Blog da Copa

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Espaço para os autores do Dialetica.org e seus convidados palpitarem sobre a maior festa do futebol mundial!

93 dias...

Contagem regressiva para a Copa 2010!

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Holanda campeã mundial (não oficialmente)

Marmota

 

Há quem lamente muito o fato daquele esquadrão comandado por Rinus Michels, a popular “Laranja Mecânica”, de não ter conquistado nenhum título mundial quando teve a chance, tanto em 1974 quanto em 1978 – sem o treinador e o líder Cruijff, que moldaram seu futebol total, mas ainda com talento que parou nas armações que encaminharam a Argentina para seu primeiro título. Ainda assim, é uma seleção simpática: só não torci por eles em Copas nos dois confrontos com o Brasil (1994 e 1998) e naquela partida épica diante dos portugueses em 2006.

Agora, pelo menos uma entidade considera os holandeses campeões mundiais – e não estamos falando daqueles brincalhões do IFFHS.

Foi a partir do Ubiratan Leal que conheci o “Unofficial Football World Championship”. Basicamente, é como em uma disputa de título aos moldes dos cinturões de boxe: quem vencer a partida, é o campeão. As estatísticas remontam às duas seleções mais antigas do planeta. Inglaterra e Escócia alternaram a posse da taça a partir de 1872, 58 anos antes de Jules Rimet criar a Copa do Mundo.

A brincadeira foi criada pelo jornalista britânico Paul Brown e inspirada em fãs escoceses, que celebram o fato de seu país ser a maior seleção de futebol de todos os tempos. Isso segundo a UFWC, lógico. Afinal, contando o primeiro confronto internacional de seleções, praticamente apenas ingleses e escoceses se enfrentavam entre 1872 e 1930 – nesse período, País de Gales conquistou seus “títulos mundiais” também.

Esse divertido sistema, que conta qualquer partida oficial da Fifa como potencial decisão, gerou campeões mundiais não-oficiais bastante inusitados. Venezuela, Israel, Coréia do Sul, Antilhas Holandesas, Austrália e Zimbábue, por exemplo, já conquistaram o título. Mais: no período entre 1939 e 1950, quando a Copa foi interrompida pela II Guerra Mundial, o tíitulo continuou em disputa – inclusive com alemães e italianos vencedores.

A seleção brasileira, a “melhor do mundo” segundo a Fifa, é apenas a quinta melhor na UFWC, por ter conquistado o “cinturão” por apenas 29 partidas – foram sete períodos. Uma destas oportunidades coincidiu com uma final de Copa do Mundo: Brasil 5 x 2 Suécia, em 1958. A última conquista brasileira também coincidiu com um Mundial: em 1998, quando derrotamos a Holanda nas semifinais, tomamos o título que acabara de ser tirado dos argentinos, nas quartas-de-final. A faixa durou apenas uma partida, já que os franceses fizeram questão de “unificar” os títulos…

Mas enfim. Os brasileiros estão atrás de escoceses, ingleses, argentinos, russos e holandeses – que, diga-se, são os atuais detentores do título. Além daquela semifinal de 1998, o Brasil teve outro duelo não-oficial pelo título: também numa semifinal, exatamente diante da “Laranja Mecânica” em 1974. Aquele jogo onde, dizem, Zagallo desdenhou da capacidade holandesa, então campeões não-oficiais, e levou 2 a 0. Outra coincidência: houve unificação dos títulos tanto a final de 1974, diante da Alemanha (a “Argentina” deles) quanto a de 1978 contra a nossa rival, já que em ambas a Holanda entrou campeã e saiu frustrada…

É óbvio que, nesse sistema, a única chance do Brasil reconquistar o título é num eventual encontro casual com o campeão não-oficial, seja em amistosos ou em competições oficiais. Por outro lado, prestem atenção no próximo sábado. Além de Brasil e Argentina, teremos outra partida importantíssima: Holanda e Japão, valendo o título da UFWC.

15 anos do Tetra. E daí?

Doni

 

Falcão na Copa da Espanha 1982

Falcão na Copa da Espanha, 1982

Não há melhor dia para minha estréia aqui no Blog da Copa do que o aniversário da conquista do Tetra, pela seleção de Parreira, nos EUA. Hoje são 15 anos do jogo final contra a Itália, e eu poderia até escrever uma homenagem aos heróis Dunga e Romário, mas é óbvio que não vou. Prefiro aproveitar o momento para dar minha opinião sobre o polêmico embate 1994 x 1982, já que é uma comparação feita desde aquela época, tanto pela imprensa quanto por muitos torcedores, sem falar no próprio time.

A melhor maneira de explicar minha posição a respeito é usar minha metáfora preferida: a que envolve mulheres e o jogo da conquista. Vamos supor que a Copa seja uma bela mulher chamada Julia. Sei que o exercício seria mais fácil se estivéssemos falando da Taça Jules Rimet, que Deus a tenha, mas imagine uma mulher de corpo esguio, sinuoso e insinuante, com aquele olhar indiferente de quem sabe que é desejada por todos. Agora, pense que os escretes canarinhos das Copas da Espanha e dos EUA são pretendentes batalhando por ela.

O primeiro, vamos chamar de Marcos, é um jovem impulsivo, intenso, daquele tipo de homem para o qual uma paixão pode tornar-se uma verdadeira obsessão. Ele sabe o que quer e parte para o ataque, sem medo e sem medir riscos ou conseqüências. Marcos ama Julia sinceramente, e a deseja mais ainda. Trata-se de um batalhador, de alguém que confia no que pode oferecer a esta mulher e que deixa de lado os conselhos amorosos do Jô Soares porque acredita na própria ginga, na força do que sente. Marcos é sedutor e faz de tudo para deixar Julia balançada. É imprevisível, surpreende a cada momento e permite a ela antever os indizíveis prazeres que ela terá se deixar-se seduzir por ele. Os encontros deste casal são inesquecíveis, ainda que possam durar pouco.

O outro pretendente é o Paulinho, o típico engomadinho classe média. Ele cursa Engenharia, Administração ou Direito (impossível saber com certeza) porque o pai dele quis. O penteado está sempre impecável, assim como suas camisas e sapatos bem lustrados, sem esquecer da blusa sobre os ombros. Sempre que pode ele vai passar uns dias em Orlando, e volta dizendo aos amigos que não há lugar como a Florida. Adepto do “você sabe com quem está falando?” porque tem um tio que é senador da república, o approach dele para cima da Julia é um tanto diferente: ele chega devagar, não vai com muita sede ao pote porque diz ter medo de assustar a moça, mas no fundo tem medo é de levar um fora, algo que seria um golpe fatal em seu narcisismo. Na verdade, ele tenta conquistá-la mais para provar aos outros que pode fazê-lo do que por qualquer sentimento sincero em relação a ela.

Marcos é o Brasil do futebol na areia aos domingos e da roda de samba, da paquera na praia. Paulinho é o Brasil que viaja todo ano para a Disney e que faz a festa no free shop. Infelizmente, é comum que os argumentos do segundo conquistem as Julias da vida. É possível que o rapaz que oferece segurança e estabilidade com seu currículo de bom partido e seu jeito “fofo” tenha realmente seus atrativos. Quando isso acontece, Paulinho abraça Julia triunfante, e lança sobre Marcos um olhar desafiador, sem esconder seu ressentimento e um tanto de raiva. Afinal, ninguém acreditava na sua capacidade de seduzir a gata, e mesmo assim ele venceu! “Agora vocês vão ter que me engulir”, ele pensa, orgulhoso de seu pragmatismo.

Gosto de pensar nos momentos em que Julia espera o Paulinho na cama, enquanto ele está dobrando cuidadosamente sua cueca e fazendo uma bolinha com suas meias. Suspirando, ela sempre imagina o que poderia ter sido a sua relação com Marcos. O frio na barriga e o aperto no peito fazem com que ela se sinta viva, mesmo que por alguns segundos.

Voltando ao futebol, talvez minha maneira de encarar o esporte (e os relacionamentos também) seja meio démodé. O estilo Paulinho-Parreira parece ornar bem com esse nosso mundinho pragmático, afinal. Mas fico pensando que, as vezes, a força da vida e a graça dessa coisa toda estão naquilo que poderia ter sido, e no quanto nós batalhamos, nos entregamos e sonhamos com a grande conquista. Dia 05 de julho foi aniversário da Tragédia de Sarriá, o fim do caso entre Marcos e Julia, e lembrar desta data me emociona muito mais, 27 anos depois, do que pensar no aniversário da conquista protocolar do Tetra.

Todos os Corações do Mundo

Marmota

 

Alguns meses após da Copa da Alemanha, encomendei uma cópia do filme “Deutschland: ein Sommermärchen” (Alemanha, um conto de verão), dirigido por Sönke Wortmann – o mesmo de “O Milagre de Berna”. O longa narra o desempenho da “Nationalmannschaft” em seu próprio país, numa visão nacionalista alegre e oposta ao seu passado nazista – ao final, mesmo com o terceiro lugar da equipe de Klinsmann, os alemães fizeram festa diante do Portão de Brandemburgo, exatamente onde passava o Muro de Berlim anos antes.

Lembrei dele por considerá-lo o melhor filme do Mundial de 2006, mesmo não sendo o “oficial da Fifa”. Nesse quesito, talvez tenhamos que esperar a Copa de 2014, quando algum diretor competente fará com que jamais nos esqueçamos de uma história contada em duas horas. A mesma sensação que tenho quando lembro de Todos os Corações do Mundo (“Two Billion Hearts”), produção da Sports Target Media dirigida pelo brasileiro Murilo Salles. Uma feliz lembrança neste baile de debutantes do Tetra – conquistado em 17 de julho de 1994, exatos quinze anos.

O filme começa contextualizando o palco da Copa: os Estados Unidos – aquele país que não tá nem aí pro “soccer”. Entrevistas bem humoradas com populares dão a entender que o país não está nem um pouco interessado na competição. Surge a música tema composta pelo maestro Lalo Schifrin apresenta a preparação para a festa de abertura, em câmera rápida.

Na sequência do longa metragem, histórias envolvendo torcedores e favoritas ao título, entre as 24 nações participantes, se alternam com momentos inesquecíveis dos jogos mais importantes. Dezoito câmeras de 35mm, quatro de 16mm, captação de som dolby surround: recursos técnicos que transportam o espectador para a arquibancada. Ao fundo, o texto adaptado por Armando Nogueira é narrado pelo ator Antônio Grassi.

Resumidamente: a Argentina, animada com o tango de Batistuta, se abala com o doping de Maradona e cai diante da Romênia de George Hagi – que, por sua vez, perde uma batalha épica para os suecos (do goleiro Ravelli) com direito a empate cedido na prorrogação antes dos pênaltis. Os animados holandeses e sua torcida laranja se entusiasma, até o gol milagroso de Branco nas quartas-de-final. Os alemães, firmes como um tanque de guerra, começam se complicando com o calor (também pudera, quem aguenta partidas ao meio-dia…) e tropeçam na simpática zebra búlgara. Espanhóis em Madrid comemoram a melhor equipe em anos, eliminadas como sempre em um confronto inesquecível (e injusto) com a Itália.

Ah sim, tem a Colômbia, o torcedor e seu conversível pintado (“Animo muchachos, que nada se ha perdido! Con un esfuerzo mas ganaremos el partido!”) e a célebre entrevista coletiva de Francisco Maturana (“Un equipo que llegó con el intuito de ser protagonista… y en busca de su protagonismo tomamos un gol, después otro…”). Hahaha!

Mas enfim. Antes da decisão no Rose Bowl, temos um rápido histórico de seus dois personagens principais. Em Caldogno, o primeiro técnico de Roberto Baggio conta que o moleque fez 50 gols num torneio da escola, e todos perguntavam se era brasileiro. Na Vila da Penha, no Rio de Janeiro, Seu Edevair lembra do filho Romário, louco por futivôlei e por gols. Finalmente, o nervosismo de ambos no túnel que leva ao gramado. Tensão que prossegue com a trilha clássica forte a partir do apito inicial. Chutes a gol, torcedores nervosos, relógio correndo… Cobranças de pênalti, chute de Baggio pra fora, festa, emoção, aquela coisa toda.

Incrível como este documentário delicioso, que termina com a conclusão “não se trata de jogo, mas sim de pessoas”, até hoje não foi lançado em DVD. O que se vê nos mercados livres da web são cópias do VHS, lançado pouco antes da Copa de 98 pela Europa Filmes. Uma pena: mesmo quem não é louco por futebol, mas adora um bom filme, adoraria rever. Bem que podiam bolar uma parceria entre Placar, Lance, Trivela ou qualquer publicação e distribuir cópias, a preços camaradas, para os aficcionados.

Copa 82 – aquela!…

Luciana

 

Minha mãe tem um baú de madeira lindo, lindo, onde guardou o enxoval de casamento dela. Esse baú está conosco até hoje e é repleto de recordações.

Semana passada o abrimos para dar uma geral e encontramos entre outras coisas, essa camisetinha:

Minha mãe pegou a camisetinha com cuidado e disse:

- Olha, a blusinha da tua primeira copa… A de 82… Aquela que aqueles filhos da p&#@ perderam!

- Hahahahahahahahah!

- Mas guarda… Foi tua primeira copa.

- Tá, mãe.

Lavamos a roupinha – própria pra um bebê de dois, três anos - e guardamos. Quem sabe lá pra 2014, 2018, alguém se habilita a usá-la outra vez…

Ronaldo teve piripaque e a CBF vendeu a Copa de 98 para a França!

Marmota

 

No último encontro entre Brasil e França em uma Copa do Mundo, em 2006, todos sabem perfeitamente o que houve. Aquele time do Parreira entrou em campo como se fosse um divertido encontro de compadres, sem nenhum compromisso. Como se estivessem treinando em Weggis, na Suíça. Teve ainda a meia do Roberto Carlos e – como se isso fosse irrelevante – uma atuação convincente dos franceses.

A questão é que, diante de uma eliminação num Mundial, a coisa mais difícil para o brasileiro é eliminar dúvidas. Como pode um time ostentar o melhor futebol do mundo e perder? Ora, lógico que um time perde como em qualquer jogo. Explicar uma derrota pode ser simples, como em 2006. Mas e em 1998, naqueles 3 a 0 do Stade de France, em 12 de julho?

Resumidamente, até os 27 do primeiro tempo, o jogo parecia equilibrado. Então Roberto Carlos (aquele da meia) teve a chance de jogar a bola pra lateral. Preferiu a linha de escanteio. Bola no alto, cabeça de Zidane, gol. No último minuto antes do intervalo, novo escanteio para os donos da casa. O que houve? Bola no alto, cabeça de Zidane, gol.

Praticamente ninguém viu o segundo tempo. Quem ouviu alguma narração acompanhou relatos de um time apático, de cabeça baixa. Atacou boa parte do tempo, mas a reação não deu em nada. Os poucos crentes se resignaram à medida em que o tempo passava. Finalmente, Petit selou a festa em Paris, aos 47 da etapa final.

Enfim, isso foi o que todos viram. Quer dizer, vimos ainda a mídia fazer exatamente aquilo que deveria antes da final: lembrar que o Brasil vinha crescendo na competição, demonstrando competência desde a vitória contra a Dinamarca e sorte na semifinal diante da Holanda. Se dependesse apenas do discurso televisivo, não tinha como não ganhar da França!

Agora, vamos ao que até hoje, onze anos depois, permanece sem explicação.

Horas antes da partida, as emissoras de TV se surpreenderam com a escalação de Edmundo ao lado de Bebeto. Ronaldo, duas vezes o melhor do mundo, estava no banco. Até uma nova lista vir com o nome do Fenômeno tempos depois, os disparates já estavam lançados. O primeiro deles na boca de Galvão Bueno: “foi uma brincadeira de mau gosto!”. Até Suzana Verner, imagem recorrente das arquibancadas, foi acusada de “dopar” o então marido!

Jogo perdido, time abatido… Em pouco tempo, o enredo de novela estava preparado. Antes do jogo, Ronaldo (ainda Ronaldinho) teve uma crise nervosa, convulsão, piripaque, dor de barriga… Roberto Carlos, seu colega de quarto, se apavorou. Todos ficaram apavorados. Mencionaram ataque epilético! Diziam que estava espumando! Temiam por sua vida!

Essa é só a primeira parte da lenda. A segunda, mais crível, diz respeito ao vestiário. Os jornalistas já tinham a escalação com o Animal quando Ronaldinho chegou da clínica, ao lado do lendário Doutor Lídio Toledo, entre outros. Com exames completíssimos e sem nada anormal, disse estar apto a jogar. Até Ricardo Teixeira, apreensivo com o burburinho provocado por Edmundo na lista, participou daquela preleção muito louca. No Stade de France, uma nota oficial dizia que Ronaldo ainda sentia o tornozelo atingido por um dos De Boer no jogo anterior…

Zico – aquele que havia cortado Romário antes da Copa – era contra a presença de Ronaldo. O jogador, respaldado pelos médicos, disse que “ninguém o tirava do jogo”. Coube a Zagallo a palavra final: arriscou e botou o Fenômeno em campo. Ao que tudo indica, o time todo jogou preocupado. Imaginava-se que o camisa 9 pudesse cair duro no gramado. Quando se chocou com Barthez ainda no primeiro tempo, as pernas de todos tremeram mais.

Enfim, outras versões circularam por aí. A mais divertida até hoje: a CBF vendeu aquela Copa para a Fifa, com anuência da Nike – procurem por Ronald Rhovald por aí e verão que ainda tem gente certa de que este fictício representante da patrocinadora trocaria, por um bom dinheiro, o título de 98 por caminho facilitado em 2002…

Teorias da conspiração que certamente se encaixariam como alguma indicando nova mutreta entre cartolas: se o Brasil garantisse o título de algum europeu em 2006, seria contemplado como sede da Copa em 2014. A farra em Weggis, aquele clima de “já ganhou”… Zidane carrasco outra vez, o melhor em campo, cobrando falta em direção ao Henry. Tudo politicagem.

Deve ter sido consequência do trauma pré-tetra, sei lá. Desde então, “somos o país do futebol”, “os imbatíveis”… Seria mais simples admitir que perdemos, que a França foi melhor. Ah, mas não teria graça sem a perturbação das lacunas da derrota. Viva o mistério.

Afoitos ou apaixonados demais pela Seleção?

Luciana

 

No dia do jogo Brasil x França da Copa de 2006, tínhamos um aniversário para ir. Era de um bebê – neto de uma amiga da minha mãe – que fazia um ano naquela data.

Fiquei totalmente pra baixo com a derrota do Brasil e não tinha ânimo algum para ir pra tal festa, mas minha mãe insistiu muito, disse que seria uma desfeita com a amiga dela, que a criança não tinha culpa da Seleção ter perna de pau e que seria um modo da gente se distrair e esquecer a desclassificação do Brasil.

Enfim.

Chegamos lá, a surpresa: os pais de primeira viagem, ingênuos como duas portas, fizeram o aniversário com o tema… BRASIL E COPA DO MUNDO!

Tudo no aniversário era verde e amarelo: balões, bolo, pratinhos, copinhos, garfinhos, gardanapos, toalhas de mesa… Até a roupa do palhaço!

Nas paredes, imagens dos jogadores desenhadas e coloridas em pedaços de isopor.

O horror!

Era como se o aniversário inteiro fosse uma grande alegoria da derrota. A expressão nos rostos dos pais era de constrangimento puro… De “ah, se arrependimento matasse”.

Acho que a única pessoa relax ali era o aniversariante que não estava entendendo absolutamente nada do alto do seu um ano de idade – talvez as crianças que ainda não ligavam muito pra futebol também e, com certeza, minha mãe também não dava a mínima, afinal, desistiu da Seleção desde 82…

O fato é que todo ano, mais ou menos nessa época de junho/julho, eu me lembro daquele aniversário. Um dia o menino vai ver as fotos, vai saber do tal “tema” e vai perguntar sobre o placar daquele dia. E a cara no chão dos pais afoitos vai vir à tona outra vez.

Afoitos ou apaixonados demais pela Seleção?

Muito mais torcedores

Luciana

 

“Voa, canarinho, voa.”

Eu não sei de você, da sua casa, mas aqui na minha, desde sempre, desde a primeira Copa em que eu estava viva (82, aquela!), temos o hábito de enfeitar tudo com bandeirinhas e faixas e flâmulas do Brasil.

Antes eram meus pais que faziam isso, na casa que morávamos em Manaus, enchendo toda a área da garagem e do quintal de verde e amarelo.

Depois, viemos morar no apartamento em que estamos até hoje, e meu irmão e eu enfeitamos a varandinha de casa, só pra não deixar morrer a tradição.

Muitas ruas, vilas, conjuntos organizam até concursos para escolher a casa mais enfeitada para a copa e aí vale tudo: muros e asfalto com desenhos alusivos à Copa e/ou à Seleção; balões; bandeirinhas; cartazes; faixas; etc.

Quando o Brasil ganhou em 1994 e em 2002, deixamos as bandeirinhas até quase chegar o Natal. Minha mãe dizia que nem ia ter pisca-pisca naqueles anos, só bandeirinhas!

Já em 1998 e 2006, assim que fomos derrotados, saímos muito loucos da vida arrancando as bandeirinhas, como se adiantasse alguma coisa – minha mãe fez o mesmo em 1982 e de lá pra cá não acredita mais em seleção nenhuma.

Paixão isso?

Vai ver que é porque somos muito mais torcedores do que analistas.