Camarim

Menina Eva vai ao teatro

Tag: Teledramaturgia

Especiais de Natal da Globo

Por Eva | 27/12/2009, 18h28

Eu penso que a TV, o cinema e o teatro são meios igualmente legítimos para o ator exercer duas arte. Diferentes, é certo, e esbarrando-se de vez em quando em exercícios interessantes. Lembro-me de Hoje é Dia de Maria, maravilhosa série brasileira que levou teatro, circo, folclore e poesia pra frente das câmeras de TV. Também dos filmes do Kenneth Brannagh (escreve-se assim?), que filmou obras de Shakespeare (seu Hamlet é a versão COMPLETA, com todas as palavras do Shakespeare. Dura mais de quatro horas!). Filmes baseados em peças de teatro tem um saborzinho que pode ser fácil de identificar: Divã, filme brasileiro com a Lília Cabral, e Closer – Perto Demais, aquele filme com o Jude Law e o Clive Bonitão Owen e a Natalie Portman e a Julia Roberts, são bons exemplos. Percebemos o foco no que se FALA e não no que se FAZ, a pouca mudança de cenário (longos diálogos no mesmo ambiente), poucos personagens…

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Dito isto, devo dizer que a TV me decepcionou imensamente neste fim de ano. A TV Globo, que normalmente apresenta bons especiais de dramaturgia nesta época, foi de uma pobreza, uma superficialidade absurdas.

Eu esperei muito do especial “Dó-Ré-Mi-Fábrica”. Meu Deus, Lázaro Ramos, um dos melhores atores do país. João Falcão, o diretor de “A Máquina”, que revelou Lázaro, Wagner Moura… Tinha como dar errado?

Deu. Horrivelmente errado. O roteiro tinha uma proposta muito interessante :uma fábrica mágica, que inventou todos os instrumentos musicais do mundo, vivendo uma crise de poder por ser dirigida por dois irmãos BEM diferentes. Mas escorregou feio quando colocou uma história paralela (piegas até dizer chega), de uma família pobre que vive num lixão, e tem um menininho nordestino que tem sonhos de ser músico e artista e cantor, e os sonhos são solapados pela cruel realidade da vida dura, e ó meu Deus ele foge no Trenzinho do Caipira  (SÉRIO) em busca de seu ideal e encontra um explorador de crianças talentosas (Dois Filhos de Francisco feelings) e chega até a fábrica mágica onde ajuda a salvar o empreendimento da falência. Ufa!

A interpretação do Làzaro não foi adequada pra TV, nem parecia com bom teatro. Ficou parecendo teatro infantil da igreja do bairro. O menino que interpretou o Tom, nossa. Tem uma longa estrada pela frente. Não interpretou bem, nem cantou bem (aliás, cantou muito mal e gritando). Pena, porque o Maicom é de Rondônia, e eu realmente queria que ele arrasasse (eu sempre torço por quem é do Norte).Li na internet que ele foi escolhido por um vídeo no Youtube e que é um ótimo instrumentista. E fica uma pergunta solta no ar: se ele é bom TOCANDO, porque não deixaram que ele tocasse nenhum instrumento?

Os arranjos musicais estavam pobres e irritantes, o que me deixa triste quando penso que já tivemos especiais como Pirlimpimpim, Plunct-Plact Zum, Balão Mágico, Arca de Noé…

Um horror, uma decepção, uma pobreza. Quem se saiu mellhor foi a Natália Dill, no papel da assistente da Fábrica, Viola. Inclusive, foi quem cantou melhor, tendo o melhor número musical do especial: “Bem vindos a Dó-Ré-Mi-Fábrica! Inventamos instrumentos desde o tempo do ronca…do Bandolim de Jacob do Bandolim, até o pandeiro de Jackson do Pandeiro!”

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No dia seguinte, véspera de Natal, passou o especial da Xuxa. Eu devo admitir que sempre assisto ao especial dela no fim do ano, porque a) aparentemente, ela gosta de Natal tanto quanto eu, e sempre coloca luzinhas, papai noel, mágica, musiquinhas de Natal b) lembro-me da minha infancia, que a única coisa divertida que tinha pra fazer na véspera de Natal era ver TV e esperar a ceia e c) todo mundo merece uma segunda chance.

Fiquei passada. A Xuxa conseguiria fazer arte – grande arte – se simplesmente reconhecesse que não sabe cantar nem interpretar e se retirasse da frente da câmera, tornando uma produtora poderosíssima com foco no público infantil. Nossa, se ela não estivesse no especial, ele seria bem bonzinho. Figurinos lindos, cenários muito bem feitos, idéia divertida (uma terra em que é sempre Natal tem sua rotina quebrada)…Cissa Guimarães fez uma Mamãe Noel muito honesta, com bordão excelente (Uôu, Uôu, Uôu), Eri Johnson estava mesmo engraçado, os detetives estavam no tom certo pra crianças assistirem e gostarem. Porém, ah, porém, a Xuxa tinha a maioria das falas. E ainda cantava (sic) entre uma cena e outra. Assim não há elenco, figurino, produção que segure.

Não sei dizer se o problema da Xuxa é falta de talento ou se nenhum diretor tem coragem de ser mais firme com ela, extraindo mais. Afinal, ela é mesmo a rainha, tem a grana e a marca, é a dona da bola. Se ela te chamasse pra dirigir um projeto dela, você faria com que ela ensaiasse exaustivamente, regravasse até ficar perfeito, fizesse uns laboratórios pra pegar melhor o jeitinho da coisa? Eu não faria nada disso!

Órfã de Som & Fúria

Por Eva | 27/07/2009, 10h44

Estou morrendo de saudade de Som & Fúria. Como a Luciana disse (em um post que eu não posso lincar senão destrói meu post, e eu, burra, não sei consertar), é a melhor coisa da TV em 2009 – muito mais que Maysa.

Foram três semanas que passei em expectativa. Nas segundas, eu ia dormir pensando: “Amanhã tem Som & Fúria”. Às terças, eu ia trabalhar feliz: “Hoje tem Som & Fúria”. Às quartas, eu me aborrecia com o Futebol: “Droga, estou morrendo de sono e esses pernas-de-pau ficam atrasando o início de Som & Fúria!” Às quintas, eu trocava o DVD no gravador, para não correr o risco de ficar sem gravar nenhum pedacinho de Som & Fúria. Às sextas, eu apertava o stop melancólica, pensando que ainda faltavam três dias inteirinhos para continuar a história…

Sexta passada, eu apertei o stop muito mais melancólica. Porque era o último capítulo. Eu não poderia mais acompanhar os conflitos de direção do Dante, o nervosismo da Ana (que não era secretária, era diretora administrativa!), os engraçadíssimos lances do Henrique (Dan Stulbach, que roubou a cena todas as vezes, tornando-se meu favorito).

E, mais que tudo, não veria mais Shakespeare passando na TV. Essa série teve momentos sublimes, brilhantes mesmo. Ver a Débora Falabella (de quem continuo com antipatia, porque todas as personagens dela saem Lisbelas) e o Leonardo Miggiorin (bonzinho no papel de gay que transa com mulher) dizendo as falas de Romeu e Julieta (que todo mundo DIZ que conhece, mas pouca gente leu de verdade). Eu (que nunca li de verdade a peça), me surpreendi. Com a simplicidade das palavras, com a fácil compreensão do significado, com a passionalidade dos gestos. Como Romeu e Julieta é universal! Por isso que não cessamos de ver Romeu e Julieta em milhares de versões, no cinema, nas novelas, noslivros, e todo ano de um jeito diferente na Malhação. Amor impossível, amor proibido, amor com dificuldades.

Eu também gostei da delicadíssima participação do Paulo Goulart. Para fazer o contraponto com o empresário que patrocinou Sonho de uma Noite de Verão no primeiro capítulo, fazendo o constragedor discurso “Eu vejo Shakespeare como o pônei no telhado”, o Paulo Goulart (não sei o nome do personagem) criou um momento muito bonito, do empresário que, além de patrocinar a peça, tem uma história com a peça – Romeu e Julieta é a favorita da esposa dele, que está no hospital e não pôde se fazer presente à encenação. Derrubou todo mundo no teatro – e, obviamente, derrubou a Eva, essa telespectadora teatral, que tem o coração fraquinho pra histórias de amor difícil. A Ellen chorava nos bastidores: “Eu odeio essa peça. Porque na vida real ninguém consegue amar assim. E como não conseguimos amar desse jeito, achamos que não sabemos amar…” E o Dante: “A peça é igualzinha à vida real. Eles se apaixonam, tudo dá errado, e no fim dá merda.”

Quando Jacques (Daniel de Oliveira) fez o solilóquio de Hamlet, o mais famoso, o “Ser ou não ser”, aquele trecho que todo mundo DIZ que sabe, mas que na verdade pouquíssima gente já leu ou escutou por inteiro, eu fiquei de queixo caído. Primeiro: “Ué, o crânio não é nessa hora, não?” Segundo: “Puxa, é mais fácil de entender do que eu imaginei.” Terceiro: “Ai, caramba, tem milhares de pessoas assistindo isso, é Hamlet! Shakespeare Superstar!”

Outro momento excelente foi na montagem de Hamlet. Era a última apresentação da temporada, um monte de crianças de escola na platéia, jogando aviõezinhos nos Caras do Telecurso (Wandi Doratioto e Arthur Kohl, cujo nome jamais esquecerei :D ). Elenco meio desmotivado. Dante, o diretor mais cricri de todos os tempos, entra no camarim da Ellen, a Andréa mais Beltrão de todos os tempos, e pergunta qual a motivação da personagem Gertrudes quando assiste a morte de Ofélia e permite que ela se afogue. Ela, displicente, responde: “Sei lá, eu não queria molhar o meu vestido.” Após um pouco de pressão do diretor, ela elabora mais: “A Ofélia estava sofrendo, louca, e a morte traria paz a ela.” O Dante explica melhor: “A Ofélia se matou. Você vai mentir dizendo que ela se afogou para que ela possa ter um enterro cristão. Deixa isso bem claro na cena.” A Ellen revira os olhos: “Ah, Dante, por favor, hoje é a última apresentação!” E ele: “Então, é a última chance de você fazer bem a cena.” E ela entrou no palco; e arrebentou.

Agora, toda vez que eu entrar em cena, eu vou pensar nisso: que pode ser minha última chance de fazer bem a cena.

Ai, que saudade de Som & Fúria.

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