
A seleção brasileira entrará em campo hoje para a primeira partida pela Copa do Mundo 2010. Eu deveria estar nervoso, roendo as unhas de ansiedade, mas a verdade é que estou tranqüilo. Emoção mesmo, com direito a grito na hora do gol, eu senti quando a Argentina venceu a Nigéria, dias atrás. O fato deixou alguns amigos e conhecidos chocados, então resolvi explicar, não que isso fosse uma obrigação.
De início, preciso refutar o argumento simplório e inocente de quem diz que não torcer para a Seleção Brasileira é não torcer pelo Brasil e não merecer minha condição de brasileiro (como se ter ou não determinada nacionalidade fosse mesmo uma questão de merecimento). Ora, o ufanismo bobo da expressão “a seleção é a pátria” só serve ao discurso publicitário fácil ou ao “ame-o ou deixe-o” do período da ditadura.
O fato é que mais do que torcer pela seleção ou ser “brasileiro com muito orgulho e com muito amor”, o que me move é gostar de futebol. Não este futebol dos “guerreiros pré-fabricados” que precisam vencer a qualquer custo, mas o futebol do sonho e da utopia, o futebol que nada mais é que a representação maior e mais fiel das tragédias humanas. Daí, nada mais natural que torcer pela Argentina nesta Copa.
Dunga é bem intencionado e comprometido sim com o que ele acredita ser a Seleção Brasileira. O problema é que tanto ele quanto seus comandados estão comprometidos com a mais patética mediocridade. Pior, ele representa não só a mediocridade dentro de campo, mas a mediocridade endêmica e maniqueísta que contamina todos os setores da nossa sociedade. O discurso de quem diz “o que importa é vencer, contra tudo e contra todos” é o discurso dos idiotas leitores de auto-ajuda.
Michel Bastos, Daniel Alves, Thiago Silva e Felipe Melo são ofensas ao Brasil que teve Pelé, Garrincha, Zizinho e Didi. Nomes forçadamente compostos, pensados por empresários e assessores de imprensa para agregar valor a um produto que querem logo exportar. Este é o Brasil dos “publieditoriais”, dos carros “semi-novos” e de todos os outros eufemismos tapados e politicamente corretos. É o Brasil do choque de ordem, que tenta esquecer seu passado em nome da modernidade acéfala e da eficiência vazia. É o Brasil de quem vive no interior e tenta esconder o sotaque por ter vergonha de suas origens.
Bastos, Melo e Alves são aspones de uma repartição pública qualquer, e não jogadores de futebol dignos de jogar uma Copa do Mundo. Mais patética ainda é a tentativa de transformá-los em soldados (ou guerreiros de uma marca de cerveja ruim). Dunga adota um discurso militarizado, de ordem imposta, e todos que não estão ao seu lado estão automaticamente contra ele e contra a Seleção. Emílio Garrastazu Médici com certeza está sorrindo neste momento, em algum lugar do inferno.
Ao mesmo tempo, Maradona é o anti-Dunga. Maradona é trágico e instável como a vida deve ser, Maradona é a irreverência, a genialidade e a imprevisibilidade dos grandes. Maradona é um tango de Carlos Gardel e Dunga é uma dupla qualquer de sertanejo universitário. Maradona é Beatles e Dunga é Orlando Morais.
Enquanto Maradona libera os encontros para seus comandados durante a Copa, Dunga diz que nem todos gostam de sexo. Enquanto Dunga faz um jogador pedir desculpas por uma entrevista, Maradona promete sair pelado pelas ruas se a Argentina for campeã.
Maradona foi o principal protagonista da última grande Copa do Mundo da história, e hoje tem Lionel Messi. A Argentina lembra muito o fantástico Santos do primeiro semestre: o ataque é pura técnica e genialidade enquanto a defesa é frágil e capaz de dar arrepios. Mais divertido, impossível! Enquanto isso, Dunga preferiu deixar Ganso e Neymar no Brasil, porque deve achar que Single Ladies não é coisa de guerreiros. Azar dele, e nosso.
Eu abro mão do título em nome de uma Copa do Mundo inesquecível como todas as copas devem ser. Quero uma Copa de sonho como a de 1982 ou de 1986, uma Copa com todo o chato time da Inglaterra driblado antes do gol antológico, uma Copa com la mano de Dios! Que esta seja a Copa do Mundo de Maradona, de Verón e de Lionel Messi!
“A Argentina vai perder e vamos todos rir de você, perdedor”. É possível, e responderei que prefiro fracassar junto dos gênios do que vencer com os medíocres.