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Menina Eva vai ao teatro

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Cursos de Graduação de Teatro no ENADE

Por Eva | 20/10/2009, 23h45

O ENADE (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes) é uma prova aplicada pelo Ministério da Educação a estudantes ingressantes e finalistas da graduação, escolhidos por amostragem. Eles fazem uma prova sobre seu curso e preenchem um questionário sobre a estrutura da Instituição na qual estudam, e os resultados são utilizados para avaliar as instituições. Se um aluno for selecionado para fazer o ENADE e não fizer, ele se ferra em verde e amarelo, não podendo receber diploma.

(Paira no ar a ameaça de fechamento dos cursos com piores notas. Eu realmente acho isso injusto. Eu compreendo que onde os cursos têm piores notas, os alunos têm mais dificuldades, a estrutura é PIOR, é exatamente onde este curso é mais necessário. O curso de Medicina da UFAM está por um triz, dizem. E vão fechar uma faculdade de Medicina no Amazonas, gente? NO AMAZONAS, onde há défice de profissionais de saúde? Mas, este não é o foco do texto, e eu nem tenho embasamento suficiente pra ter opinião sólida.)

Eu fiz o ENADE 2006. Era finalista do curso de Administração, e fui selecionada por azareio. Tive uma nota relativamente alta, igual à nota mais alta dos finalistas da minha instituição, o que não quer dizer que eu seja brilhante. Deixei três questões discursivas em branco por absoluta ignorância sobe o que deveria ser escrito ali, errei uma porção de questões de Administração Financeira, Contabilidade e Estatística, que sempre foram meu ponto fraco. Eu e todos os meus colegas achamos a prova relativamente fácil, e ninguém em momento algum cogitou fazer boicote e entregar a prova em branco, como alguns outros estudantes de outros estados, cursos e instituições fizeram.

Há um rodízio das áreas a serem avaliadas a cada ano. Temos então em 2004 os cursos de Agronomia, Zootecnia, Serviço Social, e um mix da área de saúde (Enfermagem, Educação Física, Farmácia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Medicina, Med. Veterinária, Nutrição, Odonto, Terapia Ocupacional). O que Serviço Social faz aí nesse meio?

Em 2005, temos Física, Química, Biologia, Pedagogia, Arquitetura e Urbanismo, História, Geografia, Filosofia, Ciências Sociais, Matemática, Letras, e um mix de Engenharias(dezenas) e Coisas de Computador. Uma baita salada de humanas e exatas, onde a Arquitetura deve ter se sentido muito à vontade e a Biologia deve ter ficado no cantinho sem falar com ninguém.

Em 2006, o meu ano, tivemos uma relativa uniformidade. Administração, Arquivologia, Biblioteconomia, Biomedicina, Ciências Contábeis, Ciências Econômicas, Comunicação Social, Design, Direito, Normal Superior, Música, Psicologia, Secretariado executivo, TEATRO e Turismo. A Biomedicina está bastante deslocada entre uma porção de cursos de Sociais Aplicadas (eu posso dizer Humanas II, ou isso não se usa mais?). Eu sei que neste ano houve uma quantidade imensa de alunos sendo avaliados, porque Administração é um curso populoso. Qualquer faculdade abre curso de administração, porque o mercado pede apertadores de parafuso com diploma e anel. (Sou crítica pra caramba dessa exigência universal de curso superior. Tem muito cargo que não utiliza tal habilidade, e tem muita gente MAIS REALIZADA se cursasse algum curso técnico. Nem todo mundo precisa/ gosta da Academia.)

A tendência é repetir esta sequência, pois nenhuma área deve ficar mais de três anos sem ser avaliada.

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Mas vamos ao tema do post. Tive vontade de falar disso porque, como disse no post anterior, agora sou vestibulanda de um curso superior em Teatro, e resolvi verificar em quais outros lugares do Brasil há essa graduação. Em 2006, foram avaliados 34 cursos de teatro, em 14 Estados. Tirei os dados e o gráfico daqui: [http://www.inep.gov.br/download/enade/2006/relatorios/teatro_relatoriofinal.pdf] O documento é um belo relatório de 177 páginas sobre como o ENADE foi pensado, realizado, tabulado, com análise dos resultados dos alunos.

Tabela Cursos de Teatro ENADE 2006

Tabela Cursos de Teatro ENADE 2006

Então, vejamos as cidades e instituições que ofereciam o curso superior em Teatro no ano de 2006. Onze cursos em São Paulo, sendo: Ribeirão Preto (Centro Universitário Barão de Mauá), Santo André (Faculdades Integrada Sagrado Coração de Jesus), Sorocaba (Universidade de Sorocaba), Bauru (Universidade do Sagrado Coração), Campinas (UNICAMP), Pindamonhangaba (Faculdade Santa Cecília). Na capital, temos a Faculdade Paulista de Artes, a particular PUC, a Faculdade Anhembi-Morumbi, a estadual UNESP e a Universidade São Judas Tadeu.

Quatro cursos em Minas Gerais, sendo: Montes Claros (Universidade Estadual de Montes Claros), Ouro Preto (Universidade Federal de Ouro Preto), Uberlândia (Universidade Federal de Uberlândia), e na capital, a Universidade Federal de Minas Gerais.

Três cursos no Rio Grande do Sul, sendo: Santa Maria (Universidade Federal de Santa Maria), Montenegro (Universidade Estadual do RS), e na capital, a Universidade Federal do RS.

Dois cursos na Bahia, sendo ambos na capital: Faculdade Social da Bahia e Universidade Federal da Bahia.

Dois cursos no Distrito Federal, em Brasília, a capital por excelência. Na Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, e na UNB. (Eu me lembro muito claramente de mim mesma, em 2004, prometendo voltar a Brasília para fazer este curso, ainda que eu tivesse 60 anos ou mais. Você lembra, Poeta? poetamatematico.wordpress.com)

Dois cursos no Paraná, um em Londrina, na Universidade Estadual de Londrina, e outro na capital, na Faculdade de Artes do Paraná.

Dois no Rio de Janeiro, ambos na capital. Um na UniRio e um na UFRJ. (Eu acho o nome da Uni Rio tão estranho. Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, e o apelido é UNIRIO? Parece sigla de particular, não? E como pode ser, Federal do Estado? É engraçado pra quem vê de fora.)

Mais dois em Santa Catarina, em Blumenau (Universidade Regional de Blumenau, FURB), e em Florianópolis na UDESC.

E aí vêm seis estados que oferecem o curso na capital, por Universidades Federais: Alagoas, Goiás, Maranhão, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Pra manter o padrão: Maceió (UFAL), Goiânia (UFG), São Luís (UFMA), João Pessoa (UFPB), Recife (UFPE) e Natal(UFRN).

Esses foram os cursos avaliados em 2006. E depois de juntar esses dados, eu me perguntei: e em 2009, será que entrou algum curso novo? E achei a resposta.

Mas como esse post já está gigantesco, eu continuo no próximo.

Curso Superior de Teatro. Em Manaus. Finalmente.

Por Eva | 19/10/2009, 14h23

Quando fiz um curso livre de Interpretação Teatral no SESC – AM, tive como professora a Selma Vale. (Sortuda, eu.) Entre outras muitas coisas importantes que ela disse e que eu guardo no coração e no caderninho, vou destacar uma: “admite-se que o ator necessite de formação técnica de segundo grau, e o diretor necessite de curso superior.” Ela não disse que isto era uma regra, ou que havia um regulamento sobre o assunto, mas normalmente é assim.

(Vai ver que é por isso que os pais não querem que a gente seja ator. É como ser laboratorista ou metalúrgico: você não tem diploma, anel, e sempre vai ter um chefe. Atenção, essa foi uma frase irônica. Eu sei que cursos técnicos também têm anel.)

Bem, eu sou formada em Administração, e tenho gosto pela Academia: os eventos científicos, o mundo das publicações, a escalada mestrado/doutorado/PhD, tudo me encanta. E, como vocês já sabem, tenho tesão por Teatro e interpretação.

Juntar as duas coisas, Teatro e formação acadêmica, é muito fascinante pra mim. Foi por isso que eu me inscrevi no vestibular da Universidade Estadual do Amazonas – UEA, cujas provas acontecem no final do ano.

(Corta pra 2002: eu e minha amiga Keiteanne assistindo a uma palestra de um professor da UFAM cujo nome não lembro e cujo rosto esqueci. Ele explicava que a UA, Universidade do Amazonas, passava a se chamar UFAM, Universidade Federal do Amazonas, e outras coisas do processo de seleção. Éramos muito desembaraçadas e atrevidas, e fomos perguntar a ele se a “nova” UFAM teria curso de Teatro. Ele nos disse que o curso de Artes tinha duas habilitações, Artes Plasticas ou Música, e que a formação em Teatro era uma possibilidade muito próxima. Começamos a fazer planos de estudarmos juntas e nos formarmos juntas, abrindo um dia uma companhia e, claro, ganhando o Oscar brasileiro que a Fernanda Montenegro não conseguiu. Adolescentes não são humildes ou modestas.

Qual não foi nossa decepção quando vimos que nem a UFAM nem a UEA ofereceriam o nosso desejado curso de Artes Cênicas naquele ano, o aflitivo ano do vestibular. Acabou que eu passei em Administração, ela em Pedagogia – ambas na UFAM, ambas pelo processo contínuo. Fim do flashback.)

Quando a Reitora da UEA, Dra Marilene, deu uma entrevista dizendo que neste ano o vestibular selecionaria também para o curso de Teatro, o único novo curso de graduação da UEA na capital este ano, houve uma histeria entre os meus contatos. “Eva, Eva, já tá sabendo?”.  Eu estremeci. Era a chance que eu desejei durante anos. E eu sempre disse que não me dedicava mais ao teatro porque, enfim, eu teria de me mudar pra fazer o tal curso. E, após me formar, sempre enchi a boca pra dizer que JAMAIS faria graduação novamente, por não ter paciência pra entrar em uma sala de aula tendo como colegas garotinhos de 17 e mocinhas de 18.

Agora eu não tenho mais desculpa. E não posso mais encher a boca. Estou inscrita, de novo, após sete anos, no vestibular. Sei lá quantos mais vão se inscrever. São 40 vagas. Eu só preciso de uma!

Quem for de rezar, reze. Quem for do Teatro, inscreva-se, até sexta-feira! A inscrição do vestibular da UEA custa trinta reais. Só trinta reaizinhos. E eles ainda usam a nota do ENEM, se ela ajudar, como 20% da nota da prova de conhecimentos gerais.

Tem uma porção de regrinhas de cota: estudar em escolas públicas do interior, escolas públicas da capital, ser de fora ou do Amazonas, pertencer ou não a etnias indígenas, e, é claro, eu estou na regra mais restrita: já tenho curso superior, diploma, anel, profissão: o número de vagas que eu disputo é menor. Dane-se. Vou tentar. Não posso não tentar.

Aquela moça de 17 anos espera isso de mim.

Autopsicofonia

Por Eva | 23/06/2009, 12h09

O ator é fingidor,

finge tão completamente

que convence o espectador

que sente aquilo que não sente.

(Paráfrase boba do poema Autopsicografia, de Fernando Pessoa)

Representar ou interpretar?, me perguntaram. 

Representar é…hum. Pense na tarefa de um representante. Ele comparece a um evento substituindo alguém que não foi. Ele representa aquela pessoa. Representar é isso: estar no lugar de outra pessoa.

Interpretar é diferente. Quem interpreta observa, analisa, reflete. Interpretação significa, de certo modo, formar e emitir opinião.

No palco também. Representar é estar lá, apenas. Substituindo uma pessoa que não pode falar por si (por ser obra de ficção, como Romeu; por já ter falecido, como Cazuza; por não ter interesse em ser ator, como Patch Adams). Quem representa, está como substituto de alguém.

Interpretar é criar. Extrair significados de cada frase do texto, de cada marcação. O ator que interpreta sabe as motivações da personagem, sabe o passado dela e o contexto social onde ela viveu. Sabe a razão de cada gesto das mãos, de cada passo. Sabe o significado por trás de um passo para o fundo do palco, ou de três passos na direção do outro personagem. Interpretar é criar os tiques, o andar, o ritmo da respiração. 

Representar é trabalho mecânico; interpretar é trabalho criativo.

Interpretar é o trabalho do ator.

Si! Fu! Xi! Pá!

Por Eva | 15/06/2009, 09h48

A voz. O ator precisa atentar para a voz. Ele precisa ter boa pronúncia, ter facilidade de fazer qualquer sotaque (ou de falar sem sotaque algum), precisa se fazer ouvir em um auditório com mais de 500 pessoas. Uma frase que todo ator em formação escuta milhares de vezes é “você precisa ser escutado pela última pessoa da última fileira do público”.

“Então, Eva, o ator tem que falar gritando?” Não. O ator precisa projetar a voz.

Projeção de voz é um conceito chave em interpretação. Porém, não é muito fácil de explicar por escrito.  É como se sua boca, crânio, ossos da face, se transformassem em um megafone e ampliassem sua voz – que não sai da garganta, sai da barriga.

Eu recomendo aos atores em formação que comecem treinando a respiração apoiada no diafragma. Dê um tempo para a musculatura abdominal se acostumar. Reserve um momento diário para ficar deitado no chão, com um livro maiorzinho (mas não muito pesado) sobre o diafragma (que fica quatro dedos acima do umbigo, bem mais fácil de localizar que o ponto g). Inspire pelo nariz enquanto a barriga estufa e o livro sobe; solte o ar soprando suavemente pela boca, murchando a barriga e descendo o livro. Outra vez. Outra vez. Outra vez. Mais uma vez. (Eu ficaria horas fazendo isso, mas um iniciante dormiria. Comece com trinta minutos.)

Quando você já estiver craque em respiração diafragmática, é hora de exercícios para projeção.

De pé, inspire estufando a barriga e retenha o fôlego por alguns momentos; solte o ar fazendo um esforço consciente no diafragma (a barriga fica durinha), fazendo o som “sssssssss”. Muitas vezes,  muitas vezes. Coloque a mão espalmada sobre o diafragma.

Depois, a mesma sequência; inspirar -> reter -> expirar. Desta vez, emita o som “ffffffffff”. Infinitas vezes.

Mais uma vez, a mesma sequência já conhecida, “Inspirar -> Reter -> Soltar”, emitindo no final o som “Xi”. Tente não pronunciar a sílaba “xi”, mas sim imitar o barulho da água caindo na chapa quente. SHHHHHH! Setenta vezes sete vezes.

Na última sequência, uma mudança. Continuamos com o “Inspirar -> Reter -> Soltar”, mas ao soltarmos o ar, vamos explodir. Não ao pé da letra, claro :D . Contraindo o diafragma num movimento único, forte e rápido, emitindo o som “PÁ”! A idéia é que esse pá seja REALMENTE uma explosão, emitido BEM ALTO. Pra ajudar os mais tímidos, é legal fazer um movimento de abrir os braços simultâneo ao “PÁ”. É como se você estivesse “empurrando” o som, com as mãos, espalhando o “PÁ” por todo o recinto.  (Nossa, como é difícil explicar isso por escrito. Preciso me filmar e Youtubar.) Repetir o “pá” infinitas vezes.

Quando você já estiver com câimbra no diafragma, é um excelente momento para  dar uma pausa, beber uma água em temperatura ambiente (quem realmente quer trabalhar com a voz pode começar dando adeus à água gelada), para passar ao segundo momento.

“Mas Eva, isso tudo era só o primeiro momento?” Pois é.

Depois da pausa, vamos fazer sequências mais rápidas, de acordo com o esquema abaixo:

Inspirar -> Reter -> SSSSSii

Inspirar -> Reter -> FFFFFuu

Inspirar -> Reter -> XXXXXii

Inspirar -> Reter -> PÁ!

O próximo passo é martelar o diafragma (novamente, não leve isso ao pé da letra). Eliminando a parte de reter o fôlego, vamos inspirar e soltar dando uma contração RÁPIDA E FORTE no diafragma. Sabe aquelas dançarinas de dança do ventre, fazendo movimentos de tunc-tunc-tunc na barriga? É o que você vai fazer.

Inspira -> Si! -> Inspira -> Fu! Inspira -> Xi! Inspira -> Pá!

Vários dias repetindo essa sequência, e a voz vai estar mais próxima da projeção desejada.  Mas, querido ator, não se iluda: nunca vai estar perfeita. Você nunca vai estar “pronto”. No dia que o ator diz “ah, isso eu já sei fazer”, morreu um ator e nasceu um idiota. Marília Pêra tem aulas de canto semanais, e de balé clássico. E ela é Marília Pêra.

Agora, vale dizer que para falar melhor, sem sobrecarregar os órgãos fonadores, conseguir falar alto mesmo gripado, superar problemas de dicção e manter a voz sempre em forma, é recomendável ter o acompanhamento de um fonoaudiólogo.  Taí a que não me deixa mentir. :)

Respirando pelo diafragma… ou pelo nariz?

Por Eva | 14/06/2009, 13h12

No grupo de teatro do qual eu participo, atualmente vinculado à Federação Espírita Amazonense, houve um tempo em que nosso coordenador (que é ator profissional) ministrou para nós um curso livre de formação de atores.

Não passamos da terceira aula, pois sempre tínhamos ensaios atrasados, apresentações pra fazer em Centro Espíritas BEM afastados, figurino pra confeccionar…  E o curso foi ficando pra depois.

Mas as primeiras aulas, eu me lembro bem, foram sobre respiração e projeção da voz. Nós primeiro tivemos de descobrir onde ficava o diafragma, o músculo que separa o tórax do abdome e controla a respiração. Até que não foi difícil: quatro dedos acima do umbigo, lá estava o diafragma.

Segunda lição: ao inspirar, a barriguinha estufa. Ao expirar, a barriguinha murcha. Nada de ombros pra cima nem peito arfando.

Foi um pouco complicado, depois de tantos anos agindo segundo um conceito de que é necessário “encher o peito de ar”, respirar com o peito imóvel e a barriga pra dentro e pra fora, pra dentro e pra fora.  Dava uma sensação de estar morrendo afogada – além da dor muscular na barriga.

Fícávamos com a palma da mão encostada na barriga do colega ao lado, sentindo a utilização do diafragma ao respirar. Era engraçadíssimo: tem gente que MEXE A BARRIGA, mas não respira, fica sem ar e então enche o peito. Tem gente que não consegue mexer a barriga no mesmo ritmo da respiração.  É uma prática cansativa, porém é o jeito natural de respirar. “Basta observar um bebê dormindo”, o diretor dizia. “A barriguinha dele sobe e desce, ritmada. Nós, com ombros tensos, coluna torta, sentados o dia inteiro, estressados, ficamos com a respiração curta, aqui no alto” – e ele batia no próprio colo. 

Nós do grupo sonhávamos em trabalhar com teatro oito horas por dia, com pausa de duas horas pro almoço. E sonhávamos em passar uma hora inteirinha, sessenta minutos, deitados no chão, respirando, respirando, a barriga descendo e subindo, respirando, exercitando os diafragmas sedentários.

Dessas três aulas do curso de teatro que tivemos, além das dores abdominais, ficou uma piada interna. Toda vez que alguém diz “Respira pelo diafragma!”, a pessoa responde “Não seria melhor pelo nariz?”

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