Blog da Copa

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Espaço para os autores do Dialetica.org e seus convidados palpitarem sobre a maior festa do futebol mundial!

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Contagem regressiva para a Copa 2014!

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Considerações aleatórias sobre Zimbábue, Tanzânia e outras africanices

Marmota

 

Então a seleção do Dunga terminou, nesta segunda, sua preparação pré-Copa. Aos moldes dos Mundiais anteriores, as “andorras”, “malásias” e “lucernas” da vez foram Zimbábue e Tanzânia. Duas vitórias pra animar o grupo e dar ritmo de jogo: respectivamente, 3 a 0 e 5 a 1 – esse último um, como diria Galvão Bueno, é daqueles feitos que o autor, Azziz, vai contar aos bisnetos. E que, obviamente, Gomes fará de tudo para as gerações seguintes esquecer.

Numa observação totalmente superficial, tudo o que poderíamos dizer sobre os dois países é: “duas babas que talvez não precisássemos enfrentar e que, pelo visto, ficam na África mesmo”. O que não quer dizer muita coisa diante de observações pertinentes que ouvi, como “não é ali que vive o Demônio da Tanzânia, de onde saiu aquele personagem do desenho?”. Alguns mais iniciados talvez citem A Cor do Som ao lembrar que a ilha de Zanzibar pertence à Tanzânia. “A luz de Jezebel no céu de Zanzibar, feliz meu coração zumbiu no corpo dela alicolôtalá”. Não?

Enfim, bem vindo ao clube dos brasileiros que, diante desse início de cobertura massificante, enxergam estereótipos que definem a África como “uma coisa só”. Mais ou menos como muitos estrangeiros encaram o Brasil, não? Parece besteira, mas é só observar os símbolos do Mundial, como a bolinha que apresenta os boletins informativos da Globo. A Copa é na África? Por que não usar o desenho do continentem todo?


A bolinha da Globo, sobrepondo um mapinha em francês.

Lógico que é pedir demais, mas o Mundial é uma tremenda oportunidade para “destrinchar” ao menos em parte algumas questões que nos ajudariam a entender o continente. Especialmente a colonização européia, algo que em parte é bastante semelhante ao que vimos nas Américas. Com duas diferenças fundamentais. A primeira: quando belgas, franceses, alemães, britânicos, italianos, portugueses e espanhóis “partilharam” a África, ignoraram solenemente a estrutura tribal que já existia. As centenas de etnias foram praticamente “rearranjadas”, de modo que alguns aliados se separaram – e inimigos foram obrigados a conviver na mesma demarcação.

A segunda: tal processo de colonização, numa escala histórica, se desenrolou ao menos cem anos depois do que houve do outro lado do Atlântico. Salvo exceções como Egito ou a própria África do Sul, cujo processo de independência e contexto histórico possuem características bem peculiares, as outras nações levaram mais tempo para se “desprender” da colônia – em alguns casos, envolvendo conflitos. Alguns países que declararam sua independência há algumas décadas estão engatinhando em praticamente todos os campos do desenvolvimento. Essas duas situações explicam muita coisa.

Isso vale para aqueles que falam o nosso idioma – e isso é algo que ainda me deixa encafifado. Os angolanos, certamente os ex-colonizados mais lembrados por aqui, consomem muita coisa oriunda do Brasil. Desde canais de TV, tornando conhecidos nomes como Luciano Huck e Banda Calypso, até a literatura – o próprio domínio português fez com que Jorge Amado fosse melhor recebido que Eça de Queirós.

E é incrível como o inverso não acontece: são raras as notícias vindas dos nossos “primos semânticos”. Pessoalmente, ficaria feliz se um dia tivesse a chance de conhcer Luanda, Maputo ou, melhor ainda, Cidade de Praia, em Cabo Verde. Nesse aspecto, seria muito bacana ver a Seleção atuando em Moçambique – tão próximo quanto a Tanzânia geograficamente, mas bem mais encostado levando em conta o idioma.

Enfim, acabamos no Zimbábue, país mais pobre do continente. Nesse sentido, a presença do time de Dunga poderia remeter ao amistoso no Haiti, em 2004. Acabou passando outra impressão, bem estranha: como os milhões de dólares do cachê foram desembolsados por Robert Mugabe, ditador sanguinário no poder desde 1980, ficou claro que a partida teve caráter essencialmente populista. Posição da CBF? “Não temos nada com isso. Fomos jogar futebol”. Pagando bem, que mal tem, não é? Ah, em tempo: o que foi aquele hino executado pela fanfarra do colégio?

Já a Tanzânia, do monte Kilimanjaro e do azul de Jezebel na luz de Calcutá, surpreendeu em outro aspecto: graças a histórica parceria comercial dos africanos com a China, a cidade de Dar es Salaam possui, em sua periferia, um estádio padrão Fifa no meio do nada – como os arredores do Mangueirão, em Belém. Tanto ali quanto em Harare, na última quarta, os ingressos nada tinham a ver com os padrões da população local. Fica a lição para 2014, hein?

Bom, devo ter dito algumas besteiras nas últimas linhas. Fiquem à vontade para compartilhar seus conhecimentos, além de boas fontes de informação… Vamos precisar delas nos próximos dias.

Corneta vuvuzela não!

Marmota

 

Não sei quanto a você, mas algo me incomodou nessa primeira semana de “ensaio para a Copa do Mundo”. Assistir a um jogo da seleção brasileira, seja pela TV ou num estádio na África do Sul, se torna desafiador graças a um incômodo zumbido ao fundo. Trata-se da corneta vuvuzela, um instrumento sonoro, de origem kudu, que representa a alma dos torcedores em campo.

Ou seria melhor dizer alma penada! Respeito as tradições sul-africanas e seu modo alegre e espontâneo de torcer – aliás, isso me chamou a atenção nos primeiros treinos do Brasil em Bloemfontein. Mas convenhamos: atrapalha, incomoda, enche o saco…

“Sem a vuvuzela, não sei se estamos aptos a apreciar o futebol. Ela traz uma atmosfera especial aos estádios”. A declaração, pinçada no site da Fifa, é de Sadaam Maake, inventor do instrumento e considerado “torcedor número um” do país (lembrei agora do Gaúcho da Copa). Enfim, eu nunca vi ninguém proibir uma manifestação cultural – menos ainda a Fifa, que já se posicionou, nas palavras de Sepp Blatter: “os treinadores e jogadores devem se adaptar”.

Os sul-africanos podiam celebrar com moderação, alternar o som tribal com batuques, gritos de guerra, entre outras manifestações. Cultuar suas tradições com o direito que merecem, respeitando o nosso de assistir a um jogo sem zoeira. Seriam respeitados e admirados mundialmente. Mas já posso vê-los estorvando com essas cornetas de plástico vagabundas, reverberando para os quatro cantos como se o apocalipse estivesse chegando.

Nesse caso, tanto eu (e certamente outros incomodados) amaldiçoaremos esses cururus até o fim da Copa: ou vocês maneram, ou posicionem vossas vuvuzelas naqueles orifícios impronunciáveis. E que seus beiços rachem, seus pulmões explodam e seus ouvidos zumbizem. E quem estiver de acordo (ou não) pode contribuir com suas ofensas.

Atualizado: o Ubiratan Leal (que não tem nada contra as Vuvuzelas do Apocalipse) dá o link para um blog que faz campanha contra: Ban the Vuvuzela. Pessoalmente, eu apoio essa campanha.