Blog da Copa

Palpites sobre a maior festa do futebol mundial!

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Manifesto a favor das visitas a estádios pelo mundo

Por Marmota | 17/06/2010, 10h15

O museu La Chascona, casa que Pablo Neruda construiu para viver com sua amante e futura esposa Matilde em Santiago, era o segundo lugar mais bacana que tinha vontade de conhecer em Santiago. O primeiro, disparado, era o Estádio Nacional do Chile, palco da decisão entre Brasil e Tchecoslováquia, em 17 de junho de 1962. A seleção de Garrincha, Amarildo e companhia venceu por 3 a 1, dando a chance do zagueiro Mauro levantar a Taça Jules Rimet. Era o segundo título brasileiro.

Seria mais uma visita aos palcos das finais de copas em minha lista. Dos que consegui entrar, guardo boas recordações do Monumental de Nuñes, em Buenos Aires; do Santiago Bernabéu; do Stade de France; e do Estádio Olímpico de Berlim. Em Estocolmo, uma delícia: entrei no mítico Rasunda após um golpe de sorte; no mesmo dia, passeamos pelo estádio dos Jogos Olímpicos de 1912, uma relíquia aberta ao público.

Enfim, visitar um estádio vazio, aberto para visitação – ainda que por uma pequena taxa, como em Madri, Saint-Denis ou mesmo o Allianz Arena de Munique ou Amsterdam Arena (que, diga-se, só consegui entrar depois de três vezes) é bom. A experiência fica melhor ainda nas arquibancadas, no meio da torcida.

É assim a cada ida ao Beira-Rio (que mantém um portão sempre aberto para o visitante conhecer o estádio). Foi assim quando vi Atlético e Cruzeiro, comendo o tropeiro do Mineirão. Ou ao lado dos barra-bravas, quando quase fui alvejado com uma bomba de gás, após uma vitória do Boca sobre o Vélez em La Bombonera. Ou na inesquecível vitória da seleção portuguesa por 7 a 1 contra a Rússia, pelas Eliminatórias da última Copa, no José Alvalade, em Lisboa.

Mas quase sempre a visita é frustrada. Ainda segundo minha lista “finais de Mundiais”, os portões do Olympiastadion de Munique, palco da final de 74, estavam fechados. Também já estive em Montevidéu, diante do Estádio Centenário, mas por um azar danado, perdi a chance de assistir a Nacional e Central, pela Copa Sul-americana. Foi exatamente no dia que fui embora – e eu sequer conheci o Museu. Tive azar ao encontrar portões fechados em outras arenas, como o Estádio Olímpico de Atenas ou o Strahov.

Ah, o Strahov. O maior estádio do mundo é o Colosso de Praga, um verdadeiro elefante branco que representa exatamente a grandeza do leste europeu comunista. Cabem nove campos de futebol dentro dele. Para chegar de metrô, só caminhando muito após subir o funicular de Petrín. Mas para quê, se aquela armação decadente vive fechada para visitantes? Aliás, no mesmo dia, até o estádio do Sparta estava fechado.

Enfim, toda essa manifestação esnobe para dizer que, assim como qualquer paulistano que sonha em melhores condições para ir a um estádio, estou acostumado a caminhar longas horas a partir de uma estação de metrô (como a Nuble, em Santiago), caminhar por avenidas desertas (como as avenidas Carlos Dittborn, onde nitidamente fica a “Cohab” da cidade, Marathon e, finalmente, Grécia) e dar de cara com uma grande decepção.

Tudo que encontrei foram portões fechados, algumas famílias passeando ou utilizando parte da estrutura do Parque Olímpico, além de dois turistas fotografando justamente no único portão onde dava para ver um pedacinho do gramado. O único funcionário na entrada alertara quando cheguei: “para fotografar, é preciso autorização”.

Não consigo admitir que eu seja o único potencial turista que visita qualquer grande cidade que tenha um bom estádio ou arena, e esteja disposto a pagar para conhecer detalhes imperceptíveis a quem passa pelo lado de fora. Assim como Salvador, que viu a Fonte Nova acabar após a morte de inocentes torcedores, Santiago também está perdendo a grande oportunidade de conquistar os turistas fanáticos.

***

Escrevi este texto em 05/02/2008, ainda instalado no Hotel Paris Londres, em Santiago. Na época, eram duas as minhas maiores frustrações: além daquela visita malfeita, havia o fato de não conhecer o Maracanã – graças a Luninha. Enfim, num momento em que o país discute a construção ou reforma de suas arenas para o Mundial de 2014, convém lembrar que os palcos de grandes decisões mundiais ainda aproveitam desta vocação turística para faturar uma graninha.

Agora, antes que me perguntem, não sei o que é mais absurdo: São Paulo construir um novo elefante branco ou a CBF limar o Morumbi por questões políticas. Deviam transferir o Mundial de 2014 pra Colômbia.

Meus cinco jogos de abertura da Copa

Por Marmota | 11/06/2010, 10h32

Lembrar das finais das Copas, especialmente aquelas que marcaram nossas vidas, é moleza. Tirar da memória aquele lance espetacular que definiu a classificação de uma equipe também é uma baba. Mas ninguém dá a menor pelota pro primeiro jogo da Copa. Por uma razão simples: começo de Mundial não quer dizer muita coisa. Fica aquele climinha de “começou”, mas não se sabe bem aonde a coisa vai parar. E independente de quem vença, tudo pode mudar nos jogos seguintes.

Ainda assim, tenho comigo as minhas memórias dos cinco últimos primeiros jogos (últimos primeiros?). Não posso falar sobre 78 (eu tinha um ano de idade), nem 82 e 86 (onde só lembro dos jogos da seleção brasileira). Tudo que sei é que a partir da Copa de 1974, a primeira com a Taça Fifa, o campeão do torneio anterior, classificado automaticamente, era o debutante. O Brasil inaugurou a regra diante da Iugoslávia. Depois tivemos Alemanha x Polônia, Argentina x Bélgica e Itália x Bulgária. Em 2006, como o então campeão (nóis) não estava garantido, voltamos aos tempos de Jules Rimet, com o anfitrião abrindo a festa.

Aliás, prepare-se: vai ser assim em 2014, com Brasil e alguém. Seja no Morumbi ou onde a Fifa quiser.

1990: Como escreve Oman-Biyik? – Naquela sexta-feira, 8 de junho, deixei a sala de aula da minha sétima serie voando. Estava entusiasmado com aquela Copa como nunca. Tinha comprado a edição especial do Pelezinho e um manual Disney com a palavra GOL em letras garrafais. Preparei até uma fita VAT de 90 minutos para gravar trechos da cerimônia de abertura pela Rádio Globo (se duvidar, essa encrenca está perdida em algum canto da casa).

A expectativa foi plenamente atingida. Achei muito lindo aquele monte de bandeiras, flores e bexigas coloridas dentro de um estádio muito bacana, com aquela armação vermelha sustentando a cobertura. Logo depois da fanfarra, a Argentina de Maradona, Burruchaga (adoro esse nome!), Pumpido (que se quebrou no jogo seguinte, consagrando Goycoechea) e Caniggia entrou em campo. O adversário no San Siro, em Milão, era a desconhecida (ao menos para um moleque de 13 anos) seleção de Camarões.

Eu realmente torci contra a Argentina, como sempre. Mas não imaginava que os camarões pudessem fazer algum estrago. E fizeram! Oman Biyik (ou Oman tem hífen?). Não importa. O cara fez de cabeça o gol que empacotou os hermanos, colocando os simpáticos leões indomáveis no mapa da bola. Pena que eles perderam pra Inglaterra nas quartas. A derrota também não serviu pra segurar a Argentina, que terminou vice-campeã daquele torneio estúpido.

1994: El Veloz Diablo – Outra vez era sexta-feira (17 de junho), outra vez em casa. Desiludido com o Mundial anterior, desta vez me contentei com o guia mequetrefe da Veja, que veio com um adesivo holográfico da taça muito batuta. Lembro do editorial daquele numero: se todos os prognósticos estiverem corretos, Brasil e Alemanha farão a final. Creio que já disse antes, mas enfim, nunca acreditei muito em prognósticos.

De qualquer forma, a geração campeã do mundo em 90 estava de volta, e devo confessar que torcia por eles naquele ano (ok, até conhecer a Bulgária). Tudo bem, aquele uniforme branco com detalhes psicodélicos em preto, amarelo e vermelho, que ia do peito até a gola sob a forma de um lenço multicor, era muito feio. Mas preferia uma vitória deles em vez dos antipáticos bolivianos.

E dessa vez os campeões venceram. Driblaram o calor da tarde em Chicago (mais uma razão pra desilusão: desde quando Chicago é lugar de se jogar bola?) e fizeram 1 a 0, gol do Klinsmann. E a Bolívia, do eterno goleiro Trucco (seis, ladrão!) e do impagável meia Sandy, viu seu grande astro, Marco “El Diablo” Etcheverry, ser expulso cinco minutos depois de entrar em campo, no segundo tempo. Hahahahahahaha!

1998: Gol do César Sampaio? – Não, não era uma sexta-feira! Mas sim uma quarta, dia 10 de junho! E o primeiro jogo da Copa era do Brasil, contra a Escócia, ao meio-dia e meia, em pleno expediente do IPT! Naquela época eu já dividia o posto de técnico do laboratório de metrologia elétrica com o estágio de jornalismo na Paulista 900. Naquele dia, ficaria mais tempo sem trabalhar cedo, e chegaria atrasado à tarde…

Um dos engenheiros conseguiu uma televisão meia-boca e colocou numa das bancadas de uma das salas do prédio, que serviu como auditório para todos os funcionários da divisão de eletricidade. Muita gente perdeu o primeiro gol daquela Copa no Saint Denis: foi logo aos cinco minutos, com César Sampaio.

Ninguém perdeu muita coisa. Aquele time do Zagallo não estava convencendo, especialmente depois do corte do Romário semanas antes (se bem que o mistério mesmo de 98 atende pelo nome de “convulsão”). Mesmo aos tropeços, e apesar do empate escocês ainda no primeiro tempo, a seleção conseguiu a vitória num gol contra – que eternizou a cambalhota de Cafu. Mas sem muitas emoções: a desconfiança era maior.

2002: Sené, sené, sené… – Novamente uma sexta-feira, e essa tinha começado na quinta à noite, 30 de maio. Estava na turma da madrugada da Gazeta, que entrava dez da noite e saía depois do amanhecer. Foi assim durante praticamente todo o Mundial – para a nossa alegria, os jogos das semifinais já aconteceram num horário mais humano, pela manhã. Tempos tão bacanas que até o Guga jogava (e bem) em Roland Garros – e nem faz tanto tempo assim.

Mas enfim. Eu era responsável pelo tempo real (descrição lance a lance), enquanto outro redator fazia a matéria do primeiro jogo da Copa. Que começou assim. “Favoritismo, tradição e peso da camisa. A seleção de Senegal não levou em conta nada isso e bateu a França, campeã do mundo, por 1 a 0. A equipe africana mostrou um futebol solidário, voluntarioso e, em alguns momentos, altamente técnico. A equipe conseguiu impor sua velocidade diante de uma França desfigurada, sentindo a ausência de seu maior craque, o meia Zinedine Zidane”. Com um estiramento, o meia só acompanhou sua equipe no estádio de Seul.

Segue o texto. “Para armar o seu time, o técnico Roger Lemerre escalou três atacantes e apenas um meia, Djorkaeff. Já os africanos armaram uma retranca e deixavam apenas um atacante, o rápido El Hadji Diouf. E foi numa jogada dele pela esquerda que saiu o único gol da partida, aos 30 minutos do primeiro tempo. Ele arrancou e invadiu a área sem marcação. Cruzou para trás e o volante Petit tentou salvar, mas jogou contra o patrimônio. A bola bateu no goleiro Barthez e sobrou para Pape Bouba Diop, sozinho e caído no chão, empurrar para as redes, marcando o primeiro gol do Mundial.

A partir daí, a França melhorou, mas ficou longe da grande exibições da Copa de 98 e da Eurocopa 2000. Tentou, meio que desordenada, chegar ao empate. Mandou bola na trave e exigiu do goleiro Tony Sylva. Mas parecia que não era seu dia. Senegal fez o que muitos diziam ser impossível e já iniciou na frente dentro do grupo A, que tem ainda Dinamarca e Uruguai. E já deu uma amostra que, nesta Copa, só se ganha dentro de campo. Com futebol e raça”.

Fui para casa ouvindo as rádios AM, que resgataram o “deve ser legal ser negão no Senegal” de Chico César e “Sené, sené, sené, sené senégaaaal” da banda Reflexus.

2006: Wanchope e dois pastel – Eu realmente imaginava que a Copa da Alemanha seria muito boa. Mas era suspeito: um ano antes, tive a oportunidade de conhecer boa parte do país-sede, uma viagem que tratou de misturar com uma porcentagem de genes alemães que trago da minha avó materna. Isso fez com que eu, inconscientemente, criasse uma empatia pelo nationalfussballmannschaft, comandado pelo ex-artilheiro Jürgen Klinsmann. Mais do que aquela simpatia que tive em 94.

E o simples fato de já ter visitado o sensacional Allianz Arena me aproximava ainda mais daquela partida em 9 de junho, adivinhem, sexta-feira. O horário era o menos movimentado na redação: uma da tarde. Era quando a turma do plantão matutino deixava as atividades, enquanto a galera da tarde começava a chegar. Ao contrário do que pede os manuais de boa conduta em periódicos esportivos, tratei de aparecer com minha camisa vermelha, uniforme dois dos donos da casa – Klinsmann havia abolido o verde por acreditar na garra embutida naquela cor.

Os caribenhos da Costa Rica seriam os primeiros adversários, e alguns bolões até admitiam a classificação deles diante dos claudicantes poloneses e equatorianos – que viriam a surpreender naquele mesmo dia, ao vencer os poloneses. Mas enfim. O brasileiro Alexandre Guimarães contava com a base do Deportivo Saprissa, como era o caso do atacante Gómez Beiçudo e o goleiro que todo locutor adorava lembrar diante de qualquer defesa: Porras. Também esperava-se muito de Wanchope, o craque daquela geração. Que, inclusive, fez os dois gols de seu time, entre eles o de empate por 1 a 1, ainda no primeiro tempo – Philip Lahm abriu a contagem do Mundial, num belo chute.

No fim das contas, a simpática equipe da América Central perdeu todas as partidas. Inclusive aquela, por 4 a 2. Miroslav Klose, em sua segunda Copa, tratou de correr atrás da artilharia ao marcar por duas vezes. Frings, outra das armas alemãs, fechou o placar e abriu caminho para a classificação. Minha camisa vermelha deu sorte – é uma pena que não tenha usado-a contra a Itália, semanas depois.

Agora, com licença: vou registrar minhas boas lembranças de África do Sul x México e já venho.

O Brasil em campo. E eu no busão.

Por Dragão Gordo | 09/06/2010, 16h34

Era a terceira vez que eu acordava e nada tinha mudado.

O cenário era o mesmo de 30 minutos antes. E o de uma hora antes.

Gente pra todo lado. Um congestionamento comparável… Não, superior a qualquer véspera de Natal.

Carros, ônibus, caminhões e até motos; mal se moviam nos poucos centímetros de asfalto que, ilusoriamente, apareciam e sumiam.

Dentro do ônibus, o anseio pré-Copa mal aparecia.

Ninguém aguentava mais aquela atmosfera de urucubaca e sovaco alheio. Tinham me liberado mais cedo do serviço.

“Uhuuu!”

O trouxa aqui esqueceu que mais alguns milhões de pessoas queriam o mesmo: Voltar pra casa e acompanhar a estréia do Brasil.

20 minutos no ponto e o ônibus passou.

“Beleza! – Tenho 2h e 40 minutos, fora o chorinho da TV…”

Háh!

Logo, o coletivo parou. Fila.

Mas uma fila que eu nunca presenciara antes.

O fim do mundo havia chegado e eu não sabia. Só podia.

Anda-pára-anda-pára e pára?

A euforia logo passou.

Foram duas horas e meia, num trajeto que levaria 30 minutos em dias normais.

Pra quem estava ansioso com a primeira Copa “que realmente valia” (1982 e 86 eu não entendia qual era a graça. E a de 90, bom, a gente prefere esquecer né…) , aquele começo não era lá grandes coisas.

Num cruzamento próximo, um cidadão vendia bandeirolas e cornetas verde-amarelas.

Assoprava aquele cone de plástico com um vigor incomum. E aumentava minha frustação que, àquela altura, já tendia ao ódio.

Tive um pensamento muito violento sobre o cidadão e a corneta. Mas isso, pode ficar para um tópico sobre John Stagliano.

Alguém, num clamor que traduzia nosso desespero, pediu:

“Ô motorista! Abre aqui pá nóis!”

Ok, era uma tradução porca e mal feita.

As portas do ônibus foram abertas.

Quase caí, na pressa de me livrar daquele ar quente.

Resignado, comecei a caminhar rapidamente, com outras centenas de doent… Torcedores.

Não fosse o raio da Copa, teria me lembrado de galhofar sobre as pessoas que ficaram presas no congestionamento enquanto eu avançava, no “passo do elefantinho”.

Algum tempo depois, avistei minha rua.

Entrei nela e reparei que não havia viva alma.

” Oh-oh…” – apertei o passo e mal cumprimentei o porteiro, quando entrei no prédio.

Não que isso fosse importante, porque a criatura estava grudada numa pequena televisão.

Desembestado, subi as escadas (claro, porque não tínhamos elevador). Meu coração palpitava. E o suor não pingava, cachoeirava.

Imaginei se teria algum treco no meio do caminho e engrossaria as estatísticas de pessoas que morrem por causa do esporte.

Toquei a campainha de casa como se estivesse com diarréia. Minha mãe abriu a porta, indignada.

“Precisa disso tudo?”

Desabei no sofá da sala.

Olhei para a TV e reconheci a camisa Canarinho. 0 a 0 no placar.

Um alivio, misturado à refrescância da brisa que batia em meu rosto molhado, foi suficiente para que eu me lembrasse que precisava tirar a àgua do joelho e lavar o rosto.

Afinal, já tinha perdido boa parte do primeiro tempo mesmo. O que seriam mais alguns segundos?

Lavava as mãos quando os berros ecoaram por todo o prédio. Toda a cidade.

“Ah não!”

Corri para a sala.

O Brasil tinha aberto o placar contra a Rússia.

E eu não vi o gol.

O ano era 1994.

Pode ter terminado com lágrimas de alegria.

Mas começou com gotas de suor bufante. ^_^

Holanda campeã mundial (não oficialmente)

Por Marmota | 29/08/2009, 02h49

Há quem lamente muito o fato daquele esquadrão comandado por Rinus Michels, a popular “Laranja Mecânica”, de não ter conquistado nenhum título mundial quando teve a chance, tanto em 1974 quanto em 1978 – sem o treinador e o líder Cruijff, que moldaram seu futebol total, mas ainda com talento que parou nas armações que encaminharam a Argentina para seu primeiro título. Ainda assim, é uma seleção simpática: só não torci por eles em Copas nos dois confrontos com o Brasil (1994 e 1998) e naquela partida épica diante dos portugueses em 2006.

Agora, pelo menos uma entidade considera os holandeses campeões mundiais – e não estamos falando daqueles brincalhões do IFFHS.

Foi a partir do Ubiratan Leal que conheci o “Unofficial Football World Championship”. Basicamente, é como em uma disputa de título aos moldes dos cinturões de boxe: quem vencer a partida, é o campeão. As estatísticas remontam às duas seleções mais antigas do planeta. Inglaterra e Escócia alternaram a posse da taça a partir de 1872, 58 anos antes de Jules Rimet criar a Copa do Mundo.

A brincadeira foi criada pelo jornalista britânico Paul Brown e inspirada em fãs escoceses, que celebram o fato de seu país ser a maior seleção de futebol de todos os tempos. Isso segundo a UFWC, lógico. Afinal, contando o primeiro confronto internacional de seleções, praticamente apenas ingleses e escoceses se enfrentavam entre 1872 e 1930 – nesse período, País de Gales conquistou seus “títulos mundiais” também.

Esse divertido sistema, que conta qualquer partida oficial da Fifa como potencial decisão, gerou campeões mundiais não-oficiais bastante inusitados. Venezuela, Israel, Coréia do Sul, Antilhas Holandesas, Austrália e Zimbábue, por exemplo, já conquistaram o título. Mais: no período entre 1939 e 1950, quando a Copa foi interrompida pela II Guerra Mundial, o tíitulo continuou em disputa – inclusive com alemães e italianos vencedores.

A seleção brasileira, a “melhor do mundo” segundo a Fifa, é apenas a quinta melhor na UFWC, por ter conquistado o “cinturão” por apenas 29 partidas – foram sete períodos. Uma destas oportunidades coincidiu com uma final de Copa do Mundo: Brasil 5 x 2 Suécia, em 1958. A última conquista brasileira também coincidiu com um Mundial: em 1998, quando derrotamos a Holanda nas semifinais, tomamos o título que acabara de ser tirado dos argentinos, nas quartas-de-final. A faixa durou apenas uma partida, já que os franceses fizeram questão de “unificar” os títulos…

Mas enfim. Os brasileiros estão atrás de escoceses, ingleses, argentinos, russos e holandeses – que, diga-se, são os atuais detentores do título. Além daquela semifinal de 1998, o Brasil teve outro duelo não-oficial pelo título: também numa semifinal, exatamente diante da “Laranja Mecânica” em 1974. Aquele jogo onde, dizem, Zagallo desdenhou da capacidade holandesa, então campeões não-oficiais, e levou 2 a 0. Outra coincidência: houve unificação dos títulos tanto a final de 1974, diante da Alemanha (a “Argentina” deles) quanto a de 1978 contra a nossa rival, já que em ambas a Holanda entrou campeã e saiu frustrada…

É óbvio que, nesse sistema, a única chance do Brasil reconquistar o título é num eventual encontro casual com o campeão não-oficial, seja em amistosos ou em competições oficiais. Por outro lado, prestem atenção no próximo sábado. Além de Brasil e Argentina, teremos outra partida importantíssima: Holanda e Japão, valendo o título da UFWC.

15 anos do Tetra. E daí?

Por Marcos Donizetti | 17/07/2009, 15h26

Falcão na Copa da Espanha 1982

Falcão na Copa da Espanha, 1982

Não há melhor dia para minha estréia aqui no Blog da Copa do que o aniversário da conquista do Tetra, pela seleção de Parreira, nos EUA. Hoje são 15 anos do jogo final contra a Itália, e eu poderia até escrever uma homenagem aos heróis Dunga e Romário, mas é óbvio que não vou. Prefiro aproveitar o momento para dar minha opinião sobre o polêmico embate 1994 x 1982, já que é uma comparação feita desde aquela época, tanto pela imprensa quanto por muitos torcedores, sem falar no próprio time.

A melhor maneira de explicar minha posição a respeito é usar minha metáfora preferida: a que envolve mulheres e o jogo da conquista. Vamos supor que a Copa seja uma bela mulher chamada Julia. Sei que o exercício seria mais fácil se estivéssemos falando da Taça Jules Rimet, que Deus a tenha, mas imagine uma mulher de corpo esguio, sinuoso e insinuante, com aquele olhar indiferente de quem sabe que é desejada por todos. Agora, pense que os escretes canarinhos das Copas da Espanha e dos EUA são pretendentes batalhando por ela.

O primeiro, vamos chamar de Marcos, é um jovem impulsivo, intenso, daquele tipo de homem para o qual uma paixão pode tornar-se uma verdadeira obsessão. Ele sabe o que quer e parte para o ataque, sem medo e sem medir riscos ou conseqüências. Marcos ama Julia sinceramente, e a deseja mais ainda. Trata-se de um batalhador, de alguém que confia no que pode oferecer a esta mulher e que deixa de lado os conselhos amorosos do Jô Soares porque acredita na própria ginga, na força do que sente. Marcos é sedutor e faz de tudo para deixar Julia balançada. É imprevisível, surpreende a cada momento e permite a ela antever os indizíveis prazeres que ela terá se deixar-se seduzir por ele. Os encontros deste casal são inesquecíveis, ainda que possam durar pouco.

O outro pretendente é o Paulinho, o típico engomadinho classe média. Ele cursa Engenharia, Administração ou Direito (impossível saber com certeza) porque o pai dele quis. O penteado está sempre impecável, assim como suas camisas e sapatos bem lustrados, sem esquecer da blusa sobre os ombros. Sempre que pode ele vai passar uns dias em Orlando, e volta dizendo aos amigos que não há lugar como a Florida. Adepto do “você sabe com quem está falando?” porque tem um tio que é senador da república, o approach dele para cima da Julia é um tanto diferente: ele chega devagar, não vai com muita sede ao pote porque diz ter medo de assustar a moça, mas no fundo tem medo é de levar um fora, algo que seria um golpe fatal em seu narcisismo. Na verdade, ele tenta conquistá-la mais para provar aos outros que pode fazê-lo do que por qualquer sentimento sincero em relação a ela.

Marcos é o Brasil do futebol na areia aos domingos e da roda de samba, da paquera na praia. Paulinho é o Brasil que viaja todo ano para a Disney e que faz a festa no free shop. Infelizmente, é comum que os argumentos do segundo conquistem as Julias da vida. É possível que o rapaz que oferece segurança e estabilidade com seu currículo de bom partido e seu jeito “fofo” tenha realmente seus atrativos. Quando isso acontece, Paulinho abraça Julia triunfante, e lança sobre Marcos um olhar desafiador, sem esconder seu ressentimento e um tanto de raiva. Afinal, ninguém acreditava na sua capacidade de seduzir a gata, e mesmo assim ele venceu! “Agora vocês vão ter que me engulir”, ele pensa, orgulhoso de seu pragmatismo.

Gosto de pensar nos momentos em que Julia espera o Paulinho na cama, enquanto ele está dobrando cuidadosamente sua cueca e fazendo uma bolinha com suas meias. Suspirando, ela sempre imagina o que poderia ter sido a sua relação com Marcos. O frio na barriga e o aperto no peito fazem com que ela se sinta viva, mesmo que por alguns segundos.

Voltando ao futebol, talvez minha maneira de encarar o esporte (e os relacionamentos também) seja meio démodé. O estilo Paulinho-Parreira parece ornar bem com esse nosso mundinho pragmático, afinal. Mas fico pensando que, as vezes, a força da vida e a graça dessa coisa toda estão naquilo que poderia ter sido, e no quanto nós batalhamos, nos entregamos e sonhamos com a grande conquista. Dia 05 de julho foi aniversário da Tragédia de Sarriá, o fim do caso entre Marcos e Julia, e lembrar desta data me emociona muito mais, 27 anos depois, do que pensar no aniversário da conquista protocolar do Tetra.

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