O que acontece quando o principal locutor da emissora de TV com maior audiência do Brasil alterna sua função principal – uma mescla de “intérprete” e “animador” – com algumas expressões… Mmmhhh… Desnecessárias? Bom, o resultado disso é simples: não dá pra ficar indiferente quando o assunto é Galvão Bueno.
Então você o defende, colocando-o em patamar semelhante ao de Luciano do Valle no que diz respeito a popularização de outras modalidades – o que o bom e velho “Bolacha” representa para o voleibol está para Galvão e a Fórmula 1. Luciano do Valle conduziu os jogos da seleção pelo “plim-plim” em 82; Osmar Santos, em 86. Naturalmente, a partir dos anos 90, Galvão assumiu o posto principal, onde certamente permanecerá até 2014.
Em contrapartida, você tem motivos de sobra para “meter o pau”, ainda que faça parte do ofício tropeçar nas próprias idéias enquanto conversa com milhões de pessoas, das mais variadas cores e tamanhos. Mesmo no automobilismo, onde seus conhecimentos culminaram com a geração de dois filhos pilotos, o número um do Brasil dá suas rateadas. Uma que ninguém esquece, quando Alonso conquistou um de seus dois títulos mundiais, e um mecânico da Renault exibiu uma camiseta com a provocação “Schumacher Who?”. Sem titubear, Galvão tascou: “Cadê o Schumacher?”.
Tamanha exposição, somada à nossa condição humana de cometer erros, fez com que a expressão “Cala a Boca, Galvão!” tomasse corpo, especialmente quando outros telespectadores, não acostumados à overdose de futebol proporcionada pela Copa do Mundo, convive com ele por mais tempo – ainda que Galvão possa, a essa altura do campeonato, escolher quais eventos deseja transmitir. Não é de hoje que boa parte dos telespectadores tendem a diminuir o volume da TV ao vê-lo repetir as mesmas histórias, tirar conclusões baseadas em deduções discutíveis, passar por cima das opiniões dos comentaristas… Só neste final de semana, diante de África do Sul, Argentina e Alemanha, foram incontáveis.
Nas poucas entrevistas que já concedeu, Galvão Bueno já disse que não se importa com quem manda o calar. Não deu a mínima, por exemplo, para o “Bobueno”, bonequinho distribuído num bar de São Paulo durante Brasil x Croácia, em 2006. Provavelmente compraria para um neto a camiseta (infelizmente não lançada) pelo Camiseteria. Talvez o mesmo desdém se aplique nessa Copa, diante da “força das mídias sociais”. Sem dúvidas, alguns dos especialistas irão lembrar deste final de semana como um verdadeiro “case de marketing digital”. Ou vai dizer que você não soube do “buzz” promovido pelos brasileiros no Twitter?

Durante a festa de abertura do Mundial, na última sexta-feira, os “trending topics” do Twitter – espécie de “agenda setting” que há tempos deixou de ser 100% espontânea – mostrou o “cala boca Galvão” entre as expressões mais citadas entre todos os usuários da ferramenta em todo o mundo. Isso despertou alguma curiosidade global: estrangeiros perguntavam, com razão, “who´s this cala boca galvao”.
Foi quando alguns gaiatos tiveram idéias pretensamente geniais, sob o pretexto de ampliar a duração da piada no Twitter – ainda que usando mentirinhas inocentes. A primeira, menos complexa, associou a expressão a um nome pop: “Cala Boca Galvao” seria o nome de uma nova música de Lady Gaga (talvez Justin Bieber representasse o mesmo efeito).
Outras versões bobas devem surgir por aí, mas a coisa me pareceu ir longe demais diante de uma elaborada criação de um “instituto galvão”, responsável pela preservação do pássaro que leva esse nome. Para que a lorota garantindo o significado de “cala boca” como “save” (salvem) colasse, cartazes e um vídeo explicam que a ave estaria ameaçada de extinção graças ao Carnaval, e que cada tuitada representaria R$ 0,10 ao tal instituto, presidido por… Chico Xavier. Não seria mais fácil – e autêntico – explicar o real significado?
É inegável que a Internet está descobrindo suas possibilidades, mas desconfio de qualquer manifestação, virtual ou real, baseada em argumentos fracos. Para o bem ou mal, é o tipo de brincadeira que está associada apenas ao entretenimento – a não ser que as eleições possam me desmentir em algumas semanas.
Quer saber mais? A web tem força sim, mas o que dizer da TV, que ameniza qualquer pedido de mordaça ao valorizar seu locutor – ou simplesmente o humanizando ainda mais ao colocá-lo dançando com a Shakira?
Em tempo: quer fazer com que Galvão cale mesmo a boca? Que tal concentrar toda a sua vontade neste joguinho?
Atualizado: a repercussão do episódio chegou ao The New York Times e ao El País, ambos explicando exatamente o significado da frase e desmistificando as brincadeiras. Por aqui, a Thays Prado, da Revista Super, relacionou a “piada interna” às questões ambientais: é assustador o fato dela ter dito “depois a gente ainda quer ser levado a sério quando o assunto é a preservação do meio ambiente” ativar reações desrespeitosas, todas com a perigosa premissa “não leve a sério, foi só uma piada”. Será mesmo tão ruim visualizar o lado negativo de algo aparentemente divertido?
Enfim, como era de se esperar, tudo o que encontrarmos na Globo.com sobre o tema servirá para capitalizar a favor do Galvão. Que tal clicar nos balões e ouvir praticamente todos os bordões possíveis dessa verdadeira “vuvuzela humana”?
Atualizado, de novo: Adivinhem só? Galvão entrou na campanha… Traduzindo: realmente, não está nem aí.