“Voa, canarinho, voa.”
Eu não sei de você, da sua casa, mas aqui na minha, desde sempre, desde a primeira Copa em que eu estava viva (82, aquela!), temos o hábito de enfeitar tudo com bandeirinhas e faixas e flâmulas do Brasil.
Antes eram meus pais que faziam isso, na casa que morávamos em Manaus, enchendo toda a área da garagem e do quintal de verde e amarelo.
Depois, viemos morar no apartamento em que estamos até hoje, e meu irmão e eu enfeitamos a varandinha de casa, só pra não deixar morrer a tradição.
Muitas ruas, vilas, conjuntos organizam até concursos para escolher a casa mais enfeitada para a copa e aí vale tudo: muros e asfalto com desenhos alusivos à Copa e/ou à Seleção; balões; bandeirinhas; cartazes; faixas; etc.
Quando o Brasil ganhou em 1994 e em 2002, deixamos as bandeirinhas até quase chegar o Natal. Minha mãe dizia que nem ia ter pisca-pisca naqueles anos, só bandeirinhas!
Já em 1998 e 2006, assim que fomos derrotados, saímos muito loucos da vida arrancando as bandeirinhas, como se adiantasse alguma coisa – minha mãe fez o mesmo em 1982 e de lá pra cá não acredita mais em seleção nenhuma.
Paixão isso?
Vai ver que é porque somos muito mais torcedores do que analistas.

Não sei quanto a você, mas algo me incomodou nessa primeira semana de “ensaio para a Copa do Mundo”. Assistir a um jogo da seleção brasileira, seja pela TV ou num estádio na África do Sul, se torna desafiador graças a um incômodo zumbido ao fundo. Trata-se da corneta vuvuzela, um instrumento sonoro, de origem kudu, que representa a alma dos torcedores em campo.
Ou seria melhor dizer alma penada! Respeito as tradições sul-africanas e seu modo alegre e espontâneo de torcer – aliás, isso me chamou a atenção nos primeiros treinos do Brasil em Bloemfontein. Mas convenhamos: atrapalha, incomoda, enche o saco…
“Sem a vuvuzela, não sei se estamos aptos a apreciar o futebol. Ela traz uma atmosfera especial aos estádios”. A declaração, pinçada no site da Fifa, é de Sadaam Maake, inventor do instrumento e considerado “torcedor número um” do país (lembrei agora do Gaúcho da Copa). Enfim, eu nunca vi ninguém proibir uma manifestação cultural – menos ainda a Fifa, que já se posicionou, nas palavras de Sepp Blatter: “os treinadores e jogadores devem se adaptar”.
Os sul-africanos podiam celebrar com moderação, alternar o som tribal com batuques, gritos de guerra, entre outras manifestações. Cultuar suas tradições com o direito que merecem, respeitando o nosso de assistir a um jogo sem zoeira. Seriam respeitados e admirados mundialmente. Mas já posso vê-los estorvando com essas cornetas de plástico vagabundas, reverberando para os quatro cantos como se o apocalipse estivesse chegando.
Nesse caso, tanto eu (e certamente outros incomodados) amaldiçoaremos esses cururus até o fim da Copa: ou vocês maneram, ou posicionem vossas vuvuzelas naqueles orifícios impronunciáveis. E que seus beiços rachem, seus pulmões explodam e seus ouvidos zumbizem. E quem estiver de acordo (ou não) pode contribuir com suas ofensas.
Atualizado: o Ubiratan Leal (que não tem nada contra as Vuvuzelas do Apocalipse) dá o link para um blog que faz campanha contra: Ban the Vuvuzela. Pessoalmente, eu apoio essa campanha.