Camarim

Menina Eva vai ao teatro

Tag: Teatro

Vestibular UEA – notícias

Por Eva | 08/12/2009, 23h41

Fiz a prova em um bairro tão tão afastado, que pra chegar lá tive de atravessar a barreira rodoviária que fica na AM-010. Fui de mototáxi, pois tive de sair do meu trabalho (que fica na Oceania) ir almoçar em casa (moro na África) e chegar ao local de prova (Júpiter) com antecedência suficiente. Valeu a pena: meu mototaxista é do clube dos cem por hora, e quando cheguei ainda faltavam quarenta minutos para a abertura dos portões.

Todos os meus colegas estavam lá. Meu colegas do curso de teatro do SESC com o Chico Cardoso, meu atuais colegas dos laboratórios com o Michel Guerrero. Meus colegas com quem já trabalhei em peças empresariais. Todo mundo prestando vestibular pra Teatro, e todo mundo com medo de Química.

Fiz a prova de segunda, com 84 questões. Gostei muito da prova, bem elaborada e bem regional (tinha uma pergunta sobre formigas ao molho de tucupi que me fez sorrir). A prova de História incluiu conteúdos de Filosofia (Aristóteles e Rousseau!), e a prova de literatura estava DE-LI-CI-O-SA, com Gregório de Matos sempre atual.

Logicamente, não sabia nada de química – o que me fez refletir sobre currículos, educação, falência do ensino, e eu quase deprimi – e desesperei ao ver uma questão de Física que era de Movimento Uniformemente Variado, eu sabia que era, mas esqueci a porcaria da maldita fórmula S é igual a S0 v0 alfa t ao quadrado sobre dois. Três anos morrendo por causa dessa fórmula fuleira, e quando eu ACHO UMA OCASIÃO PERFEITA PARA USÁ-LA, eu não lembro!

No mais, fiquei feliz. Gabaritei Português, História, Geografia e Inglês, acertei dez de matemática (até eu fiquei surpresa com isso), acertei duas de Física e quatro de Química, e sete de Biologia. De 84 questões, acertei 59.

Hoje, foi a segunda prova, de Conhecimentos Específicos. A prova estava mais pesada, as questões me deixaram em dúvida, mas o resultado foi melhor ainda: de 36, acertei trinta!

O tema da redação era “Infância, Infâncias”, e a proposta era fazer uma dissertação sobre a ideia geral de infância como algo inocente, belo, alegre, tranquilo, e a constatação que cada experiencia de infancia é definida por diversos fatores (sociedade, educação, traumas). Suei pra ter uma ideia de desenvolvimento de texto, e terminei por abordar a evolucao do conceito de infancia (sentir ternura por crianças e amor materno é coisa meio recente, e a avalanche de produtos voltados pra crianças pode ser reflexo que nós só respeitamos a criança enquanto ela se manifesta como CONSUMIDORA). Acho que falei besteira e minha letra é muito feia, mas cá entre nós: redação eu sei fazer… :D Vocês não acham?

Então, torço pra que com essa pontuação, uma das dez vagas do meu restrito grupo de cotas (pessoas que já têm diploma de ensino superior) seja minha. É torcer pra que o povo CDF de 17 anos, que o papai chamava de “Os Cobras do Cursinho”, queira fazer coisas mais lucrativas como Medicina ou Odonto, e me deixe em paz com minha vaguinha.

(Estou torcendo loucamente pra ser coleguinha de sala do Michel Guerrero, da Héveni, da Ana Cláudia, do Douglas, do Ives… e dos meus parceiros de vida de artista.)

[Para quem tiver interesse, as provas e gabaritos do Vestibular 2009 UEA estão no site da Vunesp, www.vunesp.com.br]

Curso Superior de Teatro. Em Manaus. Finalmente.

Por Eva | 19/10/2009, 14h23

Quando fiz um curso livre de Interpretação Teatral no SESC – AM, tive como professora a Selma Vale. (Sortuda, eu.) Entre outras muitas coisas importantes que ela disse e que eu guardo no coração e no caderninho, vou destacar uma: “admite-se que o ator necessite de formação técnica de segundo grau, e o diretor necessite de curso superior.” Ela não disse que isto era uma regra, ou que havia um regulamento sobre o assunto, mas normalmente é assim.

(Vai ver que é por isso que os pais não querem que a gente seja ator. É como ser laboratorista ou metalúrgico: você não tem diploma, anel, e sempre vai ter um chefe. Atenção, essa foi uma frase irônica. Eu sei que cursos técnicos também têm anel.)

Bem, eu sou formada em Administração, e tenho gosto pela Academia: os eventos científicos, o mundo das publicações, a escalada mestrado/doutorado/PhD, tudo me encanta. E, como vocês já sabem, tenho tesão por Teatro e interpretação.

Juntar as duas coisas, Teatro e formação acadêmica, é muito fascinante pra mim. Foi por isso que eu me inscrevi no vestibular da Universidade Estadual do Amazonas – UEA, cujas provas acontecem no final do ano.

(Corta pra 2002: eu e minha amiga Keiteanne assistindo a uma palestra de um professor da UFAM cujo nome não lembro e cujo rosto esqueci. Ele explicava que a UA, Universidade do Amazonas, passava a se chamar UFAM, Universidade Federal do Amazonas, e outras coisas do processo de seleção. Éramos muito desembaraçadas e atrevidas, e fomos perguntar a ele se a “nova” UFAM teria curso de Teatro. Ele nos disse que o curso de Artes tinha duas habilitações, Artes Plasticas ou Música, e que a formação em Teatro era uma possibilidade muito próxima. Começamos a fazer planos de estudarmos juntas e nos formarmos juntas, abrindo um dia uma companhia e, claro, ganhando o Oscar brasileiro que a Fernanda Montenegro não conseguiu. Adolescentes não são humildes ou modestas.

Qual não foi nossa decepção quando vimos que nem a UFAM nem a UEA ofereceriam o nosso desejado curso de Artes Cênicas naquele ano, o aflitivo ano do vestibular. Acabou que eu passei em Administração, ela em Pedagogia – ambas na UFAM, ambas pelo processo contínuo. Fim do flashback.)

Quando a Reitora da UEA, Dra Marilene, deu uma entrevista dizendo que neste ano o vestibular selecionaria também para o curso de Teatro, o único novo curso de graduação da UEA na capital este ano, houve uma histeria entre os meus contatos. “Eva, Eva, já tá sabendo?”.  Eu estremeci. Era a chance que eu desejei durante anos. E eu sempre disse que não me dedicava mais ao teatro porque, enfim, eu teria de me mudar pra fazer o tal curso. E, após me formar, sempre enchi a boca pra dizer que JAMAIS faria graduação novamente, por não ter paciência pra entrar em uma sala de aula tendo como colegas garotinhos de 17 e mocinhas de 18.

Agora eu não tenho mais desculpa. E não posso mais encher a boca. Estou inscrita, de novo, após sete anos, no vestibular. Sei lá quantos mais vão se inscrever. São 40 vagas. Eu só preciso de uma!

Quem for de rezar, reze. Quem for do Teatro, inscreva-se, até sexta-feira! A inscrição do vestibular da UEA custa trinta reais. Só trinta reaizinhos. E eles ainda usam a nota do ENEM, se ela ajudar, como 20% da nota da prova de conhecimentos gerais.

Tem uma porção de regrinhas de cota: estudar em escolas públicas do interior, escolas públicas da capital, ser de fora ou do Amazonas, pertencer ou não a etnias indígenas, e, é claro, eu estou na regra mais restrita: já tenho curso superior, diploma, anel, profissão: o número de vagas que eu disputo é menor. Dane-se. Vou tentar. Não posso não tentar.

Aquela moça de 17 anos espera isso de mim.

Órfã de Som & Fúria

Por Eva | 27/07/2009, 10h44

Estou morrendo de saudade de Som & Fúria. Como a Luciana disse (em um post que eu não posso lincar senão destrói meu post, e eu, burra, não sei consertar), é a melhor coisa da TV em 2009 – muito mais que Maysa.

Foram três semanas que passei em expectativa. Nas segundas, eu ia dormir pensando: “Amanhã tem Som & Fúria”. Às terças, eu ia trabalhar feliz: “Hoje tem Som & Fúria”. Às quartas, eu me aborrecia com o Futebol: “Droga, estou morrendo de sono e esses pernas-de-pau ficam atrasando o início de Som & Fúria!” Às quintas, eu trocava o DVD no gravador, para não correr o risco de ficar sem gravar nenhum pedacinho de Som & Fúria. Às sextas, eu apertava o stop melancólica, pensando que ainda faltavam três dias inteirinhos para continuar a história…

Sexta passada, eu apertei o stop muito mais melancólica. Porque era o último capítulo. Eu não poderia mais acompanhar os conflitos de direção do Dante, o nervosismo da Ana (que não era secretária, era diretora administrativa!), os engraçadíssimos lances do Henrique (Dan Stulbach, que roubou a cena todas as vezes, tornando-se meu favorito).

E, mais que tudo, não veria mais Shakespeare passando na TV. Essa série teve momentos sublimes, brilhantes mesmo. Ver a Débora Falabella (de quem continuo com antipatia, porque todas as personagens dela saem Lisbelas) e o Leonardo Miggiorin (bonzinho no papel de gay que transa com mulher) dizendo as falas de Romeu e Julieta (que todo mundo DIZ que conhece, mas pouca gente leu de verdade). Eu (que nunca li de verdade a peça), me surpreendi. Com a simplicidade das palavras, com a fácil compreensão do significado, com a passionalidade dos gestos. Como Romeu e Julieta é universal! Por isso que não cessamos de ver Romeu e Julieta em milhares de versões, no cinema, nas novelas, noslivros, e todo ano de um jeito diferente na Malhação. Amor impossível, amor proibido, amor com dificuldades.

Eu também gostei da delicadíssima participação do Paulo Goulart. Para fazer o contraponto com o empresário que patrocinou Sonho de uma Noite de Verão no primeiro capítulo, fazendo o constragedor discurso “Eu vejo Shakespeare como o pônei no telhado”, o Paulo Goulart (não sei o nome do personagem) criou um momento muito bonito, do empresário que, além de patrocinar a peça, tem uma história com a peça – Romeu e Julieta é a favorita da esposa dele, que está no hospital e não pôde se fazer presente à encenação. Derrubou todo mundo no teatro – e, obviamente, derrubou a Eva, essa telespectadora teatral, que tem o coração fraquinho pra histórias de amor difícil. A Ellen chorava nos bastidores: “Eu odeio essa peça. Porque na vida real ninguém consegue amar assim. E como não conseguimos amar desse jeito, achamos que não sabemos amar…” E o Dante: “A peça é igualzinha à vida real. Eles se apaixonam, tudo dá errado, e no fim dá merda.”

Quando Jacques (Daniel de Oliveira) fez o solilóquio de Hamlet, o mais famoso, o “Ser ou não ser”, aquele trecho que todo mundo DIZ que sabe, mas que na verdade pouquíssima gente já leu ou escutou por inteiro, eu fiquei de queixo caído. Primeiro: “Ué, o crânio não é nessa hora, não?” Segundo: “Puxa, é mais fácil de entender do que eu imaginei.” Terceiro: “Ai, caramba, tem milhares de pessoas assistindo isso, é Hamlet! Shakespeare Superstar!”

Outro momento excelente foi na montagem de Hamlet. Era a última apresentação da temporada, um monte de crianças de escola na platéia, jogando aviõezinhos nos Caras do Telecurso (Wandi Doratioto e Arthur Kohl, cujo nome jamais esquecerei :D ). Elenco meio desmotivado. Dante, o diretor mais cricri de todos os tempos, entra no camarim da Ellen, a Andréa mais Beltrão de todos os tempos, e pergunta qual a motivação da personagem Gertrudes quando assiste a morte de Ofélia e permite que ela se afogue. Ela, displicente, responde: “Sei lá, eu não queria molhar o meu vestido.” Após um pouco de pressão do diretor, ela elabora mais: “A Ofélia estava sofrendo, louca, e a morte traria paz a ela.” O Dante explica melhor: “A Ofélia se matou. Você vai mentir dizendo que ela se afogou para que ela possa ter um enterro cristão. Deixa isso bem claro na cena.” A Ellen revira os olhos: “Ah, Dante, por favor, hoje é a última apresentação!” E ele: “Então, é a última chance de você fazer bem a cena.” E ela entrou no palco; e arrebentou.

Agora, toda vez que eu entrar em cena, eu vou pensar nisso: que pode ser minha última chance de fazer bem a cena.

Ai, que saudade de Som & Fúria.

Eu preciso falar de “Som e Fúria”

Por Eva | 11/07/2009, 17h29

A série Som e fúria está em exibição pela Globo. Uma série dirigida pelo Fernando Cidade-de-Deus Meirelles. Uma série que fala dos bastidores de montagem teatral, e dia-a-dia dos atores e diretores e
toda a equipe por trás. Uma série de tv que conta com um elenco cheio de atores excelentes (de televisão e teatro), com tratamento de cinema. Eu preciso falar de Som e Fúria.

Começo falando das chamadas de Som & Fúria. Eu já me interessei quando vi que o tema da série era teatro. Quando escutei a música feita pela dupla Tangos e Tragédias, eu comecei a rir.

“Shakespeare escreveu/atores vão encenar/como precisava um canal/a Globo vai apresentar!

Loucura, luxúria/ tudo isso tem ‘no’ Som & Fúria!/Loucura, luxúria/ tudo isso tem ‘no’ Som & Fúria!”

Isso é TÃO engraçado. Sou só eu quem acho? Em uma chamada de uma série de TV fazer piada com a própria televisionação (existe uma palavra pra isso?) da dramaturgia? “Precisávamos de um canal pra exibir nosso trabalho para o Brasil todo, mas o que queremos mesmo é fazer teatro, viu?”

(Quem trabalha com teatro sabe que rola uma rixa com outras formas de arte – em especial a TV, claro,  ”a grande inimiga, deformadora do público, rasa, comercial, força do mal”. Não vou debater isso agora. Fica o registro que o teatro é local, e a TV é global (com todos os trocadilhos que vocês puderem imaginar). Grupos de teatro têm mais possibilidades de regionalizar a coisa, fazer referências ao cotidiano e cultura de seu lugar. A TV necessariamente centraliza tudo, e por isso temos uma novela no Leblon, seguida por outra em Copacabana, depois uma falando de uma favela carioca que tem uma escola de samba, uma no interior de São Paulo (pra variar um pouquinho), seguida por uma na conexão Lapa/Índia. E isso não é necessariamente ruim – apenas acontece. O grande centro produtor de teledramaturgia do Brasil (claro que estou falando do PROJAC) FICA NO RIO, ora essa. Os profissionais são de lá ou moram lá; as locações são lá; a centralização é reflexo disso. Eu, francamente, não acredito no DiscursoDoContra que diz que a Globo pretende uniformizar o Brasil, tranformando-nos em uma nação RiodeJaneirocêntrica, e é por isso que ela não exibe os jogos de São Raimundo (AM) X Payssandu (PA), e é por isso que não temos uma novela se passando nas ruas de Boa Vista. Ora, tenhamos um pouco de racionalidade: a Globo é apenas uma empresa, que precisa gerar dividendos, e precisa de bons resultados junto à maior parte do público. Eu não consigo ver a Globo como uma força do mal. E para aqueles que dizem que a Globo é um lixo, eu gostaria de fazer uma pergunta: vocês acham mesmo que a TV do Bispo ou a TV do Baú são melhores e devem assumir a liderança na tv aberta? Mas, eu disse que não iria debater isso agora. :D )

Terça, assisti ao primeiro episódio de Som & Fúria. Ah, caras, é tão maravilhoso quando voce se sente PARTE de algo.

O drama da companhia do Dante Viana, interpretado por Felipe Camargo (companhia que ensaia no Teatro Sans Argent, hahaha), que tem que lidar com lâmpadas incendiando-se e aluguel atrasado, me parece tão familiar. A companhia que não tem lugar adequado pra ensaiar, que não tem dinheiro, que precisa da bilheteria para pagar as contas. Podia ser a minha.

E também o drama da companhia do Estado, que ensaia no Teatro Municipal de São Paulo. Nessa hora, eu (que já tive o privilégio de me apresentar no Teatro Amazonas), também me identifiquei. Gostei particularmente da Ellen (Andréa Beltrão, ótima), no papel da atriz experiente e dada a estrelismos. Uma fala que eu adorei: “Olha, eu não estou querendo dizer que sou melhor que ninguém, tá bom, com licença, por favor, obrigada, mas digamos que, Sonhos de uma noite de Verão, segundo ato, as invenções do ciúme, Titânia, a Rainha das Fadas falando, eu acho que neste momento, ao menos neste momento, eu SOU a pessoa mais importante em cena, e o público não pode me ver nem me ouvir porque eu estou de COSTAS!”

(Alguns diretores dizem que a tal proibição dizendo que o ator nunca deve ficar de costas para o público está defasada. Hoje em dia, o ator poderia ficar de costas em cena, dependendo da intenção do diretor, sabe? Eu nao sei se concordo. Ainda acho que, na maioria das produções, um ator de costas prejudica mais do que ajuda… E na série, foi exatamente o que aconteceu!)

Além disso, foi um prazer enorme ver coisinhas sobre as quais eu escrevi aqui no Camarim pparecendo nos episódios. Quando a Ellen está no camarim se maquiando, e vai aquecendo a voz: Si, fu, xi, pá. Quando o Oliveira (Pedro Paulo Rangel, misturando escárnio com cansaço, tristeza e irreverência, excelente) passa com as atrizes e os atores desejando “Boa sorte, Merda, essas coisas”.

Ou no quarto episódio, de sexta. Uma piada que pode ter passado batida para quem não sabe jargão de teatro. Dante (Felipe Camargo, de quem eu ainda não consegui decidir se gosto ou não) pergunta se o ensaio ainda não começou por causa da Elen. Ela responde, escondida atrás das cadeiras, lá no final da platéia: “Eu tô aqui.” Ele a convida pra chegar mas perto. Ela diz que está bem ali mesmo, que prefere ficar ali. E ele: “Então PROJETA!”

Outras piadas são mais sutis. O fato de o principal crítico se chamar Bárbaro (numa citação claríssima à Barbara Heliodora); a Elen nunca saber se deve entrar pela esquerda ou pela direita (exatamente como Marieta Severo, grande amiga da Andréa Beltrão); e a Ana (Cecília Homem de Mello, que eu não conhecia e está perfeita!), a secretária da companhia, sempre dando umas indiretas sobre o mundo artístico. Quando Dante perguntou: “o que eu devo falar na entrevista coletiva?” ela respondeu: “Que tal a verdade? A gente anda precisando de inovação por aqui.”

No mais, Daniel de Oliveira muito bem, Maria Flor encantadora; Gero Camilo ÓTIMO, tende a roubar a cena; e os caras do Telecurso, né. Eu fiquei tão feliz quando vi os dois caras do telecurso, servindo como crítica interna, dos próprios colegas de elenco. Aparentemente, eles formam um casal.

No mais, um horário melhor do que o de outras minisséries, que nos concede a benção de ficar três semanas sem o horroroso Toma Lá, dá cá. Mas às quartas, fica difícil segurar o sono. Eu perdi o episódio de quarta: dormi aos quinze do segundo tempo daquele jogo insuportável, e acordei assustada, com o controle remoto na mão, com a tela dividida ao meio, mostrando as cenas do capítulo seguinte. Ai, ódio.

Autopsicofonia

Por Eva | 23/06/2009, 12h09

O ator é fingidor,

finge tão completamente

que convence o espectador

que sente aquilo que não sente.

(Paráfrase boba do poema Autopsicografia, de Fernando Pessoa)

Representar ou interpretar?, me perguntaram. 

Representar é…hum. Pense na tarefa de um representante. Ele comparece a um evento substituindo alguém que não foi. Ele representa aquela pessoa. Representar é isso: estar no lugar de outra pessoa.

Interpretar é diferente. Quem interpreta observa, analisa, reflete. Interpretação significa, de certo modo, formar e emitir opinião.

No palco também. Representar é estar lá, apenas. Substituindo uma pessoa que não pode falar por si (por ser obra de ficção, como Romeu; por já ter falecido, como Cazuza; por não ter interesse em ser ator, como Patch Adams). Quem representa, está como substituto de alguém.

Interpretar é criar. Extrair significados de cada frase do texto, de cada marcação. O ator que interpreta sabe as motivações da personagem, sabe o passado dela e o contexto social onde ela viveu. Sabe a razão de cada gesto das mãos, de cada passo. Sabe o significado por trás de um passo para o fundo do palco, ou de três passos na direção do outro personagem. Interpretar é criar os tiques, o andar, o ritmo da respiração. 

Representar é trabalho mecânico; interpretar é trabalho criativo.

Interpretar é o trabalho do ator.

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