Órfã de Som & Fúria
Posted by Eva on julho 27th, 2009
jul
Estou morrendo de saudade de Som & Fúria. Como a Luciana disse (em um post que eu não posso lincar senão destrói meu post, e eu, burra, não sei consertar), é a melhor coisa da TV em 2009 – muito mais que Maysa.
Foram três semanas que passei em expectativa. Nas segundas, eu ia dormir pensando: “Amanhã tem Som & Fúria”. Às terças, eu ia trabalhar feliz: “Hoje tem Som & Fúria”. Às quartas, eu me aborrecia com o Futebol: “Droga, estou morrendo de sono e esses pernas-de-pau ficam atrasando o início de Som & Fúria!” Às quintas, eu trocava o DVD no gravador, para não correr o risco de ficar sem gravar nenhum pedacinho de Som & Fúria. Às sextas, eu apertava o stop melancólica, pensando que ainda faltavam três dias inteirinhos para continuar a história…
Sexta passada, eu apertei o stop muito mais melancólica. Porque era o último capítulo. Eu não poderia mais acompanhar os conflitos de direção do Dante, o nervosismo da Ana (que não era secretária, era diretora administrativa!), os engraçadíssimos lances do Henrique (Dan Stulbach, que roubou a cena todas as vezes, tornando-se meu favorito).
E, mais que tudo, não veria mais Shakespeare passando na TV. Essa série teve momentos sublimes, brilhantes mesmo. Ver a Débora Falabella (de quem continuo com antipatia, porque todas as personagens dela saem Lisbelas) e o Leonardo Miggiorin (bonzinho no papel de gay que transa com mulher) dizendo as falas de Romeu e Julieta (que todo mundo DIZ que conhece, mas pouca gente leu de verdade). Eu (que nunca li de verdade a peça), me surpreendi. Com a simplicidade das palavras, com a fácil compreensão do significado, com a passionalidade dos gestos. Como Romeu e Julieta é universal! Por isso que não cessamos de ver Romeu e Julieta em milhares de versões, no cinema, nas novelas, noslivros, e todo ano de um jeito diferente na Malhação. Amor impossível, amor proibido, amor com dificuldades.
Eu também gostei da delicadíssima participação do Paulo Goulart. Para fazer o contraponto com o empresário que patrocinou Sonho de uma Noite de Verão no primeiro capítulo, fazendo o constragedor discurso “Eu vejo Shakespeare como o pônei no telhado”, o Paulo Goulart (não sei o nome do personagem) criou um momento muito bonito, do empresário que, além de patrocinar a peça, tem uma história com a peça – Romeu e Julieta é a favorita da esposa dele, que está no hospital e não pôde se fazer presente à encenação. Derrubou todo mundo no teatro – e, obviamente, derrubou a Eva, essa telespectadora teatral, que tem o coração fraquinho pra histórias de amor difícil. A Ellen chorava nos bastidores: “Eu odeio essa peça. Porque na vida real ninguém consegue amar assim. E como não conseguimos amar desse jeito, achamos que não sabemos amar…” E o Dante: “A peça é igualzinha à vida real. Eles se apaixonam, tudo dá errado, e no fim dá merda.”
Quando Jacques (Daniel de Oliveira) fez o solilóquio de Hamlet, o mais famoso, o “Ser ou não ser”, aquele trecho que todo mundo DIZ que sabe, mas que na verdade pouquíssima gente já leu ou escutou por inteiro, eu fiquei de queixo caído. Primeiro: “Ué, o crânio não é nessa hora, não?” Segundo: “Puxa, é mais fácil de entender do que eu imaginei.” Terceiro: “Ai, caramba, tem milhares de pessoas assistindo isso, é Hamlet! Shakespeare Superstar!”
Outro momento excelente foi na montagem de Hamlet. Era a última apresentação da temporada, um monte de crianças de escola na platéia, jogando aviõezinhos nos Caras do Telecurso (Wandi Doratioto e Arthur Kohl, cujo nome jamais esquecerei
). Elenco meio desmotivado. Dante, o diretor mais cricri de todos os tempos, entra no camarim da Ellen, a Andréa mais Beltrão de todos os tempos, e pergunta qual a motivação da personagem Gertrudes quando assiste a morte de Ofélia e permite que ela se afogue. Ela, displicente, responde: “Sei lá, eu não queria molhar o meu vestido.” Após um pouco de pressão do diretor, ela elabora mais: “A Ofélia estava sofrendo, louca, e a morte traria paz a ela.” O Dante explica melhor: “A Ofélia se matou. Você vai mentir dizendo que ela se afogou para que ela possa ter um enterro cristão. Deixa isso bem claro na cena.” A Ellen revira os olhos: “Ah, Dante, por favor, hoje é a última apresentação!” E ele: “Então, é a última chance de você fazer bem a cena.” E ela entrou no palco; e arrebentou.
Agora, toda vez que eu entrar em cena, eu vou pensar nisso: que pode ser minha última chance de fazer bem a cena.
Ai, que saudade de Som & Fúria.
Eu preciso falar de “Som e Fúria”
Posted by Eva on julho 11th, 2009
jul
A série Som e fúria está em exibição pela Globo. Uma série dirigida pelo Fernando Cidade-de-Deus Meirelles. Uma série que fala dos bastidores de montagem teatral, e dia-a-dia dos atores e diretores e
toda a equipe por trás. Uma série de tv que conta com um elenco cheio de atores excelentes (de televisão e teatro), com tratamento de cinema. Eu preciso falar de Som e Fúria.
Começo falando das chamadas de Som & Fúria. Eu já me interessei quando vi que o tema da série era teatro. Quando escutei a música feita pela dupla Tangos e Tragédias, eu comecei a rir.
“Shakespeare escreveu/atores vão encenar/como precisava um canal/a Globo vai apresentar!
Loucura, luxúria/ tudo isso tem ‘no’ Som & Fúria!/Loucura, luxúria/ tudo isso tem ‘no’ Som & Fúria!”
Isso é TÃO engraçado. Sou só eu quem acho? Em uma chamada de uma série de TV fazer piada com a própria televisionação (existe uma palavra pra isso?) da dramaturgia? “Precisávamos de um canal pra exibir nosso trabalho para o Brasil todo, mas o que queremos mesmo é fazer teatro, viu?”
(Quem trabalha com teatro sabe que rola uma rixa com outras formas de arte – em especial a TV, claro, ”a grande inimiga, deformadora do público, rasa, comercial, força do mal”. Não vou debater isso agora. Fica o registro que o teatro é local, e a TV é global (com todos os trocadilhos que vocês puderem imaginar). Grupos de teatro têm mais possibilidades de regionalizar a coisa, fazer referências ao cotidiano e cultura de seu lugar. A TV necessariamente centraliza tudo, e por isso temos uma novela no Leblon, seguida por outra em Copacabana, depois uma falando de uma favela carioca que tem uma escola de samba, uma no interior de São Paulo (pra variar um pouquinho), seguida por uma na conexão Lapa/Índia. E isso não é necessariamente ruim – apenas acontece. O grande centro produtor de teledramaturgia do Brasil (claro que estou falando do PROJAC) FICA NO RIO, ora essa. Os profissionais são de lá ou moram lá; as locações são lá; a centralização é reflexo disso. Eu, francamente, não acredito no DiscursoDoContra que diz que a Globo pretende uniformizar o Brasil, tranformando-nos em uma nação RiodeJaneirocêntrica, e é por isso que ela não exibe os jogos de São Raimundo (AM) X Payssandu (PA), e é por isso que não temos uma novela se passando nas ruas de Boa Vista. Ora, tenhamos um pouco de racionalidade: a Globo é apenas uma empresa, que precisa gerar dividendos, e precisa de bons resultados junto à maior parte do público. Eu não consigo ver a Globo como uma força do mal. E para aqueles que dizem que a Globo é um lixo, eu gostaria de fazer uma pergunta: vocês acham mesmo que a TV do Bispo ou a TV do Baú são melhores e devem assumir a liderança na tv aberta? Mas, eu disse que não iria debater isso agora.
)
Terça, assisti ao primeiro episódio de Som & Fúria. Ah, caras, é tão maravilhoso quando voce se sente PARTE de algo.
O drama da companhia do Dante Viana, interpretado por Felipe Camargo (companhia que ensaia no Teatro Sans Argent, hahaha), que tem que lidar com lâmpadas incendiando-se e aluguel atrasado, me parece tão familiar. A companhia que não tem lugar adequado pra ensaiar, que não tem dinheiro, que precisa da bilheteria para pagar as contas. Podia ser a minha.
E também o drama da companhia do Estado, que ensaia no Teatro Municipal de São Paulo. Nessa hora, eu (que já tive o privilégio de me apresentar no Teatro Amazonas), também me identifiquei. Gostei particularmente da Ellen (Andréa Beltrão, ótima), no papel da atriz experiente e dada a estrelismos. Uma fala que eu adorei: “Olha, eu não estou querendo dizer que sou melhor que ninguém, tá bom, com licença, por favor, obrigada, mas digamos que, Sonhos de uma noite de Verão, segundo ato, as invenções do ciúme, Titânia, a Rainha das Fadas falando, eu acho que neste momento, ao menos neste momento, eu SOU a pessoa mais importante em cena, e o público não pode me ver nem me ouvir porque eu estou de COSTAS!”
(Alguns diretores dizem que a tal proibição dizendo que o ator nunca deve ficar de costas para o público está defasada. Hoje em dia, o ator poderia ficar de costas em cena, dependendo da intenção do diretor, sabe? Eu nao sei se concordo. Ainda acho que, na maioria das produções, um ator de costas prejudica mais do que ajuda… E na série, foi exatamente o que aconteceu!)
Além disso, foi um prazer enorme ver coisinhas sobre as quais eu escrevi aqui no Camarim pparecendo nos episódios. Quando a Ellen está no camarim se maquiando, e vai aquecendo a voz: Si, fu, xi, pá. Quando o Oliveira (Pedro Paulo Rangel, misturando escárnio com cansaço, tristeza e irreverência, excelente) passa com as atrizes e os atores desejando “Boa sorte, Merda, essas coisas”.
Ou no quarto episódio, de sexta. Uma piada que pode ter passado batida para quem não sabe jargão de teatro. Dante (Felipe Camargo, de quem eu ainda não consegui decidir se gosto ou não) pergunta se o ensaio ainda não começou por causa da Elen. Ela responde, escondida atrás das cadeiras, lá no final da platéia: “Eu tô aqui.” Ele a convida pra chegar mas perto. Ela diz que está bem ali mesmo, que prefere ficar ali. E ele: “Então PROJETA!”
Outras piadas são mais sutis. O fato de o principal crítico se chamar Bárbaro (numa citação claríssima à Barbara Heliodora); a Elen nunca saber se deve entrar pela esquerda ou pela direita (exatamente como Marieta Severo, grande amiga da Andréa Beltrão); e a Ana (Cecília Homem de Mello, que eu não conhecia e está perfeita!), a secretária da companhia, sempre dando umas indiretas sobre o mundo artístico. Quando Dante perguntou: “o que eu devo falar na entrevista coletiva?” ela respondeu: “Que tal a verdade? A gente anda precisando de inovação por aqui.”
No mais, Daniel de Oliveira muito bem, Maria Flor encantadora; Gero Camilo ÓTIMO, tende a roubar a cena; e os caras do Telecurso, né. Eu fiquei tão feliz quando vi os dois caras do telecurso, servindo como crítica interna, dos próprios colegas de elenco. Aparentemente, eles formam um casal.
No mais, um horário melhor do que o de outras minisséries, que nos concede a benção de ficar três semanas sem o horroroso Toma Lá, dá cá. Mas às quartas, fica difícil segurar o sono. Eu perdi o episódio de quarta: dormi aos quinze do segundo tempo daquele jogo insuportável, e acordei assustada, com o controle remoto na mão, com a tela dividida ao meio, mostrando as cenas do capítulo seguinte. Ai, ódio.
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