Orgulho Charrúa, Futebol e Vida
Doni
Eu poderia escrever horas sobre o quanto estou feliz com o histórico desempenho da República Oriental do Uruguai nesta Copa. Poderia falar da erva mate que eu tanto amo, de Eduardo Galeano ou do rádio Spica que o Milton Ribeiro disse que eu poderei comprar barato em Montevidéu.
Poderia falar de Carlos Gardel (acredito na versão de que ele nasceu no Uruguai) ou em El Cuarteto de Nos. Poderia contar do fascínio que sempre tive pela camisa amarela e preta do sensacional Peñarol ou do quanto nomes como Pablo Forlán, Pedro Rocha e Darío Pereyra são parte da mitologia que construiu minha identidade.
Por último, poderia falar dos laços afetivos e familiares que me ligam ao Rio Grande do Sul e às tradições galdérias, e que no fundo o uruguaio é o gaúcho roots, e tudo isso daria uma boa dimensão do que estou sentindo.
Mas escrever sobre a tarde de glória do escrete celeste partindo da minha ligação com o país em que ainda vou morar seria nem tentar dar conta da real dimensão do que aconteceu hoje. A Celeste Olímpica não apenas venceu, mas nos presenteou com uma aula sobre o que é futebol e, sobretudo, sobre o que é a vida.
O grande personagem, o herói desta história, é o atacante Luis Suárez. No último minuto da prorrogação contra Gana, evitou de forma ilegal o gol que daria fim à melhor participação do Uruguai numa Copa do Mundo desde 1970. Num ato reflexo inesperado, defendeu a bola como se fosse Mazurkiewicz ou Rodolfo Rodríguez, tendo como consequência a expulsão e a penalidade máxima a favor de Gana, que decidiria a partida.
Deixou o gramado em meio ao choro desesperado de alguém que acabara de cometer um crime, um sacrifício que seria, ainda assim, inútil. Mas Asamoah Gyan chutou no travessão, a partida foi para as cobranças alternadas e todos sabemos o que aconteceu.
Trapaça! Injustiça! Tenho visto pessoas indignadas, afinal o camisa 9 cometeu uma ilegalidade e seu time acabou favorecido. Todos ingênuos, ainda que eu os entenda. Os esportes em geral são mais do que competição. Constituem uma das ferramentas das quais nos utilizamos para tentar “organizar” simbolicamente nossa realidade. As regras, turnos e todo o enquadramento cartesiano que caracteriza a maior parte das modalidades representam um ambiente em que podemos testar (e superar) nossos limites num espaço controlado, “seguro”. Precisamos deste lugar para acreditarmos, ao menos por um momento, que “o melhor sempre vence” ou que “quem espera sempre alcança” etc. O esporte ordinário representa a utopia de que os esforços podem ser recompensados segundo o merecimento de cada um, e de que podemos controlar, de alguma forma, as probabilidades. Crianças que brincam de inventar jogos e brincadeiras novas estão, no fundo, brincando de ser Deus, e precisam dessa fantasia para enfrentar a insegurança do mundo lá fora.
Mas o futebol subverte tudo isso. O futebol é caos e injustiça. O futebol é o drama humano encenado e repetido à exaustão, muitas vezes amplificado. O futebol é a vida em 90 minutos ou, como vimos hoje, em 15 segundos. O futebol derruba todas as certezas que tentamos construir e, como não poderia deixar de ser, é incompreensível e sedutor, ainda que revoltante.
Suárez viu-se hoje num turbilhão de acontecimentos sobre os quais não tinha nenhum controle e, por obra do acaso, foi do inferno ao céu em questão de minutos, junto de toda uma nação. Ora, não é exatamente isso o que temos todos os dias, fora das quatro linhas? Por mais que tentemos organizar o mundo segundo o que acreditamos ser “justo”, por mais que criemos regras, não basta apenas um dia ruim (ou bom) para mudar todo o nosso destino? O futebol, nos grandes momentos, joga essa verdade em nossa cara. Ele nos mostra o quanto podemos ser pequenos ou grandes, e o quanto isso é assustadoramente aleatório. Não admira que seja tão apaixonante…
Já temos a nossa Copa do Mundo inesquecível, não importam as estatísticas e não importa quem a vencerá.
Torcendo para a Argentina
Doni

A seleção brasileira entrará em campo hoje para a primeira partida pela Copa do Mundo 2010. Eu deveria estar nervoso, roendo as unhas de ansiedade, mas a verdade é que estou tranqüilo. Emoção mesmo, com direito a grito na hora do gol, eu senti quando a Argentina venceu a Nigéria, dias atrás. O fato deixou alguns amigos e conhecidos chocados, então resolvi explicar, não que isso fosse uma obrigação.
De início, preciso refutar o argumento simplório e inocente de quem diz que não torcer para a Seleção Brasileira é não torcer pelo Brasil e não merecer minha condição de brasileiro (como se ter ou não determinada nacionalidade fosse mesmo uma questão de merecimento). Ora, o ufanismo bobo da expressão “a seleção é a pátria” só serve ao discurso publicitário fácil ou ao “ame-o ou deixe-o” do período da ditadura.
O fato é que mais do que torcer pela seleção ou ser “brasileiro com muito orgulho e com muito amor”, o que me move é gostar de futebol. Não este futebol dos “guerreiros pré-fabricados” que precisam vencer a qualquer custo, mas o futebol do sonho e da utopia, o futebol que nada mais é que a representação maior e mais fiel das tragédias humanas. Daí, nada mais natural que torcer pela Argentina nesta Copa.
Dunga é bem intencionado e comprometido sim com o que ele acredita ser a Seleção Brasileira. O problema é que tanto ele quanto seus comandados estão comprometidos com a mais patética mediocridade. Pior, ele representa não só a mediocridade dentro de campo, mas a mediocridade endêmica e maniqueísta que contamina todos os setores da nossa sociedade. O discurso de quem diz “o que importa é vencer, contra tudo e contra todos” é o discurso dos idiotas leitores de auto-ajuda.
Michel Bastos, Daniel Alves, Thiago Silva e Felipe Melo são ofensas ao Brasil que teve Pelé, Garrincha, Zizinho e Didi. Nomes forçadamente compostos, pensados por empresários e assessores de imprensa para agregar valor a um produto que querem logo exportar. Este é o Brasil dos “publieditoriais”, dos carros “semi-novos” e de todos os outros eufemismos tapados e politicamente corretos. É o Brasil do choque de ordem, que tenta esquecer seu passado em nome da modernidade acéfala e da eficiência vazia. É o Brasil de quem vive no interior e tenta esconder o sotaque por ter vergonha de suas origens.
Bastos, Melo e Alves são aspones de uma repartição pública qualquer, e não jogadores de futebol dignos de jogar uma Copa do Mundo. Mais patética ainda é a tentativa de transformá-los em soldados (ou guerreiros de uma marca de cerveja ruim). Dunga adota um discurso militarizado, de ordem imposta, e todos que não estão ao seu lado estão automaticamente contra ele e contra a Seleção. Emílio Garrastazu Médici com certeza está sorrindo neste momento, em algum lugar do inferno.
Ao mesmo tempo, Maradona é o anti-Dunga. Maradona é trágico e instável como a vida deve ser, Maradona é a irreverência, a genialidade e a imprevisibilidade dos grandes. Maradona é um tango de Carlos Gardel e Dunga é uma dupla qualquer de sertanejo universitário. Maradona é Beatles e Dunga é Orlando Morais.
Enquanto Maradona libera os encontros para seus comandados durante a Copa, Dunga diz que nem todos gostam de sexo. Enquanto Dunga faz um jogador pedir desculpas por uma entrevista, Maradona promete sair pelado pelas ruas se a Argentina for campeã.
Maradona foi o principal protagonista da última grande Copa do Mundo da história, e hoje tem Lionel Messi. A Argentina lembra muito o fantástico Santos do primeiro semestre: o ataque é pura técnica e genialidade enquanto a defesa é frágil e capaz de dar arrepios. Mais divertido, impossível! Enquanto isso, Dunga preferiu deixar Ganso e Neymar no Brasil, porque deve achar que Single Ladies não é coisa de guerreiros. Azar dele, e nosso.
Eu abro mão do título em nome de uma Copa do Mundo inesquecível como todas as copas devem ser. Quero uma Copa de sonho como a de 1982 ou de 1986, uma Copa com todo o chato time da Inglaterra driblado antes do gol antológico, uma Copa com la mano de Dios! Que esta seja a Copa do Mundo de Maradona, de Verón e de Lionel Messi!
“A Argentina vai perder e vamos todos rir de você, perdedor”. É possível, e responderei que prefiro fracassar junto dos gênios do que vencer com os medíocres.
15 anos do Tetra. E daí?
Doni

Falcão na Copa da Espanha, 1982
Não há melhor dia para minha estréia aqui no Blog da Copa do que o aniversário da conquista do Tetra, pela seleção de Parreira, nos EUA. Hoje são 15 anos do jogo final contra a Itália, e eu poderia até escrever uma homenagem aos heróis Dunga e Romário, mas é óbvio que não vou. Prefiro aproveitar o momento para dar minha opinião sobre o polêmico embate 1994 x 1982, já que é uma comparação feita desde aquela época, tanto pela imprensa quanto por muitos torcedores, sem falar no próprio time.
A melhor maneira de explicar minha posição a respeito é usar minha metáfora preferida: a que envolve mulheres e o jogo da conquista. Vamos supor que a Copa seja uma bela mulher chamada Julia. Sei que o exercício seria mais fácil se estivéssemos falando da Taça Jules Rimet, que Deus a tenha, mas imagine uma mulher de corpo esguio, sinuoso e insinuante, com aquele olhar indiferente de quem sabe que é desejada por todos. Agora, pense que os escretes canarinhos das Copas da Espanha e dos EUA são pretendentes batalhando por ela.
O primeiro, vamos chamar de Marcos, é um jovem impulsivo, intenso, daquele tipo de homem para o qual uma paixão pode tornar-se uma verdadeira obsessão. Ele sabe o que quer e parte para o ataque, sem medo e sem medir riscos ou conseqüências. Marcos ama Julia sinceramente, e a deseja mais ainda. Trata-se de um batalhador, de alguém que confia no que pode oferecer a esta mulher e que deixa de lado os conselhos amorosos do Jô Soares porque acredita na própria ginga, na força do que sente. Marcos é sedutor e faz de tudo para deixar Julia balançada. É imprevisível, surpreende a cada momento e permite a ela antever os indizíveis prazeres que ela terá se deixar-se seduzir por ele. Os encontros deste casal são inesquecíveis, ainda que possam durar pouco.
O outro pretendente é o Paulinho, o típico engomadinho classe média. Ele cursa Engenharia, Administração ou Direito (impossível saber com certeza) porque o pai dele quis. O penteado está sempre impecável, assim como suas camisas e sapatos bem lustrados, sem esquecer da blusa sobre os ombros. Sempre que pode ele vai passar uns dias em Orlando, e volta dizendo aos amigos que não há lugar como a Florida. Adepto do “você sabe com quem está falando?” porque tem um tio que é senador da república, o approach dele para cima da Julia é um tanto diferente: ele chega devagar, não vai com muita sede ao pote porque diz ter medo de assustar a moça, mas no fundo tem medo é de levar um fora, algo que seria um golpe fatal em seu narcisismo. Na verdade, ele tenta conquistá-la mais para provar aos outros que pode fazê-lo do que por qualquer sentimento sincero em relação a ela.
Marcos é o Brasil do futebol na areia aos domingos e da roda de samba, da paquera na praia. Paulinho é o Brasil que viaja todo ano para a Disney e que faz a festa no free shop. Infelizmente, é comum que os argumentos do segundo conquistem as Julias da vida. É possível que o rapaz que oferece segurança e estabilidade com seu currículo de bom partido e seu jeito “fofo” tenha realmente seus atrativos. Quando isso acontece, Paulinho abraça Julia triunfante, e lança sobre Marcos um olhar desafiador, sem esconder seu ressentimento e um tanto de raiva. Afinal, ninguém acreditava na sua capacidade de seduzir a gata, e mesmo assim ele venceu! “Agora vocês vão ter que me engulir”, ele pensa, orgulhoso de seu pragmatismo.
Gosto de pensar nos momentos em que Julia espera o Paulinho na cama, enquanto ele está dobrando cuidadosamente sua cueca e fazendo uma bolinha com suas meias. Suspirando, ela sempre imagina o que poderia ter sido a sua relação com Marcos. O frio na barriga e o aperto no peito fazem com que ela se sinta viva, mesmo que por alguns segundos.
Voltando ao futebol, talvez minha maneira de encarar o esporte (e os relacionamentos também) seja meio démodé. O estilo Paulinho-Parreira parece ornar bem com esse nosso mundinho pragmático, afinal. Mas fico pensando que, as vezes, a força da vida e a graça dessa coisa toda estão naquilo que poderia ter sido, e no quanto nós batalhamos, nos entregamos e sonhamos com a grande conquista. Dia 05 de julho foi aniversário da Tragédia de Sarriá, o fim do caso entre Marcos e Julia, e lembrar desta data me emociona muito mais, 27 anos depois, do que pensar no aniversário da conquista protocolar do Tetra.

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