Camarim

Menina Eva vai ao teatro

Tag: atuação

Autopsicofonia

Por Eva | 23/06/2009, 12h09

O ator é fingidor,

finge tão completamente

que convence o espectador

que sente aquilo que não sente.

(Paráfrase boba do poema Autopsicografia, de Fernando Pessoa)

Representar ou interpretar?, me perguntaram. 

Representar é…hum. Pense na tarefa de um representante. Ele comparece a um evento substituindo alguém que não foi. Ele representa aquela pessoa. Representar é isso: estar no lugar de outra pessoa.

Interpretar é diferente. Quem interpreta observa, analisa, reflete. Interpretação significa, de certo modo, formar e emitir opinião.

No palco também. Representar é estar lá, apenas. Substituindo uma pessoa que não pode falar por si (por ser obra de ficção, como Romeu; por já ter falecido, como Cazuza; por não ter interesse em ser ator, como Patch Adams). Quem representa, está como substituto de alguém.

Interpretar é criar. Extrair significados de cada frase do texto, de cada marcação. O ator que interpreta sabe as motivações da personagem, sabe o passado dela e o contexto social onde ela viveu. Sabe a razão de cada gesto das mãos, de cada passo. Sabe o significado por trás de um passo para o fundo do palco, ou de três passos na direção do outro personagem. Interpretar é criar os tiques, o andar, o ritmo da respiração. 

Representar é trabalho mecânico; interpretar é trabalho criativo.

Interpretar é o trabalho do ator.

Respirando pelo diafragma… ou pelo nariz?

Por Eva | 14/06/2009, 13h12

No grupo de teatro do qual eu participo, atualmente vinculado à Federação Espírita Amazonense, houve um tempo em que nosso coordenador (que é ator profissional) ministrou para nós um curso livre de formação de atores.

Não passamos da terceira aula, pois sempre tínhamos ensaios atrasados, apresentações pra fazer em Centro Espíritas BEM afastados, figurino pra confeccionar…  E o curso foi ficando pra depois.

Mas as primeiras aulas, eu me lembro bem, foram sobre respiração e projeção da voz. Nós primeiro tivemos de descobrir onde ficava o diafragma, o músculo que separa o tórax do abdome e controla a respiração. Até que não foi difícil: quatro dedos acima do umbigo, lá estava o diafragma.

Segunda lição: ao inspirar, a barriguinha estufa. Ao expirar, a barriguinha murcha. Nada de ombros pra cima nem peito arfando.

Foi um pouco complicado, depois de tantos anos agindo segundo um conceito de que é necessário “encher o peito de ar”, respirar com o peito imóvel e a barriga pra dentro e pra fora, pra dentro e pra fora.  Dava uma sensação de estar morrendo afogada – além da dor muscular na barriga.

Fícávamos com a palma da mão encostada na barriga do colega ao lado, sentindo a utilização do diafragma ao respirar. Era engraçadíssimo: tem gente que MEXE A BARRIGA, mas não respira, fica sem ar e então enche o peito. Tem gente que não consegue mexer a barriga no mesmo ritmo da respiração.  É uma prática cansativa, porém é o jeito natural de respirar. “Basta observar um bebê dormindo”, o diretor dizia. “A barriguinha dele sobe e desce, ritmada. Nós, com ombros tensos, coluna torta, sentados o dia inteiro, estressados, ficamos com a respiração curta, aqui no alto” – e ele batia no próprio colo. 

Nós do grupo sonhávamos em trabalhar com teatro oito horas por dia, com pausa de duas horas pro almoço. E sonhávamos em passar uma hora inteirinha, sessenta minutos, deitados no chão, respirando, respirando, a barriga descendo e subindo, respirando, exercitando os diafragmas sedentários.

Dessas três aulas do curso de teatro que tivemos, além das dores abdominais, ficou uma piada interna. Toda vez que alguém diz “Respira pelo diafragma!”, a pessoa responde “Não seria melhor pelo nariz?”

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