Camarim

Menina Eva vai ao teatro

Tag: Faculdade de Teatro

A encrenca dos meus sonhos

Por Eva | 20/11/2011, 21h19

Eu ando cansada, sabe. Não tenho tempo de almoçar, estou montando três textos diferentes pra três discipinas da faculdade, ensaiando uma peça, e ainda trabalho em uma repartição pela manhã. Saio cedo, volto depois das nove da noite, não tenho carro. Fiquei dois meses sem tirar a sobrancelha, por absoluta falta de tempo.

Arrumo minha mochila e tenho que colocar agasalho, guarda-chuva, remédios, escova de dente, pois nunca volto em casa e posso precisar de alguma coisa.

Mas, sabe de uma coisa? Eu estou estudando Ibsen. Brecht. Finalmente pude ler “Eles não usam black-tie”, peça da qual só ouvi falar. Na hora do intervalo, sentamos na lanchonete e conversamos sobre iluminação e cenário, sobre trabalho de voz. Sábado tive que explicar pra minha mãe o que era “fazer aula de corpo”. Estamos planejando uma montagem experimental de Sarah Kane em janeiro.

E eu nunca estive tão próxima do que eu sou de verdade, do que eu sempre quis ser, do que eu imagino pra mim mesma.

Debaixo das sobrancelhas tortas, meus olhos brilham. E é só isso que me salva.

Moldar, Flutuar, Voar, Irradiar

Por Eva | 19/10/2011, 11h17

“Sinto que meu coração é um sol, e dentro dele habita outro sol muito maior, querendo irradiar-se do meu peito.”
São Francisco de Assis

Desde o segundo período aguardávamos o momento de cursar a disciplina Interpretação I, convidada para ministrar a disciplina de Interpretação I. Melissa.

Ela estava ensinando pra nos umas técnicas de mimese corpórea, ainda estamos no início, nem sei conceituar.

Ela passou quatro ações do Tchécov para fazermos. A primeira é moldar: é como se o corpo estivesse mergulhado no barro, e a energia fluia do centro do quadril, e o corpo ia moldando o barro ao redor. A segunda é Flutuar: é como se o ponto entre os olhos fosse “inflável”, e nós estivéssemos imersos na água, flutuando. O terceiro é voar: a energia nasce do meio dos (das?) omoplatas, e os movimentos são de cortar o ar, riscar o céu. A turma tava numa sintonia ótima, nenhuma esbarrão, muita velocidade e movimentos bonitos. Eu estava exaurida, com aquele suor que escorre dentro do olho, molha a gola da camiseta, ensopa o cabelo, sabem? Indo sempre dentro do limite.

Aí ela disse que o quarto movimento é Irradiar. E que é o mais difícil, pois não tem movimento base ou ponto de foco. “É como se o coração irradiasse e saísse pela ponta dos dedos, pelos olhos, e você só consegue ficar na posição do homem vitruviano”.

Eu pensei: “Fodeu, esse não consigo fazer.” Passando mal de suar, comecei a tentar concentrar na irradiação. Sempre tive inveja dos meus amigos artistas/espíritas, que faziam visualizações loucas, flutuavam sobre manaus, atingiam o universo, mergulhavam nos fluidos e coisa assim. Eu sempre fazia uma imaginação do cenário, mas nunca VIVI uma viagem astral, apenas mentalizava imagens, o que é relaxante e gostoso, porém não é máááááágico e tal. E eu não bebo nem “viajo”, né? :D

Três vezes eu pensei: vou sentar e ficar observando, esse eu não vou conseguir fazer. Quando pensei a terceira vez, olha que loucura, ela falou pro grupo “Segura, segura, não desiste não, tem que tentar!”

E não sei o que foi, eu imaginei meu coração ficando incandescente, e de repente saiu uma coisa de dentro de mim, que, PUTZ, irradiava pros braços, eu não conseguia mais deixar os braços penderem relaxados. Eles foram esticando, como se voooooshhhhh jorrasse uma coisa do meu coração e NOSSA eu fiquei na posição do homem vitruviano e eu irradiava, os olhos irradiavam, eu estava tão feliz e me movendo como se fosse mestra naquilo, sem esbarrar em ninguém, como uma dança de espantalhozinhos felizes.

Quando o exercício parou, eu sentei no chão e chorei tanto que o pessoal veio perguntar se eu tava passando bem.

Eu esperava sentir essa plenitude há doze anos, quando entrei no grupo de teatro. E nem lembrava mais que era isso que eu queria.

Stanislavski

Por Eva | 14/09/2011, 17h50

Estou de férias da Faculdade de Teatro. Nossas aulas recomeçam segunda feira, dia 19 de setembro.

A professora de interpretação nos recomendou a leitura de dois livros: “Minha vida na arte”, do Constantin Stanislavski, e a peça “A Gaivota”, de Tchécov.

Tentamos encontrar o Stanislavski pra baixar. Não encontramos em português nem em inglês – achei apenas uma versão em um idioma que pode ser romeno ou esperanto, não faz diferença: Mea Veata en arta.

Tentamos comprar em livrarias. O livro não existe mais; a editora fechou há alguns anos, estava esgotado em todas as livrarias online.

Partimos para os sebos. O Estante Virtual só dispunha de dois exemplares: um custava 160, o outro, 150 reais. A coordenadora do curso arrematou o de 150 antes que fosse tarde.

Pegamos o livro e fomos tirar cópias, perfeitamente justificadas ante a raridade do exemplar. Com encadernação, cada cópia saiu por dezesseis reais. Nada mal.

Comecei a ler nas férias. E fiquei surpresa: o Stanislavsi era um menino rico, que recebeu finíssima educação intelectual e artística: ele relata que era habitual a família ir ao balé, à ópera e ao circo.

Eles montavam peças na “residência de verão” da família. Com figurino e música, gente. É muito diferente da Eva brincando no quintal de casa – embora eu também elaborasse meus figurinos, hehehe.

E, o que me deixou mais surpresa: o Stanislavski foi contemporâneo do Tolstói, do Tchécov, trabalhou lado a lado com Tchaikovski. É como se um monte de gênios houvesse combinado de nascer no mesmo lugar e época!

Gente, o que é que colocavam na comida desse pessoal? O mesmo pra mim, por favor!

Destruir para Reconstruir

Por Eva | 14/05/2011, 13h03

O Professor João Fernandes, que está ministrando a disciplina de Elementos Visuais do Espetáculo (3º período – Teatro/UEA), passou uma trabalho que me deixou em pânico. Eu teria que conceber um figurino a partir de uma pintura. Para a execução, só poderia ser usada a técnica de “reconstrução” – comprar o tecido e mandar a costureira fazer NÃO VALE!

Parti pra escolher as pinturas que serviriam de inspiração. Devo admitir que eu roubei um pouquinho nessa regra: escolhi pinturas que encaixavam direitinho com o material que eu tinha disponível em casa… Como o quadro Sereia, do pintor brasileiro Volpi:

Sereia - Volpi (1960)

Vi essa ideia no Craftser de fazer um vestido com camisas hering. E todo mundo tem pilhas de camisetas promocionais, não é? Eu tinha camisas brancas, pretas e verdes…o quadro é branco, preto, e verde…

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Então, recortei a frente das camisas. Consegui cinco “trapézios”. Medi minha cintura, que deu… um metro! (breve momento de dor e sofrimento). O lado menor de cada um dos cinco trapézios teria de ter vinte centímetros.

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Ficou mal-acabado, pois não quis me arriscar a fazer a barra da saia, mas o conceito é ótimo! Emendei os gomos com a máquina de costura.

Roupa Sereia

Saia de cinco gomos, feita com camisas hering; blusa preta com aplicação de camisa hering; na cabeça, lenço da mamãe (anos 70 que não voltam mais), sandália havaiana com “aplicação” de tornozeleira de camisa hering. Ou seja, um traje completamente reconstruído!

Vamos fazer uma apresentação com essas roupas no fim do semestre. Essa foi a que eu mais gostei.

Teatro UEA – Recepção aos calouros

Por Eva | 30/03/2010, 10h36

Ontem, dia 29, foi o primeiro dia na UEA, depois de uma separação estranha – as aulas dos veteranos começaram dia 8 de março, e as dos calouros estavam marcadas pra começar dia 22, mas só começamos ontem, o que me levou a cogitar se os veteranos precisam estudar três semanas a mais do que nós porque somos menos importantes, mas tergiverso…

O processo de matrícula foi bem emocionante: eu procurava TODO DIA no site da UEA pela grade de disciplinas, por algum concurso para professores de Teatro, por uma chamada de processo seletivo simplicifcado e…NÃO VIA NADA.

Considerando que a UEA publica no site aviso de que vai ter festa junina, aviso de que o ano foi muito bom, aviso que vai passar filme, achei que bem poderiam publicar aviso de que estavam selecionando (por concurso ou por seleção simplificada) professores para o curso de Teatro.

Mas, nenhum aviso houve, e tudo o que soubemos foram por boatos. DIZIAM que uma professora de Pernambuco veio, fez um projeto de curso e foi embora por “dificuldade de adaptação à instituição”. Diziam que não tínhamos nenhum professor. Depois, disseram que só faltavam dois professores. Depois, disseram que esperássemos. E esperamos.

E ontem, chegou o fim da nossa espera.Os cinquenta pioneiros do curso de Teatro, o primeiro curso superior de Teatro de Manaus, juntinhos, sentadinhos na sala 12, quinto andar – nossa casa, nosso QG.
A coordenadora do curso, a doce professora Gigi (não é demais chamar uma coordenadora desse jeito?) matou nossa ansiedade, falando sobre a grade de disciplinas, aêêêê!

O curso vai ter três habilitações: Licenciatura em Teatro, Bacharelado em Direção e Bacharelado em Interpretação. A opção por Licenciatura ou Bacharelado ocorrerá no final do quarto semestre, e por um dos dois Bacharelados, no final do sexto semestre. A professora Gigi ainda quer incluir futuramente uma habilitação em Cinema e TV. Ai, ai, parece um sonho.

Depois da conversa com a coordenação, o ex-presidente do Centro Acadêmico de Turismo nos levou pra um tour (turismo, tour…sacou?) pelo prédio. Subimos e descemos várias vezes os dez lances de escadas, conhecendo o ambiente. CPD, NUTEC, Pastoral, Cantina, Sala dos Professores, Mini-Auditório. Achei superdelicado, explicar onde ficam as coisas pros calouros. Todos os funcionários nos dando as boas-vindas, e a gente percebeu que todos no prédio esperavam por nós. (Minhas lembranças da primeira graduação na UFAM incluem veteranos ensinando calouros a pegar ônibus errado, mandando gente do Campus pro MiniCampus, uma grosseria tola.)

Depois, a Big Band do IFAM (antigo CEFET, antiga ETFAM), fez um show pra gente, muito bom, com músicas de Tom Jobim, Luiz Gonzaga, Kleiton e Kledir e uma do próprio maestro, chamada “Feriado em Manaus”. Terminaram com “In the Mood”, claaaaaaro. :D

Depois, fomos pra Biblioteca, e nos apresentamos. Tem gente de 17 a 50 anos, tem gente que trabalha com teatro, tem gente que largou outro curso no meio, tem gente (como eu) que já está na segunda graduação. Todo mundo cheio de expectativa e sonhos.

Queridos, eu estou TOTALMENTE deslumbrada. :) Não consigo ver essas coisas com cinismo, eu nasci pra ser feliz e otimista.

Hoje, tenho aula. Quando der, conto pra vocês das matérias e professores.

P.S.: A recepção aos calouros teve notinha no site da UEA, aqui. O curso de Teatro nem aparece na lista de cursos de graduação… Ai, ai… Isso porque o curso já estava previsto desde AGOSTO

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