Ronaldo teve piripaque e a CBF vendeu a Copa de 98 para a França!
Marmota
No último encontro entre Brasil e França em uma Copa do Mundo, em 2006, todos sabem perfeitamente o que houve. Aquele time do Parreira entrou em campo como se fosse um divertido encontro de compadres, sem nenhum compromisso. Como se estivessem treinando em Weggis, na Suíça. Teve ainda a meia do Roberto Carlos e – como se isso fosse irrelevante – uma atuação convincente dos franceses.
A questão é que, diante de uma eliminação num Mundial, a coisa mais difícil para o brasileiro é eliminar dúvidas. Como pode um time ostentar o melhor futebol do mundo e perder? Ora, lógico que um time perde como em qualquer jogo. Explicar uma derrota pode ser simples, como em 2006. Mas e em 1998, naqueles 3 a 0 do Stade de France, em 12 de julho?
Resumidamente, até os 27 do primeiro tempo, o jogo parecia equilibrado. Então Roberto Carlos (aquele da meia) teve a chance de jogar a bola pra lateral. Preferiu a linha de escanteio. Bola no alto, cabeça de Zidane, gol. No último minuto antes do intervalo, novo escanteio para os donos da casa. O que houve? Bola no alto, cabeça de Zidane, gol.
Praticamente ninguém viu o segundo tempo. Quem ouviu alguma narração acompanhou relatos de um time apático, de cabeça baixa. Atacou boa parte do tempo, mas a reação não deu em nada. Os poucos crentes se resignaram à medida em que o tempo passava. Finalmente, Petit selou a festa em Paris, aos 47 da etapa final.
Enfim, isso foi o que todos viram. Quer dizer, vimos ainda a mídia fazer exatamente aquilo que deveria antes da final: lembrar que o Brasil vinha crescendo na competição, demonstrando competência desde a vitória contra a Dinamarca e sorte na semifinal diante da Holanda. Se dependesse apenas do discurso televisivo, não tinha como não ganhar da França!

Agora, vamos ao que até hoje, onze anos depois, permanece sem explicação.
Horas antes da partida, as emissoras de TV se surpreenderam com a escalação de Edmundo ao lado de Bebeto. Ronaldo, duas vezes o melhor do mundo, estava no banco. Até uma nova lista vir com o nome do Fenômeno tempos depois, os disparates já estavam lançados. O primeiro deles na boca de Galvão Bueno: “foi uma brincadeira de mau gosto!”. Até Suzana Verner, imagem recorrente das arquibancadas, foi acusada de “dopar” o então marido!
Jogo perdido, time abatido… Em pouco tempo, o enredo de novela estava preparado. Antes do jogo, Ronaldo (ainda Ronaldinho) teve uma crise nervosa, convulsão, piripaque, dor de barriga… Roberto Carlos, seu colega de quarto, se apavorou. Todos ficaram apavorados. Mencionaram ataque epilético! Diziam que estava espumando! Temiam por sua vida!
Essa é só a primeira parte da lenda. A segunda, mais crível, diz respeito ao vestiário. Os jornalistas já tinham a escalação com o Animal quando Ronaldinho chegou da clínica, ao lado do lendário Doutor Lídio Toledo, entre outros. Com exames completíssimos e sem nada anormal, disse estar apto a jogar. Até Ricardo Teixeira, apreensivo com o burburinho provocado por Edmundo na lista, participou daquela preleção muito louca. No Stade de France, uma nota oficial dizia que Ronaldo ainda sentia o tornozelo atingido por um dos De Boer no jogo anterior…
Zico – aquele que havia cortado Romário antes da Copa – era contra a presença de Ronaldo. O jogador, respaldado pelos médicos, disse que “ninguém o tirava do jogo”. Coube a Zagallo a palavra final: arriscou e botou o Fenômeno em campo. Ao que tudo indica, o time todo jogou preocupado. Imaginava-se que o camisa 9 pudesse cair duro no gramado. Quando se chocou com Barthez ainda no primeiro tempo, as pernas de todos tremeram mais.
Enfim, outras versões circularam por aí. A mais divertida até hoje: a CBF vendeu aquela Copa para a Fifa, com anuência da Nike – procurem por Ronald Rhovald por aí e verão que ainda tem gente certa de que este fictício representante da patrocinadora trocaria, por um bom dinheiro, o título de 98 por caminho facilitado em 2002…
Teorias da conspiração que certamente se encaixariam como alguma indicando nova mutreta entre cartolas: se o Brasil garantisse o título de algum europeu em 2006, seria contemplado como sede da Copa em 2014. A farra em Weggis, aquele clima de “já ganhou”… Zidane carrasco outra vez, o melhor em campo, cobrando falta em direção ao Henry. Tudo politicagem.
Deve ter sido consequência do trauma pré-tetra, sei lá. Desde então, “somos o país do futebol”, “os imbatíveis”… Seria mais simples admitir que perdemos, que a França foi melhor. Ah, mas não teria graça sem a perturbação das lacunas da derrota. Viva o mistério.
Afoitos ou apaixonados demais pela Seleção?
Luciana
No dia do jogo Brasil x França da Copa de 2006, tínhamos um aniversário para ir. Era de um bebê – neto de uma amiga da minha mãe – que fazia um ano naquela data.
Fiquei totalmente pra baixo com a derrota do Brasil e não tinha ânimo algum para ir pra tal festa, mas minha mãe insistiu muito, disse que seria uma desfeita com a amiga dela, que a criança não tinha culpa da Seleção ter perna de pau e que seria um modo da gente se distrair e esquecer a desclassificação do Brasil.
Enfim.
Chegamos lá, a surpresa: os pais de primeira viagem, ingênuos como duas portas, fizeram o aniversário com o tema… BRASIL E COPA DO MUNDO!
Tudo no aniversário era verde e amarelo: balões, bolo, pratinhos, copinhos, garfinhos, gardanapos, toalhas de mesa… Até a roupa do palhaço!
Nas paredes, imagens dos jogadores desenhadas e coloridas em pedaços de isopor.
O horror!
Era como se o aniversário inteiro fosse uma grande alegoria da derrota. A expressão nos rostos dos pais era de constrangimento puro… De “ah, se arrependimento matasse”.
Acho que a única pessoa relax ali era o aniversariante que não estava entendendo absolutamente nada do alto do seu um ano de idade – talvez as crianças que ainda não ligavam muito pra futebol também e, com certeza, minha mãe também não dava a mínima, afinal, desistiu da Seleção desde 82…
O fato é que todo ano, mais ou menos nessa época de junho/julho, eu me lembro daquele aniversário. Um dia o menino vai ver as fotos, vai saber do tal “tema” e vai perguntar sobre o placar daquele dia. E a cara no chão dos pais afoitos vai vir à tona outra vez.
Afoitos ou apaixonados demais pela Seleção?
Muito mais torcedores
Luciana
“Voa, canarinho, voa.”
Eu não sei de você, da sua casa, mas aqui na minha, desde sempre, desde a primeira Copa em que eu estava viva (82, aquela!), temos o hábito de enfeitar tudo com bandeirinhas e faixas e flâmulas do Brasil.
Antes eram meus pais que faziam isso, na casa que morávamos em Manaus, enchendo toda a área da garagem e do quintal de verde e amarelo.
Depois, viemos morar no apartamento em que estamos até hoje, e meu irmão e eu enfeitamos a varandinha de casa, só pra não deixar morrer a tradição.
Muitas ruas, vilas, conjuntos organizam até concursos para escolher a casa mais enfeitada para a copa e aí vale tudo: muros e asfalto com desenhos alusivos à Copa e/ou à Seleção; balões; bandeirinhas; cartazes; faixas; etc.
Quando o Brasil ganhou em 1994 e em 2002, deixamos as bandeirinhas até quase chegar o Natal. Minha mãe dizia que nem ia ter pisca-pisca naqueles anos, só bandeirinhas!
Já em 1998 e 2006, assim que fomos derrotados, saímos muito loucos da vida arrancando as bandeirinhas, como se adiantasse alguma coisa – minha mãe fez o mesmo em 1982 e de lá pra cá não acredita mais em seleção nenhuma.
Paixão isso?
Vai ver que é porque somos muito mais torcedores do que analistas.

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