Orgulho Charrúa, Futebol e Vida
Por Marcos Donizetti | 03/07/2010, 00h07
Eu poderia escrever horas sobre o quanto estou feliz com o histórico desempenho da República Oriental do Uruguai nesta Copa. Poderia falar da erva mate que eu tanto amo, de Eduardo Galeano ou do rádio Spica que o Milton Ribeiro disse que eu poderei comprar barato em Montevidéu.
Poderia falar de Carlos Gardel (acredito na versão de que ele nasceu no Uruguai) ou em El Cuarteto de Nos. Poderia contar do fascínio que sempre tive pela camisa amarela e preta do sensacional Peñarol ou do quanto nomes como Pablo Forlán, Pedro Rocha e Darío Pereyra são parte da mitologia que construiu minha identidade.
Por último, poderia falar dos laços afetivos e familiares que me ligam ao Rio Grande do Sul e às tradições galdérias, e que no fundo o uruguaio é o gaúcho roots, e tudo isso daria uma boa dimensão do que estou sentindo.
Mas escrever sobre a tarde de glória do escrete celeste partindo da minha ligação com o país em que ainda vou morar seria nem tentar dar conta da real dimensão do que aconteceu hoje. A Celeste Olímpica não apenas venceu, mas nos presenteou com uma aula sobre o que é futebol e, sobretudo, sobre o que é a vida.
O grande personagem, o herói desta história, é o atacante Luis Suárez. No último minuto da prorrogação contra Gana, evitou de forma ilegal o gol que daria fim à melhor participação do Uruguai numa Copa do Mundo desde 1970. Num ato reflexo inesperado, defendeu a bola como se fosse Mazurkiewicz ou Rodolfo Rodríguez, tendo como consequência a expulsão e a penalidade máxima a favor de Gana, que decidiria a partida.
Deixou o gramado em meio ao choro desesperado de alguém que acabara de cometer um crime, um sacrifício que seria, ainda assim, inútil. Mas Asamoah Gyan chutou no travessão, a partida foi para as cobranças alternadas e todos sabemos o que aconteceu.
Trapaça! Injustiça! Tenho visto pessoas indignadas, afinal o camisa 9 cometeu uma ilegalidade e seu time acabou favorecido. Todos ingênuos, ainda que eu os entenda. Os esportes em geral são mais do que competição. Constituem uma das ferramentas das quais nos utilizamos para tentar “organizar” simbolicamente nossa realidade. As regras, turnos e todo o enquadramento cartesiano que caracteriza a maior parte das modalidades representam um ambiente em que podemos testar (e superar) nossos limites num espaço controlado, “seguro”. Precisamos deste lugar para acreditarmos, ao menos por um momento, que “o melhor sempre vence” ou que “quem espera sempre alcança” etc. O esporte ordinário representa a utopia de que os esforços podem ser recompensados segundo o merecimento de cada um, e de que podemos controlar, de alguma forma, as probabilidades. Crianças que brincam de inventar jogos e brincadeiras novas estão, no fundo, brincando de ser Deus, e precisam dessa fantasia para enfrentar a insegurança do mundo lá fora.
Mas o futebol subverte tudo isso. O futebol é caos e injustiça. O futebol é o drama humano encenado e repetido à exaustão, muitas vezes amplificado. O futebol é a vida em 90 minutos ou, como vimos hoje, em 15 segundos. O futebol derruba todas as certezas que tentamos construir e, como não poderia deixar de ser, é incompreensível e sedutor, ainda que revoltante.
Suárez viu-se hoje num turbilhão de acontecimentos sobre os quais não tinha nenhum controle e, por obra do acaso, foi do inferno ao céu em questão de minutos, junto de toda uma nação. Ora, não é exatamente isso o que temos todos os dias, fora das quatro linhas? Por mais que tentemos organizar o mundo segundo o que acreditamos ser “justo”, por mais que criemos regras, não basta apenas um dia ruim (ou bom) para mudar todo o nosso destino? O futebol, nos grandes momentos, joga essa verdade em nossa cara. Ele nos mostra o quanto podemos ser pequenos ou grandes, e o quanto isso é assustadoramente aleatório. Não admira que seja tão apaixonante…
Já temos a nossa Copa do Mundo inesquecível, não importam as estatísticas e não importa quem a vencerá.




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