009 by Cassio Politi · 3 Comments
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Amadores da equipe Branca Esportes disputaram o Desafio dos 600K

O Seu Júlio fez a mesma pergunta a todos que, diferentemente dele, já tinham andado de avião.

A largura de uma aeronave, medida da ponta de uma asa à ponta da outra, superava a largura do terreno do prédio? Era isso que inquietava aquele modesto zelador nos anos 80.

Seu Júlio morava e trabalhava no mesmo edifício havia muitos anos. Dificilmente ia a qualquer lugar além dos limites da portaria, da garagem e do jardim. Mas reagia com ceticismo quando lhe explicavam que um Boeing tinha largura de três terrenos daquele. O Doutor Rafael foi um dos que ouviram Seu Júlio dizer que era simplesmente impossível uma geringonça daquele tamanho voar.

Experiente, o Doutor Rafael não perdeu tempo tentado convencê-lo, mas se lembrou de um empresário baiano que conheceu na poltrona vizinha de um voo de São Paulo para Nova York nos anos 60.

No desembarque, já em solo norte-americano, o rico empresário se orgulhava de ser o único a não vestir agasalho entre os passageiros, que o olhavam incrédulos. Lá fora, a temperatura era de 4 graus abaixo de zero. Lá dentro, prestes a desembarcar pela porta traseira, o empresário trajava uma fina camisa de seda e explicava que baianos como ele não sentem frio.

Sua convicção se baseava no fato de já ter enfrentado todo tipo de frio em suas cruzadas pelo interior do Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia. Conclusão: após o desembarque, foi internado com pneumonia aguda.

Em comum, o bem-sucedido empresário e o Seu Júlio tinham a visão limitada. Mas isso não me faz melhor do que eles.

Foi na caravana do Desafio dos 600K da Nike que me senti cego pela minha própria visão. Quando entrei pela primeira vez na van que acompanharia os atletas por todo o percurso de São Paulo ao Rio,  tinha comigo que, numa hipótese muito otimista, um dia eu chegaria a correr a 5′30″ por quilômetro. Mais rápido do que isso, só profissionais.

Foram 3 dias intensos de prova, que reuniu exclusivamente atletas amadores. Todos eles são gente como a gente: advogados, administradores, funcionários públicos, jornalistas, fisioterapeutas, garis, estudantes, professores. Todos treinam nas horas vagas. Incrivelmente, seus paces não raramente ficavam abaixo dos 4′ por km. Os mais lentos estavam na casa dos 4′30″ por km. Não me cansei de perguntar: o que você faz para ser tão rápido? A resposta quase unânime: “treino, treino e treino”.

A inovadora competição terminou com uma prova de 10 km no Rio, a Nike Human Race. Inspirado pela convivência dos velozes amadores, cumpri esses 10 km com pace de 4′59″, inédito para mim.

Mais do que uma meta alcançada, o resultado trouxe alívio porque mostrou existir pelo menos uma diferença entre eu e a dupla formada por Seu Júlio e o empresário baiano. Normalmente, eu tento acreditar nos absurdos que ouço; eles não.

Todo corredor tem um amigo imaginário

novembro 1, 2009 by Cassio Politi · 6 Comments
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Eu tinha uns 4 anos de idade. Na hora do almoço, exigia que um lugar na mesa ficasse reservado para o Aceó, com prato, talheres e copo para ele. Aceó era o meu amigo imaginário.

O tempo passou, eu cresci e o Aceó sumiu da minha imaginação.

O amadurecimento me incentivou a começar a correr. Primeiro, um trote leve para perder peso. Depois, provas de 5, 10, 15 e 21 quilômetros. No futuro, maratonas.

Foi na busca para ganhar ritmo que surgiu a necessidade de se fazer aquele tipo de conta simples. Por exemplo, no quilômetro 5, meu cronômetro não pode marcar mais do que 28 minutos. É uma espécie de adversário imaginário presente nas planilhas de treinos e provas.

A linha do tempo continuou progredindo implacavelmente e surgiram os relógios equipados com GPS. Neles, o amigo imaginário se materializou — em formato digital — e ganhou o nome de adversário virtual.

Pensei que só eu tivesse crescido e me modernizado, mas agora vejo que  o mesmo aconteceu com o Aceó.

Outro dia, lancei para o Aceó o seguinte desafio: “quero ver se você termina a meia maratona em 2 horas”. Ele cumpriu religiosamente esse tempo. Eu fiz em 1h58. Rá! Faturei essa! Passei o domingo curtindo a vitória. Mas devo confessar que em certas ocasiões perdi feio.

Desconfio que cada corredor amador tenha o seu próprio Aceó. Numa prova com 10.000 participantes, há na verdade 20.000: metade humanos, metade imaginários.

Estou prestes a descobrir que desafiar o adversário imaginário é o que faz um corredor se manter focado e forte. É o que faz um corredor se manter feliz.

Não contei para quase ninguém que, na conversa de hoje, eu disse baixinho: “Aceó, duvido que você consiga correr uma maratona no ano que vem”.

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