O Brasil em campo. E eu no busão.
Por Dragão Gordo | 09/06/2010, 16h34
Era a terceira vez que eu acordava e nada tinha mudado.
O cenário era o mesmo de 30 minutos antes. E o de uma hora antes.
Gente pra todo lado. Um congestionamento comparável… Não, superior a qualquer véspera de Natal.
Carros, ônibus, caminhões e até motos; mal se moviam nos poucos centímetros de asfalto que, ilusoriamente, apareciam e sumiam.
Dentro do ônibus, o anseio pré-Copa mal aparecia.
Ninguém aguentava mais aquela atmosfera de urucubaca e sovaco alheio. Tinham me liberado mais cedo do serviço.
“Uhuuu!”
O trouxa aqui esqueceu que mais alguns milhões de pessoas queriam o mesmo: Voltar pra casa e acompanhar a estréia do Brasil.
20 minutos no ponto e o ônibus passou.
“Beleza! – Tenho 2h e 40 minutos, fora o chorinho da TV…”
Háh!
Logo, o coletivo parou. Fila.
Mas uma fila que eu nunca presenciara antes.
O fim do mundo havia chegado e eu não sabia. Só podia.
Anda-pára-anda-pára e pára?
A euforia logo passou.
Foram duas horas e meia, num trajeto que levaria 30 minutos em dias normais.
Pra quem estava ansioso com a primeira Copa “que realmente valia” (1982 e 86 eu não entendia qual era a graça. E a de 90, bom, a gente prefere esquecer né…) , aquele começo não era lá grandes coisas.
Num cruzamento próximo, um cidadão vendia bandeirolas e cornetas verde-amarelas.
Assoprava aquele cone de plástico com um vigor incomum. E aumentava minha frustação que, àquela altura, já tendia ao ódio.
Tive um pensamento muito violento sobre o cidadão e a corneta. Mas isso, pode ficar para um tópico sobre John Stagliano.
Alguém, num clamor que traduzia nosso desespero, pediu:
“Ô motorista! Abre aqui pá nóis!”
Ok, era uma tradução porca e mal feita.
As portas do ônibus foram abertas.
Quase caí, na pressa de me livrar daquele ar quente.
Resignado, comecei a caminhar rapidamente, com outras centenas de doent… Torcedores.
Não fosse o raio da Copa, teria me lembrado de galhofar sobre as pessoas que ficaram presas no congestionamento enquanto eu avançava, no “passo do elefantinho”.
Algum tempo depois, avistei minha rua.
Entrei nela e reparei que não havia viva alma.
” Oh-oh…” – apertei o passo e mal cumprimentei o porteiro, quando entrei no prédio.
Não que isso fosse importante, porque a criatura estava grudada numa pequena televisão.
Desembestado, subi as escadas (claro, porque não tínhamos elevador). Meu coração palpitava. E o suor não pingava, cachoeirava.
Imaginei se teria algum treco no meio do caminho e engrossaria as estatísticas de pessoas que morrem por causa do esporte.
Toquei a campainha de casa como se estivesse com diarréia. Minha mãe abriu a porta, indignada.
“Precisa disso tudo?”
Desabei no sofá da sala.
Olhei para a TV e reconheci a camisa Canarinho. 0 a 0 no placar.
Um alivio, misturado à refrescância da brisa que batia em meu rosto molhado, foi suficiente para que eu me lembrasse que precisava tirar a àgua do joelho e lavar o rosto.
Afinal, já tinha perdido boa parte do primeiro tempo mesmo. O que seriam mais alguns segundos?
Lavava as mãos quando os berros ecoaram por todo o prédio. Toda a cidade.
“Ah não!”
Corri para a sala.
O Brasil tinha aberto o placar contra a Rússia.
E eu não vi o gol.
O ano era 1994.
Pode ter terminado com lágrimas de alegria.
Mas começou com gotas de suor bufante. ^_^


:


2008 - 2013 